Heróis Não Morrem Assim
2 Capítulo 1: Heróis Não Morrem Assim
PARTE I: O DESPERTAR
Bartiriam tinha sete anos quando o mundo lhe mostrou seu verdadeiro rosto.
Era uma manhã comum. Ele ia para a escola, mochila nas costas, pensando em desenho animado e no lanche que a mãe tinha preparado. O sol batia morno na calçada.
Então três homens o cercaram.
— Ei, garotinho... — Um deles sorriu. Dentes amarelos, cheiro de cigarro. — Mostra seu poder pra gente.
O coração de Bartiriam disparou.
— E-eu não tenho poderes... — Sua voz saiu tremida. — Por favor... me deixem ir. Eu quero minha mãe...
— Péssimo pros negócios. — O homem chamado Martin estreitou os olhos. — Mas criança não desperta ainda tem potencial bruto. Eu vi na TV... poderes despertam com emoções fortes.
Outro homem puxou uma faca.
— Vamos usar uma máscara pra assustar ele?
— Você é burro? — Martin arrancou a faca da mão dele. — Dor desperta qualquer um.
Eles o seguraram. O metal frio tocou sua pele.
E então veio a dor.
Bartiriam gritou. Chorou. Se debateu. O mundo virou um borrão vermelho de agonia.
— Vamos, pirralho... desperta logo...
A parede ao lado EXPLODIU.
BOOOOOOM!
Pedras e poeira voaram. Uma silhueta surgiu em meio à fumaça, olhos brilhando em fúria elétrica.
— EU ACHEI NOSSO FILHO!
Era o pai de Bartiriam. E sua voz não era humana — era trovão engarrafado em ódio.
— DESGRAÇADOS! O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO COM ELE!?
Ao ver o filho ensanguentado, cortado, tremendo... algo dentro dele quebrou.
Ele agarrou um dos criminosos pela cabeça. Eletricidade explodiu de suas mãos. Em segundos, a pele do homem começou a carbonizar, o cheiro de carne queimada enchendo o ar.
A mãe chegou correndo, pegou Bartiriam no colo e pressionou-o contra o peito. Suas mãos brilharam em luz dourada — Toque de Cura Temporal, capaz de restaurar o corpo ao estado anterior.
— Já passou... já passou, meu amor... mamãe tá aqui... tá tudo bem... olha pra mim...
Mas o pai ainda lutava, tomado por uma fúria que nunca tinha mostrado antes.
— VOCÊS MACHUCARAM MEU FILHO! EU VOU ACABAR COM TODOS VOCÊS!
E ele acabou.
Os dois criminosos restantes não tiveram chance.
Um vídeo capturou tudo. Alguém filmou da janela. E em 48 horas, aquele vídeo destruiria tudo.
PARTE II: A QUEDA
O vídeo se espalhou como um vírus.
As primeiras horas foram só comentários indignados. Depois vieram os influencers. Os jornalistas. Os políticos.
E todos tinham algo a ganhar atacando os dois heróis.
"Heróis não matam!"
"Isso é abuso de poder!"
"Por que uma criança estava vendo isso!?"
"Eles deviam ser presos!"
Os pais de Bartiriam tentaram explicar. Deram entrevistas. Choraram. Mostraram provas da organização criminosa.
Mas ninguém queria ouvir.
O público prefere escândalo a verdade.
Algumas pessoas os defendiam, claro. Mas até essas eram atacadas por "passarem pano para assassinos".
A reputação deles foi destruída em menos de dois dias.
A mídia montou uma perseguição. Carros na porta. Repórteres gritando. Gente jogando lixo no portão.
"ASSASSINOS!"
"VOCÊS TRAUMATIZARAM UMA CRIANÇA!"
"QUEM GARANTE QUE NÃO MATAM DE NOVO!?"
Bartiriam via tudo escondido atrás da janela. A mãe sempre dizia:
— Não olha isso, meu amor... isso vai passar.
Mas não passou.
PARTE III: A NOITE QUE CALOU
Três dias depois do vídeo viralizar... tudo acabou.
A versão oficial dizia:
"Os dois heróis tiraram a própria vida movidos pela culpa."
Mas quem os conhecia sabia: eles nunca fariam isso.
Nunca.
Não com um filho pequeno.
Não quando sabiam que eram inocentes.
O governo não investigou.
A mídia não questionou.
O público não se importou.
Mas havia sinais.
Porta arrombada.
Barulho ouvido pelos vizinhos.
Som de luta abafada.
E um detalhe sinistro: não havia câmeras do governo funcionando naquela rua... justamente naquela noite.
Alguém os silenciou.
Alguém que não queria que eles voltassem a se erguer.
Bartiriam desceu as escadas naquela manhã e sentiu algo errado.
A casa estava quieta. Quieta demais.
Nem o rangido do sofá quando o pai se levantava. Nem o cheiro de café da mãe.
A porta do quarto deles estava entreaberta. Um filete de luz vazava pela fresta.
E aquele cheiro... ferro. Doce e enjoativo.
— Mãe? — Sua voz saiu pequena.
Silêncio.
Ele empurrou a porta.
E o mundo acabou.
Os vizinhos o seguraram antes que entrasse completamente. Ele gritou, esperneou, tentou chamar por eles.
Aquele grito ainda ecoava dentro do peito dele.
Um grito que nunca saiu completamente.
E a pergunta que rasgou sua alma desde então:
"Ser herói mata?"
Não só mata o corpo.
Mata a reputação.
Mata a esperança.
Mata a alma de quem dá tudo pelo bem... e recebe ódio em troca.
Bartiriam cresceu com aquele buraco. Um buraco que não sangra por fora... mas corrói por dentro.
Ainda assim... ele estava prestes a dar o primeiro passo.
Porque, mesmo com toda a dor, algo dentro dele ainda dizia:
"Eu preciso provar que ser herói vale a pena."
Não para fama.
Não para aplauso.
Mas para que ninguém mais passasse pelo que ele passou.
Talvez seus pais tivessem sido destruídos pela mentira...
Mas ele seria a prova viva da verdade que eles defenderam.
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