Notas iniciais
Olha eu aqui. Né. -q
A música que inspirou a fic é Heroes. Aqui: http://www.youtube.com/watch?v=1HA4lGbrFSY
Essa é a versão single e não tem tradução no letras.com, mas aqui tá a tradução da versão normal que é meio igual: http://letras.terra.com.br/david-bowie/5354/traducao.html
Se puderem, escutem as duas versões, porque Bowie nunca é demais *-* Mas eu escrevi pensando na single mesmo. Apesar disso aqui não ter NADA a ver com a origem da música '-'
Enfim, boa leitura!

Eles apenas tropeçaram um no outro. Não foi nada além de mais um típico golpe do destino.

Um saíra de sua casa para esfriar a cabeça, pensar e tentar chegar a uma conclusão diferente da que o vinha assombrando há dias. O outro estava calmo, impassível, com um certeza interior que ele julgava ser inabalável.

Gerard Way andava com passos duros pelo parque, milhares de pensamentos em sua mente. A noite estava agradável, mas para ele estava muito quente. Seu coração doía a cada batida, e nada tirava de sua cabeça que ele devia voltar para casa e terminar o que começara. Estava preparando tudo o dia inteiro; conseguira a arma e a única bala necessária já estava no lugar. Mas perdeu a coragem no último momento, e agora, vendo como estava sua vida, ele sentiu ainda mais raiva de si mesmo por já não ter acabado com tudo.

Frank Iero passeava pelo mesmo parque, casualmente. Seus pensamentos não disparavam para todos os lados; focavam-se em uma coisa de cada vez. O cheiro das árvores, o brilho do luar, o som das pedrinhas sob seus pés. Sempre fizera isso, sempre dera atenção às coisas pequenas, apesar de nunca ter conseguido, infelizmente, convencer-se de que elas eram o bastante.

Gerard, cansado da caminhada, avistou um dos poucos bancos que existiam no parque. Viu um homem sentado lá, mas não se importou se o estaria incomodando.

Frank analisou o intruso em seu banco com interesse.

— Boa noite – cumprimentou; não soube bem porquê, talvez fosse algo no fato de estarem sozinhos, na parte mais afastada do parque.

Gerard sentiu o mesmo impulso de falar algo, só por falar. Repetiu o "boa noite", virando o rosto, e não pôde conter seus olhos de passearem pelos braços expostos de Frank.

— Gostei das tatuagens.

— Valeu. Tem alguma?

— Não.

— Pensa em fazer?

Contra sua vontade, Gerard deu uma risadinha amarga.

— Não.

Frank estreitou os olhos, curioso com o tom do outro.

— Por quê?

— Ninguém notaria. Nem eu mesmo.

— Eu notaria.

Gerard se sentiu um pouco envergonhado com o olhar com que Frank percorreu seu corpo, mas tirou isso da cabeça.

— Você não entendeu — falou. — Não vai ter como eu ser notado... o que não vai fazer muita diferença mesmo.

Frank arqueou as sobrancelhas e se focou nos olhos de Gerard, parecendo tentar enxergar sua alma através deles.

— Qual seu nome?

— Gerard.

— Prazer, sou Frank. Gerard, você está falando em suicídio?

Isso pegou Gerard de surpresa. Ele não achou que estivesse sendo tão óbvio.

— É... acho que sim.

Frank desviou o olhar e encarou o chão por alguns momentos antes de retomar o assunto.

— Você não devia.

Gerard já esperava por essa reação.

— Você só está dizendo isso pra livrar sua consciência.

— Não, não. É porque você não tem certeza. Por isso não deve.

— Como você sabe?

— Se tivesse, já teria feito.

Isso era verdade, e Gerard sabia, mas não significava nada.

— Que seja. Só faltou coragem, a vontade continua.

— A vontade sempre continua. Mas se faltou coragem é porque você ainda consegue ver uma luz no fim do túnel, não é?

— Não, não consigo.

— Claro que consegue. Se você não estivesse vendo, teria tido coragem, é instinto de sobrevivência.

Gerard riu.

— Acho que você tá confundindo as coisas, Frank.

— Não. Quando a vida está em escuridão, verdadeira e completa escuridão, faz parte do nosso instinto tentar acabar com isso, acabar com a dor. Por isso é tão difícil lutar contra a tentação. Mas se não houver outra saída, a gente faz, e não falta coragem. Portanto, ainda há uma luz pra você.

Gerard olhou para Frank, pensativo. Seria verdade? Será que existia mesmo uma outra saída?

— Então por que eu não vejo essa tal luz?

— Acho que a pergunta é: pra onde você tá olhando?

Gerard se calou novamente. Mergulhou em seus problemas por alguns segundos, tentando vê-los imparcialmente, nem que fosse só por um instante, para tentar enxergar o fim, tentar vê-los de fora.

— Talvez você tenha razão – ele murmurou então, hesitante.

— É... talvez eu tenha.

Frank ficou em silêncio e deixou Gerard passar mais alguns momentos em seus próprios pensamentos. Depois de um minuto, Frank tomou a palavra outra vez.

— Está disposto a tentar comprovar isso?

— Acho... que sim – Gerard murmurou, muito baixo.

Frank sorriu, e Gerard não conseguiu conter um sorriso também ao olhar para ele; era contagiante. Ficaram se encarando, até que Gerard se sentiu desconfortável pela falta de assunto e pelo modo como Frank o avaliava sem pudor algum.

— Então... você vem sempre aqui? — perguntou, um pouco vermelho.

— Não. Mas vou começar, nesse horário mesmo nas próximas noites... é calmo.

Frank sorriu novamente e se levantou.

— Boa noite, Gerard.

— Ahn... boa noite, e, Frank... obrigado.

Frank piscou rapidamente para o outro e foi embora.

Chegando em casa, foi em silêncio até seu quarto. Pegou o bilhete que escrevera mais cedo e o leu.


A quem ler isso, quero dizer para não se preocupar com nada. Não foi um crime; pelo menos, não por um terceiro.

Eu já decidi fazer isso há algum tempo. Agora darei um passeio entre árvores que sempre admirei e sentirei seu aroma pela última vez. Observarei as estrelas uma última vez.

Ainda não decidi como terminarei com tudo, mas você, policial ou vizinho curioso, só precisa saber que, seja lá como foi que você tenha me encontrado, fui eu mesmo o culpado.

Eu estou cansado e quero que isso tudo acabe. Só isso.

F.


Frank amassou o papel e o jogou no lixo.

Ele não esperou, por um momento sequer, que mudaria de ideia durante aquele passeio. Ele não tinha mais nenhuma luz em sua vida, e isso era uma certeza, um fato absoluto. Mas quem poderia dizer que ele a encontraria naquela noite, naquele parque?

E não foi Gerard a luz, na verdade. Por mais que Frank soubesse que voltaria ao parque na noite seguinte esperando vê-lo, e que passaria os próximos dias ansiando por sua voz, seu rosto, seus olhos... não foi Gerard que o fez mudar de ideia.

Foi puramente a percepção de que, naquela noite, ele serviu para alguma coisa. Isso não curou suas feridas, não sanou suas dores; mas o fez perceber, verdadeiramente, que ele fazia alguma diferença, que ele estava ali por um motivo, que sua presença nesse mundo foi útil. E que isso poderia voltar a acontecer.

Ele se perguntou se Gerard um dia chegaria a perceber que salvara uma vida.

Mas o que importava, por enquanto, era que ele agora sabia... que ele, Gerard, e todos nós... nós podemos ser heróis. Só por um dia.


Notas finais
That's it... essa foi um tanto pessoal. Se bem que, qual não é?
Se alguém ficou curioso, essa música foi escrita como uma simbologia para o Muro de Berlim, retratando um casal de lados opostos do Muro que não desistiram do amor apesar dele. É. Aí eu peguei essa música e fiz isso '-'
Anyway, espero que tenham gostado :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!