Notas iniciais
Os personagens principais e os cenários pertencem a J.K.Rowling.Spoilers do livro "Harry Potter e as Relíquias da Morte".

Ainda eram cerca de nove da noite quando um simpático casal apareceu à porta de um restaurante. O homem vestia um paletó preto, elegantemente discreto, e a mulher trajava um vestido levemente azulado com estampas e um xale vermelho, também discreto. Estavam bastante contentes, pelo menos era o que parecia, e combinavam bem nos passos em direção ao restaurante. Frequentavam aquele lugar havia certo tempo, tanto que os faziam serem reconhecidos por alguns garçons. Não era exatamente sofisticado o ambiente, mas era bem aconchegante. As mesas se espalhavam por baixo de um teto abobadado que mais lembrava uma grande igreja. Os lustres davam o ar da graça iluminando o local e as imponentes colunas que sustentavam o teto eram adornadas de peças que lembram a cultura australiana. Mesmo assim, não parecia que aquele restaurante estava na Austrália.

O senhor e a senhora Wilkins se sentaram à uma mesa próxima de uma coluna que ostentava uma gravura lembrando um canguru. O restaurante estava com muita gente naquela noite, mas eles conseguiram um lugar bem acolhedor.

— Como está a família, Henry? – perguntou o Sr. Wilkins enquanto o garçom aguardava que eles olhassem o cardápio e fizessem o pedido.

— Muito bem, senhor Wilkins. Obrigado por perguntar – respondeu Henry. – Posso sugerir filé de atum grelhado? Está maravilhoso hoje.

— Hum, parece interessante. O que acha, querida? – disse o sr. Wilkins, abaixando o cardápio e se dirigindo à esposa.

— Acho que cai bem para esta noite – respondeu a mulher com um tímido sorriso, deixando o cardápio sobre a mesa.

Enquanto esperavam o prato, tomaram vinho tinto e conversaram animadamente, fazendo planos para o futuro. Estavam planejando há algum tempo comprarem uma propriedade na Austrália para viverem sossegados, embora às vezes a senhora Wilkins não concordasse muito com a ideia. O jantar que pediram não demorou muito a chegar e eles ficaram realmente satisfeitos em ver que o filé estava delicioso, como prometera o garçom. Depois de algum tempo, comendo e conversando, a senhora Wilkins resolveu tocar no assunto que os levou ao restaurante. Colocando os talheres ao lado do prato, perguntou ao marido.

— Querido, o que é que estamos comemorando mesmo?

O homem, que tomava um gole de vinho no momento, se surpreendeu com a pergunta da esposa. Quase se esquecera daquilo.

— É verdade, querida – fez uma pausa, limpou a garganta e continuou. – Descobri que somos um casal de sorte, meu amor. Espere, eu explico – completou o marido, ao ver que a mulher ia perguntar o motivo. – Fomos convidados para um cruzeiro de casais, passando pela Nova Guiné, as ilhas Fiji, até no Havaí. Três meses no mar, que acha?

— Um cruzeiro? Mas como...

— Foi um cliente no meu consultório que estava com as passagens, mas não vai poder ir. A esposa dele adoeceu e ele me ofereceu as passagens. Disse que não precisa pagar por nada. Já está tudo pago.

— E você aceitou? – perguntou a senhora Wilkins, tentando esconder a incredulidade.

— Sim, aceitei. Acho que será um bom momento para nós.

— E você conferiu... Para saber se era verdade?

— Liguei para a agência que consta nas passagens. Pelo que vi, está tudo certo – o senhor Wilkins tirou as passagens do bolso do paletó que havia depositado na cadeira do lado e mostrou à mulher. Ela pareceu se tranquilizar vendo as passagens. – Só precisamos estar no porto daqui a dois dias para embarcar.

— Não sei se é uma boa ideia, Wendell...

— Ora, vamos lá, querida. Estamos precisando de uns momentos juntos, tirar umas férias, deixar as preocupações de lado – o senhor Wilkins tocou a mão da esposa e, embora não quisesse tocar no assunto, a mulher entendeu sobre o que o marido quis dizer. Aquela conversa de que estaria faltando algo ignorado na vida deles tinham desgastado a relação. Precisavam de um tempo só deles, para que pudessem se sentir felizes. E então, para a alegria do senhor Wilkins, ela aceitou a viagem.

— Tudo bem. Vou tentar não me enjoar no navio.

— Mas você não enjoa no mar, querida.

— Não em barcos pequenos, em que navegamos. Mas esse será diferente. Será um enorme navio cruzeiro.

— Tenho certeza que nos sairemos muito bem – disse o marido, segurando mais firme a mão da mulher.

Ainda ficaram algum tempo conversando, enquanto comiam a sobremesa, e quase não perceberam que as horas passaram muito rapidamente. Quando chegou a hora de voltar para a casa, o senhor Wilkins pagou a conta ao garçom que os atendeu e, junto da esposa, foi em direção à saída, enquanto se despedia daqueles que conhecia. Os dois quase não viram que foram barrados por um casal desconhecido que os aguardava.

— Senhor e senhora Granger, que surpresa encontrá-los – disse o homem, que estava de mãos dadas com uma mulher e que ambos sorriam abertamente, fazendo com que o senhor Wilkins se sobressaltasse.

— Desculpe, mas quem...

— Imagino que estão aqui para o congresso. Poderíamos ter vindo juntos.

— Congresso? Mas de quê o senhor está falando? – perguntava atônito, olhando do homem desconhecido para a própria esposa.

O homem, que não conheciam, parecia não entender que aqueles dois não se lembravam dele; olhava para a mulher que estava ao lado, que também nada entendia. Ambos desconcertados, os dois casais se olharam. O casal Wilkins se perguntando quem eram aqueles estranhos, e o outro casal tentando entender o que estava acontecendo.

— Congresso de Odontologia – respondeu o desconhecido. — Somos colegas de profissão, meu caro. Sou dentista também. Meu consultório fica a quatro quarteirões do consultório de vocês em Londres.

A cabeça do senhor Wilkins pareceu rodar. Não entendia uma única palavra do que ouvira. Como poderia ter um consultório em Londres se ao menos nem lembrança tinha de ter vivido por lá?

— Como sabe que sou dentista? – perguntava o senhor Wilkins, incrédulo. O homem não pareceu confortável ouvindo essa pergunta.

— Mas... Mas... – resmungava a mulher que agora segurava no braço do desconhecido. – Vocês são amigos... E como está a sua filha? A Hermione... Faz tempo que não a vejo.

— Senhora, não sabemos quem são vocês e nem do que estão falando – disse o senhor Wilkins, tentando ignorar a última pergunta da desconhecida. — Acho que é hora de chamarmos os seguranças.

— Não... Não precisa... – tentou dizer o homem, mas já era tarde demais. Os dois seguranças chegaram e, depois que o casal Wilkins se julgou serem importunados por desconhecidos, pediram educadamente ao casal de estranhos que os acompanhassem à saída. Os desconhecidos, que não ficaram nada satisfeitos, saíram do restaurante sob olhares de espanto e curiosidade. Alguns garçons e o maitre se encontraram com o casal Wilkins para garantir que estava tudo bem e se desculparam pelo ocorrido.

— Não é culpa de vocês. – disse o senhor Wilkins – aquelas pessoas é que devem ter se enganado. Talvez nos achassem parecidos com alguns amigos deles.

— Tudo bem, então, senhor Wilkins. Espero vê-los em breve – dizia o maitre no momento em que apertava a mão do homem e acompanhava os dois até a saída.

— Oh, acredito que não tão breve, meu caro Higgs. Daqui a dois dias embarcaremos em um cruzeiro. Vamos ficar três meses fora.

— Minha nossa, que maravilha! Espero que sejam felizes na viagem.

O maitre chamou por um funcionário e o mandou buscar o carro do casal Wilkins. Enquanto esperavam, se despediam afetuosamente, tanto que os três pareciam irmãos que se despediam para ir à guerra.

Já no carro reinou o silêncio entre os dois. Ambos ficaram incomodados com a pergunta da mulher sobre uma filha desconhecida. O senhor Wilkins escondia a inquietação, mas a esposa não tirava a pergunta da cabeça. Entrementes, a pergunta parecia um mantra para a senhora Wilkins: “Como está a sua filha... A Hermione...”. Será que era isso que faltava para eles? Se eles tinham uma filha, porque não se lembravam dela? O que aconteceu com ela? Ambos ficaram em silêncio, pois sabiam que qualquer palavra sobre o assunto viraria mais uma discussão daquelas que não aguentavam mais. E era justamente isso que tentavam evitar para que continuassem juntos. E então, em profundo silêncio, o senhor Wilkins conduziu-os para a casa, enquanto que a lua começava a despontar na noite coberta de estrelas.



Os primeiros raios da manhã começaram a aparecer na janela do pequeno quarto d’A Toca, mas Hermione já estava de pé e bem disposta, arrumando as roupas que levaria para a viagem em busca dos pais. E conhecendo a namorada como conhecia, Ronald Weasley também acordou bem cedo para preparar as próprias roupas. Quando se encontraram no corredor, ambos disseram que estavam quase prontos e desceram as pequenas escadas da casa enquanto conversavam, pois já estava na hora do café da manhã. Sabiam disso porque a senhora Weasley os chamaram; ela também acordava muito cedo.

— Como assim Harry não dormiu aqui noite passada? Onde ele foi?

— Ontem ele foi com Kingsley e meu pai ao Ministério. Precisavam rever uns documentos, foram dormir na casa dele – respondeu Rony, ainda meio mole por ter acordado tão cedo.

À convite do Senhor e Senhora Weasley, Harry Potter e Hermione Granger permaneciam n’A Toca. Harry aceitou o convite somente porque ainda não havia planejado nada para a sua vida até o momento, a não ser terminar os estudos em Hogwarts, e Hermione aceitou até quando fosse atrás dos pais, o que já estava providenciando. Molly tentava convencer Hermione a deixar que os bruxos do Ministério fossem buscar os pais dela, mas a moça insistia que queria fazer isso pessoalmente. Certa vez a senhora Weasley perguntou à garota se ela teria condições de fazê-los voltar à memória que tinham; ela respondeu apenas “preciso tentar”.

— Ah, mas feitiços da memória não são tão simples, minha querida – alertava a senhora Weasley. – E voltar uma memória é mais complicado do que tirar ou plantar uma falsa. Não estou dizendo que você não consiga — completou a senhora Weasley, antes que a moça retrucasse. – Afinal de contas, você já fez muita coisa que, em minha opinião, muitos bruxos nem tentaram.

Mas sempre que Molly Weasley procurava Hermione para tentar fazê-la desistir da viagem, a moça sempre dizia para que não se preocupasse, porque não acreditava que nada de ruim teria acontecido com os pais; estavam bem seguros, longe do que sobrou dos Comensais da Morte que haviam fugido, e que a viagem toda não deveria durar mais que uma semana.

E naquela manhã, quando Hermione e Rony se sentaram para o café da manhã, não foi diferente. Ao servir os garotos, a senhora Weasley se sentou ao lado da moça para perguntar novamente.

— Você vai hoje mesmo, querida? Tem certeza?

— Sim, tenho. É hoje mesmo que vamos partir. Vamos sair às dez horas – respondia Hermione enquanto se servia de torradas, ovos e bacon.

— Quem mais vai além de você e o Rony?

Hermione segurou um impulso de responder que Harry iria também, porque não queria incomodar o amigo com essa viagem; ele já estava tendo bastante o que fazer. Também perguntou a Gina se ela queria ir, mas a ruiva não respondeu com certeza.

— Err... Acho que vamos só o Rony e eu...

— Como assim? Eu também quero ir, oras... – uma voz conhecida adentrava a cozinha pela porta dos fundos. Os três se viraram rapidamente (Rony quase se engasgou bebendo um gole de suco de abóbora) para ver Harry Potter entrar sorrido e acompanhado por Kingsley e o senhor Weasley.

— Harry, querido! Chegou bem na hora do café – disse a senhora Weasley, se levantando e indo ao encontro do garoto para abraçá-lo. – Vamos, sente-se.

— Obrigado. Mas e vocês aí? – disse ele, sorrindo, se virando para Hermione e Rony. – Acharam que vão se livrar de mim assim tão fácil?

— Que nada – respondeu Hermione com um sorriso que mostrava alívio. – Só que acho que você já tem muito que fazer.

— Como foi no ministério? Muita chatice? – perguntou Rony.

— Nada demais. Kingsley só queria que eu ajudasse com alguns documentos sobre os meus pais. Sabem como é, algumas coisas que eles tinham e que deixaram pra mim. Mandei Monstro tomar conta delas – disse Harry se servindo de bolinhos preparados pela senhora Weasley, enquanto Kingsley se reunia com o senhor e a senhora Weasley para uma conversa animada.

— Harry, escute – Hermione dizia com a voz baixa, tentando voltar ao assunto da viagem. – Você tem muita coisa pra fazer, não quero que você se incomode comigo.

— Hermione, chega – cortou o garoto, olhando nos olhos da moça. – Eu vou com vocês e pronto. O ministério pode se virar muito bem sem mim. E temos muito tempo até que alguém seja julgado ou que as aulas recomecem. Afinal de contas, depois de tudo o que vocês passaram por mim, eu quero estar junto com meus melhores amigos em momentos como esse.

Mais tarde, no quarto de Rony, os três estavam reunidos para que Harry arrumasse o que levaria, enquanto que ele falava ao casal mais parecendo que estava falando para as paredes, porque Rony e Hermione trocavam carícias quase não se importando que o amigo estivesse por perto.

— O ministério está uma bagunça só. Ninguém se entende por lá. Kingsley está fazendo das tripas coração pra pôr ordem. Falei que vi a professora McGonagall ontem?

— O quê? – Hermione falou, e os dois pareciam ter acordado de um transe. – McGonagall? Como ela está?

— Ah, está bem, apesar de muito ocupada. Estão quase terminando de reconstruir Hogwarts. Vão terminar bem umas três semanas antes de começarem as aulas.

— Que bom. Estou ansiosa pra voltar pra lá. – anunciava Hermione, enquanto alguém entrava pela porta do quarto fazendo Harry se virar pra ver.

— Gina... – Harry disse o nome da ruiva, mais parecendo que estava em um sonho.

— Oi gente. Oi Harry – Ela sorriu, timidamente, e os olhares dos dois se encontraram, como se não se vissem há muitos anos.

Hermione se levantou em um salto, entrando no meio dos dois, fazendo-os perceber que não estavam sozinhos. Levou alguns segundos para Harry voltar para o que estava fazendo.

— Gina, tem certeza de que não quer vir conosco? – perguntou a garota, esperançosa de que a ruiva resolvesse ir com eles.

— Não posso. Mamãe precisa de mim aqui. – respondia ela, enquanto Harry a olhava de esguelha ao mesmo tempo em que colocava algumas camisetas na mochila. – Carlinhos vai voltar para Romênia, Jorge está ocupado na loja e Gui e Fleur vão recomeçar a trabalhar em Gringotes. Acho que ainda tem uns buracos que um dragão deixou por lá.

Os quatro riram descontraidamente, antes de Gina se virar para Harry e responder à pergunta muda que ele fez com o olhar.

— Não se preocupe. Ainda teremos muito tempo juntos.

Às dez horas, os três já haviam se despedido daqueles que ficaram n’A Toca e estavam andando sem pressa por um caminho que levava para junto dos trouxas. Rony não estava nem um pouco satisfeito em caminhar, o que Hermione insistiu que era melhor assim. Ainda tentava convencer a namorada a usar os meios bruxos.

— Hermione, vamos desaparatar... É menos cansativo.

— Não, Rony. Não vai ser nada bom aparatar no meio dos trouxas, não é mesmo? E não vamos usar vassouras. Aonde iríamos guardá-las? Além disso, eu detesto voar... – completou a moça, antes que Rony pudesse fazer mais uma pergunta. Harry, que estava contente de se afastar um pouco do mundo bruxo, ouvia impassível a discussão dos dois.

— Ainda acho que poderíamos usar alguma coisa. Sabia que aquele carro enfeitiçado do papai voltou ontem? Poderíamos usá-lo...

— Pra quê, Rony? Pra você colocar aquela coisa pra voar? Você nem sabe dirigir de verdade.

— Então porque é que vamos naquela anomalia que os trouxas usam pra voar?

— Aviões, Rony. É o meio mais seguro para voar, que eu saiba. Você mal vai perceber que estamos no ar.

— É, e eu sempre quis saber como seria voar em um deles – disse Harry, finalmente entrando na conversa. – Os Dursley, mesmo que viajassem com frequência, não me deixariam ir com eles.

Rony, que não ficou muito feliz com o que ouviu, se calou, acompanhando os dois na caminhada. Logo chegariam a um vilarejo trouxa para tomarem um ônibus, porque nem o Nôitibus a Hermione quis usar. Estava apreensivo em entrar numa coisa que só via no céu de vez em quando e não tinha muita confiança de que fosse seguro. E era só o que podia fazer com os dois até que cheguem à Austrália.

Notas finais
Demorei pra atualizar, sei. Mas finalmente trouxe. Espero que gostem. Obrigado a todos que leram e obrigado também à Anne e a Aki Nara pelas reviews.