Hermanos Continuação
6 Capítulo 8 - Sorte
Notas iniciais
Pov. Valério
Tudo começou a desandar quando meu pai descobriu que tínhamos visto a Lu, por uma falha nossa ficamos tempo demais na visita e ele acabou nos vendo voltando do quarto dela. A reação dele não poderia ter sido pior, me arrastou pela camiseta para o lado de fora do hospital e novamente me tratou como um lixo.
Foi tudo tão rápido e humilhante, que eu nem sequer me lembro das palavras exatas, ele me tratou tão mal que no fim eu só consegui sentar no meio fio com lágrimas nos olhos. Só de pensar que eu já tinha chamado ele de pai e que por toda a minha vida tinha tentado agradá-lo eu me enchia de raiva, ele nunca se importou comigo ou com a Lu, o mais importante como sempre eram as aparências. Fui tolo de pensar que isso pudesse ter mudado depois do que aconteceu com a filha dele.
Eu não era mais bem-vindo na sua casa e não receberia mais nada dele, estava oficialmente deserdado, pela primeira vez na vida ele admitiu o que eu sempre soube: meu pai nunca me amou ou se importou realmente comigo.
Acabaram os anos de distância física, mas bastante dinheiro, ele não queria mais nada comigo e eu tinha duas opções: voltar para o México para minha mãe, que era outra que nunca tinha realmente ligado para mim, ou arrumar um jeito de continuar ali perto da Lu. Não queria abandoná-la agora, não depois do que eu já tinha feito e foi a única coisa que eu consegui dizer para o Samuel quando ele me perguntou se eu estava bem.
— Eu só sinto que não posso deixá-la de novo. E a única pessoa que me resta está no México.
— Você não vai, ok? Vamos dar um jeito.
— Que jeito? Eu não tenho para aonde ir, e dinheiro nenhum, você ouviu o que ele disse.
— Você pode ficar na minha casa por um tempo e quem sabe fazer o que nós os meros mortais fazemos, arrumar um emprego…
— Obrigado, Samuel, de verdade, você não tem ideia de quanto significa para mim, ficar.
— Acredite eu entendo, não quero que a Lu te perca de novo.
— Acha que Carla vai conseguir outra visita depois disso?
— Honestamente acho difícil e fico preocupado. Lu não está nada bem e não acho que seus pais entendam isso.
— Eles nunca entenderam nada. Vamos ter que encontrar um jeito.
Mas não encontramos. Carla ainda tentou negociar uma próxima visita, mas o diretor se desculpou dizendo que por exigência dos pais nenhuma outra visita estava permitida e ele era obrigado a acatar. Aparentemente senhor Montesinos tinha criado um grande caso pelas duas visitas anteriores e tanto eu quanto Samuel estávamos proibidos de estar até no mesmo corredor que a Lu. Era isso ou um processo em cima do hospital, no fim o diretor não teve escolha e nós também não.
Não contei da minha preocupação para os outros, eles não entenderiam, dormir e passar o dia era muito difícil. Samuel ia para escola e eu ficava em casa, sem dinheiro precisava encontrar uma vaga em uma escola pública e ainda não tinha tido cabeça de buscar isso. Resumidamente eu passava o dia todo pensando nela e tentando encontrar um modo de entrar em contato. Tentei ligar e mandar mensagens para o seu celular, mas estava desconectado. Pensei em subornar uma enfermeira, mas com que dinheiro? Eu não tinha mais nada… E nenhum dos amigos ricos parecia disposto a fazer isso.
Toda a preocupação com Lucrecia me deixava com ainda mais vontade de usar, estava sempre agoniado e elétrico demais, querendo e sabendo que precisava me livrar desses velhos hábitos, porque precisava me livrar desse vício. Não era como antes que eu tinha crises de abstinência fortíssimas, ultimamente elas estavam mais brandas, mas se continuasse nesse estado de constante alerta era bem provável que piorassem.
Estava prestes a enlouquecer de preocupação, os dias passavam e eu não tinha ideia de como ela realmente estava, Carla ainda conseguia informações do seu estado de saúde, mas eles sempre diziam que ela estava bem e que teria alta logo. Mas o fato deles dizerem isso não queria dizer que ela estava realmente bem, Lucrecia sempre foi uma atriz nata, e sem vê-la qualquer informação era inútil. O único jeito era esperar sua alta, em casa provavelmente seria mais fácil entrar em contato.
Quando isso finalmente acontece tento visitá-la formalmente, mas Luíza, a empregada de confiança que me viu crescer, não permite que eu entre. Meu pai deixou uma ordem bem clara que eu não era mais bem-vindo naquela casa e que em nenhuma hipótese eu poderia entrar ou ver Lu, se eles permitissem que eu entrasse seriam demitidos.
No dia seguinte tentei entrar pulando o muro, Samuel ficou vigiando, mas esquecemos das câmeras e acabamos sendo pegos. O segurança, que também me conhecia, me manda embora e diz que não vai dizer nada para o meu pai, mas que se eu aparecesse de novo ele teria que contar. Ao que parece ele deixou avisado que isso poderia acontecer. Fui embora desolado, me sentia um inútil, conseguia sentir que algo ruim estava prestes a acontecer e não podia fazer nada para evitar.
É no final desse mesmo dia que recebo uma mensagem de um número desconhecido, Samuel ainda não está em casa por conta de algum trabalho da escola.
+34999110096
Seja feliz, te amo, Val.
Ainda que não estivesse assinado sabia que era dela, só podia ser, ela era a única que me chamava assim e isso não era um bom sinal. Comecei a ligar desesperadamente para o número, mas ninguém atendia. Samuel me ligou quase que em seguida, ela também tinha enviado uma mensagem para ele.
Saí correndo para minha antiga casa, enquanto tentava entrar em contato com alguém que estivesse lá, meus pais, qualquer um que pudesse socorrê-la, ninguém me atendia. Desisti e liguei para emergência enquanto ia para casa, esperava que me deixassem entrar, quando eu dissesse o que sabia que tinha acontecido.
— Qual o motivo da emergência?
— Minha meia irmã... acho que ela tentou se matar. Ela já tentou uma vez e me enviou uma mensagem de despedida agora. Ela não atende mais e ninguém na casa atende. Por favor… me ajuda… algo está errado.— Disse rápido e desesperado.
— Qual endereço? Uma ambulância vai ser enviada em seguida.— Passei o endereço apressadamente e a mulher fez mais algumas perguntas, se eu sabia como ela poderia ter tentado se matar, eu só pude contar da vez anterior e esperar que isso ajudasse de alguma maneira. Cheguei na casa antes da ambulância, o segurança não quis me deixar entrar, eu estava transtornado com os olhos vermelhos e chorando muito só gritei o que achava que tinha acontecido e ele me deixou entrar, indo atrás de mim na hora. Luíza estava na cozinha e não entendeu nosso desespero, mas correu atrás de nós. No quarto encontrei exatamente o que pensei que encontraria, mas que esperava não encontrar. Lu estava deitada na cama desacordada e o remédio do coração estava praticamente vazio. Chamei por ela, mas ela não respondia. A peguei nos braços e a levei para o andar debaixo, enquanto Luíza e o segurança se desculpavam, aparentemente os Montesinos não tinham falado nada sobre uma possível tentativa de suicídio.
A ambulância chegou logo depois, praticamente junto com Samuel, fui com ela para o hospital e Samuel se encarregou de ir por conta própria. Na ambulância eu olhava para ela pálida, e me sentia ainda mais culpado de não ter encontrado um jeito de vê-la, nunca me perdoaria se ela partisse por eu não ter tentado o suficiente. Aparentemente ela teve mais sorte dessa vez, não tem nenhuma parada no caminho, mas isso não quer dizer que ela está fora de perigo. Encontro com Samuel no hospital que parece tão desesperado quanto eu.
— Avisou aos outros?
— Não consegui… soa horrível demais dizer em voz alta.
Continuamos parados ali por algumas horas, não liguei para os meus pais, não conseguiria falar com eles de todo modo. Eu e Samuel não trocamos nenhuma palavra, estávamos preocupados demais para conversar sobre qualquer outra coisa e discutir se ela vai ficar bem é real demais para qualquer um de nós dois. Só consigo sussurrar algo similar a uma oração.
— Por favor faça ela ficar bem…— Samuel segura minha mão e seguimos assim até um médico aparecer.
— Família de Lucrecia Montesinos?
— Aqui! — Gritamos nós dois.
— Eu sou doutor Simon, sou um dos médicos da equipe que a atendeu, fizemos uma lavagem estomacal e ela está fora de perigo por ora, mas será necessário um acompanhamento psicológico e cardiológico, ela teve muita sorte, se demorasse um pouco mais poderia não ter sobrevivido, vocês salvaram a vida dela. — Eu estava aliviado por ora, mas sabia que se nada fosse feito isso voltaria acontecer. Lu estava doente, realmente doente, e se ninguém fizesse nada na próxima vez ela poderia não ter tanta sorte.
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