Notas iniciais
Assisti Hotel Transilvânia 2 esses dias, sem me lembrar do um. Assisti o 1 mais uma vez e me deparei com uma história surpreendentemente delicada, escondida por trás de um filme infantil. Não encontrei fanfictions suficientes para saciar minha sede pela parte não explorada do filme, então resolvi escrever a minha. Por favor, me avisem quando esbarrarem com boas fanfictions sobre esse filme. Espero que gostem da leitura.

Existiam dias bons. Existiam dias em que havia calma nos olhos dela. Em que ela e ele vagavam pelo hotel, ou pela noite, lado a lado. Dias em que, exausto das tarefas e problemas do hotel, Drac entrava em seu quarto e a encontrava sentada na namoradeira. Às vezes ela olhava para ele. Uma vez ela sorriu ao vê-lo. Nos dias bons, ele se sentava ao lado dela e lhe contava como havia sido o dia, apesar de ela nunca lhe responder. Mais tarde, ele se sentava aos pés dela, com a pequena Mavis no colo e lia para as duas histórias de terror. E quando Mavis sorria, quando Mavis fugia dele e ele fingia persegui-la, às vezes os olhos dela seguiam os movimentos de sua família. Havia dias em Mavis adormecia no colo de seu pai, que por sua vez adormecia aos pés de sua esposa. Em um desses dias, Drac acordou com a agradável sensação dos dedos de sua esposa acariciando seus cabelos. Nesse dia o conde virou o rosto, com a cabeça ainda apoiada no colo de Martha, abraçou sua filha contra o peito e chorou. Martha continuou a passar os dedos por seus cabelos, sem sombra de reconhecimento em seus olhos.

Existiam dias ruins. Dias em que a presença de qualquer um, incluindo sua filha ou seu marido, a desesperava. E ela se tornava feral, inconsolável e violenta. Nesses dias, Drac pegava sua filha no colo e a levava ao telhado do hotel. Lá ele cantava até que a pequena se acalmasse e ambos observavam o céu até quase o amanhecer. Drac levava então sua filha para o quarto dela. Às vezes ele cochilava ao lado do berço (ou da cama, conforme Mavis foi ficando mais velha), às vezes ele procurava um quarto vago no hotel. Na maioria das vezes ele passava o dia em claro. Existiam dias em que havia apenas um olhar de profunda tristeza nos olhos de Martha. Nesses dias, Drac diria a Mavis que sua mãe estava cansada e então ele brincava com a pequena, a ensinava coisas sobre os vampiros. E havia noites em que Martha não parava de chorar por um segundo sequer e não havia como distrair Mavis dos soluços que a pequena ouvia vindo do quarto dos pais. Nesses dias, Drac pedia a Wanda, Eunice ou, quando era o caso, para que algum funcionário do hotel brincasse com a pequena. Então o conde se encolhia em algum canto afastado do hotel, batia a cabeça contra a parede e gritava, escondido por entre as sombras. Nunca era o suficiente para aliviar a sensação de desespero e impotência que sentia, mas pelo menos ninguém questionava a voz rouca do vampiro.

E conforme Mavis foi crescendo, passaram a existir dias que não eram nem bons e nem ruins. Dias em que, antes que o conde fosse forçado a tomar qualquer atitude, a vampirinha iria até seu pai e o convenceria a caçar escorpiões com ela. Dias em que os amigos do conde viriam visitá-lo e ele riria das palhaçadas que eles lhe diziam. Dias em que ele estava ocupado demais brigando com Murray por causa da areia no lobby do hotel, ou com os filhotes de lobisomem destruindo a mobília, para se preocupar se aquele era um bom ou um mal dia. E havia dias em que Frank o abraçava e sua forma esguia parecia tão, tão pequena perto do corpo massivo do golem de carne que suas angustias pareciam também não ter importância.

E se na maioria das manhãs, em seus pesadelos, Drac não havia chegado a tempo para salvar sua esposa de uma legião de humanos enfurecidos e era obrigado a passar a eternidade sem o seu “chan”, havia manhãs em que, pelo menos em seus sonhos, aquela situação nunca havia acontecido e ele e sua amada estavam ainda no castelo Lubov, criando Mavis juntos, sorrindo juntos quando ela primeiro aprendeu a voar. Nesses sonhos, Drac jamais precisou construir um castelo afastado do mundo que antes amava (mas agora temia) para proteger sua frágil família. Nesses sonhos, seu pai não havia dito que Martha estava praticamente morta e que era melhor que ele perdesse as esperanças. Nesses sonhos, não havia tristeza nos olhos de sua filha toda vez que ela lhe perguntava sobre sua mãe, antes do ataque, antes do trauma. Nesses sonhos, Mavis perguntava aos dois como eles se conheceram e era Martha quem respondia, enquanto sua filha, admirada, perguntava sobre seu próprio “chan”.

E entre sonhos bons e ruins, dias bons e ruins, Drac continuou com sua vida imortal, administrando o hotel. Mavis cresceu. E em Mavis cresceu o sonho de conhecer o mundo. Mas como iria o conde explicar para sua esposa (o que sobrou de sua esposa) que ele deixou o que aconteceu com ela acontecer com a filha dos dois? E então Drac enrolou, mentiu, construiu uma vila falsa. Todas as noites ele contava o que tinha feito para sua esposa, que nunca deu nenhum sinal de aprovação ou reprovação. Não importava quantas vezes ele implorasse que ela lhe dissesse o que ele tinha que fazer ou o quão perdido ele estivesse. Afinal, o medo do mundo lá fora, o medo dos humanos, havia cegado a alma de Martha. Drac tinha chegado muito tarde, afinal.

E quando Mavis ia completar 118 anos, um garoto humano apareceu no hotel. Como Drac iria explicar para seus convidados a presença de um humano? Como Martha reagiria diante um humano? Ele tentou, de todas as formas se livrar do garoto, depois tentou escondê-lo, até que ele mostrou para o rapaz uma pintura de sua esposa, obstruída por uma cortina. E Johnny, ah Jonny, Jonny disse que conhecia aquela mulher, que conhecia a lenda da lady Lubov. Que um dia ela e um conde solitário se encontraram e eles eram a alma gemia um do outro. Que dava para sentir o amor dos dois nas ruínas do castelo Lubov. Que um dia um fogo misterioso matou os dois e os frutos de sua união. Que a alma de um dos dois ainda estava presa nas ruínas. Drac riu um riso totalmente desprovido de humor, puxou a cortina para revelar a outra metade do quadro e respondeu que a história estava errada, afinal, o fogo foi causado por humanos, que ambos estavam ainda vivos, mas que as almas de ambos haviam perecido naquele dia. Johnny tentou argumentar que o mundo estava diferente, mas não conseguiu garantir ao conde a segurança de Mavis, muito menos o conforto de Martha. Martha que, escondida entre as sombras, não fez som nenhum ao ver o rapaz.

Durante a festa, Quasímodo revelou a todos que o garoto era um humano. Mavis disse que não se importava. O garoto foi embora mesmo assim. Todos os amigos de Drac foram embora. Mavis estava com o coração partido. Drac descobriu, lá de cima do telhado do hotel, que Mavis havia perdido seu “chan”. E então ela lhe disse que agora ela podia finalmente fazer parte da família, já que como seus pais, não havia mais sonho, mais alma, ou esperança. Que ela podia seguir seus dias sabendo que seu “chan” estava vivo, mas nunca mais estaria com ela.

Drac correu para seu quarto e implorou que sua esposa lhe dissesse o que ele devia fazer. Ela, claro, não lhe respondeu. Em desespero, o conde correu para o lobby do hotel e contou aos seus amigos o que havia acontecido. Frank, santo Frank, como sempre o entendeu mais que ele mesmo e disse que era claro que eles o ajudariam. Eles precisavam trazer o garoto de volta. E eles foram atrás de Johnny, passaram por uma cidade humana, receberam a ajuda de vários humanos vestidos de monstros e falando “blá blá blá”, até que Drac se viu sozinho, entre as sombras e a luz do sol, vendo o único e verdadeiro amor de sua filha partindo em um avião para sabe-se lá para onde. E Drac soube, naquele momento, que não importava sua vida, ou o conforto de sua esposa, perante a felicidade de sua filha. Ele havia chegado tarde demais para salvar de verdade sua amada, mas ele não condenaria sua filha ao mesmo destino. Dessa vez, ele chegaria a tempo.

Voou contra o sol, perseguiu o avião, convenceu Johnny a voltar. Apenas quando o avião pousou, permitiu-se relaxar, soltar o piloto que havia feito prisioneiro. E que diferença fazia se a dor era dilacerante? Johnny voltaria para o hotel, explicaria o que aconteceu para Mavis e os dois seriam felizes. Afinal, sua filha tinha encontrado seu “chan” e não precisava mais dele. Martha nem sequer perceberia o que tinha acontecido. Ele tinha feito tudo o que podia e não tinha sido o suficiente, mas pelo menos, ele esperava que Mavis encontrasse o caminho. Respirou fundo, soltou o avião e deixou que a luz do sol consumisse seu pelo e pele.

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Johnny passou todo o voo de volta com os olhos treinados no morcego em sua janela. Quando o avião finalmente pousou, o garoto viu quando o morcego colapsou da janela. Mal a escada havia sido encaixada e o garoto correu até ele, para encontrá-lo em chamas, na pista de decolagem. Johnny atirou-se contra o animal, o conde, impedindo com o próprio corpo que a luz do sol o tocasse, aceitando um cobertor que alguém lhe ofereceu para abafar as chamas.

Quando o fogo finalmente cedeu, havia lampejos de magia e fumaça ao redor do morcego. Pelo menos o conde ainda respirava, apesar de mal conseguir manter os olhos abertos.

– Drac! Drac! O que eu faço pra te ajudar? O que eu faço?

– En-encontre Ma-Mavis. Ex... plique tudo. Faça... faça-a...feliz...

–DRAC! Eu... Eu vou te levar de volta para o hotel. Tente, tente ficar como morcego.

Johnny envolveu o corpo pequeno e enfraquecido do conde no cobertor e o abraçou contra o peito. E correu. E entrou em um taxi que não pagou, roubou uma moto caindo aos pedaços e atravessou a floresta assombrada e a terra dos mortos vivos e quase, quase, entrou com a moto e tudo no hotel, enquanto ainda carregava o corpo do conde protegido pelos cobertores, junto ao peito.

E quando lá chegou, os monstros estavam todos reunidos, perguntando-se o que havia acontecido, se Drac tinha conseguido. E por um momento, os monstros pareciam felizes ao vê-lo, até perceberem o olhar do rapaz:

– O que aconteceu? – Frank perguntou.

O rapaz levantou a ponta do cobertor, enquanto gritava:

– Alguém tem que fazer alguma coisa! Eu acho, eu acho que ele não vai aguentar!

– Johnny? – Mavis perguntou, do alto da escada. – O que você... Pai? PAI?

E com um salto e super velocidade, Mavis estava ao lado do garoto, tentando tirar das mãos dele um morcego delirante, que com as garras fincadas na roupa do rapaz murmurava “Morcego... Ficar... Morcego”, enquanto fumaça roxa se formava ao seu redor, deixando claro que era com muito esforço, e talvez nenhuma lucidez, que o conde estava se mantendo naquela forma.

– DRAC? Por favor Drac, você precisa relaxar e soltar o garoto. – Frank implorava ao lado dos dois, as mãos grandes demais para fazer parte da batalha de soltar as garras do morcego da blusa de Johnny.

– Cara, deixa a gente te ajudar – Griffin falava, mas ninguém tinha certeza se suas mãos invisíveis estavam fazendo alguma coisa ou não.

Wayne apenas segurava sua esposa junto ao corpo, enquanto todos os filhotes choravam. Murray parecia completamente perdido, sem saber o que fazer. Eunice tinha arrumado um leque sabe-se lá de onde e estava tentando abanar o conde, tentando esfriar o corpo dele que ainda parecia estar em brasas em alguns pontos. Mavis chorava, desesperadamente, e entre soluços gritava, implorando pela vida do pai.

Em meio ao caos, só perceberam que Martha havia saído do quarto quando ela já estava ao lado de Johnny, com as mãos quase tocando o rosto dele. Um silêncio quase que absoluto preencheu o lobby. A única coisa que se ouvia era a respiração forçada do conde, que ainda murmurava que precisava permanecer como morcego.

E então, Martha pousou as mãos sobre o rosto de Johnny, traçou com as palmas as feições humanas do rapaz, desceu as mãos pelo peito dele, até que as colocou sobre as dele, ainda segurando os cobertores e o conde. E em uma voz rouca por desuso, disse:

– Obrigada humano. Obrigada por trazer meu amado de volta.

E pegou o cobertor das mãos dele. As garras se soltaram da blusa e o murmúrio parou. Johnny, atônito, olhava para a cena a sua frente. Para Mavis que ainda chorava, em choque. Para Wanda, Frank e, por incrível que pareça, Eunice, que também choravam ao ver lucidez no olhar de Martha. Para Wayne e Murray que não sabiam o que dizer.

Martha aproximou o corpo do morcego de seu peito, passou a mão na cabecinha do animal e disse que estava tudo bem agora. Ele já tinha feito o suficiente. E então, em uma explosão de fumaça e magia, o conde suspirou profundamente, relaxou o corpo contra o peito de sua esposa e voltou a sua forma normal, fraco, exaurido. Martha conseguiu segurar seus ombros e sua cabeça e sentou-se com ele no chão, facilitando sua descida, com a parte superior do corpo dele sustentada em seu colo. Mavis deixou escapar um pequeno grito de desespero, enquanto exclamações de desgosto e pesar soavam pelo salão. Enquanto no morcego havia brasas, fumaça, falhas nos pelos e buracos nas asas, no homem havia severas queimaduras. A pele de um dos olhos havia derretido de forma a fechá-lo completamente. A mão direita do conde, sem forças no chão, tinha apenas o dedão e o dedo anelar. Os demais dedos haviam sido vaporizados. Onde antes havia cabelos curtos, mas negros e sedosos, havia agora uma massa disforme de pele queimada e sangue. Drácula tinha perdido a ponta do nariz, e metade de uma orelha. Pelo resto de seu corpo, a roupa chamuscada e a fumaça forneciam uma última barreira que impedia que seus ferimentos estivessem visíveis, mas o cheiro de carne queimada, gordura no ar e sangue espalhado pelo chão deixavam pouco para a imaginação.

E enquanto algumas pessoas desviavam o olhar e outras gemiam, simpaticamente sentindo a dor do conde, Martha focava seus olhos castanhos no olho azul de seu amado, que o mantinha aberto obviamente com muito esforço, provavelmente com toda a força que lhe restava, olhando fixamente para ela. E então aquele olho se fechou, e o conde deu um gemido alto de dor. Sua respiração se tornou mais e mais forçada e seu corpo fraco começou a tremer. Naquele momento Martha pareceu perceber exatamente onde estava e, principalmente, as pessoas a sua volta. Olhou ao seu redor, percebendo cada um de seus amigos, e depois novamente para seu marido, desacordado em seus braços. Gentilmente, ergueu o tronco fragilizado do conde o suficiente para depositar um beijo em o que deveria ser a testa dele. Fechou os olhos, respirou fundo e olhou para a sua filha, que em choque olhava para seus pais, no chão:

– Querida Mavis, eu sei que deve ter muitas coisas que quer dizer, muitas coisas que precisa ouvir, mas esse não é o momento. Agora você precisa mais de seu humano do que de seu pai e seu pai precisa mais de mim do que você. Converse com o seu humano, com o seu “chan” e resolva o seu futuro.

– Mas...mãe... pai...

– Você tem a nossa benção, carrapatinha. E meus queridos amigos... – Martha respirou fundo, olhou novamente para o corpo frágil de seu marido. – Frank, você pode me ajudar a levá-lo para os nossos aposentos? Camareiras, por favor, tragam-me água morna, toalhas, lençóis, bandagens e sangue. O que tiverem de mais fresco e encorpado, por hora. Wayne, se você puder caçar algum animal selvagem, de grande porte, eu serei eternamente grata. Traga-o vivo, se possível.

Enquanto Wayne assentia com a cabeça, já se preparando para sair e procurar um cervo pela floresta, Frank estava ajoelhado ao lado de Martha, acomodando o corpo de seu amigo em suas mãos gigantescas, enquanto ela apoiava a cabeça e mãos deles, tentando deixá-lo minimamente confortável e firme o suficiente para que o transporte não piorasse seus ferimentos.

– Mãe... – Mavis tentou falar, mas Martha a interrompeu.

– Ele vai ficar bem. Eu prometo que vou cuidar dele. Vá conversar com seu humano.

Nesse momento Frank finalmente ergueu o corpo de Drac e começou a subir as escadas, com Martha atrás dele. Johnny pousou a mão sobre o ombro de Mavis, que voltou a chorar, mas se permitiu ser abraçado pelo humano. Murray ainda olhava com seus olhinhos verdes para o salão:

– E o que nós fazemos agora? – Perguntou a múmia.

– Sombras, sangue e silêncio. É disso que ele vai precisar para se recuperar. – Disse Wanda, olhando para seus filhotes e se perguntando como faria para que eles ficassem quietos. – Wayne... Vá caçar.

–Eu... Eu vou te ajudar... – Murray disse, seguindo o lobisomem. Um par de óculos e um arpão flutuantes seguiram os outros dois monstros para fora.

Em seus aposentos, Martha estava verificando as pesadas cortinas nas janelas, enquanto Frank depositava o conde na cama que Martha sempre preferiu.

– Não era melhor que ele repousasse no caixão dele? Ele estaria melhor protegido, e o caixão é feito de madeira romena...

Martha fez um suave não com a cabeça.

– Ele vai precisar de cuidados que serão mais bem providos na cama. Será mais confortável para a pele e eu terei mais espaço para trabalhar. Além disso, eu preciso vê-lo. A cama contém madeira de minha terra natal, da dele e de Mavis. Frank, meu querido amigo, ele vai ficar bem.

– Martha... Eu... Eu não sei o que...

– Descanse, meu caro. Conversaremos no próximo anoitecer.

Com essas palavras, Frank se despediu e as camareiras trouxeram consigo os itens que a condessa havia pedido e também um pequeno frasco com uma poção verde. Para aliviar a dor e acalmar o espírito, uma das bruxas disse. Martha agradeceu, fechou a porta atrás de si e, na quase completa escuridão do quarto, começou a árdua tarefa de confortar seu marido.

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Martha gentilmente ergueu a cabeça do conde e acariciou o que antes eram ossos proeminentes das maçãs de seu rosto, tentando acordá-lo o suficiente. O olho azul do conde se abriu, atordoadamente tentando reconhecer sua esposa. Martha sorriu para seu amado e aproximou uma taça de sangue de seus lábios. Drac tentou beber, mas em meio à dor e a respiração que mal conseguia manter, quase metade do líquido escapou. Martha fez um leve “shhhh”, ergueu um pouco mais a cabeça dele, lhe ofertou algumas gotas da poção e lhe deu mais um pouco de sangue. Ele tomou dois goles antes de se engasgar e começar a tossir.

Depois que a respiração dele se compassou e ele estava novamente deitado na cama, o conde tentou falar:

– Martha... Mar... E-eu tentei... Eu...

Martha pegou um pequeno vasilhame cheio de água, umedeceu nele a toalha mais macia que encontrou e começou a limpar as cinzas sobre a pele do rosto de seu marido.

– Shhh Drac. Vai ficar tudo bem. Descanse... Eu, eu sei que temos muito que conversar... Mas eu ainda vou estar aqui amanhã. Deixe-me cuidar de você?

Mas Drac, teimoso como era, não conseguia aceitar a situação. Balançava a cabeça quase que sem forças, deixando pequenos pedaços de pele no travesseiro.

– Não. E-eu não... Perder você. De novo.

A vampira percebeu que seu marido não descansaria enquanto não fosse devidamente confortado. Suspirou fundo, umedeceu novamente a toalha, pousou-a sobre o pescoço dele e disse:

– Eu tenho vivido, não sei por quanto tempo, em um redemoinho de chamas, medo e desespero. Hoje a noite, pela primeira vez, eu ouvi algo mais alto que minha própria voz. Eu ouvi os gritos de nossa única filha, eu ouvi os seus gemidos de dor. Eu ouvi o clamor de minha alma, me dizendo que o perderia para sempre se não acordasse. Eu ainda tenho tanto medo de perder vocês... Eu não vou te deixar de novo, eu prometo. Por favor, depois de tudo o que você sofreu, depois de tudo o que você fez, deixe-me cuidar de você?

Aquilo pareceu acalmar o vampiro o suficiente. Ele relaxou na cama, fechou o olho e prontamente adormeceu (ou desmaiou, difícil de distinguir). Martha continuou a limpar a pele de seu marido, eventualmente tendo que retirar as roupas dele para fazê-lo. Alguns botões haviam derretido e se fundido com a pele antes pálida, agora enegrecida. Algumas partes do tecido estavam presas em camadas de sangue seco, que quando puxadas revelavam ferimentos que voltavam a sangrar. No geral, despi-lo foi uma tarefa árdua e dolorosa, e ela estava feliz que ele estivesse inconsciente, que não estava sentindo a agonia que o procedimento certamente estava causando.

Delicadamente, Martha limpou o corpo de seu marido. Retirou lascas de pele e músculos putrefatos, pedaços de ossos expostos e carbonizados, cinzas, restos de roupas e outros corpos estranhos alojados no que restava de pele. Limpou os ferimentos revelados e enfaixou o que pode, para evitar que mais do precioso sangue do vampiro se perdesse, para evitar que seus fluídos, em contato com o ar, se tornassem cinzas.

Já era o meio da tarde quando conseguiu trocar os lençóis e dar o último nó na bandagem que cobria o peito dele. Ela então ajeitou os membros de seu amado em diversos travesseiros, tentando evitar que ele se machucasse caso se movesse. Só então percebeu o cheiro de sangue e medo no ar: Wayne já tinha voltado com sua caça, provavelmente há algum tempo, e o animal ainda estava vivo, mas amedrontado. Martha fechou as pesadas cortinas negras ao redor de sua cama e com movimentos suaves saiu do quarto, encontrou uma camareira e lhe pediu para que chamasse Wayne. O monstro chegou poucos segundos depois, trazendo em suas patas um veado desacordado. Martha aceitou o animal de bom grado e ali mesmo, na porta de seu quarto, partiu o pescoço da caça com suas garras, enchendo uma grande taça com o sangue do animal. Virou-se, deixando o lobisomem segurando o animal na porta entreaberta de seu quarto, enquanto delicadamente acordou Drácula e o ajudou a tomar aquela taça de sangue fresco. O conde, exausto, prontamente voltou a dormir após beber.

Martha voltou para a porta, se com a intenção de agradecer ou de simplesmente fechá-la para que a luz do corredor não mais incomodasse seu amado, Wayne não tinha certeza. O lobisomem chegou a abrir a boca para falar algo, mas sua voz lhe falhou. Martha resolveu falar, em seu lugar:

– Ele vai ficar bem, querido. Obrigada por tudo.

– Martha... Nós temos mais dois cervos, uma ave de rapina e algumas ovelhas lá embaixo. Todos vivos, caso ele precise. Podemos... Podemos conseguir sangue humano se achar que...

Após Martha fazer um leve não com a cabeça, Wayne resolveu começar outra frase:

– É bom tê-la de volta. Ele não era o mesmo sem você. Ele vai ficar tão feliz...

– Obrigada Wayne. É bom estar de volta.

– A Wanda... Ela está preocupada... Quer ver vocês... Está preocupada com vocês dois...

– Meu amigo, diga a todos, por favor, que ele vai ficar bem, mas ainda está fraco demais para visitas. Eu vou ficar ao lado de meu marido, por hora, mas quero ver a todos, no próximo anoitecer.

Wayne acenou com a cabeça e partiu em direção ao lobby do hotel, onde todos ainda estavam reunidos, incapazes de descansarem em meio à preocupação. Martha já estava voltando para seu quarto, quando Mavis se aproximou, trazendo seu humano pela mão.

– Como... Nós podemos entrar?

– Claro meu amor. Você?

– Johnny, madame.

– Entrem.

Marvis se aproximou da cama, hesitantemente cobrindo uma das mãos enfaixadas de seu pai com a sua.

– Pai... O Johnny e eu, nós conversamos. Nós nos entendemos... Obrigada pai...

– E ae vovô... A gente tá preocupado... Fica bem logo, tá?

Drácula se contorceu na cama, e o movimento pareceu incomodá-lo, porque ele soltou um leve gemido de dor.

– Deixem-no descansar, crianças. – Martha murmurou, suavemente, sentada na namoradeira.

Mavis vagarosamente se afastou da cama e se deitou na namoradeira, com a cabeça no colo de sua mãe, enquanto esta passava os dedos, suavemente pelos cabelos da filha. Johnny ficou em dúvida de o que fazer, mas com um aceno de Martha, aproximou-se até sentar-se aos pés dela. Martha contou aos dois como conheceu o vampiro. Antes do fim da história, as duas crianças e o conde já estavam tomados por um sono profundo. Martha passou o resto da tarde vigiando o sono de sua família.

– Hum... Minha mochila ficou no avião... – Johnny murmurou, ajeitando-se no chão.

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Duas da manhã, Mavis e Johnny já tinham acordado e saído pelo castelo e Martha estava terminando de trocar as bandagens de Drácula. A condessa sorriu ao levemente acariciar um indicador que não existia na manhã anterior. Ainda estava com a pele bastante sensível e a garra não havia crescido, então era melhor cobri-lo com uma bandagem fina, só por precaução. Gentilmente acariciou os cabelos secos e quebradiços de seu marido até que ele acordasse e quando o conde focou os dois olhos azuis nela, ajudou-o a beber mais uma taça de sangue, desta vez de uma das ovelhas que Wayne capturou.

– Meu amor... Frank está entrando em curto-circuito lá embaixo, preocupado com você... Acha que podemos recebê-lo? Só por alguns minutos?

O conde assentiu com a cabeça e tentou pegar uma das mãos dela, mas sua mão rígida e enfaixada avançou apenas poucos milímetros pelos lençóis. Martha, que percebeu o movimento, cuidadosamente ergueu uma das mãos dele até seus lábios e depositou um beijo na ponta de um dos dígitos, que estava descoberta.

Martha saiu de perto dele apenas o suficiente para que pudesse alertar para uma das armaduras que devia chamar Frank. Quando o golem finalmente entrou no quarto, estava acompanhado pela voz de Eunice, que insistentemente falava que queria ver Martha.

– Eu vou falar com ela. – Martha disse, quando encontrou o olhar perdido de Frank.

Os olhos azuis do conde se arregalaram com aquela frase. Martha sorriu, buscou novamente as mãos enfaixadas dele e disse, alto o suficiente para que até mesmo Frank ouvisse o que disse:

– Eu estarei logo na porta. Vai poder nos ouvir.

Drácula assentiu novamente com a cabeça. Martha se levantou e o lugar de suas mãos delicadas foi tomado por um dos gigantescos dedos de Frank.

– Você parece bem melhor, morcegão. – Disse o golem, contente em perceber a mão novamente completa do conde.

O conde sorriu, foi tentar falar, mas começou a tossir. Frank equilibrou uma taça de sangue entre o indicador e o polegar. Drácula conseguiu erguer um pouco a cabeça em meio a tosse e Frank aproximou a taça de seus lábios. Três goles depois, o conde soltou novamente a cabeça em sue travesseiro e perguntou:

– Mavis?

Frank sorriu. Devolveu a taça para uma mesa de cabeceira e começou a falar:

– Está com Johnny tentando pegar a mochila dele de volta. Você conseguiu, meu amigo. Você conseguiu.

– Eu preciso... Comprar uma mochila para ela.

– Você precisa é beber o seu peso em sangue, descansar e depois colocar ordem no seu hotel, que está uma bagunça sem você.

– O hotel... Os hóspedes, eles...

Frank respirou fundo. Deu um leve cutucão no ombro do amigo:

– Alguns fizeram check out e já se foram. A maioria se sensibilizou quando ficou sabendo do “chan” entre a Mavis e o Johnny. Alguns estão no festival monstro. Tem um tantão de monstros está no saguão. Todos preocupados com você.

– MAIS DE UM SÉCULO MARTHA! VOCÊ SABE O QUANTO ELES PRECISARAM DE VOCÊ?

– Eunice...

– EU ESTOU TÃO FELIZ QUE VOCÊ ESTEJA DE VOLTA!

Eles ouviram do corredor. Drácula sorriu e fechou os olhos.

– Não deixe... Não deixe a sua noiva assustar a minha esposa.

– Ela é a rainha dos vampiros, Drac. Agora que ela voltou, não sei se é possível assustá-la de novo.

– Rainha dos vampiros. Minha rainha... – Drácula murmurou, voltando a dormir.

Na noite seguinte, Drac estava forte o suficiente para, com a ajuda de Martha e Mavis, descer até o saguão. O conde se sentou em uma poltrona, Martha sentou-se no braço do móvel e Mavis e Johnny no tapete, de mãos dadas, aos pés dos dois. Com o passar dos minutos, os outros monstros se aproximaram. Alguns parabenizaram o vampiro pelo “chan” da filha, alguns deixaram seus comentários de como estavam felizes por ele e/ou por Martha estarem bem. Wayne puxou uma poltrona para sua esposa que, sentada ao lado do casal, passou horas conversando com a amiga. Os amigos do conde se reuniram ao redor dele, e juntos com Mavis e Johnny contaram o que havia acontecido no hotel nos últimos dias. Todos riram com Marvis contando como recuperaram a mochila de Johnny. Wayne contou para Drácula que Winnie tinha comido Esmeralda e que Quasímodo tinha se demitido. Algumas horas depois, uma das gárgulas trouxe uma garrafa de sangue e algumas taças, e outros petiscos para os demais monstros. Drácula bebeu sua taça de sangue mecanicamente e não pareceu nem um pouco interessado em se servir novamente. Martha se serviu cinco vezes e em cada vez arrumou um jeito de, discretamente, fazer com que se marido bebesse quase dois terços da porção. Poucas horas antes do nascer do sol, Drácula havia cochilado com a cabeça apoiada nas costelas de sua esposa e os monstros, um a um, se dispersaram pelo hotel. Com a ajuda de Johnny, Martha levou um sonolento conde até o quarto dos dois e naquela noite ambos adormeceram no caixão de Drácula. Na noite seguinte Mavis ganhou de presente de aniversário uma mochila rosa e negra e em duas semanas, quando Drácula já estava recuperado das queimaduras, partiu com seu “chan” para o Havaí. No ano seguinte, não foi Johnny e nem Drácula quem organizou a festa de Mavis, mas Martha. Aliás, Martha organizou também a festa de Drácula. Fazia 120 anos que o vampiro não comemorava seu próprio aniversário. Todos os conhecidos dele voltaram ao hotel, sem se importar com o que havia acontecido no ano anterior. Dentre os convidados estava Vlad, o pai de Drácula. O velho lhe deu um tapa nas costas, disse que estava orgulhoso do filho. No fim da noite, Drácula perguntou a Martha se ela estava feliz. Na verdade, estava mesmo lhe perguntando se havia feito o suficiente. Martha não respondeu nenhuma das perguntas, mas as duas ao mesmo tempo. A vampira aproximou os lábios dos de sua alma gêmea, o beijou e disse:

– Dois morcegos na noite se esbarraram...

Fim

Notas finais
R&R
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!