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Fui embora quando amanheceu. Vê-lo novamente só me fez ficar pior, eu já tenho muita dor para lidar agora, não quero ficar relembrando as antigas. Diane e Adam ficaram tristes quando me viram descer com a mala, mas eles me entendiam e insistiram em pagar meu táxi. Eu deixei meu número com eles caso precisassem de algo, eu tinha uma divida com eles agora. De manhã eu tinha telefonado para fechar negócio para alugar o apartamento e quando cheguei só arrumei minhas roupas no closet. O apartamento era mobiliado e pequeno, por enquanto era só o que eu podia pagar porque ainda estava desempregada, estou torcendo para me aceitarem na escola que fiz a entrevista, preciso de boas notícias logo.

[...]

Eu não fui contratada, comecei a procurar por qualquer coisa depois que se passou quatro dias, o dinheiro estava acabando e tinha que pagar o aluguel no próximo mês. O único lugar que me aceitou de cara foi uma lanchonete podre e mal movimentada, ser garçonete nunca se passou em minha cabeça mas cá estou eu empilhando pratos na bandeja em um sábado a tarde. O uniforme era laranja e vermelho, a saia ia até metade da minha coxa e no peito ficava justo, o zíper mal fechava já que meus peitos eram grandes. Era obrigatório usar uma plaquinha de identificação mas como eu estava a pouco tempo fiquei com a plaquinha da antiga funcionária, Yara.

Depois que coloquei o lixo nos fundos, respirei fundo antes de voltar para dentro, aquele lugar era uma espelunca. Quando passei pela cozinha, Carmen, a gerente me olhou de cima e acenou com a cabeça em direção ao salão das mesas.

— Clientes na mesa dois. E dessa vez finja direito que aqui não é um inferno, se não vai espantá-los. — ela me diz carrancuda.

Eu não dava muitos sorrisos e Carmen anda me cobrando isso o tempo inteiro, mesmo os clientes sendo piores que o que servimos para eles. Eu apenas concordei e saí da cozinha, pegando o bloquinho de papel e a caneta do bolso do avental e com a cabeça baixa cheguei na mesa dois, respirei fundo antes de levantar a cabeça com um sorriso falso.

— Já sabem o que vão pedir? — a frase começou bem alegre mas foi decaindo quando passei o olhar do primeiro cara para o segundo.

Meu sorriso desmanchou como sorvete no sol. Jesse me olhava com a boca aberta e os olhos verdes se intercalavam em olhar meu rosto e meus peitos com surpresa. Eu desviei os olhos dele rapidamente para o primeiro cara que desviou o olhar do meu decote para o cardápio. Eu odeio esse uniforme. Odeio esse trabalho. Odeio o destino por ter colocado ele na minha frente.

— Eu vou querer um hambúrguer e um refrigerante. — o primeiro cara, de cabelos castanhos e barba mal feita falou. Eu afirmei anotando o pedido. — Ei, eu conheço você...

Eu voltei a olhá-lo e percebi que também o conhecia de algum lugar mas não conseguia me recordar de onde.

— Tenho o rosto comum. — tentei desconversar dando de ombros.

— Lisa Miller! — respirei fundo. — A quanto tempo, cara. Jesse, lembra da Lisa? Vocês se pegavam na quadra da escola no terceiro ano.

Ele disse animado batendo no braço de Jesse que forçou um sorriso e concordou. Eu fiquei visivelmente desconfortável, apenas concordei olhando para baixo.

— Eu sou o Tom, fazíamos geografia juntos. Cara, você tá diferente.

— Eu lembro de você. — não, eu não lembrava, no ensino médio qualquer amigo de Jesse para mim tinha o mesmo rosto de drogado. Mas, eu fingi para não prolongar o papo.

— Ei, Miller! Você não é paga para ficar batendo papo com os clientes. — Carmen gritou e eu olhei para meus pés respirando fundo.

— E você, o que vai pedir? — virei meu corpo para Jesse mas não olhei para ele.

— Só um refrigerante. — ele diz depois de um momento em silêncio.

Saí de lá e entreguei o pedido para Flávio, o cozinheiro. Fiquei atrás do balcão limpando enquanto esperava o pedido ficar pronto, eu tentei não olhar para mesa, mas sentia olhares em mim e percebi que tanto Jesse quanto Tom ficavam olhando para mim enquanto seus lábios se mexiam. Tentei ignorar. Levei o pedido para eles, Tom agradeceu com um sorriso e Jesse me olhava parecendo que esperando que eu falasse algo com ele. Mas eu não faria isso.

Depois de alguns minutos, Tom foi embora e Jesse se aproximou do balcão onde eu estava dobrando panos.

— Quanto eu devo? — ele pergunta e eu vou até o caixa pegando o papel da conta dele.

— Vinte pratas. — respondo ainda sem olha-lo.

Ele me entregou o dinheiro e eu guardei no caixa, entregando a nota fiscal. Eu voltei a fazer minha tarefa de dobrar panos e depois ainda teria que abastecer cinco frascos de sal. Jesse excitou antes de se virar e dar seus primeiros passos para a saída, mas ele voltou.

— Porque tá trabalhando aqui? — ele me pergunta com urgência, apoiando as mãos no balcão de madeira. Era isso que o incomodava?

— Preciso do dinheiro. — ainda não olhava para ele, mas podia ouvir ele respirando pesadamente.

— Ninguém que terminou a faculdade trabalha aqui. — ele responde incrédulo. Eu olho rapidamente para trás procurando por Carmen mas não a vejo, então me viro para ele.

— E parece que nem os clientes que frequentam aqui. — eu respondo com a indireta que o fez arquear as sobrancelhas surpreso pela resposta.

— O que eu quero dizer, é que você não tem que trabalhar aqui. Seu pai é advogado e sua mãe é gerente de uma loja que vende joias de diamantes.

Eu respiro fundo, ele não sabia dos meus pais, não sabia do meu pai. Talvez seja melhor que não saiba mesmo. Jesse não merece saber de nada sobre mim.

— Eu não sou meus pais. Agora, pode me deixar em paz? — escuto ele suspirar, direciono outro olhar para ele e ele me encarava.

— Você... Você foi embora da casa dos meus pais por causa de mim? — ele parecia nervoso, dava para perceber pela mania de batucar com os dedos no balcão e de ficar trocando o peso de perna a cada cinco segundos.

— Não, eu já tinha marcado de me mudar para meu novo apartamento. — respondo parando de dobrar os panos. — Olha, Jesse, eu fui educada com você antes porque estava dormindo no seu quarto, na casa dos seus pais. Agora que eu não estou lá, eu não preciso fingir que esta tudo bem. Então, se não se importar de ir embora e me deixar trabalhar em paz...

— E quando não estiver trabalhando, podemos sair? — ele estava falando sério? Olhei para ele com o cenho franzido e o vejo esperando por uma resposta, mas até ele já sabia que seria um não.

— Vai embora, Jesse. — falei mesmo com um nó na garganta.

— Que se foda. — ele bate o punho no balcão e sai irritado.

— Você ficou ótima nesse vestido! — Gina disse ao entrar em seu quarto e me olhar em frente ao espelho.

Eu vestia um de seus vestidos pretos que tinha espartilho, aquilo fazia meus peitos ficarem ainda mais destacados e para cima. Enquanto da cintura para baixo a saia colada ia até o joelho com uma pequena fenda na lateral direita, usava um salto preto nos pés e o cabelo solto com ondas. Coloquei um casaco vermelho por cima para tampar o busto e Gina me olhou feio.

— Você deveria mostrar mais esses preciosos, certeza que Jesse vai cair babando neles hoje. — a loira diz se aproximando e nos olhando no espelho.

— Prefiro não chamar a atenção. — respondo fechando o casaco pela metade.

— Você que sabe. — ela da de ombros arrumando a saia curta. — Vamos, eles já estão nos esperando.

Gina me puxa até chegarmos em seu carro, ela dirige até a casa do Thompson que já tinha o quintal lotado de pessoas dançando, bebendo e se pegando. Entramos e a casa estava lotada, eu conhecia muitos dos rostos por serem da escola, mas alguns eu nunca tinha visto antes. A música estava extremamente alta, as luzes eram como de balada piscando em vermelho, azul e verde. Chegamos na cozinha onde estava com menos gente, lá eu encontro Jesse com mais quatro garotos em uma meia roda, cada um tinha um copo de bebida na mão e Jesse e Antony tinham um cigarro na outra.

— Oi, rapazes! — Gina entra no meio da roda e já se agarra com Antony, fazendo o resto dos meninos gritarem empolgados.

Jesse me olha de cima a baixo e passa o cigarro para o garoto do seu lado, o resto dos meninos me olha começando a me reconhecerem.

— Lisa, eu não sabia que você viria. — fala um garoto alto que eu não me lembrava o nome mas sei que é do segundo ano, ele se aproxima com um sorriso e pega um copo de cima da mesa e me entrega. Eu não sabia o que tinha dentro, então eu cheiro e ele riu.

— O que é isso? — eu pergunto e ele se aproxima do meu ouvido.

— É gin, gata! — ele fala alto por conta da música.

Eu sinto uma mão na minha cintura, quando olho para o lado eu vejo Jesse olhando para o garoto que era maior que ele e me puxa para sair da cozinha. Eu o deixo me guiar enquanto tomo alguns goles do gin. Jesse nos levou até a parte de trás da casa onde tinha uma piscina, mas ninguém ainda tinha pulado, ele parou e se sentou em uma cadeira de balanço e me puxou para sentar em seu colo.

— Você demorou. — ele disse me dando um selinho.

— Gina me fez mudar de roupa umas três vezes. — revirei os olhos e Jesse sorriu olhando para meu corpo e logo abrindo o casaco.

— E você tá linda, gostei de como o vestido ficou. — ele terminou de abrir e olhou meu decote e depois subiu o olhar para meus lábios.

— Eu sei que gostou, mostra tudo que você quer tocar.

Jesse apenas afirma e me puxa pelo pescoço para colar nossos lábios, um beijo feroz, com suas mãos explorando meu corpo, apertando em todo lugar que podia. Eu desço a mão para sua cintura, quando sinto algo no bolso do seu casaco, era gordo demais para ser o telefone ou a chave do carro.

— Jesse... — eu o empurro e pego o que tinha no bolso, vendo que era um bolo de dinheiro. — De onde tirou tanto dinheiro?

— Ganhei uma aposta. — ele diz apressado voltando a beijar meu pescoço mas eu o empurro novamente.

— Jesse, não mente pra mim. De onde esse dinheiro? — ele revira os olhos e arranca da minha mão, colocando de volta no casaco.

— Eu vendi umas parada.

— Eu não acredito, você voltou com isso? — pergunto incrédula me levantando do seu colo.

— Estamos no fim do ano letivo, eu preciso de dinheiro, Lisa. Como você acha que eu vou conseguir te acompanhar na merda de uma faculdade que você tanto quer?

— Com um emprego honesto, Jesse. Não desse jeito, isso é ilegal e perigoso. — ele se levanta e pega minha mão.

— Estamos numa festa para nos divertir, não para ficar brigando, droga! — ele suspira pesado e eu tento sair mas ele me puxa. — Esquece isso só por hoje, fica comigo, Lisa.

Jesse sabia que eu era fraca quando seus olhos verdes ficavam tão próximos de mim, toda a raiva passou depressa enquanto eu sentia sua mão subindo para meu rosto e acariciando minha bochecha com seu polegar.

Coloquei o lixo na rua e voltei para dentro da lanchonete, contei minha gorjeta, que não era muita, e mudei minha roupa dando um suspiro pesado. Foi um longo dia de trabalho, ver Jesse novamente trouxe mais lembranças, fiquei muito sobrecarregada, pensando nele e no meu pai o dia inteiro, na minha adolescência feliz e depois quando ela foi se desintegrando aos poucos. Assim que sai do inferno do meu trabalho passei em um mercado próximo, comprei algumas coisas necessárias para sobreviver durante um semana ou mais, quando saí do marcado escuto uma voz conhecida.

— Miller? — uma risada venho em seguida e me virei para o lado. — Garota, você não mudou nada.

— Gina Carver... — digo franzindo o cenho e a olhando bem, ainda loira, mais magra que antigamente, e parecia ter envelhecido uns trinta anos. — Você está ótima!

— Oh, Lisa, ainda a menininha meiga e gentil como no colégio. — riu se aproximando.

— Não sou mais um menininha, mas tento ser gentil. — sorri tentando ser o que eu acabo de dizer, Gina me encara franzindo os olhos.

— Sinto muito pelo seu pai... — eu congelo e fico um pouco confusa. — Imagino que tenha voltado por causa dele, mas não sabia que iria ficar por aqui, sabe... com o Pinkman por ai.

Gina sempre foi direta, nunca fomos melhores amigas, mas foi a que chegou mais perto. Ela não era gentil e meiga, mas sabia ser honesta e verdadeira. Quando eu e Jesse terminamos, ela me contou sobre a nova garota e me poupou de fazer mais papel de idiota.

— Como sabe sobre o meu pai?

— Minha prima trabalhava pra ele no escritório. — deu de ombros. — Como você está?

— Morando em um apartamento minúsculo e trabalhando numa lanchonete aqui perto. — digo, evitando especificar algo sobre o que ela realmente queria saber, meus sentimentos continuaram aqui dentro mesmo que eu diga em voz alta.

— Nada saiu como você planejou, né? — sorriu me analisando. — Você e Jesse na faculdade, comprando um apartamento em NY, visitando os pais nos feriados, casando e construindo uma família...

— Eu nunca citei casamento... — digo a interrompendo, estava na cara meu desconforto com aquele assunto e ela riu.

— Atualmente não dá pra imaginar Jesse em nenhuma dessas situações... Olha desculpa dizer isso, mas você parece péssima!

— Boa observação, Gina. — ergo uma sobrancelha e forço um sorriso.

— Eu sei exatamente o que pode te animar. — ela diz dando um tapinha no meu braço. — Balada!

Ir em uma balada cheia de drogas e bêbados com uma pessoa duvidosa que eu não via a anos, além de estar com o psicológico totalmente abalado, não era uma boa ideia. Era uma péssima ideia.

Notas finais
Até o próximo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.