No outro dia eu fui acordada com uma mesinha de café da manhã e um sorriso enorme do rosto da minha avó.

– Bom dia. – ela me disse enquanto abri as janelas do quarto.

– Bom dia. – eu respondi meio dorminhoca.

– Fiz um café da manhã delicioso antes da sua partida. – ela se sentou ao meu lado.

– Obrigada, vó – a abracei.

– Seu pai ligou e acho que a sua vó Anna pode cuidar da sua dor do coração melhor que eu, não é?

– Vovó. – eu a censurei enquanto pegava uma torrada.

– Quando você melhorar quero que venha me visitar e ficar por pelo menos um mês!

– Pode deixar. – sorri. Desde quando minha vó ficou tão compreensiva assim?

Ficamos alguns segundos em silêncio até que ela disse:

– Você precisa ir logo, pois tenho que sair – ela se levantou – Vou acabar de me arrumar e quero que esteja pronta porque as velhinhas do clube de pintura chegam cedo e não quero ser “a atrasada”.

Concordei com a cabeça e ela saiu do quarto.

Tomei uma ducha rápida e ia me arrumando entre uma mordida e
outra no meu café da manhã. Quando acabei de me arrumar e de arrumar o quarto minha vó estava na porta do quarto.

– Preparada pra sua próxima parada?

– É... Acho que sim.

– Claro que está, vamos. Aqui está uma ajudinha nas despesas da viagem. – ela sorriu.

Eu peguei o pequeno pacotinho de suas mãos enrugadas e respondi:

– De verdade não precisa vovó.

– Ah, pare com isso menina. Dinheiro nunca é demais.

Bem, talvez eu precisasse mesmo não é?

– Obrigada, vovó.

– Que isso, meu anjo. – ela ficou na ponta dos pés e beijou o alto da minha testa

Descemos as escadas e chegamos ao meu carro. Guardei minha bolsa no bagageiro e me despedi de minha avó, assim que saí da cidade minha mãe me ligou.

– Bom dia, mãe.

– Bom dia, querida. Já saiu?- liguei o rádio baixinho e peguei meus óculos de sol, nem parecia que de noite havia chovido.

– Sim, estou indo para Dallas.

– A sua vó está te esperando ansiosamente. – ela respondeu alegremente.

– Eu também to com saudades dela.

– E com a Dona Lovato? – talvez mamãe não acreditasse se eu
contasse a verdade pra ela, pois pra ela a minha avó paterna não era muito amorosa.

– Foi tudo bem... – fui curta.

– Sem detalhes? – ela queria saber muuuito mais.

– Você não acreditaria se eu contasse.

– Você nem tentou.

Então contei tudo à mamãe, pois eu nunca guardava nada dela mesmo. Ela era a minha caixinha de segredos, minha melhor amiga, minha irmã.

A minha viagem até Dallas demorou um pouco mais do que eu esperava. Era estanho saber que apenas alguns milhares quilômetros me separavam da minhacidade natal, da cidade da tristeza.

Eu estava chegando à casa da minha avó — todos os verões meus pais me deixavam na casa da minha avó Anna, até os doze anos — eu deveria estar acostumada com aquela vista, mas teve uma casa que me fez quase parar o carro para observá-la.

Era uma casa grande, com um jardim imensamente lindo e tinha uma árvore do lado esquerdo, com um caminho de pedras avermelhadas que levava até a porta da casa. Ela era toda cercada com uma cerca bem baixinha branca assim como a casa. Tudo era branco.

flashback on

“- Então a nossa casa vai ter janelas enormes, as janelas da frente. Pra entrar a luz do sol – ele comeu um de seus marshmallows.

– E ela tem que ser uma linda e grande casa branca – sorri com a idéia.

– Claro. Vai ter além da árvore na frente, uma atrás onde eu vou construir uma casinha de madeira para os nossos filhos – ele tirou o marshmallow do palito.

– Filhos? Mas já? – como ele viajava — Não me diga que você quer que eu tenha trigêmeos?

– Não... não. O primeiro pode ser um garoto, depois uma menina e o último pode ser tanto uma menina como um menino... Já serei um pai realizado se você for a mãe deles – ele sorriu pra mim e minhas bochechas coraram.

– Mas eles têm que puxar todos a você! Por que se não...

– Coitados, tem que puxar você... Se não serão uns pestinhas...

Trace me fez rir. Então me lembrei que estava comendo e fechei minha boca com uma das mãos.

– Eles serão uma mistura... Mas eles têm que ter os seus olhos..- eu murmurei.

– E o seu cabelo... E também o seu jeito..

Ele me abraçou forte e beijou meus lábios.


flashback off.

Sacodi a minha cabeça tentando tirá-lo da minha mente e acelerei o carro. Aquela parecia a nossa casa, mas tinha como ser nossa. O 'nosso' havia acabado.

Senti meus olhos lagrimejarem e eu os sequei antes de parar na
frente da casa da minha vó. Estacionei o carro respirei fundo e obriguei a minha mente a esquecê-lo, como eu sempre tentava fazer.

Sai com carro com a minha mochila e fui caminhando pelo gramado até a casa.

Estava um dia com um clima bom em Dallas, toquei a campainha e me senti nervosa por rever a minha vozinha.

– Vó! – eu a abracei quando ela apareceu na porta

– Minha Demi! – a pequena velhinha na minha frente falou alto.

– Vózinha. Quanto tempo. – eu não queria soltá-la, mas tive de fazer isso.

– Pensei que havia se esquecido de mim. – ela murmurou em sua voz doceó, por
favo.

–Vó!. – eu a censurei

– Entre minha netinha, deve estar frio ai fora – ela respondeu me conduzindo pra dentro. Essa era a minha vó super protetora.

– Vó, deve estar uns 30ª graus aqui. – respondi enquanto olhava cada detalhe daquela casa.

– Você não sabe o que eu fiz pra você — ela me disse com os olhos brilhando.

Olhei pra minha vó tão pequenina que senti vontade de abraçá-la para protegê-la do mundo. Ela era tão fofa.

Então senti um cheiro que me lembrava a minha infância... O bolo
do chocolate da minha avó. Imagina aquela pequena boneca de porcelana na frente do fogão... Eu tinha até medo de pensar.

– Não acredito! O meu bolo do chocolate? – sorri.

– Vamos, acabei de tirar do forno. – ela caminhou até a cozinha.

–Vó, eu só te dou trabalho mesmo... – resmunguei

– Que isso querida. Eu estava ficando meio enferrujada na cozinha.

– Você? Cozinheira de mão cheia... É bem difícil. – sorri e sentei-me a mesa onde estava aquele delicioso bolo.

Eu estava mesmo sentindo falta de conversar com a minha vó. Ela
era uma velhinha bem tagarela.

Quando estava quase anoitecendo eu liguei pra minha mãe, guardei o carro na garagem, peguei minha mala no carro e subi para o meu quarto. Na casa da minha avó Anna eu tinha o meu próprio quarto, pois
eu era sua única neta, além dos gêmeos.

Assim que abri a porta eu vi minha coleção de bonecas, algumas das minhas roupinhas que minha avó havia guardado desde que eu tinha meses... Estavam todas encapadas e penduradas no meu pequeno closet.

Arrumei minhas malas e resolvi revirar um pouco as minhas coisas antigas.

Encontrei uma boneca de porcelana, alguns bichinhos de pelúcia, muitas fotos minhas de quando eu era menor, alguns sapatinhos, e quando fui guardar a minha mala em cima do armário percebi que tinha algo guardado lá também. Peguei a cadeira da penteadeira antiga e a usei de escada para ver o que tinha no armário e encontrei o meu violão, o meu primeiro violão que eu havia ganhado da minha avó.

Guardei a minha mala e me sentei na cama para afiná-lo. Se meu violão estava ali, talvez meu afinador também.. Procurei em algumas gavetas e finalmente encontrei. Depois de afinado eu já estava pronta para tentar tocar algo...

Eu tinha o meu próprio violão na minha casa, tinha um teclado e até uma guitarra, mas eu não queria pensar neles naquele momento. Então comecei a cantar uma das minhas canções (...)

… I've got a world of chances, for you
I've got a world of chances
Chances that you're burning through...

Até a minha avó aparecer na porta e sorrir


– Oh, por favor, continue. Eu adoro tanto ouvir cantar. — o que eu conseguia negar algo aquela pequenina?

Passamos o resto da noite tocando e cantando músicas que eu tentava tocar no violão e minha avó tentava me ajudar.

Eu ganhei o meu primeiro violão graças a minha avó que foi uma
ótima professora e me apoiou muito. Ela sempre quis viver da música, mas meu bisavô a proibiu e quando ela casou com o meu avô ele descobriu que ela cantava e ele sabia tocar muitos instrumentos. Então como hobbie minha avó e meu avô cantavam todas as noites antes da minha mãe adormecer.

Minha mãe viveu assim, cercada pela música e eu também. A única diferença é que mamãe não gosta de cantar pra valer, ela só canta quando estamos com a família reunida. Já eu não, eu compunha muitas canções pra expressar o que eu estava sentindo naquele momento.

– Sabe minha querida – vovó começou a puxar assunto no café da manhã – Eu acho que você deveria escrever uma canção sobre o que está sentindo agora.

– Pra que vovó? Pra toda vez que eu cantar me lembrar dele? – ela queria que eu sofresse mais?

– Não minha querida. Vocêpoderia simplesmente escrever uma canção colocando tudo o que você sente pra fora, pra poder tirar essa dor do seu coraçãozinho e assim poder esquecê-lo.

Bem, a idéia era boa.

– É. Acho que vou fazer isso – sorri pra ela.

– Bom querida. Eu tenho que passar na casa de uma amiga minha. Ela estava doente e eu soube que ela saiu ontem do hospital. – ela
sussurrou a ultima parte.

– A senhora não quer que eu vá com você? Te levo de carro. – comecei a me levantar da mesa.

– Não, meu amor. Eu vou demorar e eu vou a pé, é aqui perto mesmo. Pode ficar aqui assistindo TV ou pensando na sua música. – ela sorriu e eu voltei a comer o meu café.

Notas finais
Merece review?