Here, There And Everywhere
8 Promessas
Notas iniciais
P.S: Carreguem nessa hiperligação. Vai trazer-vos mais lágrimas, mas têm mesmo que ler isso. Eu que sou toda forte e durona fiquei de lágrimas nos olhos...
Os quatro Beatles saíram para o camarim num passo rápido. A imprensa esperava-os às portas do estádio, à procura de declarações.
–E agora? – Paul perguntou. – Como é que a gente sai daqui?
–Vish, sei lá. – Ringo falou, espreitando por uma frincha da porta. – Se calhar a gente devia mesmo falar com eles e assim saíamos.
–Ah, não. – John disse. – Eu não quero falar com eles. Eu agora só quero mesmo paz e sossego. – John fincou os dedos no curto cabelo que clareou imenso e parecia quase loiro, e com algumas ou nenhumas brancas.
–Eu não quero ficar aqui. – A voz de George soou como se ele tivesse dezassete anos e estivesse a ser deixado sozinho, como uma vez lhe quiseram fazer em Hamburgo.
–Eu vou dar um jeito, não te preocupes. – Ringo falou. Também ele soava como se fosse novo outra vez e estive no papel de mais velho a proteger o irmãozinho. Depois de falar, saiu porta fora. – Hei, tu, como te chamas? – Ele disse, chamando à atenção um rapaz do pessoal do estádio.
–Eu? – O rapaz apontou-se, olhando extasiado para o baterista.
–Estou a apontar para ti, por isso, sim, tu! Como te chamas?
–Neil, Neil Carter.
–Olá, Neil. Alguma vez trabalhaste como guarda-costas?
–Não senhor. – Ele respondeu, de olhos arregalados.
–Muito bem, a partir de hoje podes incluir isso no teu currículo! Hei, não estejas assim tão nervoso! – Ringo deu-lhe um tapa no braço para acalmar o rapaz. – Agora entra ali no camarim e se eles perguntarem por mim, diz-lhes que eu já vou.
Ringo correu por todo o estádio, procurando mais pessoal que lá trabalhasse. Encontrou mais duas pessoas da mesma altura de Neil, e uma mais baixa. Pediu ainda a uma rapariga que encontrou para mandar parar um táxi do lado de fora do Wembley.
Levou os três com ele para o camarim, enquanto desabotoava a camisa após já ter tirado o blazer. – Ainda estão bons das pernas para correr? – Ele perguntou aos outros três? – Eles deram de ombros e ele continuou. – Ainda bem! Troquem de roupa com eles, rápido.
Após trocarem de roupa, os quatro funcionários do estádio estavam com a roupa dos Beatles e eles com a roupa deles, todos de T-shirt e jeans. Caminharam até às portas do estádio. Os quatro rapazes cobriam as caras com uma revista enquanto desapareciam, engolidos por entre os jornalistas. Os quatro velhos desataram numa corrida, atirando-se para dentro do táxi que mandaram seguir para o hotel onde John estava hospedado.
Saíram do táxi colados uns aos outros, de cabeça voltada para o chão e só quando chegaram à receção é que John olhou a moça e pediu a chave do quarto. Enquanto John fazia isso, George foi até ao elevador. Uma garotinha dos seus sete anos correu para a beira dele, e também ia carregar no botão para fazer com que o elevador descesse. Mas como George o fez primeiro, a menina disse.
–Obrigada, senhor.
George olhou para ela e sorriu. – Não estás aqui sozinha pois não? — A garota ficou de boca aberta a olhar para ele. – Sabes quem eu sou? – Ele perguntou aninhando-se. A menina só acenou com a cabeça. – Mas não podes dizer nada a ninguém que me viste, ok?
–Ok…Mas tu não morreste? Como é que estás aqui?
George deu uma risadinha. – Nem eu te sei dizer como vim cá parar, mas eu também já me vou embora outra vez.
Paul, John e Ringo caminharam para o elevador que tinha acabado de abrir as portas e a garota disse. – Eu também sei quem eles são!
–Mas este fica o nosso segredo, pode ser? – George disse, entrando no elevador. – Não digas nada a ninguém.
A menina fez o gesto de selar os lábios e atirar fora a chave, o que fez os quatro homens sorrir. Ela acenou, despedindo-se deles, e eles retribuíram o ato. Antes das portas se fecharem, uma voz falou. – Callie, já não te disse que não se fala com estranhos?
Antes que a mulher pudesse chegar perto do elevador, as portas fecharam-se. No entanto, a garotinha respondeu inocentemente. – Não eram estranhos, mamã.
Entraram no quarto seguidos de John, e olharam-se por um pouco. Paul saiu para a varanda e John foi atrás dele nem um minuto depois. Ringo sentou-se sobre a cama, não desgrudando os olhos de George.
–Quero que entregues a minha guitarra à Olivia, pode ser?
–Claro. Amanhã mesmo, se for preciso.
–Não, não. – George sentou-se ao lado dele e continuou. – Quero que lhes dês a guitarra e lhe peças para ir ao meu estúdio. Diz-lhe que foi eu quem pediu isso. Tem lá um móvel alto com um vidro na porta. Lá dentro vais encontrar uma caixa, tipo caixa de sapatos, e quero que a leves embora.
–Nem penses! Eu não vou-
–Vais sim senhor ou eu assombro-te todos os dias da tua vida! Vais pegar na caixa e vais levá-la embora. Lá tem fotografias, muitas delas cópias das fotos que tiravas. – Ringo estava sem palavras a olhar o amigo. – Não me olhes assim, anão!
–O quê? – Ringo brincou. – Alguém falou? É que deu-me impressão que o caçula tinha falado!
–Promete-me que a levas, Ringo.
–Está prometido. Eu levo a caixa.
Paul e John, lá na varanda, também estavam a ter uma conversa. – Ainda olhas para ela? – John perguntou, debruçando-se na varanda ao lado de Paul que olhava o céu.
–Sim. Ainda olho a estrela que me deste.
–Ela é nossa, se bem me lembro. Não tentes ficar com ela só para ti!
–Vá lá, chama-me maricas e chorão e tudo o que quiseres! – Paul disse com um sorriso de soslaio.
–Só te chamo isso depois de saber a história. Desembucha!
–Uma noite eu olhei para a estrela e chorei a noite toda porque percebi que estavas a cumprir o que me prometeste…de olhar por mim. Às vezes, quando não sei que fazer, dou comigo a ouvir-te na minha cabeça. Ouço-te concordar ou resmungar comigo, e acabo sempre por encontrar o caminho certo. – Ele olhou para John, continuando. – Vá lá, chama-me o que quer que queiras!
–Quando te dei a estrela disse que o sentimento seria recíproco, que olharíamos um pelo outro, e neste caso, eu fui embora primeiro que tu. Por isso, eu tenho olhado por ti, tal como prometi. Agora quero que tu me prometas uma coisa a mim.
–Qualquer coisa, Johnny.
–Não quero que chores mais por mim. Quando quiseres chorar por eu ter morrido e por não estar cá, quero que sorrias. Quero que sorrias porque houve um dia em que eu nasci e houve um dia em que eu te conheci. — Paul sorriu e John fez o mesmo quando o olhou. Porém o sorriso dele enfraqueceu e ele confessou. – Sabes, estou com algum medo. E se eu e o George temos de ir da mesma forma que fomos da primeira vez? E se eu tiver de morrer da mesma maneira outra vez?
–Era impossível. Desta vez não morrias… — John não entendeu e deitou os olhos no amigo. – Eu não deixaria que fizesse o mesmo…Nem que eu tivesse que me pôr na tua frente… — Seguiu-se um momento de silêncio, e Paul perguntou então. — Como é…como é depois de morto?
–Ah, não posso contar. Perdia a piada se o fizesse. E não queiras ser curioso e tentar descobrir como é tão cedo! Não quero a tua companhia tão cedo.
–Mas, para onde vais? Onde estás? Como é que é isso?
–Eu estou aqui, ali, em todo o lado. Eu estou sempre contigo, dois passos à frente para te amparar as quedas, para te desviar de perigo. – John foi ao bolso do casaco e tirou algo. Pegou na mão de Paul e colocou lá algo na palma dele. – Lembraste disso?
–O botão de punho que te dei. Como é que o tens? Dizem que foste cremado com ele.
–Dizem... Quando fui baleado, tateei o corpo à procura dele, e até ao hospital fui com ele na mão. Antes de lá chegar, dei-o à Yoko e pedi que ela to desse. Quando a fui ver há dois dias, reparei que ele estava lá. Ela disse que queria uma lembrança minha e que por isso não to deu. – John suspirou fundo e Paul entendeu; quando ele suspirava daquela maneira tinha havido uma discussão. – Eu disse-lhe que ela tinha demasiadas coisas para se lembrar de mim, e ela disse que tu também tinhas. Provavelmente até mais-
–Ela tem razão, John. Eu tenho imensas coisas-
–Não tem razão nada! – Ele falou mais alto que fez Ringo e George olhar para a varanda e ver o que se passava. – Ela nunca entendeu, Paul. Ela nunca entendeu que eu consegui amar mais um homem do que qualquer mulher. Ela nunca entendeu que eras para mim mais do que amigo. Tu foste, és e sempre serás o meu gémeo. E por isso o botão é teu.
Paul apenas acenou com a cabeça, sem saber o que falar. John entrou e sentou-se sobre a cama, ao lado de Ringo e George. Paul tomou um tempo para respirar e saiu porta fora. Não conseguiria estar ali ao lado dele e de George, vê-los partir mais uma vez.
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