Herdeiros das Estrelas
2 Capítulo 1 - Plataforma 9 3/4
Notas iniciais
O céu de Londres estava cinzento aquela manhã... como sempre. Havia quase sete anos desde que a ruiva não pisava em solo inglês e, por mais que amasse a Inglaterra, não tinha sentido a menor falta do céu cinzento que parecia ser a maldição particular daquela cidade.
Solária se esticou, melhorando a postura para ficar mais confortável... bem, o mais confortável possível após horas naquele carro. Aparentemente havia adormecido, ela não sabia em que ponto da estrada. Em um momento a paisagem parecia nunca mudar, então ela decidia fechar os olhos por dois segundos para tentar aliviar sua dor de cabeça e eles estavam em Londres.
Ela suspirou, a cabeça ainda latejando um pouco e o pesadelo da noite passada ainda vivo em sua memória. Fazia um tempo desde que tivera um pesadelo daquele tipo e isso a preocupava...
— Sol, tá tudo bem? – ela piscou, se virando para a irmã que a encarava preocupada.
A ruiva não sabia se olhos podiam ser afiados, mas os de Cassiopeia certamente eram. Era como encarar o céu azul através de uma estaca de gelo: frios, belos e perigosos.
Sarah, a mãe da ruiva, costumava dizer que os olhos dela eram idênticos ao da mãe. Olhos de uma sangue-puro, deixaria sua avó orgulhosa, ela costumava implicar com a afilhada, o que sempre acabava em uma Cassie irritada – deixar seus parentes preconceituosos mortos orgulhosos não era algo que estava nas prioridades de ninguém naquela família e, acredite, parentes com essas características não faltavam aos Shafiq e muito menos aos Selwyn.
— Eu estou bem, só um pouco de dor de cabeça – murmurou tentando não atrair a atenção do resto da família. Não era algo muito fácil em um pequeno carro de duas portas alugado.
A morena a avaliou. Ela era mesmo dois anos mais nova? Às vezes Solária achava que a menina não tinha 11 anos de idade e sim mil.
— Dor de cabeça normal ou do outro tipo? – questionou baixo.
Cyrus, do outro lado da garota, se remexeu um pouco, ainda dormindo. Solária achava isso impressionante já que Sarah quase espancava a buzina, berrando alguns xingamentos – que se qualquer um dos três ousasse repetir na sua frente renderia um cascudo – para o motorista trouxa a sua frente. Sinceramente, a menina não queria saber o motivo daquela confusão, sua cabeça estava começando a aliviar e ela não ia arriscar que a dor voltasse.
— Do tipo normal – Cassie não parecia muito convencida então ela achou melhor completar – e já está passando de qualquer forma. Até chegarmos a 9 ¾ eu estarei melhor.
A mais nova assentiu voltando o olhar para a janela, observando as ruas trouxas em silêncio pelo curto trajeto restante.
Solária fez o mesmo.
.
— Vamos rápido, não quero que vocês se atrasem e já estamos atrasados – Sarah disse enquanto eles quase corriam pela King’s Cross.
— E quem será que fez a gente se atrasar, dona Sarah? – Cassie provocou.
— “Só uma paradinha crianças” – Solária disse aproveitando a deixa – “você não se pode vir a Londres e não vê o Big Ben...” será que ela lembra que somos britânicos?
— Britânicos que não veem Londres desde que saíram das fraldas! – a ruiva exclamou.
— Aparatamos no Beco Diagonal não faz duas semanas... – Cyrus lembrou.
— O Beco Diagonal não conta – ela bufou – E o Big Ben é um dos símbolos do país.
— Tão patriótica – brincou Solária.
— Deus salve a Rainha! – Cassie disse fazendo o irmão conter o riso.
Sarah revirou os olhos também sorrindo. E então eles pararam, bem entre as plataformas 9 e 10.
— Chegamos! – a ruiva anunciou.
Cyrus franziu a testa encarando a madrinha e então a parede para onde ela apontava. Sarah não era a pessoa mais confiável quando o assunto era as possíveis pegadinhas que ela fazia com a filha e os afilhados, mas eles estavam atrasados... ela não faria uma pegadinha naquele momento, certo?
— O que... como... a gente simplesmente passa pela parede? – ele perguntou, receoso.
— Se quiser pode ir correndo, dizem que ajuda – Sarah deu de ombros – vá primeiro, Sol.
Solária assentiu, respirando fundo e segurando o carrinho – onde estava seu malão e a gaiola onde um gato preto, Black, dormia alheio a tudo ao seu redor – antes de começar a correr. Em um segundo ela estava quase na divisa das plataformas e no segundo seguinte... nada. Ela havia desaparecido.
— Ótimo, vocês dois agora – Sarah encarou os gêmeos – Quem vai primeiro?
Cassie olhou para o irmão em dúvida.
— Vamos juntos, certo? – a morena assentiu com um sorriso mínimo.
Ela se posicionou ao lado de Cyrus, segurando no carrinho que continha os malões de ambos e a gaiola com a coruja de garoto – uma avezinha de penugem cinza facilmente irritável que atendia pelo nome de Atena. Os gêmeos começaram a correr. Por um segundo Cyrus teve certeza que iam bater na parede e então, no instante seguinte, eles estavam encarando uma locomotiva vermelha.
— Crianças, conheçam O Expresso de Hogwarts – Sarah surgiu atrás deles
— Carruagens, navios, um passeio pela floresta... – Solária bufou – se eu soubesse que Hogwarts tem o meio de transporte normal eu tinha insistido para vim pra cá no primeiro ano.
Cyrus riu baixo junto de Cassie e Sarah revirou os olhos.
— Vem, vamos embarcar os malões – a ruiva mais velha disse, guiando-os.
Sarah tinha razão, Cyrus percebeu, eles estavam atrasados. A maioria dos alunos já estava entrando no trem ou já tinha entrado e se despedia da família pelas janelas das cabines.
Ele entregou Atena a irmã gêmea e empurrou os malões dos dois para dentro do trem com a ajuda da madrinha. Solária, Merlin sabia como, já estava dentro do trem e os esperava pacientemente com Black em seus braços – a gaiola tinha ficado esquecida junto do malão.
— Peguem uma cabine e encontro vocês na janela, preciso lembrar umas coisas antes de irem – Sarah disse, séria. Os três assentiram sumindo no corredor.
Grande parte das cabines já tinha alguém e, não que fossem do tipo que evitam pessoas, mas eles sabiam que a conversa com a ruiva não devia ser ouvida por curiosos. Passaram por mais umas três cabines antes de encontrarem uma vazia.
Solária fechou a porta e os três se inclinaram sobre a janela para falar com Sarah.
— Primeiro o principal: Vocês sabem o que tem que fazer. Quero que aproveitem Hogwarts o máximo possível, mas preciso que fiquem de olho nos meninos por mim – a ruiva começou – Voldemort pode ter caído, mas ele não morreu. Quando ele voltar vamos está prontos e preciso de vocês todos juntos.
— Vamos ficar juntos mãe – Solária garantiu – não se preocupe, vou cuidar deles. Desses dois cabeças ocas – ela indicou os irmãos com a cabeça, recebendo um leve empurrão da morena – e vou cuidar do Harry e do Neville também. Foi para isso que eu vim para cá, não foi?
Sarah suspirou.
— Eu sinto muito colocar esse peso em você... em todos vocês – murmurou, apertando a mão dos três.
— Não é peso nenhum, madrinha – Cyrus garantiu.
— É, tenho certeza que a gente vai se dá superbem com o Harry e o Neville – Cassie reforçou, sorrindo – a gente brincava juntos quando éramos bebês, não? É só um reencontro de velhos amigos.
A mulher sorriu também.
O apito do trem soou fazendo os quatro se soltarem.
— Agora escutem, se vocês voltarem no natal e ainda não tiverem uma detenção eu vou ser obrigada a deserdar os três – a ruiva disse começando a andar junto com o trem.
— Sabe, uma mãe normal diria pra gente não pegar detenção – Solária provocou sorrindo.
— Uma mãe normal não cria os filhos dos marotos e saí inteira – rebateu mostrando a língua, gesto retribuído pela filha.
— Muito maduras vocês – Cyrus disse, mas também sorria.
— Pode deixar que te mandarei uma carta sobre minha primeira detenção ainda essa semana, madrinha – o garoto não tinha certeza se Cassie estava brincando, mas conhecendo a irmã a resposta era não.
A ruiva piscou para ela.
— Amo vocês além das estrelas – Sarah berrou, parando.
— Amamos você além das estrelas – os três berraram de volta, acenando em despedida até que ela não passasse de um pontinho na plataforma, então voltaram para dentro.
A porta da cabine se abriu e um garoto de rosto redondo conhecido entrou:
— Desculpe, mas vocês viram um sapo?
— Bem, isso foi mais rápido que eu pensei – Cassie brincou baixo o suficiente para que somente o irmão a escutasse. Cyrus a ignorou:
— Não, mas posso ajudar a procurar.
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