Herdeiros da Guerra

4 Capítulo IV – O inesperado


O zepelim diminuiu a velocidade ao se aproximar da torre. Os goblins começaram a correr de um lado para o outro, mexendo em vários aparelhos para que o grande objeto voasse para o lugar correto. Indiferente à preocupação dos pequenos engenheiros verdes, uma também pequena criatura se segurava ansiosa na borda do transporte, com os olhos brilhando na direção da capital da Horda.

– Olha Ash! É Orgrimmar! – disse apontando os grandes portões de ferro que se erguiam imperiosos.

– To vendo Karen. – disse Ashrial meio enjoada e sem querer olhar para baixo – É grande e verde.

– Não! – disse a outra franzindo a testa – é preta e vermelha. Verde são os goblins. Mas eles não são grandes. São pequenos, bem pequenininhos!

Os goblins que estavam por perto chiaram diante do comentário da menina, mas estavam tão ocupados em evitar um acidente que ignoraram a menina, mas pela cara que fizeram provavelmente se fossem maiores que ela a atirariam lá embaixo.

Ashrial riu da animação da irmã, enquanto alisava a cabeça de Meleth, seu garrataque. Karensky, ou como ela preferia Karen, estava excitada por ser a primeira vez que saia de Luaprata. E apesar do enjoo de viajar naquela banheira velha que parecia que ia cair a cada minuto, Ashrial tinha que admitir que estava animada também. O mais longe que fora desde que saíra do conforto do lar foi Tranquilen.

Depois que Kassyeh saíra da casa, Luxuriah ficara muito, muito mais protetora. E apesar de não falar abertamente, estava evidente que o maior problema era a saudade que sentia. Se estivesse realmente tão chateada com Kassyeh quanto sempre afirmara, não teria se deslocado dos Reinos do Leste até Kalimdor.

Interrompendo seus pensamentos, Ashrial viu o zepelim encostar-se à torre de desembarque e teve que segurar fortemente a mão de Karen para que ela não se perdesse em meio a turba de aventureiros que desembarcava, além do evidente risco da menina ser pisoteada pelos enormes orcs e trolls à volta.

– Olha Ash! Olha! É realmente Orgrimmar! Ela é muito legal! – exclamou a mais nova ao descerem do veículo.

Do alto da torre dava para ter uma dimensão do lugar. Enormes torres negras se erguiam no meio do deserto, como se estivessem desafiando a natureza ao permanecerem naquele lugar inóspito. Mantícoras, dracos e todo tipo de montaria voadora passava por perto do lugar onde estavam, enquanto os goblins gritavam, erguendo os pequenos punhos em fúria, que qualquer dia desses o zepelim iria cair porque ninguém respeitava o código de trânsito aéreo. Só pararam quando a jovem elfa se aproximou e pagou a passagem dela e a de Karen. Depois, desceram as escadarias e chegaram a um platô.

Apesar de toda imponência da cidade órquica, o que mais afetou as duas jovens elfas sangrentas foi a mudança brutal do clima. A planície de Durotar era desértica, com um clima entre quente e insuportável e as duas, acostumadas com o clima ameno de Luaprata, começaram a sentir os efeitos do calor rapidamente. Ashrial ajeitou, incomodada, o corselete de couro, enquanto Karen levantava as mangas do vestido.

– Lux não brincou. – disse Ashrial ao se dirigirem ao elevador — Isso aqui é quente como uma fornalha!

– Por que Kass gosta tanto daqui? – quis saber Karen olhando com os olhos arregalados para a quantidade de guerreiros orcs que passavam por elas. – É tão diferente lá de casa!

– Ela gosta de estar com Tewdric. – Ashrial andou até parar em frente ao elevador que levava para a parte de baixo da cidade e tirou uma carta da mochila – Orgrimmar é só uma consequência disso.

– Entendo... – murmurou Karen, mas Ashrial duvidou que ela realmente entendesse.

Na verdade, nem ela mesma entendia. Conhecia o amor apenas através das histórias que lia e dos relatos que ouvia. Duvidava que alguém pudesse sentir tudo aquilo que as pessoas falavam, mas quando parava para pensar que sua irmã deixou tudo para trás para ficar com alguém que nem de sua raça era, sentia medo. Medo de conhecer esse sentimento e se perder nele.

Bom, tinha que admitir que estava segura por enquanto. Não chegava aos pés de suas irmãs de beleza, e nenhum elfo olhava duas vezes para ela. Bom para ela.

– Bem... – disse Ashrial analisando a carta – Pelo que eu entendi da carta de Tewdric, eles moram perto de um canto chamado Bazar, no Vale da Força.

– E onde é isso? – perguntou a menor.

Ashrial suspirou.

– Não faço ideia. – e fazendo sinal para a irmã se aproximou do elevador – Mas vamos achar.

Orgrimmar se mostrou mais do que complicada para as jovens elfas. Andaram para o norte, passando por grandes portões e chegaram até o portão traseiro de Orgrimmar. Lá, um guarda gritou que elas voltassem, pois ali era um lugar onde sempre aparecia a escória da Aliança. Correram de volta para a cidade e vaguearam até chegarem a um lugar cheio de trolls. Um deles tentou oferecer alguma coisa a Karen, que já ia pegar animada, quando foi puxada bruscamente por Ash. Mais um pouco e ambas chegaram ao que seria o bairro goblin da cidade. Os mercadores locais caíram em cima delas como moscas no mel, oferecendo todo tipo de produto, para todo tipo de utilidade, coisas insubstituíveis, diziam. Prudentemente, Ash levou Karen para fora dali. Andaram, se perderam e só quando a fome apertou foi que Ash se deu por vencida e admitiu que não fazia ideia de onde iam. Então, acharam um guarda muito simpático (para os padrões orcs, claro), que rabiscou um mapa rústico no verso da carta de Tewdric. Com isso, as duas recobraram ânimo e conseguiram chegar ao lugar certo, depois de pelo menos três horas do zepelim aportar.

– É... – disse Ash caindo na risada – É meio óbvio que aquela é a casa da Kass.

Era a única casa pintada imitando as casas de Luaprata, o que ficava totalmente estranho, pois era uma casa órquica com as cores de uma casa élfica. Para completar, a irmã delas estava provavelmente tentando começar um jardim, pois a frente da casa estava toda esburacada, com sacos de sementes espalhadas por todo lugar.

– Ela não tem um pingo de senso não é? – riu Karen.

– Nunca teve. – concordou a outra.

Ainda estavam se aproximando quando um imenso orc saiu de dentro da casa. Era Tewdric. Sem armadura, o orc parecia menor, mas ainda assim era imponente. Quando as avistou, abriu um enorme sorriso, que deixava suas presas maiores e foi na direção delas.

Karen soltou um gritinho e correu em direção do orc. Ela o adorava. Tewdric a pegou nos braços e a lançou para o alto, como se faz com um bebê. A menina riu alto e o abraçou forte quando voltou aos braços dele.

– Faz de novo! – pediu.

E mais uma vez ela foi jogada para o ar.

– Oi Tewdric. – disse Ashrial acompanhando a irmã ir para cima e voltar para os braços do orc inúmeras vezes – Se você continuar fazendo isso ela vai vomitar...

– Tem razão. – disse ele colocando a menina no chão.

– Ah, continua! – pediu Karen, mas ela estava visivelmente tonta, e se segurou na roupa de Tewdric – Ops, ta tudo rodando...

Todavia, para o alívio de Ashrial, ela não vomitou.

– Então, como foram de viagem? – quis saber o orc.

– Adorei! – vibrou Karen.

– Foi horrível. – disse Ashrial chateada – Viajar de zepelim é horrível! Se Kass queria tanto que a gente viesse, porque não abriu um portal e foi nos buscar?

Tewdric soltou uma risada.

– Porque ela não sabia que vocês estavam vindo. – esclareceu.

– O que? – exclamaram as duas em uníssono.

– Nem ela, nem Luxuriah. – completou o orc parecendo muito satisfeito consigo mesmo.

– O quê??? – gritaram as duas, agora visivelmente assustadas.

– Não se preocupem, elas vão adorar a surpresa. – e olhando em direção da casa, viu Kassyeh sair olhando para os lados, provavelmente procurando-o – Ah, lá está ela.

Apesar de assustadas com o fato das irmãs não fazerem ideia que elas tinham atravessado o mundo, sozinhas, em um zepelim nem um pouco confiável, Ashrial e Karensky não seguraram o riso diante da expressão que Kassyeh fez quando viu as duas. Primeiro ela parou, arregalou os olhos, piscou e abriu a boca como se fosse dizer algo. Depois pareceu desistir. Coçou a cabeça e esfregou os olhos. Quando viu que elas duas estavam realmente ali e riam com vontade dela, abriu um enorme sorriso e correu na direção das irmãs.

Não demorou muito e Ashrial começou a chorar. Enquanto elas se abraçavam e murmuravam o quanto sentiam falta uma da outra, Tewdric observava, satisfeito. Adorava por um sorriso na boca de sua elfa, e o que ela mostrava agora era o mais lindo que já vira. E quando ela levantou os olhos e o encarou, abrindo ainda mais o sorriso, soube que destruiria todo o mundo se fosse necessário para mantê-la sorrindo.

– Ash, não chore. – foi a primeira coisa que Kassyeh conseguiu dizer.

– É-é ale-alegria. – gaguejou – E-Eu to feliz de v-ver você...

– Você sabe que ela é chorona Kass. – disse Karen ainda agarrada na irmã – Chorou quando a gente saiu, chorou no zepelim e...

– Ta bom, tá bom. – cortou Kassyeh alisando a cabeça da irmã – Deixe Ash chorar. Eu tô tão feliz de vocês estarem aqui! – e só então se dando conta que elas realmente estavam ali, se afastou um pouco do abraço e olhou para as duas – Lux sabe que vocês estão aqui?

As mais novas olharam diretamente para Tewdric, em busca de ajuda.

– Nem, é surpresa também. – disse o orc. E diante da expressão alarmada das três, continuou despreocupado – Não façam essas caras, Lulu vai adorar. Kass, bota mais água no feijão e mais carne na panela que vou buscar Lulu e já trago as trouxas dela pra ela ficar aqui com a gente. – e saiu sem esperar resposta.

– Lulu? – ouviu Karen comentar assim que virou as costas – Ele a chama assim na frente dela?

– Só quando ela está bêbada. – esclareceu Kassyeh.

– Por isso que ele ainda tem pernas. – comentou Ashrial.

E depois disso as vozes ficaram baixas até sumirem completamente.

Tewdric parou e olhou para trás. As três tinham entrado na casa. Um sorriso brotou no rosto do guerreiro de forma tão natural que qualquer um que visse poderia ter a ilusão que o sorriso sempre existira.

Ledo engano.

Suas lembranças de quando criança eram confusas e dolorosas. A única coisa que sempre teve certeza era que odiava humanos, com toda a força de seu ser. Sabia que eles haviam matado seus pais. Sabia que o fato dele viver em um lar coletivo, com outros orcs de sua idade e ter que brigar por sua comida era culpa da Aliança. Sabia e odiava. E aquele ódio deu força para que ele crescesse, se tornasse mais forte do que todos os outros de sua idade, e pudesse sair daquele lugar tão logo conseguira dinheiro para comprar uma velha armadura e um machado quase sem fio.

Sair pelo mundo não foi difícil para ele. Nunca considerara aquele lugar um lar. Na verdade, nem mesmo sabia o que era um lar. Só conhecia a fome, a sede, a dor e o ódio. Ah, o ódio ele conhecia bem. Era o que o conduzia, o que o fazia querer continuar.

O ódio era o motivo de sua existência.

Sua força e sua brutalidade logo chegaram aos ouvidos certos e ele começou a ser enviado para lugares cada vez mais perigosos, cada vez mais importantes, até que, quando percebeu as pessoas se afastavam com respeito de seu caminho, o cumprimentavam como se fosse um velho amigo e tinha mais ouro do que poderia gastar em toda a sua vida.

Contudo, nada aquilo importava, desde que continuasse matando o maior número de humanos, anões, elfos ou seja lá quem fosse do lado de lá.

Com o tempo, isso foi ficando insuficiente. Às vezes, sem entender, sentia falta de algo. E isso era estranho, pois não sabia exatamente de que sentia falta. E quando, bêbado, comentou isso com um companheiro de viagem, este riu e disse que ele precisava de uma fêmea.

O problema era que ele já tivera várias e nunca conseguira ficar com a mesma por muito tempo. A brutalidade inata de sua raça parecia coisa pequena perto da brutalidade que aquele orc carregava dentro de si e uma hora ou outra as fêmeas ficavam com medo de sua força extrema. Ele nunca bateu em nenhuma delas, verdade seja dita. A menos que fosse em uma batalha, no meio da guerra, não se atrevia a machucar uma fêmea. Sabia que isso tinha alguma coisa a ver com o que sua mãe lhe dissera há muito tempo, mas as palavras e o rosto dela foram levados pelo tempo, e ficou somente a sensação que, a menos que fosse necessário, não se machucavam fêmeas.

Talvez por isso tenha ficado com tanto ódio do anão que investira contra Kassyeh. Ou talvez só quisesse matá-lo mesmo. Ou as duas coisas. O certo é que, naquele dia, estava perdido. Tinha recebido a missão de falar pessoalmente com o elfo regente em Luaprata para convocá-lo para alguma coisa que Tewdric não fazia ideia, mas parecia importante. Dispensara qualquer companhia e ninguém ficou chateado com isso. Conheciam a fama do orc. Então, partira de Kalimdor, rumo aos Reinos do Leste, e quando chegara à Floresta do Canto Eterno percebeu que não fazia ideia de pra onde ir.

Já havia estado ali, há muito tempo e não se lembrava de como chegar a capital dos elfos. Pegou várias estradas, mas nenhuma parecia levar a lugar nenhum. Então saiu delas. Perambulou por muito tempo, até se dar conta que não fazia ideia de qual direção seguir.

Foi quando a viu. Perambulando aparentemente sem rumo entre as plantas, uma elfa parecia procurar algo. Sim, ele tinha certeza que era uma elfa, porque descobrira o truque pra diferenciá-los: elfas tinham peitos, elfos não. E aquela ali tinha um belo par que se insinuava no decote do vestido. Bem, aquilo resolvia dois problemas. Iria seguir a elfa, sem ser visto, até chegar a cidade. E depois a convenceria a passar a noite com ele.

Porém, o tempo foi passando e a elfa apenas andava de um lugar para o outro. Seu orgulho o impedia de admitir para a elfa que estava perdido. Que tipo de macho ela pensaria que ele era? Enquanto a observava viu quando ela mexeu em uma moita e soltou um grito de surpresa. Ele já se preparava para correr em sua direção quando viu que era apenas um coelho e a elfa então começou a rir de si mesma.

Foi a coisa mais linda que ele já ouvira. Seu riso era cristalino, doce, e maravilhosamente belo. Sem entender bem porque, aquele som mexeu com alguma coisa dentro do orc. Só que ele não teve tempo de pensar o que era exatamente, porque outra criatura também ouvira a risada dela.

Um anão.

Antes que ele pudesse avisá-la, a elfa saiu correndo, com o anão em seu encalço. Correu logo em seguida, sentindo aquele velho e conhecido ódio dentro dele. Só que, daquela vez, ele fervia numa intensidade muito maior que antes. E quando ela caiu e não pode se levantar era sua oportunidade. O anão estava parado e distraído. Não foi difícil parti-lo ao meio.

Quando se virou para a elfa, percebeu que ela o observava de forma estranha, mas não parecia com medo. Parecia outra coisa, mas medo não era. Ela não reclamou do sangue em seu rosto, nem disse nada. Só o olhou. Ele a olhou também e gostou do que viu. De perto ela era ainda mais bonita. Tinha os lábios pequenos, vermelhos como sangue e aquilo o agradou. E decidiu que queria passar a noite com aquela elfa.

Só que ela era tão pequena, tão delicada que de repente um medo, algo que nunca conhecera, se apossou dele. A queria, mas sabia que poderia mata-la com um simples aperto no pescoço. Sentiu-se pela primeira vez grande demais, forte demais, monstruoso demais. E o olhar estranho que ela lhe lançava o deixava ainda mais confuso e desconfortável.

Mas o desejo ainda estava lá. E desejo era algo que Tewdric não continha por muito tempo.

Todavia, lembrou-se de Kayliel, seu companheiro de guilda que também era elfo sangrento, que disse certa vez que não se deve cortejar uma elfa em um campo de batalha. Então, decidiu leva-la dali. E a observou enquanto catava suas ervas. Observou, já em Luaprata, quando ela misturou coisas e fez o remédio de sua irmã. Comeu de sua comida e percebeu que jamais comera algo tão bom quanto aquilo.

E a beijara.

Foi a primeira vez que ele beijara a boca de uma fêmea. Normalmente estava interessado em outras coisas e não em beijar a boca delas. Mas daquela, ele quis. Queria provar o gosto dos lábios vermelhos como sangue. Fora a coisa mais saborosa que já experimentara.

Sua vontade de tê-la só aumentou mais ainda quando ela lhe disse não. Apesar de ter certeza que era o mais seguro para Kassyeh, soube pela expressão em seu belo rosto que não era medo. O não que lhe dera não era um não de não querer. Sim, podia sentir que ela também o queria, e se surpreendeu com isso. O desejo voltou com mais força, precisava tê-la. E iria convencê-la disso.

Mas como precisava voltar com o recado do lorde dos elfos, voltou a Orgrimmar. E tentou retornar logo em seguida pra Luaprata, mas não pode. E pela primeira vez se sentiu irado pela quantidade de designações que recebera e que o impediam de voltar a Luaprata e ter Kassyeh em sua cama. Tentou aplacar seu desejo com uma orquisa muito cobiçada e que o provocou, mas não se satisfez. E não se satisfaria até ter a pequena elfa.

Por isso estranhou quando a teve, porque não estava satisfeito. Queria mais. Queria mais dela e somente dela. Queria prendê-la a ele. Estava fascinado por Kassyeh.

Quando o sol surgiu no dia seguinte à primeira noite deles, Tewdric havia saído do quarto por algum tempo, deixando-a dormindo. Estava faminto e supôs que Kassyeh iria acordar faminta também. Foi até onde ficava a elfa que servia o café da manhã para os hóspedes, mas ela não estava. Dando de ombros, pegou uma das cestas que estava por lá, encheu de frutas e outras comidas frescas que viu pela frente e voltou para o quarto.

E Kassyeh não estava à vista.

Por um momento ficou perturbado. Tão perturbado que não conseguiu raciocinar. Onde ela estava? Fugira dele? Também o achava um monstro? A dúvida doeu mais que qualquer golpe que levara durante toda a vida.

Contudo, pouco depois ela saiu do banheiro com os cabelos molhados e vestindo um roupão de banho. Ela corou absurdamente quando o viu e Tewdric gostou daquilo e da sensação de alívio que sentiu.

– Oi. – disse Kassyeh timidamente.

– Oi. – respondeu ele se dirigindo para a mesa — Tá com fome?

– Um pouco. – Kassyeh torceu as mãos nervosamente — Mas tenho que ir embora.

Tewdric estacou no meio do caminho.

– Por quê? – perguntou confuso – Você não gostou?

Kassyeh também parecia confusa.

– Não é isso! – respondeu rapidamente – É que tem minhas irmãs e... – ela arregalou os olhos assustada – Meu vestido!

Verdade seja dita, ele se sentiu um pouco culpado por ter rasgado o vestido dela. E enquanto Kassyeh pegava o que restou dele no chão, Tewdric se encaminhou até a mochila dele. De lá, tirou uma camisa de linho branco, ficou satisfeito a constatar que ela estava inteira, foi até Kassyeh e entregou.

– Vista isso. Vai ficar quase um vestido em você.

Kassyeh pareceu extremamente aliviada e lhe presentou um sorriso que mexeu com o estomago do orc, mas na época ele achou que era apenas fome.

– Obrigada. – disse timidamente – Será que... Você poderia ficar de costas? – pediu.

Tewdric caiu na risada.

– Passei a noite inteira dentro de você Kass, e você ainda está com vergonha?

Ah, como adorava quando o rosto dela ficava vermelho de vergonha. Parecendo extremamente constrangida, deu as costas ao orc e deixou o roupão cair no chão.

Havia manchas roxas espalhadas na pele branca. Tewdric podia ver claramente a marca que as mãos dele deixaram por toda a extensão do corpo de Kassyeh.

Desnorteado, caminhou até ela e a virou de frente para ele. Passou os dedos nas manchas que eram ainda maiores na parte frontal do corpo. Sentiu um ódio profundo de si mesmo por tê-la machucado àquele ponto. Kassyeh provavelmente viu a expressão de desgosto em seu rosto, pois ela rapidamente começou a falar:

– Não tem problema. Eu estou bem, não está doendo!

Só que ela se encolheu de dor quando ele apertou uma das manchas, bem abaixo de seu seio.

– Por que não pediu para eu parar? – perguntou com a voz baixa e rouca.

Um momento de silêncio.

– Porque eu estava gostando. – respondeu sinceramente.

Ele a encarou. Havia verdade nos imensos olhos verdes. Sim, ela gostara. Gostara tanto que não se importava com a dor que acompanhou o prazer proporcionado. Ficou ainda mais impressionado com aquela pequena elfa. Muitas orquisas teriam dado uma surra nele depois de algo assim. Mas Kassyeh gostara.

Sem saber o que dizer, ele voltou a sua mochila e de lá tirou um frasco com um líquido vermelho. Entregou em suas mãos e ordenou:

– Beba.

Kassyeh não questionou. Tempos depois, ela lhe confessou o motivo de sua atitude naquele dia depois que bebeu a poção de cura. Quando bebeu do líquido, Kassyeh disse que sentiu a magia percorrendo seu corpo. Soltou um gemido de prazer, não apenas pelo alívio que percorria seu corpo, o livrando da dor, mas também porque aquilo era muito bom. Magia deixava seu povo inebriado, e ela sentiu-se muito mais que curada. Um desejo invadiu seu corpo como uma lufada de vento.

– Ah... – o ouviu falando em meio à sua embriaguez – Muito melhor. – E sentiu as mãos fortes e calejadas percorrerem seu corpo.

De acordo com Kassyeh, naquela hora o prazer provocado pela ingestão da magia e também o desejo provocado pelas carícias recebidas a fez se jogar em seus braços, beijando-o. Tewdric se surpreendeu com o avanço, mas gostou da investida. Suspendeu-a em seus braços e a encostou na parede. Não queria uma cama. Queria possui-la da forma mais rápida que pudesse. E foi o que fez. Abriu a calça e arremeteu para dentro dela, ali mesmo, em pé, com as costas dela contra a parede do quarto. Foi brutal, animal e os olhos dela pareciam brilhar de êxtase enquanto a possuía.

A manhã passou rápido demais, e logo ela tinha realmente que ir embora. Enquanto vestia a velha camisa dele, Tewdric olhou para os restos do vestido pelo chão. Não queria que fosse aquela a impressão que deixaria. Por isso, antes dela sair, foi até ela e colocou várias moedas de ouro em sua mão. Queria que ela comprasse um vestido novo.

Só que não foi isso que Kassyeh entendera. Quando o viu colocar moedas de ouro em sua mão, o rosto dela ficou muito branco e foi quando ele viu pela primeira vez que aquela pequena elfa também tinha um vulcão dentro de si. Ela atirou as moedas em seu rosto, com fúria, enquanto ele olhava sem entender.

– Seu imbecil! – gritou ela com os olhos se enchendo de lágrimas – Eu não sou nada disso!

E se dirigiu correndo para a porta.

Por sorte seus reflexos de batalha não estavam adormecidos.

– Kass! – ele conseguiu agarrar seu braço antes que ela saísse – Do que é que você ta falando?

– Eu não sou uma prostituta! – gritou e deu uma tapa na cara dele.

Doeu bem mais nela do que nele.

– E quem disse que você é? – perguntou ainda sem entender nada, vendo-a segurar o pulso da mão que batera nele.

– Você! – continuou gritando — Você acha que me entreguei a você por isso?! – e apontou as moedas no chão.

Então ele entendeu.

– Ah! – exclamou – Você acha que foi por isso que te dei as moedas? – ele negou veementemente com a cabeça – Não, não! Elas são para você comprar um vestido novo, já que eu rasguei o seu. – e admitiu — Não sabia que você ia entender errado.

A fúria dela foi embora tão rápido quanto viera. E a vergonha se espalhou novamente em seu rosto. Enquanto Tewdric recolhia as moedas, Kassyeh torceu as mãos nervosamente e pediu num fio de voz:

– Desculpe...

Colocando as moedas ao bolso, ele deu de ombros.

– Tudo bem. Acho melhor eu mesmo lhe comprar um vestido. Assim não parece errado não é?

– Não é necessário! – falou Kassyeh rapidamente. Depois, passou a mexer no cabelo, olhando para os lados, como se tivesse medo de encará-lo de novo – Não precisa... Tenho muitos vestidos...

Tewdric percebeu que ela ia de um extremo ao outro muito rápido. Adorou aquilo.

– Eu já vou... – murmurou ela olhando para a porta.

– Venha de noite. – ele disse ansioso por possui-la novamente – Estarei aqui.

Kassyeh hesitou um pouco e assentiu com a cabeça. Antes que ela saísse, ele aplicou um grande beijo nela. Depois, a viu indo embora com sua camisa branca, amarrada precariamente com o resto do cinto dela e antes que percebesse, estava sorrindo. E naquele dia comprou o vestido mais bonito e mais caro de toda Luaprata para presenteá-la.

Jamais voltou a oferecer ouro a Kassyeh, mas a partir daí lhe dera algo que nem mesmo ele sabia que tinha: seu coração.

*********************

Luxuriah sorriu satisfeita consigo mesma.

Dentro do baú estava uma armadura brilhante, uma espada reluzente e diversos objetos cheios de magia que resplandeciam quando tranco-os. Levaria um bom tempo para que Grey conseguisse achar seus pertences naquele quarto desativado da hospedaria. Até lá tinha tempo de levar Kassyeh de volta a Luaprata e depois fazer seu rastro sumir. Demoraria um bom tempo até que ele a achasse novamente.

Pagou por sua estadia, e fez questão de pagar dois dias adiantados para seu “amigo que adoecera e não podia se levantar tão cedo”. Claro que dera a ele um pequeno tranquilizante antes de cansá-lo de tanto sexo. Grey demoraria a acordar e quando o fizesse, teria que procurar suas coisas antes de ir atrás dela.

Era impressionante como ele sempre caia em seus truques.

Estava acertando as contas com a estalajadeira quando sentiu uma enorme e calejada mão em seu ombro.

– Ah, aí está você! – disse Tewdric.

Luxuriah franziu a testa para ele.

– O que é que você quer? – perguntou áspera – Espero que minha irmã esteja bem, ou então...

Tewdric começou a rir alto.

– Claro que minha Kass tá bem, vim te buscar pra ver ela. – e abrindo mais o sorriso, continuou – Tenho uma surpresa pra você.

Algo naquele sorriso incomodou Luxuriah, mas ela deu de ombros, afinal sempre alguma coisa a incomodava em Tewdric.

– Vamos então. Você leva a minha bagagem. – e jogou suas mochilas em cima do orc.

Como Tewdric não reclamou, ela lhe entregou também a nova arma que ela adquirira e que era bem pesada. Era uma arma de fogo com uma potência bem maior que seu antigo arco. A estadia em Orgrimmar não fora tão mal no final das contas.

Depois que saíram da hospedaria, Luxuriah arrastou Tewdric até um mestre de estábulo. Verificou que seu lagarto, Snow White, estava se recuperando dos ferimentos da batalha que se envolvera com a orquisa, mas ainda não estava bem para seguir uma viagem. Alisou a cabeça do animal o tranquilizando, e decidiu levar o enorme raptor cor de rosa, que ela carinhosamente chamava de Totoso. Pegara o raptor numa breve passagem próximo a Mulgore e percebeu que se dariam muito bem, pois o bicho era tão mal-humorado quanto ela própria. Tanto é que ele tentou arrancar um pedaço da perna de Tewdric tão logo pôs os olhos em cima dele.

– Que bichinho animado você tem ai hein? – comentou o orc, se divertindo enquanto escapava das presas do irritado raptor.

– Pare Totoso. – mandou Luxuriah sem muito entusiasmo – Isso ai só lhe daria dor de barriga.

– Você é tão engraçada Lulu! – e Tewdric continuou a rir.

– Já disse para não me chamar assim! – falou entre os dentes.

Tewdric fez que não tinha ouvido e continuou a caminhada, agora assoviando a melodia de uma canção de guerra dos orcs. Luxuriah meneou com a cabeça, impaciente. Por mais que desgostasse, que reclamasse, ela sabia muito bem o que sua irmã vira naquele orc, mas não queria pensar naquilo. Por isso tratou de puxar assunto com o guerreiro, assim teria motivos para ficar brava com ele.

– Para onde estamos indo? – perguntou depois que passaram para o Vale da Força.

– Para onde Kassyeh está. – disse simplesmente.

– E onde Kassyeh está? – insistiu impaciente.

– Em nossa casa. — respondeu enchendo o peito de orgulho.

Luxuriah parou de andar.

– “Nossa casa”? – repetiu como se não tivesse entendido.

Tewdric também parou.

– Sim, comprei uma casa para mim e Kassyeh. – riu satisfeito consigo mesmo, ignorando a expressão horrorizada no rosto da caçadora.

– Você acha mesmo que vou deixar você enfiar minha irmã nesse buraco Tewdric?! – indagou Luxuriah alterando o tom de voz.

Tewdric deu de ombros.

– Acho. Você sabe que ela estará segura.

Uma das coisas que Luxuriah mais odiava naquele orc era a simplicidade como ele lidava com as coisas. E como aquela simplicidade às vezes era irritantemente verdadeira. Respirou fundo, procurando se acalmar e depois, para a surpresa dela própria, começou a rir.

Tewdric começou a rir também. Ficaram ambos rindo até que ele parou de repente, confuso.

– De que estamos rindo?

Luxuriah riu ainda mais.

– Ah Tewdric – disse entre as risadas – Eu realmente queria te odiar. Mas não consigo! – e riu mais um pouco.

– Você não me odeia porque cuido bem de Kass. – concluiu o guerreiro simplesmente.

Parando de rir, Luxuriah suspirou.

– Você tem protegido minha irmã de uma forma mais completa que pensa. – e diante do olhar confuso do orc, ela completou – Você deu a ela o direito de escolha que eu não tive.

– Não entendo. – confessou Tewdric.

– Não precisa entender. – ela voltou a andar – Mas admito que, se eu soubesse naquele dia em que ela chegou em casa com sua camisa, que você seria mais do que uma noite de sexo para ela, eu teria interferido antes disso ter crescido a esse ponto.

Foi a vez de o guerreiro cair na risada.

– Você não teria conseguido.

Era naquelas horas que mais o odiava. Quando ele estava certo.

**************************

Luxuriah comia uma maçã, enquanto olhava a panela, preocupada. Aquilo não parecia estar ficando com uma cara muito boa. Olhou para Ash e Karen, que esperavam ansiosamente pelo almoço e decidiu que daria uma surra em Kassyeh quando ela voltasse.

Detestava a mania da irmã de sair de fininho das festas da cidade e se enfurnar na biblioteca por horas a fio. Provavelmente ela caíra no sono novamente em algum canto da biblioteca da cidade e voltaria com a cara mais limpa do mundo e cheia de livros.

– Certo. – Luxuriah deu mais uma mordida na maçã – Ash, pegue essas moedas e leve Karen para comer lá na taberna.

As meninas gritaram animadas. Adoravam quando tinham permissão para comer fora de casa. Ashrial pegou as moedas e estranhou quando Luxuriah não as acompanhou.

– Não vem maninha? – perguntou.

– Não. Vou ficar em casa e arrancar o couro de Kass quando ela chegar. – vociferou jogando o resto da maçã no lixo – Agora vão logo!

As duas correram animadas antes que a irmã mudasse de ideia. Luxuriah suspirou, tirou a panela do fogo e jogou seu conteúdo na pia. Nem ela mesma sabia o que estava fazendo. Tinha jogado cereais e legumes ali dentro, como já vira a irmã fazendo, mas tinha a impressão que algo saíra errado. Balançou a cabeça. Era mais fácil caçar que cozinhar.

Um barulho na sala lhe chamou a atenção. Sabendo exatamente quem era única pessoa que causava destruição enquanto entrava, foi pisando forte até a sala, pronta para tomar satisfações.

Kassyeh sobressaltou-se quando a viu. O rosto dela adquiriu um tom vermelho intenso, como Luxuriah nunca viu antes. Ela parecia prestes a desmaiar.

– Bonito né? – disse a mais velha cruzando os braços – Posso saber por que demorou tanto?

Foi só então notou que Kassyeh não usava o vestido da noite passada, mas sim um vestido de linho que mais parecia uma camisa muito grande de linho. E era uma camisa de linho.

– Kassyeh... – falou franzindo a sobrancelha – O que aconteceu com seu vestido?

A mais nova abriu a boca, mas nada saiu. Luxuriah a olhava em busca de resposta, enquanto Kassyeh tentava, sem sucesso, formular uma frase.

Então, um medo descomunal se apossou da caçadora. Ela sentiu o sangue fugir do rosto, e quando viu já estava segurando com força os braços da irmã, com a voz em pânico.

– Alguém te vez mal? – gritou Luxuriah – Alguém te obrigou a alguma coisa?

Foi quando a voz de Kassyeh voltou.

– Não! Ele não me obrigou! Eu fui porque eu quis! – e engolindo em seco continuou – Não brigue comigo Lux!

Luxuriah demorou alguns segundo para perceber o que Kassyeh queria dizer. Largou os braços da irmã e percebeu que a vermelhidão no rosto da outra era vergonha por ter que admitir algo muito íntimo, e não o que ela imaginava.

Deixou que uma risada de alívio escapasse de seus lábios. Enquanto Kassyeh ainda a observava, temerosa, Luxuriah analisou as vestimentas da irmã.

– Então... Minha irmãzinha deixou de ser donzela... – havia malicia em sua voz.

Por incrível que pudesse ser, o rosto de Kassyeh ficou ainda mais vermelho e ela desviou os olhos para o chão.

– Quem foi o conquistador? – agora ela podia se dar o luxo de se divertir com a situação – Não me diga que foi aquele bardo idiota que estava te cantando semana passada.

Kassyeh negou com a cabeça.

– Menos mal. – Luxuriah sentou-se em um dos sofás e se espreguiçou – Vamos, me conte!

– Lux, é pessoal... – murmurou Kassyeh alisando a camisa como se pudesse fazer sumir as dobras.

– Ah não! – Luxuriah se levantou e começou a andar em volta da irmã – Você some com um elfo misterioso e volta com essa cara de quem fez sexo a noite toda, e que gostou disso! – Kassyeh cobriu o rosto com as mãos, mas Luxuriah só fazia rir da irmã encabulada – Vamos Kass! Sou eu, sua irmã mais velha! Me conte: quem foi o amante tão alvoroçado que rasgou seu vestido?

Kassyeh olhou para o chão mais uma vez antes de encarar a irmã, receosa.

– Eu conto. – falou por fim – Mas me prometa que não vai brigar comigo!

Luxuriah arqueou as sobrancelhas.

– Espero que não tenha sido um elfo casado Kass!

– Não, não! Ele não é casado! – Kassyeh na época não tinha muita certeza sobre o estado civil de Tewdric, mas não contou para a irmã na ocasião.

– Então, quem é? – insistiu a outra – Eu conheço? É de Luaprata?

Kassyeh respirou fundo.

– Ele não é de Luaprata... – disse pausadamente antes de completar – E também não é um elfo.

Silêncio.

– Como assim “não é um elfo”? – a outra parecia extremamente confusa.

– Eu passei a noite com um orc. – confessou por fim.

Silêncio.

Luxuriah colocou o cabelo atrás da orelha e encarou a irmã.

Silêncio.

– Um... Orc. – disse a caçadora por fim.

– Um orc. – repetiu Kassyeh.

Luxuriah pôs as mãos na cintura e andou para o lado e para o outro. Parecia estar ponderando.

– E você gostou? – inquiriu.

– Sim. – respondeu Kassyeh. E sentindo a necessidade de ser sincera com a irmã, acrescentou – Gostei muito.

– Por isso o vestido rasgado. – raciocinou a caçadora, como se as coisas finalmente fizessem sentido.

– Sim.

– E lhe deu a camisa dele para você não voltar nua para casa?

– É.

Silêncio.

Luxuriah então respirou fundo, soltou o ar e, para a surpresa de Kassyeh, deu de ombros.

– Tudo bem. Se você gostou, ta valendo.

Kassyeh virou a cabeça para o lado, estarrecida.

– Sério?! Você não vai brigar comigo, me dar um sermão e dizer que nenhum macho presta? – Kassyeh já tinha ouvido aquele sermão tantas vezes, que poderia repeti-lo de cor.

Luxuriah negou com a cabeça.

– Você fez sexo com um orc. Estranho, mas tudo bem. – e saiu em direção a cozinha fazendo um movimento com a mão, chamando a outra – Deixe isso pra lá e venha fazer algo comestível. To morrendo de fome.

Na época, não se preocupara. Afinal, que tipo de futuro poderia ter aquele relacionamento?

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– Se arrependimento matasse... – murmurou Luxuriah ao encarar a enorme casa orquisa, pintada com as cores de Luaprata.

– Então? – perguntou Tewdric animado – O que achou?

– Bizarro. – respondeu sinceramente – Por que você a deixou fazer isso com a casa?!

Tewdric deu de ombros e entrou na casa.

– Kassyeh quis fazer isso.

– Você tem que parar de mimá-la – disse a elfa sombriamente, enquanto entrava na casa.

– Olhe quem fala. – respondeu o orc antes de por as mochilas de Luxuriah no chão – Kass! Lulu tá aqui!

– Eu já disse para não me chamar assim, orc maldito!! – gritou.

Tewdric a ignorou, como sempre. Luxuriah já estava quase mandando Totoso arrancar um pedaço da bunda dele quando ouviu passos na escada. Estranhou. Kassyeh parecia vir acompanhada.

– Lux! – ouviu a voz da irmã mais nova gritar.

Eram Ashrial e Karensky. As duas desceram as escadas logo atrás de Kassyeh, e pareciam felizes e ao mesmo tempo receosas. E não foi por menos. Antes que elas pudessem pensar em dar um abraço na irmã mais velha, viram o rosto de Luxuriah assumir uma expressão assustadora e logo em seguida, começar a gritar:

– O que vocês pensam que estão fazendo aqui?! Quem deu ordens para vocês saírem de Luaprata?! Hein???

As duas elfas mais jovens se encolheram como se um chicote tivesse sido estalado em sua direção.

– Kassyeh! – a fúria de Luxuriah se direcionou a maga – Isso foi ideia sua?! Por que se foi...

– Foi minha. – interrompeu Tewdric calmamente.

Luxuriah estreitou os olhos na direção do orc.

– Tinha que ser você não é?? – sibilou – Você! É sempre você! – então ela começou a gritar – Com que direito você trás as minhas irmãs para esse fim de mundo?!

Tewdric estava tão calmo e Luxuriah tão possessa que eles poderiam trocar as raças naquele momento que as coisas fariam mais sentido.

– Luxuriah. – ele começou com a voz firme — Eu e Kassyeh somos companheiros agora, pelas leis de meu povo. Dei casa a ela. Queria que a família dela participasse disso. — e dando uma pausa, acrescentou — Vocês são minha família também.

A raiva dentro de Luxuriah murchou como um balão de ar furado por um espinho. Do ódio extremo à doce ternura. Sem que ela conseguisse controlar, as lágrimas brotaram de seus olhos, torrencialmente, como se sua alma começasse a chover.

Por que, ela se perguntava. Por que ele tinha que ser tão parecido com seu pai?

O choro de Luxuriah pegou todos de surpresa. As meninas, que nunca tinham visto a irmã derramar sequer uma lágrimas, caíram em prantos também. Ashrial era a mais desesperada, chorava alto, se odiando por ter ido a Orgrimmar. Kassyeh também caiu no choro, sacudindo os ombros de tanto soluçar. E foi Karensky quem, ainda que derramasse lágrimas, se aproximou da irmã e a abraçou.

– Lux, nós só queríamos estar perto de vocês. Desculpa, tá?

Luxuriah balançou a cabeça.

– Não desculpo! – disse entre lágrimas – Mas venham cá e me deem um abraço!

Não foi preciso pedir duas vezes. As irmãs se abraçaram bem apertado, como há muito tempo não faziam. Tewdric observava aquela cena sem entender porque elas pareciam felizes, mas ainda assim choravam.

– Elfos! – rosnou com um sorriso no rosto – Povo estranho!

Luxuriah levantou os olhos cheios de lágrimas para ele.

– Venha logo seu orc imundo!

E Tewdric foi. E abraçou as quatro elfas com seus braços enormes, enquanto falava consigo mesmo que jamais entenderia aquela raça, mas não podia deixar de gostar daquelas pequenas criaturas.