Herdeiros da Guerra

55 Capítulo XXXII – Juntos (Parte I)


Capítulo XXXII – Juntos

Halduron estava muito agradecido por tudo que os pandarens fizeram por ele e pelos seus companheiros e a última coisa que queria era parecer mal-agradecido. Porém, querer que os pandarens tivessem um pouco mais de senso estético não seria pedir demais, seria?

Enquanto terminava de vestir a armadura de malha que Kassyeh comprou para ele com a trocas dos objetos tirados do bote, desejava que tivesse pelo menos uma armadura sobressalente nos suprimentos para usar. Não que o que vestisse agora fosse ruim, de forma alguma: a malha era de uma excelente qualidade, feita com um material que descobrira chamar minério ferro-fantasma. Era muito bem-acabada, mas feia de doer. Era marrom com verde, e as cores definitivamente não eram bem distribuídas. Só tinha uma ombreira, que era grande e ficava enganchando no cabelo dele todo momento. Chegaram a oferecer um elmo que parecia um ovo, o qual ele recusou educadamente. Ainda bem que não havia espelhos ali, pois ele definitivamente não estava pronto para se ver daquele jeito. Pelo menos estava protegido e isso o conformava.

Kassyeh e Tewdric também tinham armaduras novas, se é que podia chamar o que Kassyeh usava de armadura. O vestido da princesa seguia o mesmo modelo das roupas que os pandarens usavam e Halduron ficou com um pouquinho de inveja pelos magos terem sempre as melhores vestimentas. Em compensação, a armadura de Tewdric era muito mais feia que a de Halduron, mas, o orc que o perdoasse, combinava com a ferocidade dele.

Depois de Halduron estar plenamente recuperado e os equipamentos ficaram prontos, chegara a hora da despedida deles da vila de Sri La. Era possível ouvir o choro das crianças que, rodeando Tewdric, pediam que ele não fosse embora. O orc abraçara todos ao mesmo tempo, com seus braços grandes, e as lágrimas turvavam seus olhos azuis.

— Eu prometo que venho visitar vocês. — dizia ele repetidamente, consolando os pequenos – E ainda trarei minha Karenzita para brincar também. Então, nada de choro!

— Promete? — perguntou Yazu, chorosa – Promete que volta?

— Prometo. — falou o orc com convicção.

Ainda assim as crianças relutavam em soltá-lo. Halduron assistia a cena entristecido pelas crianças. Aqueles dias ali deixaram todos muito próximos uns aos outros.

— Acho que teremos um pequeno atraso. — comentou Kassyeh chegando perto de Halduron e com um sorriso triste – As crianças não querem deixá-lo partir.

— É compreensível. — comentou Halduron penalizado – Ele é o único que consegue brincar com elas sem cair exausto depois de meia hora.

Kassyeh deu uma risada.

— Verdade. — a elfa suspirou – Me sinto dividida por nossa saída. Feliz, pois finalmente temos noticiais da Horda e triste, porque me apeguei a esse lugar. Seria um lugar onde eu viveria.

Depois de dias procurando sinais de outras embarcações da Horda, os pescadores finalmente acharam sinais, mas não um que eles esperavam. Em contato com outras vilas, eles souberam que tanto belonaus da Horda quanto da Aliança se aproximavam do litoral. Assim que receberam a notícia sentiram medo e alegria: medo, porque aquilo significa que a guerra ia recomeçar tendo Pandaria como cenário. E alegria, porque significa entrar em contato com seus aliados e poder mandar mensagens para Luaprata.

A decisão de sair de Sri La nem precisou ser discutida: eles sabiam que precisavam ir. Não apenas para encontrar a Horda, mas porque temiam que, caso a Aliança chegasse ali, acabasse estigmatizando a vila como aliados deles, fazendo o povo que a habitava sofrer. Por isso, Kassyeh teve uma longa conversa com Mili Lúpulo Errante, para que ela ocultasse que eles estiveram ali, caso alguém da Aliança perguntasse. Para sua surpresa, a pandaren negou categoricamente.

— Não vamos mentir. Se nos perguntarem, diremos. Temos nossa liberdade de acolher quem quisermos e não nos deixaremos ser ameaçados por nenhum estrangeiro.

— Mas eles podem fazer mal a vocês de alguma forma! — argumentou Kassyeh preocupada – Não queremos que corram esse risco!

A pandarena sorriu para Kassyeh, compassiva e pegou a sua mão.

— Minha cara Kass, nós estamos acostumados a ameaças vindas do mar e da terra. — explicou calmamente – Essa terra é pacifica hoje, mas não significa que sempre foi assim. Temos perigos espreitando e estamos prontos para eles. Se essa Aliança quiser tentar a sorte conosco, que seja. Eles terão que arcar com as consequências. O mesmo serve para a Horda, caso fique irritada porque ajudamos Pietro e Pandora. — e dando duas tapinhas na mão de Kassyeh, completou – Não se preocupe conosco, apenas sigam seu caminho.

E, ainda que preocupados, seguiriam.

— Então, conseguimos as montarias? — perguntou Halduron.

Kassyeh assentiu.

— Três tartarugas. O único iaque da vila foi o que Rukiah levou. Parece que são bichinhos caros, esses iaques. — falou ela – Poderemos ir assim que as despedidas terminarem. — e olhou para o marido e as crianças chorosas.

O plano deles era ir em direção ao sul, em busca das naus da Horda. No primeiro momento seguiriam pelas estradas abertas dos pandarens, parando nas vilas em busca de informação. Depois, seguiriam por dentro da Floresta de Jade, para evitar conflitos desnecessários. Mili Lúpulo Errante lhes deram um mapa, onde marcavam as principais povoações e o nome de seus lideres, para que pudessem se informarem. Na teoria, não haveria problemas. Porém, não sabiam o impacto que chegada da Horda e da Aliança teria ali e Halduron temia que seria apenas questão de tempo para os pandarens os odiarem. Esperava que, pelo menos, em Sri La, eles tivessem causado uma impressão boa o suficiente para que não ficassem maculados com os nativos.

— Crianças! — Mili Lúpulo Errante chegou até onde os pequenos se recusavam a deixar Tewdric partir – Tewdric precisa ir!

— Nãooo!!! — gritaram elas se agarrando mais ao orc.

Se dependesse de Halduron, não haveria problema em Tewdric e Kassyeh poderiam ficar ali na vila enquanto ele iria em busca dos integrantes da Horda; a princesa não precisava se arriscar em uma nova jornada perigosa. Porém, ao sugerir aquilo, Kassyeh foi energicamente contra; chegaram juntos e partiriam juntos. E a ele coube aceitar a vontade dela.

— Eu volto, prometo. — disse Tewdric mais uma vez, agora soltando finalmente as crianças – Olhe, vou deixar uma coisa com vocês. — as crianças viram, ansiosas, ele pegar seu machado menor, o que viera com ele na vila e entregar a elas. As crianças precisaram se juntar para que conseguissem segurar – Voltarei para pegar, certo?

As crianças ficaram muito felizes, ainda que não pudessem pular de alegria segurando a arma.

— Eu guardo para vocês, crianças. — disse Mili Lúpulo Errante pegando o machado – Vamos colocá-lo em um lugar a vista, pára sempre lembrar da promessa de Tewdric, certo?

— Certo! — elas gritaram.

Finalmente, se dirigiram às três tartarugas que conseguiram. O resto foi deixado na vila, em troca daquelas três montarias. Eles agora estavam apenas com as novas roupas, suas armas e alguma comida para a viagem. Kassyeh achava que o negócio não foi tão bom para os pandarens e estava decidida a voltar ali para garantir que eles fossem ressarcidos o mais rápido possível.

— Muito obrigada por tudo. — agradeceu Kassyeh mais uma vez – E até breve, Mili. E você também vovô Liu!

O velho pandaren estava tecendo suas redes de pesca e acenou para os três, que se despediam. Estava muito feliz de poder, àquela altura da vida, ouvir histórias tão maravilhosas de além-brumas.

— Tchau vovô! — Tewdric acenou animadamente para ele – Voltarei trazendo um goró de primeira para nós!

— Vou aguardar! — falou o velho pandaren – E, se cuide, jovem Halduron, para não adoecer novamente!

Halduron, que tinha séculos de idade e, definitivamente, era mais antigo que o pandaren, apenas sorriu e acenou.

E quando eles finalmente subiram em suas tartarugas e deixaram a vila Sri La, usando o mesmo caminho que Pandora e Pietro usaram.

Tão logo os três saíram da vila, as crianças, tristes, se dispersaram. Algumas companharam Mili enquanto ela levava o machado de Tewdric para a sede da vila, mas Yasu não foi uma delas. Ela foi até o avô e se sentou, acabrunhada.

— Não queria que eles tivessem ido embora… — murmurou, chateada – Nem Pandora e Pietro…

— Eles voltarão, tenho certeza. — disse o velho pandaren, sem parar de tecer – E já que está ai sentada, por que não vai olhar no correio e vê se tem algo pro seu avô? Seu tio Mio lá das Estepes disse que me mandaria uma carta por esses dias.

— Certo, certo… — mesmo sem muita vontade, a menina se levantou e foi até a caixa do correio – Ei, vovô! Tem uma carta aqui pro senhor!

— Ótimo, traga até aqui e leia para mim.

Yasu caminhou até o avô enquanto verificava a carta e deu um imenso sorriso.

— É da Pãozinho, vovô!

— Pãozinho? — perguntou o velho pandaren um pouco confuso – Ah, Pandora! Ela ficou de me mandar uma carta me contando de como estão as coisas… Eles já chegaram no Templo de Chi-ji?

Yasu leu a carta para o avô, onde Pandora contava como estava sendo a estadia em Arboreto, que Rukiah estavam bem e mandava beijos, que Pietro estava animado porque ela treinara uma Serpente das Nuvens e montaria nela para ir a Selva de Krasarang. Perguntava também como estavam Tewdric, Kassyeh e Halduron.

— Ah, uma pena que eles já partiram! Senão, eu poderiam dizer a eles que a jovem humana se preocupa com eles. — o velho riu – Essa guerra de Aliança e Horda…. Que coisa louca! — e balançou a cabeça, dando risada, antes de pedir – Yasu, mande a resposta em nosso nome para Pandora, sim? Não quero perder o fio dessa rede ou não recupero tão cedo. — ele não desgrudara os olhos da rede em nenhum momento.

— Certo. — assentiu a menina – O que eu digo na carta?

— Agradeça a preocupação, diga que estamos felizes que eles estejam bem, mande abraços para ela, Pietro e Rukiah e avise que nossos outros convidados foram embora juntos.

— Ok, vou escrever agora.

E, levantando-se, foi pegar o pergaminho e a tinta para enviar a carta requerida pelo avô, esperando que Pandora gostasse das notícias que ela levaria.

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A entrada da Aldeia Pata’don era uma escadaria de madeira escura ladeada por inúmeras árvores carregadas de flores cor-de-rosa, que formavam um tapete multicor em conjunto com a grama, as cores das colinas, trazendo harmonia e paz ao ambiente. Lina hesitou por um momento, antes de subir o primeiro degrau e olhou brevemente para trás. Dava para ver o Celesfogo por trás das colinas. Todavia, a visão da imensa nau pairando no céu, longe de deixá-la segura, a fazia se sentir terrível. Para os nativos, devia ser ameaçador aquela visão tão próximo à sua casa.

— Algum problema? — perguntou Vincent vendo a hesitação de Lina.

— Você vai achar estupidez, mas acho que sei como os orcs se sentiram quando entraram em nosso mundo. Pelo menos os orcs que não beberam o sangue demoníaco. — e diante do olhar surpreso de Vincent, ela explicou – Esse povo… Eles viviam até agora tranquilos, sem saber de nossa existência. Chegamos com explosões, mortes e com armas. — ela olhou para o Celesfogo novamente – Se eu estivesse no lugar deles, não sei se nos ajudariam.

— Não estamos aqui para fazer mal a eles, Lina. Não viemos conquistar. — lembrou Vincent – Entendo sua analogia, mas são situações bem diferentes.

— São mesmo? Tenho minhas dúvidas… — ela suspirou – Eu sei que vim em busca das minhas crianças. Mas nós sabemos que há muitos outros interesses por aqui.

Vincent pensou em muitos argumentos que poderia usar para demover Lina daquele pensamento, mas achou melhor deixar para lá. Ela estava ainda muito abalada com o que viram no porto e Vincent admitia que aquilo o chocara também. Mas ele não era das forças de Ventobravo; Lina sim. Provavelmente se culpava por não ter impedido Rell Ventonegro de ordenar a matança.

— Bem, seja o que a Luz quiser. — disse Lina enquanto subia os degraus.

Quando chegaram ao topo, viram uma praça rodeada por casas de estilo exóticos, brancas com detalhes vermelhos e dourados. Não puderam prestar muita atenção nos outros detalhes porque foram rodeados por vários nativos, da mesma raça do que falara no porto com eles, com armas em punho. Contudo, não foram atacados. Os nativos apenas ficaram em formação, impedindo-os de prosseguir. Lina e Vincent levantaram as mãos, em sinal de que não atacariam.

— Não viemos atacar. — ela procurou deixar evidente aquela colocação – Queremos conversar com quem estiver na liderança da vila. Temos feridos e precisamos de ajuda.

Os defensores da vila nem se mexeram e Lina trocou olhares com Vincent. Em alguns minutos outros membros da Aliança chegariam e temia que, se os aquele povo se recuse a ajudá-los a almirante Rogers poderia ordenar o ataque a eles. Se o fizesse, Lina seria totalmente contra, mesmo que precisasse lutar com a almirante. Aquela vila era inocente e não poderia permitir que eles fossem atacados.

Entretanto, uma voz falou:

— Acalmem-se. Eu falarei com os estrangeiros.

Os guardas abriram caminho e um dos nativos, com um grande chapéu, similar ao que o do porto usava, se aproximou. Sua roupa era clara, diferente das vestes usada pelo outro. Também tinham uma barba em forma de trança e bigodes longos, caídos, que ladeavam a barba-trança. Lina esperou que ele falasse.

— Eu sou Sunke Kang, prefeito da vila de Pata’don. — ele juntou as mãos, como se fosse rezar e fez uma reverência para eles.

Lina e Vincent repetiram o gesto do nativo, acreditando ser um cumprimento deles. Como não foram repreendidos ou atacados, acreditaram ter acertado na suposição.

— Sou Lina Wood, general do exército de Ventobravo e este é o irmão Vincent, da Ordem do Punho de Prata. — falou ela, baixando as mãos, mas ainda em alerta – Não queremos conflitos, apenas ajuda.

— Ah, mas vocês querem conflito. Apenas não querem conosco. — observou o nativo, num misto de tristeza e consternação.

A verdade da frase a forma como ela foi dita deixou Lina mais entristecida do que estava antes, porque era uma verdade amarga e espinhosa.

— Eu sinto muito que seu povo tenha sido envolvido nisso, não era nossa intenção. — disse Lina com sinceridade.

— Mesmo assim, cá estamos. — ele voltou seus olhos par ao céu, para o Celesfogo por um momento e depois voltou a encarar Lina – Conversei com Taran Zhu e ele disse que não se opõe a ajudarmos vocês. Disse que há feridos. Todavia, não devemos ser envolvidos no conflito.

— Não serão. — garantiu Lina apressadamente – Eu farei o que estiver ao meu alcance para evitar que inocentes sejam prejudicados.

O prefeito os analisou por um momento e depois disse:

— Venham comigo. — e deu as costas para eles, entrando na vila.

Só então os guardas baixaram as armas e abriram caminho para que ela e Vincent passassem. Puderam ver melhor as casinhas da vila, posicionadas de forma circular, ao redor de uma pequena praça. No centro desta, uma rocha com inscrições de uma língua desconhecida e que pareciam pictogramas. Incenso queimava ao redor daquela rocha e Lina acreditou que fosse algo de cunho religioso para aquele povo. Depois da rocha, outra escadaria. A vila certamente fora construída em cima de pequenas colinas, segmentando o local. Lina se perguntou se havia alguma hierarquia entre os que moravam mais em cima e os que moravam embaixo. Na segunda etapa da vila, após a segunda escadaria, as casas eram disposta da mesma forma que embaixo. Todavia, no centro da praça, em vez de uma rocha com inscrições, havia uma fonte em forma de uma criatura, que parecia um dragão, só que com um corpo muito comprimido. Ao fundo, um imenso e imponente prédio ao lado de um moinho de água, que rodava tranquilamente. O nativo que os abordara antes estava lá, como se os esperasse.

— Lorde Taran Zhu. — falou o prefeito, se dirigindo a ele – Os estrangeiros vieram, como o senhor disse que viriam.

— Eu esperava o de pele roxa, mas vieram os de pele rosada. — disse Taran Zhu encarando Lina – Diga-me, estrangeiros, qual o nome de sua raça?

— Somos humanos. — respondeu Lina – Habitantes do reino de Ventobravo. Eu sou Lina Wood, general do exército de Ventobravo e esse é o irmão Vincent, paladino do Pacto de Prata. E vocês? Sei que a terra se chama Pandaria, ouvi você se referir a ela assim. Como vocês se denominam?

— Somos pandarens. — respondeu Taran Zhu – E eu sou Taran Zhun, lorde dos Shado-pans. E vocês estão em um local de Pandaria chamada Floresta de Jade. Um local tranquilo, antes da sua chegada.

— Lamentamos que nossa chegada tenha sido tão tumultuada, Lorde Taran Zhun. — Lina sabia que, independente da raça, as pessoas que tinham autoridade deveriam ser tratadas com respeito. E aquele pandaren era nitidamente muito influente – E queremos evitar o máximo que danos da nossa guerra afetem inocentes. A única coisa que pedimos nesse momento é um lugar para trazer nossos feridos.

— Eu não estou em posição de dizer se vocês são bem-vindos em Pata’don ou não, isso cabe ao prefeito. — disse Taran Zhu – Mas eu reitero que não tomaremos partido nessa guerra de vocês. Já avisei aos outros, aqueles que se autodenominam Horda. Espero que vocês tenham entendido o recado.

Então a Horda também estava se estabelecendo, pensou Lina. Significa que eles transitariam pela Floresta de Jade com a mesma liberdade que a Aliança e que procuraria fazer dos nativos seus aliados, tal como ela tentava fazer naquele momento. E significava que eles poderiam rastrear suas crianças antes dela.

— Entendemos e respeitaremos a vontade daqueles que decidirem se manter neutros. — garantiu Lina.

— Espero que cumpra sua palavra, general. Porque, se nosso povo for atacado, as águas voltaram a ficar vermelha e não será com o sangue dos pele verde. — ele a encarou com ferocidade.

Lina estava mais que disposta a cumprir o prometido.

— Gostaria de fazer mais uma pergunta, Lorde Taran Zhu, se assim me permitir. — pediu Lina.

Taran Zhu examinou a humana. Ele não conhecia o suficiente daquela raça, mas dava para ver que aquela fêmea era maior do que as outras que ele vira. Estava em posição de comando e ainda assim o tratava com certa reverência. Ela soube que ele era improntante e estava agindo com cautela. Esperto da parte dela. Não tentara vender sua guerra como justa, mas agora faria um pergunta. Requereria armas? Saber mais sobre a terra? O que seria? Taran Zhu estava mais interessado nas intenções por trás da pergunta do que o que seria perguntado.

— Faça sua pergunta, general. — permitiu ele – Mas não garanto que a responderei.

— Há alguns dias, bem antes de nossa chegada, uma nau de nosso povo naufragou em seu litoral. — começou ela, tentando conter a preocupação em sua voz – Dentro desse navio, havia três jovens… Jovens que me são muito queridos. Vim em busca deles. Gostaria de saber se você, ou alguém que você conheça, possa ter ouvido falar sobre eles… Estrangeiros, que chegaram antes de nós.

Taran Zhu a analisou por um momento.

— E o quão importante são esses jovens para você, general?

— Eles são minha família. — respondeu com sinceridade – São a razão pela qual estou aqui.

Taran Zhu sorriu. Então, a general não veio para ser general… Veio por sua família. Interessante, pensou ele.

— A nordeste daqui há uma vila chamada Sri La. — começou ele – A prefeita da vila me disse que acolheu estrangeiros. Não me deu nomes ou raça, apenas disse que eram pessoas que precisavam de ajuda. Se a general for lá, talvez encontre o que procura.

“E que isso a mantenha com o foco longe de uma guerra”, completou Taran Zhu em pensamento.

O rosto de Lina se iluminou de esperança e ela olhou para Vincent, sorrindo. Contudo, o paladino não estava disposto a acreditar tão rapidamente no pandaren.

— Obrigada, Lorde Taran Zhu. — Lina repetiu o cumprimento que o prefeito fizera e Taran Zhu retribuiu.

— Parece que seus aliados chegaram. — disse o pandaren olhando por cima do ombro dela – Darei o recado a eles, e espero que sejam tão receptivos aos meus avisos quanto você, general Wood.

Taran Zhu se afastou dela em direção a Rell Ventonegro, que chegara com soldados feridos e mais alguns campeões da Aliança. Vincent tocou no ombro de Lina e apontou com a cabeça um local mais privado, perto da roda d’água da vila.

— Lina, acha que é seguro seguirmos a dica desse pandaren? — perguntou, preocupado quando se afastaram.

— É a única que temos, Vin. — disse ela, pesarosa.

— Ele sequer escondeu o desgosto dele ao nos ver… — lembrou o paladino – E se estivermos a caminho de uma emboscada? Ele disse que era líder de um tal “Shado-pan”, mas não disse o que era isso…

Apesar de também estar preocupada com aquilo, Lina sabia que não havia muito o que se fazer naquele sentido.

— Entendo sua desconfiança, mas eu também entendo o lado dele. Nós somos os invasores. Nós trouxemos a guerra. Fomos nós que promovemos aquele banho de sangue no porto… — ela respirou fundo e continuou – Prefiro correr esse risco a continuar mais um dia sem fazer nada para encontrá-los…

Vincent sabia que ela estava certa e acabou por assentir.

— Então vamos ver se os pandarens podem nos vender alguns suprimentos, certo? — perguntou Vincent, antes de continuar – Vamos precisar disso antes de nos embrenharmos nessa Floresta de Jade. Um mapa também não seria ruim. E saber sobre as criaturas que podemos encontrar. Algumas dicas seriam úteis…

Lina sentiu-se grata por Vincent estar com ela. Sem ele, provavelmente já teria corrido da vila sem sequer pensar naquilo. Sim, precisavam de suprimentos e os pandarens poderiam fornecê-los. Esperava que o ouro deles fosse aceito.

— Os feridos estão chegando. — mostrou Lina – Você pode ajudá-los enquanto faço as negociações. Quero partir o mais rápido possível, de preferência antes da Almirante Rogers dar as caras.

— Em algumas horas a noite vai cair… — avisou Vincent – Podemos partir amanhã cedo. É mais seguro a fazer.

Lina hesitou.

— Veremos. Vai depender do quanto eu demore fazendo as negociações. — avisou ela.

Vincent assentiu antes de se encaminhar para onde os feridos estavam sendo levados.

Mais uma vez os olhos de Lina foram até o Celesfogo. Temia deixar a Aliança nas mãos de Crowe e Rogers. Sabia que não podia contar com o general, mas jamais imaginava ver um lado tão sanguinário na Almirante. Porém, não era hora de julgar ninguém.

Procurou pela vila até que viu um pandaren que comercializava com outro, enquanto olhavam desconfiados para os recém-chegados. Um mercador, exatamente o que precisava. Caminhou até lá, pronta para conseguir o que precisava para ir em busca de suas três crianças.

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Havia uma barricada na entrada da vila Aldeia do Mel e Luxuriah hesitou antes de adentrar o local. Junto com Snetto e Mhuu, atravessara a Floresta de Jade, ajudando os membros da Horda machucados que encontrara no caminho, além da ajuda prestada a nativos, que eles descobriram se chamarem ‘pandarens’. Esses pandarens lhe disseram que seriam bem recebidos na vila, mas, ainda assim, Luxuriah olhava para aquela barreira, desconfiada de entrar em uma emboscada.

— Acho que não haverá nenhum problema. — disse Mhuu, vendo a hesitação da amiga – Nós ajudamos os nativos, eles não tem motivos para nos atacar.

— Nossa nave caiu nas plantações deles e muitos morreram. — falou a elfa, com seriedade – Eles tem motivos para nos atacar.

— Não fomos nós quem derrubamos. — contestou Snetto – É só dizer isso a eles!

Será que aquilo era suficiente? A aeronau fora derrubado pro outros, que eram inimigos da Horda. Indiretamente era culpa deles sim. Se algo como aquilo acontecesse em Luaprata, Luxuriah receberia quem quer que entrasse na cidade à base de flechas e ódio. Quantas mães e suas crianças agora não choravam, de medo e de raiva? Quantos pais não estavam desesperados pela perda de seus filhos? Quantas famílias não foram destroçadas? Percebeu, então, que não estava com medo de entrar na vila. Estava com vergonha.

— Vamos logo. — disse ela, aproveitando o arroubo de coragem – Que a Nascente nos proteja.

Assim que os guardas viram o trio subir o caminho pavimentado em direção ao interior da vila, bloquearam a entrada com seus corpos, em postura de luta. Luxuriah percebeu que eles não tinham armas em suas mãos e ela se perguntou se eram magos ou algum tipo de guerreiro que invocavam as armas com magia. Eles não estariam tão confiantes em confrontá-los desarmados se não tivessem uma vantagem. Luxuriah olhou para Mhuu, um pedido silencioso que o tauren entendeu. Deu um passo à frente, as mãos levantadas.

— Viemos em paz, meus caros pandarens. — começou Mhuu – Precisamos de um local para nossos feridos. E podemos ajudar com os seus. Tenho poderes curativos e meu companheiro aqui também. — falou apontando para Snetto – Também procuramos o pandaren vestido de negro que apareceu para nós.

Os guardas se entreolharam e um deles saiu, entrando na vila. Momentos depois, o guarda voltou, acompanhado de um pandaren desconhecido e não aquele que os abordara anteriormente. Ele tinha uma barba espeça, grisalha, vestido com uma roupa simples, de camisa vermelha sem mangas e calça preta. O pandaren os olhou, mais curioso que com medo.

— Então, vocês são a Horda. — falou o pandaren olhando para os três – Lorde Taran Zhu disse que vocês deviam entrar, mas não me sinto tão à vontade… — ele balançou a cabeça, incrédulo – Sua luta trouxe muito destruição à nossa pequena aldeia…

Mhuu fez menção para falar, mas Luxuriah colocou a mão em seu ombro. Ele a encarou e ela fez que não com a cabeça. Depois, deu um passo a frente, ficando cara a cara com o pandaren.

— Eu sinto muito que isso tenha acontecido. — falou a elfa com sinceridade – A última coisa que queríamos era que isso acabasse assim. Todos nós sofremos com ataques às nossas casas e sabemos a dor que isso traz. Por favor, nos deixe tentar reparar.

O pandaren os analisou por mais um momento, antes de falar:

— Não negaremos ajuda aos feridos. E se vocês puderem ajudar com os nossos, seremos gratos. Por favor, entrem.

Os três os acompanharam, ainda sob os olhares desconfiados dos guardas.

Luxuriah percebeu que a Aldeia do Mel era situada em uma colina e isso a fazia ser dividida em vários segmentos, unidos por um caminho pavimentado de pedras cinzas que serpenteava em torno das casas. As casas eram belas e exóticas, a maioria ornamentada em verde, vermelho e dourado sendo esses últimos os predominantes. Aquilo lhe deu uma sensação de familiaridade, já que vermelho e dourado eram as cores oficiais dos sin’dorei.

— Eu sou o prefeito Orvalho de Mel. — disse o pandaren enquanto caminhavam – o Lorde Taran Zhu está mais a frente, caso desejem falar com ele.

— Eu sou Luxuriah Fendessol. — se apresentou a elfa – E estes são Mhuu e Snetto.

O pandaren os cumprimentou com um breve aceno de cabeça, que os outros corresponderam. Na primeira encosta da vila, onde havia duas estruturas que deviam ser usadas por comerciantes, estava o pandaren chamado Taran Zhu, que os olhou com a mesma desconfiança que o prefeito Orvalho de Mel.

— Aqui estão os estrangeiros, Lorde Taran Zhu. — falou o prefeito – Agora, vou ver como estão os feridos..

— Mhu, Snetto. — chamou Luxuriah – Podem ir ajudar os feridos. Eu resolvo aqui.

Os dois assentiram. O prefeito olhou para Taraqn Zhu, como se pedisse permissão e o pandaren deu um aceno quase imperceptível. Assim, os três se afastaram, deixando-os a sós.

— Eu esperava o de pele verde. — começou o pandaren – Ele parecia estar no comando.

— E ele está. — afirmou ela – Mas eu não vim para conquistar ou guerrear, apesar de saber que terei que lutar em algum momento.

— Então, por que veio, pele morena?

— Meu nome é Luxuriah Fendessol. — disse ela com altivez – Sou uma elfa sangrenta, uma sin’dorei, como Snetto, mesmo que a pele dele seja mais clara que a minha. — e achando que era melhor deixar tudo esclarecido, continuou – Aquele que você chamou de pele verde é um orc, General Nazgrim. E meu amigo grande com chifres é um tauren, chamado Mhuu.

Taran Zhu a encarou longamente, antes de falar:

— Você ainda não disse porque veio, elfa sangrenta.

Se fosse dois anos antes, Taran Zhu já teria sido xingado e ameaçado para não importuná-la. Luxuriah também teria dito que ela quem faria as perguntas. E por mais que fosse exatamente aquilo que, no fundo, queria fazer, sabia que não seria o caminho seguro a percorrer. Primeiro, porque estava na terra dele, onde ele conhecia os perigos e as peculiaridades. Segundo, porque ele tinha uma informação que era vital em sua busca por Kassyeh, ou pelo menos, parecia ter, pelo que falara quando tirara as coisas chamadas ‘shas’ de Nazgrim. E, terceiro, porque não sabia o seu poder. Ele era chamado de Lorde, mas duvidava que aquele título significasse a mesma coisa ali do que em Luaprata. Um lorde, entre os elfos sangrentos, era mais um título social que qualquer outra coisa. Ali, ela tinha a impressão que podia ser algo marcial. Isso porque aquele pandaren era respeitado o suficiente para o prefeito acatar seus conselhos e também por não portar arma nenhuma. Como os guardas, era possível que ele fosse capaz de resolver problemas sem precisar delas.

“O quanto ele precisa saber para me dar a informação?”, se perguntou Luxuriah, cautelosa. Não ousava mentir e perdera oportunidade, mas também não queria parecer desesperada, por mais que estivesse. Decidiu contar apenas o essencial.

— Há mais ou menos uma semana um navio da Horda naufragou nessas costas. — começou, reticente – Estamos procurando sobreviventes. Quando você tirou aquela coisa de Nazgrim, você falou que tinha sido avisado sobre nós. Quero saber se o aviso proveio de pessoas que estavam nesse navio.

— Suponho que as pessoas que estavam no navio sejam muito importantes para você. — analisou Taran zhu.

— Talvez. — disse ela, cruzando os braços – Não me entenda mal, Lorde Taran Zhu. Eu confio em você tanto quanto você confia em mim.

Os dois ficaram em silêncio, se medindo. Taran Zhu reconheceu o olhar de Luxuriah; era o olhar de quem já perdera muito e não estava disposta a perder mais. Ele reconhecia, pois sabia já encontrara gente demais com aquela mesma dor e determinação. Talvez ela visse o mesmo em seus olhos, quem sabe. E por mais que a última coisa que quisesse era tomar partido ou permitir qualquer interferência daqueles estrangeiros em Pandaria, não havia perigo em dizer de onde viera o aviso. Não havia porque ele já enviara seus melhores monges para proteger a vila. Caso aquela elfa ou qualquer um a transformasse em campo de batalha, se arrependeriam amargamente.

— Há uma vila a sudeste daqui. — começou ele — A vila de chama Sri La. A prefeita, Mili Lúpulo Errante, me enviou uma carta dizendo que acolheu náufragos e que eles falaram da possibilidade da guerra aportar em nossas praias. — e vendo a expectativa no rosto de Luxuriah, completou – Ela não informou nomes ou raça, se é isso que está se perguntando. Mas aviso: não tragam a guerra para essas praias, ou vocês não terão apenas essa tal de “Aliança” para se preocupar.

Luxuriah sabia que o navio de Kassyeh naufragara em um conflito com a Aliança; fora a última notícia que o capitão conseguira enviar antes do contato mágico ser rompido. Então naquela vila poderia ter membros da Horda ou da Aliança. Teria que arriscar.

— Obrigada pelas informações, Lorde Taran Zhu. E pelo aviso. — e fazendo uma pausa, não se conteve e falou – Duvido que o “Lorde” seja por título de nobreza. Estou certa?

Taran Zhu deu um sorriso debochado.

— Depende do que você entende por nobreza, Luxuriah Fendessol. — e apontando com a cabeça, disse – Veja, mais dos seus aliados chegam, inclusive aquele que você chamou de Nazgrim. Chegou a hora de eu dar o mesmo aviso a eles. E talvez seja a hora de você ir em busca das pessoas importantes para você. — e, sem dizer mais nada, foi em direção a Nazgrim e aos outros campeões da Horda que vieram com ele.

Fosse quem fosse aquele pandaren, a informação dele valia a pena ser verificada. Fora aquilo, não tinha nenhuma pista do paradeiro de sua irmã e dos outros; teria que arriscar. Olhou para onde Snetto e Mhuu curavam os feridos e pensou que precisariam de suprimentos e também de um mapa para achar a tal vila. Talvez o ideal fosse esperar a manhã seguinte, já que não demoraria a noite a cair. Seria bom também pesquisar brevemente com os habitantes quis os perigos que existiam além dos muros de sua vila.

— Será que a resposta seria ‘vocês’? — murmurou para si mesma.

Salem deu um pequeno rugido e ela acariciou a cabeça da pantera espiritual.

— É verdade, Salem. Nós não somos perigo para eles, mas sabemos quem são. Venha, vamos providenciar o que precisaremos nessa viagem. Snetto e Mhuu ainda demorarão curando os feridos. Espero que, com isso, esses pandarens vejam que não desejamos seu mal.

****************

Pandora adormeceu ao lado de Pietro, exausta da viagem e do estresse de presenciar uma luta que achou que ainda estava longe de aportar ali. Depois de serem quase atingidos pela queda da nau da Horda e quase não conseguirem pousar ali, tomaram um chá dado pelos pandarens que encontraram e a jovem humana se recusou a responder qualquer pergunta. Estava em choque.

Logo após se acalmarem, os irmãos se enroscaram um no outro e caíram no sono. Hope, a serpente da nuvem de Pandora, deitou-se aninhada em sua dona, como se quisesse protegê-la. Enquanto dormiam, Rukiah os observava, preocupada. Não esperava uma reação tão forte por parte de Pandora, afinal, o conflito não deveria ter sido uma surpresa para ela. Será que tinha esperança de que Pandaria fosse poupada? Tinha que esperar ela acordar para saber.

Sentada em volta da fogueira, ela observava o pandaren que os acolhera. Chen Malte do Trovão era diferente de outros pandarens que conhecera. Ao lado da sua sobrinha Li Li, estavam agitados, animados, numa euforia que ela não conseguia entender.

— Então… Rukiah, não é? — perguntou Chen Malte do Trovão e a pandarena assentiu – Você é natural da Floresta de Jade? — perguntou enquanto oferecia mais uma caneca de chá.

— Sim. — assentiu, recebendo a caneca – Nasci na Vila de Sri La e treinei no Templo da Garça Vermelha.

— Quando eu soube que as névoas haviam aberto, eu corri para vir a Pandária. — falou Chen Malte do Trovão, animado – Sempre quis ver essas terras!

Aquela frase pegou Rukiah de surpresa.

— Senhor Chen… — começou Rukiah, segurando a caneca – O senhor não nasceu em Pandaria? — era visível sua admiração.

— Nasci na Ilha Errante. — explicou o pandaren – E sai pelo mundo assim que tive idade para isso. Conheci todo o mundo lá fora… Inclusive os reinos humanos. — ele encarou ao irmãos adormecidos – Eu realmente não esperava vê-los aqui…

— Ah, tio Chen! — falou Lili revirando os olhos – Se nós conseguimos chegar, outros também conseguiriam, não é?

Chen Malte do Trovão deu uma risada.

— Tem razão, Li Li. — concordou ele antes de tomar um gole do chá – Eu fui ingênuo ao pensar que outros não chegariam a Pandaria.

— Então o senhor já sabia desse conflito? Da Horda com a Aliança? — perguntou Rukiah, sua surpresa aumentou.

— Minha cara criança… — murmurou ele – Eu ajudei a fundar a Horda.

E diante do espanto crescente de Rukiah, ele deu uma risada entristecida.

— É uma longa história… Por que não me conta primeiro a história deles? — pediu, apontando para os humanos adormecidos.

Rukiah olhou mais uma vez para Pandora e Pietro adormecidos e começou a contar a história desde quando ela e Yasu acharam os náufragos na praia até a saída dela da vila para que pudesse levar seus novos amigos para o Templo de Chi-Ji. Enquanto contava, percebeu que Chen se mostrava muito mais surpresos dos membros da Horda terem ajudado os da Aliança do que da história da guerra em si. Então era verdade do pandaren quando ele dizia que já conhecia o conflito.

— Pandária é realmente uma terra incrível! — exclamou Chen – Apenas um lugar tão vivo e pulsante poderia ter propiciado um encontro como esse que você me descreveu! E esse orc chamado Tewdric! Nossa, quero muito conhecê-lo! Você disse que ele foi resgatado pelo meu amigo Thrall?

— Sim, quando era criança. — confirmou a sacerdotisa – Ele o tem em alta conta.

— Por isso ele não atacou esses jovens. — deduziu o pandaren – Thrall sempre foi contra lutas desnecessárias e a violência contra civis. Um orc honrado que eu tenho prazer de chamar de amigo.

— Como foi sua história com a Horda, senhor Chen? — quis saber Rukiah.

— Ah, por favor, apenas Chen. — pediu ele acenando com a mão.

— Então, Chen… Como foi? — insistiu.

Chen começou a contar sobre sua busca por aventuras e quando criou uma receita de uma cerveja que precisava de ingredientes especiais e contou com a ajuda de um meio-orc chamado Rexxar, com quem fez amizade. Depois, ele conheceu Thrall e Vol’Jin, pertencente a uma raça chamada troll, que Rukiah ainda não vira, e ajudaram a defender um local chamado Durotar de um ataque de humanos. Depois disso, ele ajudou um orc chamado Drohn a se tornar um mestre cervejeiro como ele próprio.

— Também conheci uma líder da Aliança, Jaina Proudmore. Humana, como eles. — continuou Chen apontando para Pietro e Pandora – Na época, ela estava empenhada em conseguir paz entre Horda e Aliança…. — ele suspirou – Não sei se ela mantêm a mesma dedicação nos dias de hoje…

— Por que não? — quis saber Rukiah.

— Eles te contaram sobre uma cidade chamada Theramore?

Rukiah fez que não.

— É uma cidade… Era uma cidade da Aliança que foi exterminada pela Horda… — a voz dele estava carregada de tristeza – Sei que muitos lideres não apoiaram o que foi feito… Mas ainda assim foi. — ele suspirou – Gostaria de reencontrar meu amigo Vol’Jin e saber o que pensa a respeito disso. Pelo que o conheço, não deve estar nada feliz…

Rukiah realmente desejava entender melhor aquele conflito. Talvez só viessem a compreendê-lo melhor se, tal como Chen, saísse de Pandária. Porém, ser uma aventureira nunca fora sua meta na vida; gostava de ajudar as pessoas, cuidar de quem podia, tomar uma bebida com os amigos e curtir sua família. Uma vida tranquila, que sabia estar em risco com a chegada do conflito em Pandaria. Contudo, a sacerdotisa estava decidida a não tomar lados; gostara de Pandora e Pietro da mesma forma que gostara de Tewdric e Kassyeh. Permaneceria neutra na situação e pretendia intermediar as situações que pudessem surgir. Seria a coisa mais justa que poderia fazer.

— O quanto você acha que a chegada da Horda e da Aliança vai afetar nossas vidas? — perguntou ela a Chen.

— Nada será como antes. — falou ele com sinceridade.

— E não há nada que possamos fazer? — insistiu.

— Você já está fazendo. — disse ele apontando com a cabeça para Pandora e Pietro – Está ajudando quem precisa. Isso é o que importa.

As palavras de Chen ficaram martelando na mente de Rukiah por muito tempo, enquanto ela tentava adormecer deitada na grama ao lado de seus colegas de viagem. Acabou sonhando com uma cidade em chamas, que ela pensava ser Theramore, apesar de ela parecer com uma cidade pandarênica. Na cidade, podia ver seus novos amigos tanto da Horda quanto da aliança pedindo por ajuda. Quando acordou, confusa com o sonho estranho, viu Pandora já acordada, com a cabeça de Hope em seu colo e sentada ao lado de Pietro, ainda adormecido.

— Pandora. — Rukiah chamou baixinho, para não acordar Pietro.

Pandora virou a cabeça devagar, a encarou e Rukiah percebeu que a amiga, tal como ela própria, não tinha tido uma boa noite de sono.

— Vamos pegar água? — chamou a sacerdotisa, a voz ainda baixa, apontando para a chaleira.

A outra apenas assentiu com a cabeça e se levantou devagar. Hope emitiu ruídos chateados, por perder o carinho, mas logo se enroscou em Pietro e voltou a dormir. Todos os outros dormiam, exceto por Son, que vigiava. Ele acenou para elas quando se levantaram. Rukiah pegou a chaleira que estava próximo a fogueira e foi com Pandora até o riacho nas redondezas. A manhã ainda não havia nascido completamente, deixando a paisagem ainda cinzenta da madrugada que se recusava a sumir, o orvalho gotejando nas folhas das plantas. O som do riacho era o único ruído ali e alguns vaga-lumes ainda piscavam. A pandarena se abaixou e encheu a chaleira de água, depois deixou o objeto de lado e lavou o rosto, além de beber da água fresca. Pandora fez o mesmo, ainda em silêncio. Depois disso, as duas permaneceram sentadas na margem do riacho, sem fazer menção de se levantar.

— Ainda dá para chegar no templo, certo? — finalmente falou Pandora, sua voz rouca de quem acabara de acordar – Mesmo com… Mesmo com tudo… Podemos chegar, certo?

— Claro que sim! — respondeu prontamente a sacerdotisa – Teremos que fazer um desvio, o que vai tornar o caminho um pouco mais longo, mas é possível sim.

— E você, Rukiah, ainda vai nos ajudar? — quis saber a jovem humana.

A pergunta deixou Rukiah confusa.

— E por que eu não ajudaria? Depois que chegamos tão longe?

— Porque a culpa é nossa. — respondeu – A destruição… É culpa nossa.

Isso não saia da mente de Pandora desde quando viu a Floresta de Jade em chamas. Não conseguia parar de pensar que aquele povo maravilhoso, que a acolhera com tanto amor, que ajudara ela e o irmão a sobreviverem, que propiciara o momento mais estranho de sua vida, o de confraternizar com um orc, sofreria porque sua guerra chegara ali. Era tão angustiante, pois sentia como se estivesse pagando todo o bem que recebera com um terrível mal. Por isso, não se surpreenderia se Rukiah começasse a odiá-la. Não se surpreenderia se fossem deixados ali, a própria sorte. Seria o preço a pagar por serem humanos.

— Que bobagem Pãozinho! — falou a pandarena franzindo o cenho – Nada disso é culpa sua! Essa guerra já existia antes de você nascer! Por favor, não pense assim! Ou vou meter essa chaleira na sua cabeça! — ameaçou pegando a chaleira cheia de água e balançando ameaçadoramente.

Pandora não queria rir, mas acabou rindo. Não conseguira tirar o peso de seu peito, mas Rukiah o deixara mais leve.

— Venha, vamos voltar. — disse a pandarena, se levantando – Temos que comer e estudar o mapa para traçar uma nova rota.

E foi o que fizeram. Quando retornaram, todos já estavam acordados e Pietro ria com vontade de alguma piada contada por Chen Malte do Trovão. Quando viu a irmã voltando, ele rapidamente disse:

— Pãozinho, sabia que o senhor Chen conheceu a senhora Jaina Proudmore?! — exclamou surpreso – Ele também conheceu Kalimdor e os Reinos do Leste!

— Que incrível! — exclamou Pandora tentando ficar tão animada quanto o irmão – O que mais ele contou?

— Ele ajudou a fundar o CervaFest! — anunciou o menino.

— Sério? — perguntou Pandora surpresa.

— Sim, sim. — Chen respondeu, animado – Foi uma das maiores realização de minha vida! Ver todos comemorando boa bebida e boa comida, independente da facção, não tem preço!

O primeiro e único porre de Pandora foi em um CervaFest. Foi logo que começou a morar em Ventobravo e nem tinha idade para participar do festival. Mentiu na cara dura aos cervejeiros sua idade, tomou um porre e só não foi pior porque quem descobrira fora Tommy e não a vaca de sua tia. Tommy deu um jeito de cuidar dela sem chamar a atenção de Lina, o que não foi difícil, porque a então comandante vivia enfiada na Bastilha. Por sorte, seu tio entendera que Pandora aprendera a lição depois de ter uma imensa diarreia causada pelo excesso de bebida e ela não foi castigada. Depois disso, cerveja só com moderação.

— Precisa ir ao banheiro? — perguntou Pandora ao irmão.

— Na verdade, sim. — falou o menino, as bochechas ficando vermelhas. Ele evitou olhar para os outros quando respondeu aquilo.

— Vamos.

Pandora ajudou Pietro com suas necessidades e depois voltaram ao acampamento. Fizeram uma refeição leve, com chá, pão e queijo, enquanto discutiam, com o mapa de Pandaria aberto, por onde seguiriam para chegar ao Templo de Chi-Ji

— Vamos mudar totalmente nossa rota. — explicava Rukiah – Originalmente viríamos por aqui, até a aldeia Pata’don, depois entraríamos na selva de Krasarang, onde seguíramos por aqui. — ela fez um percurso no mapa com o dedo que incluía uma vila chamada Vigia de Zhu e seguia até o Cais dos Pescadores onde seu dedo parou – E era aqui nosso último ponto antes do Templo. Agora, teremos que vir daqui… — ela apontou um local no mapa do Vale dos Quatro Ventos – Descermos por aqui… — o dedo dela marcou o Refúgio da Asa da Garça e fez uma expressão de desgosto – E ficaremos aqui a noite. Depois, vamos em direção ao Templo…

— Por que você parece tão preocupada? — quis saber Pandora.

Rukiah hesitou um pouco, mas respondeu:

— Por causa dessa região aqui. — ela fez um círculo numa região que estava marcada como Ruínas de Dojan – Esse local é cheio de mogus. E eu sei que o Refúgio da Asa da Garça já foi atacado várias vezes por eles. O Cais dos Pescadores é mais distante, não correríamos esse risco.

— Não podemos apenas voar até o Cais? — questionou Pandora.

— Seria um desperdício de tempo e acabaríamos voando a noite, justamente sobre as ruínas. É um risco desnecessário. — explicou a outra.

— Quanto tempo até o Refúgio Asa da Garça? — Pandora não estava gostando das notícias, mas não havia muito o que fazer.

— Se sairmos agora, chegaremos ao anoitecer. — Rukiah olhou para o céu – É a melhor saída que temos. Não me arrisco novamente até Pata’Don. Não sabemos como estão as coisas lá.

— E os ventos? — quem perguntara fora Pietro – Ontem eles quase nos derrubaram…

— Os ventos são mais fortes a noite. — revelou Gon.

— E se voarmos mais baixo, — continuou Son – podemos demorar mais um pouco, mas evitaremos os ventos mais fortes.

— Por isso eu disse que só chegaríamos lá ao anoitecer. — revelou Rukiah enrolando o mapa – Estou contando que demoraremos mais por voarmos mais baixo. Por sorte, o Vale dos Quatro Ventos não tem tantos perigos quanto a Selva de Krasarang. Não há nenhuma fera que pode nos alcançar nas montarias.

Chen Malte do Trovão ouvia a conversa encantado com as maravilhas de Pandaria. Sentado com uma caneca na mão encarou, curioso, para o mapa nas mãos de Rukiah e pediu:

— Rukiah, posso dar uma olhada nesse mapa?

— Claro! — ela entregou o mapa a Chen – Enquanto isso nos arrumamos para partir.

O pandaren passou a estudar o mapa, ainda mais fascinado, com sua sobrinha Lili curiando por cima de seu ombro.

— Olhe só, tem uma vila aqui perto! — exclamou ele – Campos Pé do Trovão. E veja! Tem uma Cervejaria Malte do Trovão aqui no mapa, Li Li! Estamos no caminho certo!

Assim que terminaram de organizar tudo, o que foi rápido, porque eles não tiraram muitas coisas da bagagem na noite anterior, estavam prontos para partir de novo. Chen Malte do Trovão enrolou o mapa e entregou de volta a Rukiah.

— Muito obrigado! — agradeceu fazendo uma reverência – Tenham uma boa viagem!

— Se a gente ver algum humano, falaremos de vocês. — disse Li Li, solicita.

— E eu seria muito grata. — falou Pandora – Tenham uma boa viagem vocês também.

— Até mais, senhor Chen! — Pietro acenou vigorosamente – Espero que nos reencontremos!

— Igualmente! — falou o pandaren devolvendo o aceno.

E logo estavam nos céus, rumo ao seu novo destino.

*******************

O sol nem terminara de nascer quando Lina e Vincent saíram da aldeia Pata’Don. Aproveitaram as brumas da manhã e o cansaço dos membros da Aliança para saírem sem precisar dar explicações. Lina já tivera muita dor de cabeça no dia anterior quando a almirante Rogers chegara, acompanhada de Crowe e tivera que ficar ouvindo besteiras dele. Viu o momento em que o portal foi aberto para Ventobravo e ficou tentada de ir até a cidade, ver como estavam as coisas. As não. Não voltaria sem notícias de suas crianças. Por isso, caíram na estrada ainda cedo.

Os nativos haviam conseguido montarias para eles, tartarugas, que Lina colocara na conta do exército; pagava com seu salário depois. Comprou suprimentos também e se colocara em movimento assim que possível. A última coisa que queria era dar de cara com Crowe na hora da saída.

— Conseguiu o mapa? — perguntou Vincent assim que saíram da aldeia.

Lina assentiu.

— Esse local, a Floresta de Jade, é majoritariamente plana, mas há colinas mais ao norte. Por causa disso há duas localidades importantes no caminho, antes de Sri La: Coração da Serpente e Flor da Manhã. — explicou lembrando do mapa que ficara a noite toda olhando e que agora estava em suas coisas – Chegaremos hoje no Coração da Serpente, que é um local sagrado para os pandarens, parece que não chega a ser uma vila. E amanhã chegamos em Flor da Manhã. Se nada der errado, em três dias chegamos em Sri La.

— É um longo percurso. Não seria melhor fazer por ar? — perguntou o paladino.

— Pensei nisso, mas um pandaren me disseram que há muitas criaturas aqui conhecidas como serpente das nuvens. Como elas nunca viram grifos, poderia atacá-los no mesmo instante.

— Realmente é perigoso…

Continuaram a cavalgar, agora em silêncio. Além de estarem ansiosos demais para qualquer conversa, tinha que prestar atenção redobrada ao terreno e a quaisquer feras que surgissem. A coruja espectral de Lina, Hachi, voava logo acima da cabeça deles, um pouco mais a frente, avisando de qualquer perigo. Os pandarens haviam dito que bastava eles não saírem da estrada que não havia nada que pudesse ameaçá-los e Lina procurou seguir a dica a risca.

Quando o sol estava alto e eles estavam cientes que as tartarugas estavam cansadas, decidiram parar para uma breve pausa na beira da estrada. Beberam água, comeram um pouco e esperaram as tartarugas se animarem novamente. Enquanto esperavam, a coruja de Lina emitiu um piado longo e voltou rapidamente para sua dona, agitada. Os dois se entreolharam: era sinal que havia alguém por perto. Lina levantou com sua arma, se aproximou da estrada e olhou. Nada.

— Fique a posto, Vin. — disse ela sem tirar os olhos da estrada – Podemos ser…

Aconteceu muito rápido e nem Vincent nem Lina puderam agir. Um vulto saiu de dentro da mata e pulou no peito de Lina, derrubando-a no mesmo instante. Pega de surpresa, Lina deixou cair sua arma. Atordoada e sem fôlego, viu de relance Vincent pegar sua espada e se levantar antes do vulto sibilar ameaçadoramente:

— Você prometeu protegê-los!

O vislumbre do reconhecimento perpassou o rosto de Lina no instante em que o vulto virou a cabeça para o lado e pulou agilmente, se afastando a espada de Vincent que cortou o ar. Ficou então abaixado, em posição para reagir. Lina respirou fundo e levantou a mão, atraindo a atenção do paladino. Mas ele não tirava os olhos da figura misteriosa até que Lina disse, ofegante:

— Não ataque!

Vincent virou a cabeça, surpreso, e a encarou.

— Como?!

Lina se levantou com dificuldade e recuperou a arma. Depois, com a mão no peito, que ainda doía, olhou para a recém-chegada e seu um sorriso forçado.

— Olá, Rubrarosa.

A worgenin se levantou, o sol iluminando-a. Vincent tomou um susto. Não conhecera a amiga de Doroteya pessoalmente, mas já ouvira muito falar da cavaleira da morte worgenin que ajudara a esconder Theo. Imaginar tal criatura fora difícil, principalmente para um guerreiro da Luz como ele, afinal pensar em um ex-servo do Flagelo protegendo alguém por amor era… Difícil. Não sabia o que esperar, mas certamente não era aquela criatura que se erguia em plena luz do dia, numa terra onde apenas poucos conseguiram chegar.

Apesar da postura de Vincent ser claramente ofensiva, esperando apenas um movimento de Rubrarosa para atacar, a cavaleira da morte não estava interessada nele. Seus olhos estavam presos em Lina e seu rosto se contorcia de raiva.

— Você disse que ele não ia descobrir! — a voz da cavaleira da morte era gélida e distorcida, provocando um arrepio na coluna de Vincent – Você prometeu que eles ficariam seguros!

Era óbvio que Rubrarosa soubera que Greymane descobrira a respeito de Theo. Para Lina, a revolta da cavaleira da morte era mais que justa, apesar daquele problema já ter sido resolvido. Por isso, Lina respirou fundo, massageando o peito que ainda doía, antes de responder:

— Eles estão seguros.

— Greymane descobriu tudo! — rosnou a worgenin dando um passo a frente.

Vincent levantou a espada, mas Lina tocou no ombro dele e balançou a cabeça. O paladino baixou a lâmina, a contragosto.

— É verdade, ele descobriu. — afirmou, com remorso em sua voz – Mas, se você ouviu toda a história de como isso aconteceu, sabe que foi uma situação muito, muito atípica e que não podíamos prever.

Esperou Rubrarosa dizer mais alguma coisa, mas ela ficou calada. No fundo, apesar da revolta, sabia que Lina tinha razão. E porque a outra não a retrucou, Lina continuou.

— Depois que ele descobriu, fiz o que esteve ao meu alcance e Greymane não vai tomar Theo de Doroteya. — explicou – A lei está do nosso lado.

A cavaleira da morte deu uma risada sem alegria e gélida.

— Ele é um rei. A lei não chega a ele. — falou, incrédula.

— As coisas são diferentes em Ventobravo. — retrucou Lina, sentindo-se um pouco ofendida – Ele não tem todo o poder que você pensa. E ele não terá o rei Wrynn como aliado. Nem mesmo sua esposa, a rainha Mia.

Rubrarosa não estava convencida ainda. Sua raiva pulsava e ficava evidente em seus olhos. Lina sentiu o peito mais leve e respirou fundo mais uma vez, massageando novamente o local que a worgenin a atingira. Vincent continuava em guarda; baixara a espada mas não a embaiou.

— Entendo sua raiva, Rubrarosa. — continuou Lina – E, acredite, a última coisa que eu queria era que as coisas tivessem acontecido dessa forma. Mas aconteceram e remediei da melhor forma.

Fora exatamente a mesma coisa que Doroteya lhe dissera, mas Rubrarosa custava acreditar. Sabia que, caso a amiga e seu filho permanecessem em Ventobravo, correriam aquele risco. E estava certa, óbvio. Porém, Doroteya lhe implorara que não brigasse com Lina e que entendesse a situação. Rubrarosa disse que faria o possível. E conseguiu porque, por mais vontade que tivesse de rasgar a garganta de Lina, apenas lhe dera um susto.

A general estava mais surpresa com a presença de Rubrarosa do que com sua chegada agressiva. Olhou para os lados e percebeu que ela estava sozinha e sem nenhum equipamento fora sua armadura e espada.

— Você veio pelo portal de Ventobravo, certo? — perguntou e Rubrarosa assentiu – Está tudo bem com todos? Houve algum problema com Theo ou Doro relacionado a Greymane ou a delicadeza de sua chegada foi apenas um cumprimento entre velhas conhecidas? — a general se surpreendeu com a calma em sua voz.

Vincent não entendia como Lina podia estar tão calma depois do ataque que sofrera e como podia fazer piada para quem a atacara. E entendeu menos ainda quando Rubrarosa deu um sorriso de canto de boca, meio divertido e meio macabro.

— Está tudo bem por lá. — disse a worgenin – Liana é linda e seu irmão parece ser útil como pai. — a postura de Rubrarosa relaxou – Doroteya está preocupada com vocês dois. E Theo… Theo pediu pra eu vir e ajudar na busca por… — ela fez uma pausa e tentou lembrar – Como é o nome deles?

— Pietro e Pandora. — falou Lina.

— Esses mesmos. Theo pediu para eu vir, eu vim. — finalizou.

— Espere aí. — disse Vincent levantando a mãos – Você vai ficar aqui? Conosco?

Os olhos azuis e gélidos da cavaleira da morte se fixaram em Vincent pela primeira vez. Vincent sustentou o olhar e segurou a espada mais firme em sua mão. Apesar de saber que a maioria das pessoas que viraram cavaleiros da morte o fizeram contra a vontade, que eles eram tão vítimas quanto todos que morreram nas mãos do Flagelo, ainda assim, a presença de Rubrarosa o afetava.

— Guarde sua espada, servo da Luz. — disse ela friamente – Não planejo atacar vocês mas, sim, ficarei. Como eu disse, foi um pedido de Theo.

Vincent virou-se para Lina, esperando a negativa dela.

— Vin, eu sei como se sente… Principalmente porque você nasceu em Lordaeron… — ela colocou a mão em seu ombro – Eu não pensaria em pedir ajuda a ela, mas já que está aqui, não vejo porque não usar. Além do mais, ela tem o olfato melhor que o nosso. Será útil para detectar perigos por terra enquanto Hachi detecta por céu.

Por mais que entendesse o lado de Lina e soubesse que Rubrarosa poderia ser útil, Vincent ainda hesitava. Era mais forte que ele. A fé o ajudara a lidar com os traumas do passado, mas ainda não conseguira superá-los. Quantos cavaleiros da morte não enfrentara? Quantos amigos não morreram pelas mãos do Flagelo? Porém, sua consciência lhe dizia, devia aceitar a presença dela se aquilo ajudasse-os a encontrar Pandora e Pietro. E Doroteya confiava na cavaleira da morte o suficiente para lhe entregar o filho. E Theo confiava suficiente nela para pedir que ela os ajudasse. Por isso, a olhou mais uma vez, antes de assentir e guardar sua espada.

— Ótimo. — disse Lina – Não precisamos de mais estresse, não é?

Nem Vincent nem Rubrarosa responderam.

— Rubrarosa, você é mais que bem-vinda para nos acompanhar. Mas quero que lembre que eu estou no comando.

A worgenin não disse nada.

— Já descansamos demais. — continuou a general – Vamos, quero chegar em Coração da Serpente antes de anoitecer. Rubrarosa, acredito que você prefira correr sobre quatro patas, certo? — a outra assentiu brevemente – Então, vamos. Há muito caminho pela frente.

O grupo, agora com três pessoas, voltou a se mover em direção ao Coração da Serpente. Estavam subindo a estrada quando passaram por um belo portal ao estilo pandarênico e logo após havia diversas árvores com flores rosas e cheias de colmeias de mel. Rubrarosa parou no mesmo instante de correr e ficou de pé. Demorou um pouco mais de tempo para que Vincent e Lina sentisse o mesmo que a worgenin. O local era lindo, mas o mesmo vento que trouxe o cheiro do mel trouxe a fumaça e o cheiro de sangue.

— Horda? — perguntou Lina puxando a arma.

— Não. — respondeu Rubrarosa cheirando o ar – Tem cheio de… Pedra…

Vincent e Lina se entreolharam. Tinham ouvido falar sobre criaturas de pedras chamadas mogus. Desceram rapidamente das tartarugas, que prontamente se recolheram para dentro dos cascos, e avançaram pelo bosque. Diversos pandarens lutavam com monstros imensos, cinzas e que pareciam feito de pedras.

— Mogus. — falou Lina assobiando e chamando Hachi – Vamos!

Os pandarens ficaram surpresos e gratos ao verem aqueles três estrangeiros lutando aos eu lado. Com a ajuda, eles puderam rapidamente acabar com a ameaça dos mogus, principalmente ao matarem o seu líder. Depois de uma rápida batalha, os mogus foram derrotados e os pandarens ficaram extremamente agradecidos a eles.

— Por favor, aceitem isso de pagamento. — eram poucas moedas, que foram estendidas para Lina – É o nosso agradecimento.

Lina olhou ao redor. A maioria das casas tinham sido destruídas e as árvores também tinha sido afetadas. Era óbvio que era dali que os aldeões tiravam seu sustento.

— Não precisamos de pagamento, obrigada. — Lina agradeceu fazendo a reverência dos pandarens, que aprendera no dia anterior.

— Mas… Queremos agradecer! — protestou o pandaren.

— Aceito um pote de mel daqueles. — disse Lina apontando para vários potes de mel pequenos que tinham sobrevivido ao ataque.

— Ah, claro, claro! — o pandaren rapidamente pegou não um, mas dois potes de mel – E mais uma vez obrigado! Vocês salvaram o Pomar Sopro de Néctar!

Continuaram o caminho após pegarem as tartarugas, satisfeitos de terem ajudados os nativos. A batalha acabou atrasando o caminho dele e já era noite quando chegaram a uma imensa estátua de uma serpente, iguais as que viram na aldeia Pata’don.

— Deve ser a estátua que falaram. — comentou Lina.

Os pandarens haviam dito que faziam aquela estátua a cada mil anos para o renascimento da Serpente de Jade. Por mais que não entendessem exatamente o que eles queriam dizer com aquilo, mas perceberam que os nativos tinham uma profunda devoção por aquela criatura.

Não havia uma vila ali, mas resquícios de acampamentos dos trabalhadores. A maioria devia viver nas proximidades e viam apenas para trabalhar, mas havia alguns acampados nas por ali, que olharam com desconfiança quando eles chegaram.

— Falarei com eles. — avisou Vincent – Dizer que vamos apenas acampar hoje, que estamos de passagem.

— Ótimo. — concordou Lina.

E, enquanto Vincent se encaminhava aos pandarens acampados, Rubrarosa sentou-se próxima a uma pedra e Lina começou a descarregar as tendas para montá-las.

— Eu vou dividir a barraca com o Vincent e você fica com a minha. — falou Lina, pois a cavaleira da morte não tinha provisões.

— Não há necessidade. — disse ela tranquilamente – Eu não durmo.

Levou alguns instantes para Lina entender o que ela dissera e se sentiu um pouco envergonhada. Afinal, Rubrarosa tivera que lembrá-la que estava morta.

— Não precisa ficar com essa cara. — retrucou a worgenin, como se lesse os pensamentos de Lina – Você esqueceu que eu estou morta. Lasciva e Doroteya fazem o mesmo. É uma sensação boa, que vocês pensem em mim como via, apesar de eu mesma nunca esquecer que estou morta. Seu amigo também não vai esquecer. — comentou olhando para Vincent, que conversava com os pandarens.

— Vincent é de Lordaeron. — explicou Lina – Lutou contra o Flagelo tanto em sua terra quanto em Nortúndria. Acredito que é a primeira vez que ele se vê do mesmo lado que um cavaleiro da morte.

— Pelo menos ele é educado. — admitiu Rubrarosa – É uma qualidade bem rara nos dias de hoje.

— E como! — Lina fez uma pausa, antes de pedir – Pode me contar como estão as coisas em Ventobravo? Com detalhes?

Rubrarosa começou a contar desde o dia em que chegara, o dia seguinte à partida de Lina e Vincent, até quando souberam que o portal para as novas terras fora aberto. Enquanto contava, Lina armava com agilidade o acampamento, dispensando a ajuda da worgenin. Theo e Tommy continuavam babando Liana e Doroteya ao extremo, tanto que a druidesa chegava a reclamar. Com a chegada dela e de Lasciva, a elfa noturna passou a comandar a cozinha, tratando de manter todos alimentados. E Fey estava tendo muitos problemas para manter Mel animado, pois este chorava todos os dias a falta do namorado.

— Mandaram cartas para vocês. — Rubrarosa tirou de sua algibeira duas cartas e as entregou para Lina.

Uma das cartas era de Mel para Vincent e a outra era de Doroteya para Lina. Depois que Vincent voltou, ela entregou a carta a ele, que ficou muito surpreso e feliz. O acampamento foi montado e acenderam uma fogueira, permitindo que pudessem ler suas cartas. Vincent chorou a cada linha lida e depois olhou com gratidão para a cavaleira da morte.

— Obrigado… Por trazer notícias. — ele segurou a carta contra o peito – Ah, Mel… Que saudades…

Rubrarosa apenas deu de ombros, sem falar nada.

A carta de Doroteya para Lina falava muitas coisas que Rubrarosa já tinha dito, com mais detalhes e outras informações que a cavaleira da morte não dera, como a carta de dona Mariana, avisando que os visitaria em alguns dias, as visitas de Lady Cláudia e Horatio e de outras pessoas da bastilha e também de um cartão com flores de parabéns de Varian para a druidesa. Lina leu a carta, sorrindo e lembrando daqueles que aguardavam seu sucesso. Esperava não decepcionar mais ninguém.

A noite transcorreu sem imprevistos e Vincent não teve objeções de Rubrarosa ficar como guarda. Assim que amanheceu, comeram algo e levantaram acampamento. Caíram na estrada e seguiram até Flor da Manhã. O plano era pernoitar naquela vila e de lá seguir para Sri La. A viagem transcorreu sem problemas até que avistaram a vila no final da tarde. Assim que se aproximaram, uma rajada de vento soprou e Rubrarosa ficou novamente em alerta. Levantou-se de sua posição de corrida e cheirou o ar demoradamente. Lina e Vincent parara no mesmo instante.

— Mogus? — perguntou Lina preocupada.

— Dessa vez não. Eu acho…. — sua expressão ficou séria – Acho que sinto cheiro de um orc.

— Preferia os mogus… — disse a general com sinceridade.

— Consegue dizer se são muitos? — perguntou Vincent, apreensivo.

Rubrarosa cheirou o ar mais uma vez.

— Só sinto um e… — ela franziu o cenho – Elfos. Dois.

Um grupo de três, como o deles. Aquilo deixava-os em uma situação difícil. Se fossem até a vila, poderiam desencadear um conflito e envolver pessoas inocentes. Se não fossem, teriam que dar a volta na vila e passar a noite ao relento. Também poderiam arriscar viajar. Um conflito estava fora de questão, tanto para a segurança dos pandarens quanto a deles próprios. Não queria colocar vida de ninguém em risco em um combate que podia ser evitado. Viajar a noite também estava fora de questão. Por isso, só havia uma saída.

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— Vamos dar a volta e acampar após a vila. — informou Lina aos outros – Como não encontramos ninguém da Horda na nossa vinda, eles devem estar fazendo o caminho contrário ao nosso. Que eles sigam seu caminho e nós façamos o mesmo.

— Tem medo de uma derrota? — provocou Rubrarosa.

— Temo um conflito desnecessário. — rebateu com tranquilidade.

Rubrarosa não respondeu, apenas deu um sorriso de canto de boca.

— Vamos. — chamou Lina, levando-os para a direita, para que contornassem Flor da Manhã.

Enquanto arrodeavam a vila, viram muito movimento lá, com serpentes das nuvens e pipas pousando e decolando. Lina sentiu-se muito frustrada; Flor da Manhã seria um local ideal para conseguir informações sobre o paradeiro de seus sobrinhos. Continuaram andando até uma distância que acreditaram ser segura, onde montaram acampamento mais uma vez e novamente Rubrarosa ficou de guarda.

Todavia, aquela noite não foi tão tranquila quanto a anterior. Quando a madrugada estava perto de chegar ao fim, as cores da aurora dando seus primeiros sinais no horizonte, Rubrarosa foi até a tenda de Lina e a acordou. A general levou alguns instantes para entender que estava sendo acordada e estendeu a mão, pegando a arma.

— Ataque? — perguntou Lina.

— Não. Pelo menos ainda não. Mas há perigo por perto. — respondeu a outra.

Lina a encarou, franzindo a testa.

— Como assim?

— Sinto cheiro de um grupo indo em direção a Sri La. — avisou – Distante, talvez a mesma distância de Sri La que a nossa. Mas não é o grupo de ontem, apesar de eu ter sentindo dois elfos também. Só que havia um tauren com eles. Achei que fosse importante você saber.

E era. A espinha de Lina gelou com a notícia. Esse segundo grupo podia estar se dirigindo para lá para se encontrar com o primeiro grupo. E se seus sobrinhos e Anduin estivessem lá corriam o risco de serem feitos de reféns. Ela não podia deixá-los chegar antes dela. Levantou-se com um pulo e foi acordar Vincent. Explicou rapidamente a situação para ele e se prepararam para uma corrida contra o tempo.

***************

Se havia um povo mais gentil que os pandarens, Luxuriah ainda não conhecera. Durante toda sua vida sempre tivera a certeza que jamais encontraria um povo mais pacifista e disposto a ajudar os outros que os taurens, mas acabara de descobrir que estava enganada. E claro, taurens e pandarens, por suas similaridades, estavam destinados a simpatizarem um pelo outro. Fora exatamente o que presenciara na vila Aldeia do Mel. E, apesar de estar muito agradecida pela ajuda e pelas dicas que recebera de seus anfitriões, esperava sinceramente que eles parassem de puxar assunto com Mhuu e que o tauren parasse de responder para que eles pudessem sair da vila. Arrependia-se amargamente de ter concordado com o ‘café da manhã reforçado’ que lhes fora oferecido e que inocentemente aceitara. Mais um pouco e aquilo viraria almoço e não ia permitir aquilo, mesmo que quebrasse o coração de Mhuu e da bela pandarena que conversava com ele.

— Mhuu! — ela exclamou chamando sua atenção – Precisamos ir. Agora. — enfatizou.

— Você ainda nem terminou de comer! — rebateu ele olhando para o prato dela.

— Esse é meu segundo prato. Se eu comer mais uma uva eu estouro e você terá que explicar a Karen porque fui mandada de volta a Luaprata em pedaços!

Apesar de a frase ter sido dita em tom sério, o tauren deu uma risada e começou a se levantar. Conhecia sua amiga o suficiente para saber que quem corria mais perigo de estourar era ele, de uma bomba goblínica jogada por ela. Pegou a mão da pandarena, deu um beijo e prometeu que se falariam quando ele voltasse. Assim que se afastaram da mesa, ela puxou um tufo de pelo dele, fazendo-o gemer de dor.

— Ai! — reclamou ele massageando o lugar atacado – O que foi?

— Duas coisas! — disse ela mostrando dois dedos – Primeiro, estamos atrasado por causa de seu flerte. Segundo, que história é essa de você arrastando asa para as pandarenas? E Nabby?

Mhuu deu uma gargalhada e Luxuriah franziu o cenho. Snetto ficou calado, sem intenção de meter na discussão dos dois.

— Primeiro: desculpe. — pediu com sinceridade – Em minha defesa, digo que, com o que comemos, podemos cavalgar até o anoitecer, sem pausas.

Era verdade, mas Luxuriah não admitiria.

— E em segundo lugar, — ele continuou – eu e Nabby temos um relacionamento aberto. — ele abriu só braços, sorrindo – Tenho amor para todas as fêmeas.

Luxuriah revirou os olhos.

— E, explicação bônus: que fêmeas maravilhosas, as pandarenas! Que pelo brilhoso! Que rabos vistosos! E o cheirinho delas?! — ele fechou os olhos, sorrindo – É um paraíso! Não acha, Snetto?

— Não sei, senhor Mhuu. — respondeu o rapaz, sem jeito.

— O Snetto tá em um relacionamento bem fechado Mhuu. — advertiu Luxuriah – E fechado também será o punho de Lady Liadrin na sua cara se incentivar qualquer coisa envolvendo fêmeas e Snetto.

O jovem paladino ficou escarlate de vergonha e apressou o passo, em direção das tartarugas compradas que os aguardavam na entrada da vila.

— Relaxe, Lux. — pediu Mhuu tranquilo – Estamos perto de Kass, Tewdric e Halduron, tenho certeza. Podemos relaxar um pouco.

— Você pode relaxar um pouco. — falou ela – Eu vou relaxar quando minha irmã estiver na minha frente. E viva.

Mhuu não retrucou. Entendia os sentimentos de Luxuriah, mesmo acreditando que não seria um naufrágio que impediria seus amigos de ficarem vivos. Mas sabia que nada adiantava palavras: Luxuriah não pararia até achá-los. Por siso, apressou e passo, acompanhando-a. Instantes depois, saiam da Aldeia do Mel, abastecidos de suprimentos para muitos dias de viagem. Era triste deixar a Aldeia do Mel, com tudo que ocorrera, mas o fizeram.

No dia anterior, os membros da Horda haviam chegado em peso na aldeia e Luxuriah fez questão de orientar todos os elfos sangrentos que apareceram que ajudassem os pandarens no que quer que eles precisassem. O peso de lançar aquele pacífico povo em uma guerra ainda amargava na boca da elfa. Depois soubera que a maior preocupação dos aldeões era recuperar barris de cerveja e rira. Pensou que, caso Tewdric tivesse conhecido alguns pandarens, com certeza tinha se dado bem com eles e talvez até feito cerveja. Sim, Tewdric se daria muito bem ali, não por sua força, mas por sua simpatia. Esperava, de todo coração, que estivesse certa.

Durante os preparativos para a partida, Luxuriah adquiriu um mapa da Floresta de Jade e notou, frustrada, que se pudesse voar para oeste, chegaria rapidamente em Sri La, talvez em apenas metade de um dia. Porém, havia colinas altas no caminho, cheias de Serpentes das Nuvens, uma fera comum em Pandaria e que, apesar de ter sido domesticadas pelos nativos, eram muito desconfiadas com desconhecidos.

— Talvez depois de um tempo, vendo as criaturas exóticas que vocês trouxeram, elas se adaptem. — tinha dito o prefeito – Mas, agora, acho imprudente tentar um voo. Elas os atacaram na mesma hora. Em bandos.

Sendo assim, se relegara em ir por terra. Teriam que ir pelo sul, até chegar a um local chamado Coração da Serpente, rumar para oeste, passar por uma vila chamada Flor da Manhã para subir novamente para nordeste, e chegar em Sri La. Seriam quase três dias para Sri La, num arrodeio de dar nos nervos. Para piorar, soubera que, no meio do caminho, tinha um local com um nome muito peculiar, o Monte Bagarai, onde uma raça chamada hozen habitava. Eles eram muito selvagens, de acordo com os pandarens. Quando soubera disso, Nazgrim ficara animado e mandara imediatamente agentes para entrar em contato com os tais hozens, ainda no dia anterior. Luxuriah esperava que os campeões da Horda conseguissem o apoio, pois queria evitar ao máximo qualquer conflito que a atrasasse.

As montarias que conseguiram eram muito eficientes apesar de serem, bem, tartarugas. Luxuriah admitia, pelo menos para si mesma, que estava errada ao torcer o nariz quando soubera em que animais partiriam. Afinal, as tartarugas que conhecia eram lentas e pesadas. Porém, aquelas tartarugas andavam na mesma velocidade de seu falcostruz, em passinhos tão juntinhos que pareciam um trotar fofo pela estrada. E ela sacudia bem menos que os lobos dos orcs.

— Alteza. — chamou Snetto e ela o olhou – Há mais alguma vila no caminho afora a vila dos Hozens?

Luxuriah assentiu.

— Passaremos por um acampamento chamado Coração da Serpente, onde os pandarens estão construindo uma imensa estátua de jade em homenagem a um de seus protetores.

— Os Celestiais Majestosos. — falou Mhuu.

— Isso. — confirmou Luxuriah – Não é uma vila, é apenas um acampamento de trabalhadores. Não quero parar lá. Vamos direto pra Flor da Manhã. Dormimos lá amanhã e seguiremos para Sri La.

Na verdade, Luxuriah pretendia estudar bem o mapa e tentar arrumar algum desvio. Pensou que talvez os hozens, se fossem tão estranhos quando os pandarens os pintaram, tivessem trilhas por dentro das colinas que o outro povo desconhecesse e que ela poderia usar para cortar caminho. Seria uma sorte imensa se conseguisse aquilo, e duvidava muito que conseguisse, mas a ideia lhe dava esperança e esperança era algo que Luxuriah precisava.

Depois que descobriram que a força estranha que Mhuu sentira ao chegar era chamada de Sha e se manifestava através de pensamentos negativos, como acontecera com Nazgrim, Luxuriah tentava manter longe de sua mente pensamentos que pudessem ser tão negativos que se materializassem. Estava sendo uma tarefa titânica. A todo momento pensamentos de como toda aquela jornada podia ser inútil ou terminar em desastre a assaltava e se forçava em pensar em como sua filha ficaria feliz brincando ali, naquelas terras e como todos ficariam felizes quando sua família fosse reunida mais uma vez. Era exaustivo, mas tinha que fazê-lo.

A cavalgada em direção a Sri La acabou por tirar aqueles pensamentos de Luxuriah, pois ela tinha que se concentrar no caminho. Por infelicidade, o caminho era justamente aquele em que a aeronave da Horda havia caído. Ainda era possível ver o casco da imensa embarcação precariamente equilibrado em uma colina do litoral. A terra em que as tartarugas trotavam elegantemente estava preta, contaminada pelo óleo e fogo que caíra do céu no acidente. Aliado a isso, diversas ruínas, que a elfa não sabia se eram recentes ou provocadas pelo incidente. Mais uma mácula naquela terra.

Mais a frente, eles viram criaturas símias penduradas em alguns cipós e os encarando com desconfiança. Deviam ser os hozens. Porém, eles não fizeram nenhum movimento, nem agressivo nem amistoso.

— Os campeões devem ter passado por aqui. — comentou Mhuu – Ouvi falar que havia uma aglomeração da Aliança que chegou a forçar os pandarens a trabalhar. A essa altura foram rechaçados.

— Espero que sim. — falou Luxuriah trincando os dentes – Não quero perder mais tempo, mas pararia alguns minutos com prazer para abrir alguns buracos na cabeça dos humanos!

Felizmente, não houve necessidade de nenhum conflito e eles seguiram seu caminho. Quando o pôr do sol se aproximou, já tinha deixado a floresta para trás, passando para um caminho pavimentando. Ainda não tinha chegado ao Monte Bagarai, mas ó mapa de Luxuriah mostrava que não estavam longe. Decidiram para por ali mesmo, antes de chegar no povoado dos hozens, pois não sabiam a que pé andavam as negociações com estes.

A noite foi tranquila, com só três reversando para dormir, sem ataques e com o vento fresco do litoral, trazendo apenas aromas tranquilizantes. Acordaram no dia seguinte, ao nascer do sol e seguiram caminho. Em pouco tempo, encontraram hozens e membros da Horda, na entrada de uma estrada. Rapidamente o grupo parou, a elfa ansiosa por descobrir um caminho secundário que pudesse levá-la para Sri La. Logo descobriram que a Horda havia conseguido se aliar facilmente aos hozens, já que a Aliança se unira com os jinyus, inimigos daquele povo. Soubera também que Nazgrim já estava no Monte Bagarai e que até mesmo havia um prisioneiro humano com eles. Um dos importantes, ressaltou um goblin que estava lá. Luxuriah não perguntou quem era, pois em sua opinião, qualquer humano devia ser morto. E apesar de terem agora mais um entreposto da Horda, Luxuriah ficou muito feliz por terem decidido dormir longe do Monte Bagarai na noite anterior.

Os hozens fediam. Fediam e muito. Talvez nem todos fedessem tanto, mas aqueles dois que estavam ali fediam mais que a Cidade Baixa no verão. Se xingou por ter tido a ideia de perguntar àqueles dois se havia uma estrada secundária que levava a Sri La, mas só sentiu o futum quando já era tarde. E, para completar, aqueles hozens sabiam de um caminho secreto e não queria compartilhar com eles!

— Galerita galerosa quer saber caminho secretos dos hozens. — disse um dos homens-macaco – Mas hozens não pode dizer caminho secreto para galerita galerosa.

Luxuriah torcia para que, o que quer que fosse aquilo que ele dissera dela, não fosse tão ruim quanto soava, ou a Horda perderia aliados muito em breve.

— Eu não usarei esse caminho para atacar seu povo. — garantiu ela tentando se controlar – Quero apenas chegar mais rápido lá!

— Caminho é de hozens! — quem falou foi o segundo hozen – Hozens não vão dizer caminho para a galerosa!

Segurando sua vontade de pegar a cabeça daqueles dois e meter uma na outra, Luxuriah olhou para Mhuu, em súplica. O tauren riu, se adiantou e começou a falar com os hozens, dando oportunidade para Luxuriah se afastar para e respirar melhor. Snetto, discretamente, a acompanhou.

— Estamos perdendo tempo. — resmungou ela – Espero que esse caminho seja muito bom, ou não vai ter valido a pena!

Mhuu não demorou e voltou com um sorriso no rosto e o mapa em suas mãos.

— Tem um desvio à esquerda. — ele explicou mostrando o mapa – Passaremos uma escadaria e depois tem uma ponte imensa. Seguiremos por baixo dessa ponte e passaremos por trás de Flor da Manhã.

Luxuriah olhou o mapa com reprovação.

— O que diabos é essa mancha marrom no meu mapa? Espero que não seja o que estou pensando ou faço aquele macaco comer isso!

— É barro. — garantiu o tauren – Vou limpar.

— Espero. — a elfa olhou mais uma vez – Quais os perigos que tem nesse trajeto?

— Panteras, tigres, insetos gigantes e, de acordo com o Riko, uns carrapichos que grudam no pelo e coçam muito.

— Cuidado com sua bunda então. — advertiu Luxuriah, arrancando risadas de Snetto.

— Pode deixar, minha bunda estará segura. — gracejou o xamã – Podemos ir quando quiser, Lux.

A elfa assentiu e subiram nas tartarugas e seguiram o caminho indicado pelos hozens. No início, eles continuaram na mesma estrada que seguiam desde que saíram da Aldeia do Mel, até chegar em um ponto onde, à sua esquerda, havia uma grande ponte. Se bem que, grande, era forma de falar; ela era gigantesca. Ao que aprecia, ali ficava um local chamado Monastério de Tian, onde os guerreiros pandarênicos, os monges, treinavam. Haviam muitos monastérios como aquele e o mais conhecido e importante era dos Shado-Pans, cujo líder era Taran Zhu. Após avistarem a ponte, viraram à esquerda e foram em direção ao interior da Floresta de Jade, passando por baixo daquela magnífica construção. Não viram nenhum sinal de habitação, apenas a trilha quase imperceptível feita pelos hozens.

O caminho logo se mostrou perigoso, com panteras e tigres pululando a todo momento. A estratégia que decidiram executar após os primeiros ataques era simples: correr, sem olhar para trás. Sim, os hozens não mentiram: havia muito perigo e as vezes só correr não bastava. Por duas vezes Snetto foi derrubado de sua tartaruga e tivera que lutar. Porém, no final das contas, quando anoitecera já haviam passado de Flor da Manhã, que vislumbraram apenas de longe, e chegaram até uma pequena aldeia chamada Aldeia Rocha Verde, tão pequena que mal aparecia no mapa.

As notícias dos estrangeiros já haviam chegado ali, talvez pela proximidade com Sri La, e os guardas não ficaram surpresos quando eles chegaram. Os demais aldeões já haviam se recolhido, mas uma grande fogueira ainda estava acesa, provavelmente para assegurar uma boa visão aos guardas e também seu aquecimento. Aproveitando a boa recepção, Mhuu conversou com os guardas, que permitiram que eles acampassem na praça. Contudo, não montaram suas barracas; apenas estenderam seus colchonetes perto de uma fogueira feita pelos nativos e adormeceram rapidamente.

Quando os primeiros raios de sol apareceram, os três levantaram rapidamente e logo estavam na estrada para Sri La. O coração de Luxuriah batia forte no peito, tão grande era sua ansiedade de encontrar sua irmã. Rezava fervorosamente que Kassyeh estivesse lá; queria pegá-la, junto com Tewdric e Halduron e voltar para Luaprata o mais rápido possível. Estava entretida com esses pensamentos quando inesperadamente Mhuu e Snetto pararam. Luxuriah parou logo em seguida.

— O que foi? — perguntou ela, olhando para o xamã.

A expressão de Mhuu era um misto de preocupação e receio. Luxuriah seguiu o olhar dele e gelou. Um grupo da Aliança se aproximava da entrada de Sri La. A elfa sentiu um amargor descendo sua garganta e pegou seu arco.

“Que venham!”, pensou.

Nada ficaria entre ela e sua irmã.

**************

A Selva de Krasarang era mais um pântano do que uma selva propriamente dita. Era úmido, frio e enlameado. O pior local para uma pessoa numa cadeira de rodas, pensou Pandora. Por sorte, seu irmão não precisava da cadeira para se locomover pelas estradas atoladiças, pois fizeram todo o trajeto em Hope, desde a chegada no Refúgio Asa da Garça até o Templo da Garça Vermelha. E, quando finalmente chegaram, nem mesmo a imensa escadaria os desanimou.

— Uau! — exclamou Pietro admirado – É imenso!

O Templo da Garça Vermelha, ou apenas o Templo de Chi-ji, como os monges e sacerdotes chamavam, era, na verdade, um conjunto com três construções. À esquerda e à direita haviam dois imensos coretos, com escadarias, onde podiam ver diversos monges treinando, fazendo movimentos coordenados, como se fossem um só. No meio, a construção maior, o templo propriamente dito, com uma imensa porta que parecia convidá-los a entrar.

Os viajantes pararam suas serpentes das nuvens no pátio em frente à porta principal do templo, uma praça onde havia uma estátua imensa de uma garça. Não era tão grande ou fabulosa quanto a serpente de jade que estava sendo construída na Floresta de Jade, mais ainda assim era imponente. Após saltarem de suas montarias, Rukiah ajudou Pandora a colocar Pietro nas costas da irmã, enquanto a sacerdotisa se encarregava da bagagem deles.

— Se vocês aguardarem, — falou falando Rukiah – posso pedir para alguém vir ajudar com Pietro.

— Não precisa. — disse Pandora rapidamente – Posso subir com ele.

— Eu posso usar magia também. — insistiu Rukiah – Você deve estar cansada.

— Estou bem. — afirmou a jovem humana – Só estou preocupada em como seremos recebidos.

— Então não precisa se preocupar. — falou Gon, carregando a bagagem dele e a de Rukiah – O senhor Koro já está nos aguardando, não é, Rukiah?

Rukiah assentiu com a cabeça.

— Na verdade, ele está ansioso para conhecer vocês. — revelou ela – Vamos.

Da mesma forma como fora em todos os outros lugares onde chegaram, os jovens humanos chamaram a atenção, ainda que a reação ali fosse mais discreta. Os monges que faziam seus movimentos sincronizados os olharam, sincronizadamente também, antes de voltarem ao seu exercício. Um pandaren que varria as escadas, os olhou longamente antes de acenar com a cabeça. Quando terminaram de subir a escadaria, Pandora estava cansada e ofegante, mas não reclamou. Um pandaren de pelo amarronzado, barba e cabelo com um rabo de cavalo os esperava na entrada do templo. Rukiah, Gon e Son fizeram uma reverência profunda e Pandora entendeu que aquele devia ser o responsável pelo templo. Acenou com a cabeça, o mais respeitosamente que conseguiu.

— Senhor Koro, esses são Pandora e Pietro, que eu falei na carta. — disse Rukiah – Pandora, Pietro, esse é Koro Andarilho da Névoa, o monge responsável pelo Templo da Garça Vermelha.

— Sejam bem-vindos. — disse Koro Andarilho da Névoa fazendo uma breve reverência para eles – Estávamos ansiosos aguardando vossa chegada. Eu nunca vi o grande Chi-Ji tão empolgado!

— Espere. — falou Pandora sem acreditar – O Celestial Majestoso está empolgado com nossa chegada?

— E porque não estaria? — perguntou Koro, confuso – Fazia dez mil anos que Pandaria estava fechada e agora vocês chegam e o buscam com seus corações cheios de esperança. É o sinal mais auspicioso que poderíamos ter! — ele sorriu e bateu as mãos – Mas primeiro, vocês precisam descansar. Teremos todo o tempo para conversar depois.

O Templo da Garça Vermelha tinha uma estruturação diferente do que Pandora e Pietro estavam acostumados. Primeiro, descobriram que os templos dos Celestiais Majestosos não tinham cerimônias religiosos como acontecia com os templos da Luz. Eles estavam sempre abertos, para qualquer um a qualquer momento, ser atendido. E, dos celestiais, o que estava mais presente na vida das pessoas, era justamente Chi-Ji.

— A garça vermelha representa a esperança. — explicou Koro enquanto só conduzia para os alojamentos – Por isso o grande Chi-Ji é o mais acessível dos Celestiais. Ele acredita que a esperança é comum a todos e deve ser encontrada a qualquer momento.

— Tem um ditado na nossa terra. — falou Pietro animado – “A esperança é a última que morre”. Quer dizer que ela nunca nos deixa.

Koro Andarilho da Névoa deu uma risada.

— É um sábio ditado. Vou pedir para os monges copistas anotarem nos manuscritos.

Outra diferença que havia no templo era que os aposentos dos monges e dos viajantes ficavam na parte mais alta do templo, acima da copa das árvores, onde havia muita luz do sol, diferente do que acontecia nos níveis mais baixos. E era no térreo, abaixo de todos, que ficava Chi-Ji, num imenso salão dourado.

— O Grande Chi-Ji passa muito tempo percorrendo Pandaria, então acredita que os melhores lugares do templo deve ficar para aqueles que permaneçam mais tempo aqui. — explicou o pandaren quando Pandora comentou sobre aquilo.

— Ele tá aqui hoje? O Grande Chi-Ji? — perguntou Pietro, ansioso.

— Sim e não. — respondeu, antes de explicar – Ele está na selva de Krasarang, caminhando pelas praias. Deve voltar ao templo ainda hoje.

— Podemos falar com ele ainda hoje? — quis saber Pandora.

— Acredito que sim. — disse Koro para a felicidade dos irmãos – Enquanto isso, descansem. Vocês tiveram uma longa viagem, certo?

Longa e atribulada, pensou Pandora enquanto seguiam para o quarto designado para eles. Ficou feliz em saber que eles tinham uma imensa casa de banho, com direito a sauna e uma banheira de água quente, que eles chamavam de ofurô. Puderam tomar banho, relaxar, comer uma excelente comida e dormir um pouco.

Quando Pandora acordou, no final da tarde, estava mais aliviada e descansada do que estivera em semanas. Esticou-se na cama, percebendo que o sol ainda não se pusera. Pietro ainda cochilava e ela se levantou e foi até a janela. O mar azul intenso preenchia a vista, e quase não dava para distinguir onde mar e céu se separavam. De lá, também era possível ver algumas casinhas na praia ao lado e lembrou que Rukiah falara deles. Não eram grande o suficiente para serem uma vila e estarem no mapa, por isso as pessoas se referiam como povoado da garça, apenas. Era onde a família de muitos monges moravam.

Era estranho pensar que chegara em seu destino, Pandora ponderou. Imaginou se seria assim que se sentiria se, em vez de chegar em Pandaria, tivesse chegado em Exodar. Não… Seria completamente diferente. Ali, ela não apenas percorrera metade de um continente para ajudar seu irmão: conhecera uma cultura totalmente diferente, pessoas maravilhosas, e até mesmo compreendera o que estava além da guerra entre Horda e Aliança. Compreendera que havia pessoas por trás de cada uma das facções, pessoas que podiam ser maior que o ódio. E, claro, revira Halduron, no local mais inusitado, da forma mais improvável… Queria tanto saber como ele estava… Tinha esperança que, em breve, o vovô Pata serena responderia sua carta. Até lá, pensava em todas as coisas que acontecera, que a transformaram e que a fariam voltar completamente diferente para Ventobravo.

Se é que voltaria para Ventobravo.

Aquela era uma ideia que estava se esgueirando em sua mente. Amara Pandaria. A Pandaria das florestas verdejantes, povo feliz e animado, povos sem ideias preconcebidas deles. Pessoas que aceitavam ajudá-los simplesmente porque entendiam ser o certo. Um local onde ela não era apenas uma soldado sobrinha da general. Ela era Pandora, a primeira estrangeira a montar uma serpente das nuvens. A primeira estrangeira a chegar no Templo da Garça Vermelha. A humana que fizera amizade com um orc e velara um elfo. Pandora percebeu que gostava mais da pessoa que se transformara ali do que a que viera de Ventobravo.

Seria errado querer ficar para sempre naquela terra?

— Pãozinho?

Pietro acordara e vira a irmã olhando pensativa pela janela.

— Descansou bem? — perguntou Pandora sorrindo e o menino fez que sim – Então vamos, vamos procurar os outros.

Seus devaneios podiam ficar para depois.

Rukiah estava conversando animadamente com uma outra pandarena quando eles chegaram na parte de trás do templo, um pequeno jardim que terminava na floresta. As duas conversavam enquanto olhava uma estranha mesa.

— Rukiah! — chamou Pietro acenando.

— Ah, chegaram bem na hora! — disse a sacerdotisa animada – Essa é Ellia Crista de Corvo. Ellia, esses são os amigos que falei.

— Olá! — disse Ellia, simpática – É um prazer conhecê-los!

— Igualmente. — falou Pandora acenando.

— Que mesa estranha…. — comentou Pietro quando chegou mais perto.

— Não é uma mesa. É um disco de nuvem flutuante vermelha! — anunciou Ellia mostrando o disco com as duas mãos.

— É o quê? — Pandora não guardara nada depois da palavra ‘disco’.

Rukiah e Ellia riram da confusão dos irmãos.

— Foi uma ideia da Ellia para Pietro. — explicou Rukiah – Esse disco se mexe de acordo com a vontade de quem usa. Deixe-me mostrar.

A pandarena subiu agilmente no disco e passou a se mexer para cima e para baixo e também para os lados. Depois, desceu e sorriu. Pandora entendeu qual era ideia.

— Então Pietro poderia usar o disco como se fosse a cadeira de rodas, só que voadora! — exclamou ela admirada.

— Sério? — o menino se animou – Posso mesmo?

— Claro! — afirmou Rukiah – É um presente do Templo da Garça Vermelha para seus primeiros visitantes além-brumas!

Pandora teve que apertar os lábios para não começar a chorar. Era simplesmente bom demais para ser verdade. Só havia um problema e quem percebeu foi Pietro.

— Como eu vou sentar no disco? — quis saber o menino – Eu não consigo ficar firme por muito tempo. Se eu não ficar preso na cadeira, eu escorrego para fora…

— Não se preocupe, nós pensamos nisso! — Rukiah rapidamente foi até uma cesta e tirou algo que parecia um corselete de couro, só que era feito de madeira – Isso aqui pode te deixar bem firme. Venha, sente-se no disco!

Pandora levou Pietro até o disco e colocaram ele sentado. Depois, vestiram o colete de madeira no menino, que conseguiu ficar sentado ereto, apesar de fazer uma careta quando Pandora apertou as tiras ao redor do tronco dele.

— Ai, Pãozinho! — reclamou – Ficou apertado!

— Desculpa, eu queria deixar bem preso…

— Será que dá para fazê-lo sentar de pernas cruzadas? — quis saber Ellia, analisando Pandora enquanto essa ajeitava o irmão.

— Acho que sim, mas temos que ter cuidado com o inchaço.

Estavam todos absorvidos debatendo a melhor forma de ajeitar Pietro em cima do disco que não perceberam a figura que chegou e ficou observando a conversa. Era uma presença tão sutil e discreta que nem mesmo as pandarenas perceberam. Enquanto elas mexiam Pietro para um lado e para o outro, tentando ajustar o menino em cima do disco, Pandora dizendo a melhor forma e o menino apenas reclamando de vez em quando, a figura sorria, encantada com aquelas criaturas tão peculiares. E eram tão belos… Belos e exóticos. E quando finalmente o grupo percebeu que não estava sozinho, o que viram fez os quatro perderem a voz. O corselete de madeira, que estava nas mãos de Ellia, caiu no chão com um baque alto.

— Não parem por minha causa. — disse a voz calma, doce e melodiosa.

— Um humano? — perguntou Pietro chocado.

Parecia um humano, mas Pandora logo soube que não era. Os cabelos dele eram longos e de um vermelho profundo, mas não o vermelho comum que conhecia. Era um vermelho vivo, como se fosse feito de energia, como se o próprio pôr do sol estivesse deitando suas luzes nos cabelos do homem. Ele era esguio e vestia um quimono branco, com detalhes dourados e seus braços estavam escondidos nas mangas, como se estivesse de braços cruzados. Mas sua postura não era intimidadora, mas reconfortante. Os olhos eram dourados, como se fossem feito de ouro derretido. Pandora nunca vira um homem tão bonito em sua vida.

— Grande Chi-Ji. — exclamou Ellia antes de cair de joelhos, a testa no chão, em sinal de submissão.

Rukiah fez o mesmo, o que deixou Pandora sozinha, segurando Pietro para que ele não escorregasse do disco.

— Grande Chi-Ji? — Pietro olhou para o homem confuso – Achei que fosse uma garça, mas parece um humano.

Chi-Ji abriu um sorriso e se aproximou. Seus movimentos eram leves, como se flutuasse.

— Sim, sou uma garça. — disse ao chegar do lado do disco – Mas posso me mostrar de muitas formas. Vi vocês e achei-os tão maravilhosamente diferentes… Não pude resistir. — e deu um sorriso tão belo que Pandora perdeu a voz.

— É um prazer conhecê-lo, Grande Chi-ji. — disse Pietro acenando com a cabeça – Desculpe não poder fazer uma reverência ao senhor.

— O que importa é o coração, jovem Pietro. — falou suavemente – E não nada de ruim há no seu. — e olhando para as pandarenas, completou — — Levantem-se, minhas crianças. Deixe-me ver seus rostos.

As duas pandarenas rapidamente se levantaram e ficaram ao lado do disco de Pietro, encarando encantadas o celestial. Pandora ainda não conseguia falar nada. O celestial voltou-se novamente para Pietro e passando os olhos pelo corpo do menino, seu sorriso apagou-se delicadamente.

— Minha doce criança… Seu corpo não faz jus ao coração bom que bate em seu peito…

— É, eu sou doente. — disse o menino tristemente olhando para as pernas.

— Não, meu caro. — corrigiu Chi-Ji – Seu corpo está doente. Não há nada mais saudável e resplandecente que sua alma. E isso é o que você precisa para melhorar.

Foi só então que Pandora saiu de seu estupor.

— Grande Chi-Ji. — disse fazendo uma breve reverência com a cabeça – Sou Pandora, irmã de Pietro. Viemos aqui para pedir sua ajuda. Se puder fazer o Pietro melhorar… Nem que seja um pouco…

Os olhos dourados de Chi-Ji a fitaram por um momento. O coração de Pandora balançou, temendo uma negativa. Porém, o celestial nada falou. Descruzou seus braços, as mangas de seu quimono branco abrindo-se como asas enquanto ele colocava suas mãos longas, esguias e delicadas na cabeça de Pietro. Uma luz dourada saiu dos dedos de Chi-Ji, e cobriram Pietro, como ondas de luz espalhando-se por todo corpo do menino. Não durou mais que alguns segundos e logo Chi-Ji recolheu as mãos.

Pandora olhou ansiosa para o irmão. Pietro, que estava sentado com as pernas para fora do disco, olhou para as próprias pernas, mas elas continuavam imóveis.

Ainda tentando entender o que estava acontecendo, Pandora se surpreendeu ao ver as lágrimas nos olhos de seu irmão e achou que seria frustração por não poder andar, depois de tanta esperança. Mas então ele sorriu e levantou as mãos para ela, as palmas abertas. Depois, ele fechou e abriu as mãos várias vezes.

— M-meus b-braços… — balbuciou, sorrindo em meio às lágrimas – Eles t-têm força de novo! E eu to sentado! — ele colocou as mãos para cima e continuava sentado no disco, sem balançar ou escorregar – Eu consigo ficar sentado!

Pandora levou as mãos ao rosto, enquanto lágrimas escorriam abundantemente por ele. Pietro continuava a mover as mãos, os braços e até se balançar no disco, alegremente. As pernas podiam continuar imóveis, mas da cintura para cima ele estava ótimo.

— Sua doença estava bastante avançada. — explicou Chi-Ji com uma pontada de tristeza – Nem mesmo eu poderia devolver o movimento de suas pernas. Todavia, ela não avançará mais. E acredito que você não precisará mais daquilo. — e apontou o corselete de madeira que estava no chão.

Foi a vez de Pandora cair de joelhos e colocar a testa no chão, exatamente como vira as pandarenas fazer. Ela tentou dizer alguma coisa, mas apenas saiam soluços de sua boca. Queria dizer o quão agradecida estava, o quanto valera a pena tudo para chegar ali, mas não conseguia. Sentiu então uma mão cálida sem eu ombro e levantou o rosto, surpresa. Chi-Ji havia se abaixado e a segurava com delicadeza.

— Eu sei. Eu sei. — disse simplesmente.

Pandora duvidava que ele realmente soubesse, mas não importava.

Pietro ficaria bem e aquilo valia mais que qualquer coisa.

(CONTINUA...)