Herdeiros da Guerra
52 Capítulo XXX – Partida (PARTE I)
Notas iniciais
Capítulo XXX – Partida
Antes de ler o capítulo é ideal que os leitores assistam:
Aliança: https://www.youtube.com/watch?v=7M9SXMyxOKo&t=35s
Horda: https://www.youtube.com/watch?v=JgHOvaEmQb0
Fazer compras com os pais não estava na programação de Saba, mas não era algo tão ruim assim. Apesar de ter que ficar andando para cima e para baixo em Orgrimmar enquanto Grishka e Morag encomendavam coisas para a taverna, era divertido passar um tempo com os dois e, se tivesse sorte, conseguiria que eles lhe comprassem uma coisinha ou duas.
Sua ida à capital da Horda fora totalmente inesperada. No dia anterior, estava fazendo suas tarefas normalmente, quando sua mestra a interpelou e disse que tinha que ir para casa. A jovem orquisa ficara muito preocupada, pois achara que algo tinha acontecido com seus pais e desesperou-se.
— Seus pais estão bem. — Tranquilizara a velha xamã – Mas sei que você precisa ir.
Como sabia que nada adiantava discutir com sua mestra, se aprontou para ir. Antes de iniciar seu treinamento achava que os xamãs não diziam suas visões porque queriam fazer mistério, mas descobrira que não era nada disso: na maior parte do tempo nem mesmo eles sabiam o que estavam fazendo; só sabiam que tinha que fazer. Por isso, arrumara sua mochila e pegara o caminho de volta a Orgrimmar.
Grishka e Morag ficaram surpresos e muito felizes com a chegada inesperada da filha. Rapidamente, prepararam as comidinhas que ela gostava e passaram a maior parte da noite conversando enquanto atendiam os clientes. Saba também socializou com os clientes mais antigos, que a encheram de elogios, dizendo como ela estava crescida, forte e bonita. E agora, na manhã do novo dia, ela e o pai andavam a dois passos de distância de Grishka, os braços cheios de sacolas, observando a sua mãe negociar aos berros com um ogro por dois pernis inteiros de um atrodonte, um lagarto gigante dos Sertões. Depois de meia hora, tempo em que Sabá trocou olhares exasperados com o pai, tão impaciente quanto a filha, viram Grishka conseguir um preço incrível pela carne e mandar entregarem a mercadoria na taverna.
— Vamos lucrar uns trezentos por cento do que paguei pela carne! — comemorou a orquisa.
— Mãe, a senhora falou igual a um goblin. — comentou Saba segurando a risada.
Grishka olhou feio para a filha, mas seguiu seu caminho para a próxima negociação sem dizer nada. Morag se aproximou da filha e sussurrou:
— Concordo com você, minha filha. Mas se fosse eu que dissesse aquilo, levaria uma bofetada forte!
Saba e o pai deram uma risada, que se acabou no momento que a mãe os olhou, irritada. Seguiram o caminho fazendo a expressão mais neutra que conseguiam.
Além das carnes, Grishka encomendou bebidas, comprou verduras e uma quantidade surreal de temperos. Para Saba, a mãe comprou vestes e sandálias novas, pois as dela estavam ficando pequenas e apertadas. Também compraram sandálias para Shikrik, sua mestra. Grishka gostava de agradar a velha xamã. Quando terminaram as compras, voltaram para a taverna, onde Sabá ia ajudar os pais a arrumarem as compras e organizar o salão para receber os clientes o mais rápido possível, como nos velhos tempos.
Shikrik, a mestra de Saba, não lhe dissera quantos dias podia passar com os pais, então a jovem supôs que seria o mesmo tempo que normalmente ficava, três dias. Aproveitaria esse tempo em Orgrimmar para passar na casa de Kassyeh e ver se os goblins que a elfa contratou para cuidar do jardim estavam fazendo o serviço direito ou deixaram as ervas da maga morrerem mais uma vez. Também escreveria para Karen, perguntando como estavam as coisas em Luaprata e se já recebera notícias da irmã.
Estavam bem perto da taverna quando Saba viu uma movimentação grande no Castelo Grommash. Parou de andar por um momento, os braços cheios das coisas da mãe e observou. Várias pessoas se aglomeravam na porta do local e o burburinho começou a crescer nas cercanias.
— Saba! — chamou Grishka impaciente – Venha logo!
A menina se apressou, mas sentiu uma inquietação no peito. Aquela agitação não era comum, então algo teria acontecido. Kassyeh e Tewdric vieram imediatamente em sua mente. E o nevoeiro. Quando chegou a cozinha e colocou as compras de sua mãe na mesa, pediu:
— Mãe, posso ir ver o que tá acontecendo?
— Desde quando você é tão curiosa, Saba? — perguntou a mãe sem olhar para ela, desempacotando tudo.
Não era. Mas a situação era diferente por algum motivo.
— Eu só… Sei lá, estou com uma sensação estranha. — disse com sinceridade.
Sua mãe parou imediatamente o que estava fazendo e a encarou.
— De verdade? — perguntou preocupada.
— Eu não mentiria sobre isso, mãe.
Com aprendiz de xamã, as sensações e pressentimentos de Sabá eram considerados seriamente, não apenas por sua mãe e mestra, mas por qualquer orc que prezasse as tradições. Afinal, os xamãs tinham o canal aberto com os antepassados e eram suscetíveis a diversas formas de augúrios e presságios. E, por causa disso, sua mãe afirmou com a cabeça.
— Vá, mas volte e me conte se qualquer coisa anormal estiver acontecendo. — pediu – Não quero ser pega de surpresa.
Saba assentiu com a cabeça e correu para fora de casa.
Em frente ao Castelo Grommash, a multidão aumentara. Diversas pessoas, de várias raças, estavam conversando, alguns aos gritos, outros aos murmúrios, e a excitação era evidente. Saba perguntou a vários orcs o que estava acontecendo e foi prontamente ignorada por todos. Ainda ser considerada criança era péssimo nessas horas. Usou os cotovelos para empurrar o maior número de curiosos para se aproximar do quadro de aviso do castelo. Lá, conseguiu ler brevemente:
“Ordens do Chefe Guerreiro:
Todos os membros da Horda em boas condições físicas estão, por meio deste, intimados a se apresentar ao General Nazgrim em Orgrimmar. Vitórias recentes nas nossas batalhas navais contra a Aliança fortalecem nossa determinação. Apresente-se ao Castelo Grommash e auxilie a frota de invasão da Horda. Pela Horda!”
“Batalhas navais?”, perguntou-se Sabá. Não houvera nenhum navio que saíra de Orgrimmar desde… Desde o navio de Kassyeh e Tewdric. Seu peito apertou-se, pois, a viagem daqueles dois deveria ser apenas uma missão de exploração. Tentou perguntar aos guardas o que acontecera, mas nenhum deles se dignou. a falar com ela. Olhou redor, procurando ver algum conhecido que pudesse lhe dizer algo. Ficou aliviada ao ver Mhuu, o xamã da guilda de Kassyeh, que conversava com uma trollesa, que Saba reconheceu como sendo Hermenegilda. O tauren e a trollesa pareciam preocupados e isso não era um bom sinal.
— Mhuu! — exclamou a menina e correu na direção dele.
— Saba! — exclamou o tauren quando a viu – Pelos ancestrais, que bom que você está aqui!
— O que aconteceu? — perguntou sentindo o mal-estar em seu peito crescer – Que batalha naval é essa que o aviso tá falando? E por que tem tanta gente por aqui?
Mhuu e Hermenegilda se entreolharam.
— A expedição ao sul achou um continente novo. — Começou o xamã – E entraram em conflito com navios da Aliança.
— A expedição da Kass e do Ted? — perguntou.
O tauren assentiu.
— E o que aconteceu? Tem notícias deles? — a jovem temeu o que ouviria a seguir.
— O navio da Kassyeh… Sumiu. — Revelou Mhuu, confirmando os medos de Saba.
A jovem orquisa precisou de alguns segundos para processar a informação. Depois, colocou a mão no peito, ofegando.
— Como? Quando? — foi o que conseguiu dizer.
Mhuu resumiu a história: o navio de Kassyeh havia se perdido dentro de uma névoa estranha. Os demais navios que a seguiram também acabaram na névoa, que revelara uma nova terra. Agora, o Chefe Guerreiro estava convocando campeões para ir tomar essa terra nova.
— E a Kassyeh? Ele vai mandar gente pra procurar por ela e pelo Ted, não é mesmo? — perguntou ansiosa.
— O Chefe Guerreiro não falou nada sobre isso. — disse Hermenegilda, a trollesa.
A preocupação misturou-se com a raiva dentro da menina.
— Como assim?! Kass é princesa! E Ted é Campeão! Alguém precisa ir atrás deles!
Mhuu e Hermenegilda entendiam a frustração da menina, estando eles próprios frustrados com as atitudes do Chefe Guerreiro.
— Ele está preocupado em não perder a nova terra para a Aliança. — Revelou a trollesa – Acho que vai deixar a busca para os elfos.
A revolta da menina era evidente, por isso, Mhuu a pegou pelo braço gentilmente e a afastou da aglomeração.
— Saba, — começou ele com a voz baixa – eu suspeito que Garrosh nem mesmo se dignou a avisar a Luaprata o que aconteceu. Estava me organizando para mandar alguém da guilda para avisar a Lux, mas, quando vi você, pensei que talvez fosse melhor você ir.
— Eu? — surpreendeu a menina.
O tauren assentiu.
— Você é a melhor amiga de Karen. Já pensou no que vai acontecer quando ela souber que Kass e o Ted sumiram? — perguntou ele.
A preocupação de Saba se intensificou. Para Karen, Kassyeh e Tewdric era muito mais que a irmã e o cunhado. Quantas vezes a jovem rainha de Luaprata não dissera que eles eram como seus pais? E Karen quase enlouquecera quando Ted morrera na luta contra Grey. Descobrir que ambos estavam sumidos abalaria a menina de forma incalculável e qualquer um que convivesse com as princesas de Luaprata sabia daquilo.
— É capaz de Karen querer largar a coroa e sumir no mar em busca deles. — falou Saba sabendo que era exatamente aquilo que a amiga faria.
— Exatamente o que pensei. — Revelou Mhuu – Por isso é interessante que você vá. Você ajudará a Lux a lidar com a Karen. Ela ouve mais você que as irmãs.
“Foi por isso que fui mandada para cá?”, se perguntou a jovem. “Para ajudar a Karen?”. Só que não era apenas Karen. Kassyeh e Tewdric também precisavam de ajuda e o Chefe Guerreiro não se importava com eles. Nem com o Halduron. Nem com nenhuma das pessoas que estavam naquele navio. Sentindo um nó se forma na garganta, Saba sabia o que precisava ser feito.
— Vou falar com minha mãe. — disse segurando as lágrimas – E vou para Luaprata.
— Vou providenciar alguém para abrir um portal para você. — disse o tauren – Em alguns minutos estarei na taverna.
Saba assentiu e cada um tomou uma direção. Contudo, antes de entrar em casa, a jovem orquisa parou por um instante na porta, sentindo um repentino frio percorrer sua espinha. Virou-se. Por um momento, Orgrimmar tinha sumido e a névoa cobria tudo. Então, a névoa dissipou-se e a cidade estava deserta, destruída e coberta de sangue e corpos, como em seu sonho, anos atrás. Seus ouvidos latejavam, o silêncio comprimindo seus ouvidos. Tremendo, Saba fechou os olhos com força, respirou fundo e os abriu em seguida. A Orgrimmar do presente voltou, com todos seus sons. O medo tomou conta de sua alma e correu para dentro de casa. Quanto antes avisasse a mãe e fosse a Luaprata, melhor.
Podia sentir que algo grande se aproximava. E, com temor, sentia que estaria envolvida.
******************
O silêncio na sala era ensurdecedor.
Varian andava de um lado para o outro, enquanto os generais permaneciam, esperando as ordens. E não eram os únicos. A Almirante do Céu Rogers estava presente, bem como um elfo noturno chamado Rell Ventonegro, que trabalhava com a almirante. Genn Greymane sentava ereto na cadeira próxima a Varian, embora evitasse olhar para qualquer um que não fosse o rei. Até mesmo draeneis, anões e gnomos estavam lá, o que mostrava a gravidade da situação.
Lina estava sentada entre Lady Cláudia e Rell Ventonegro e o silêncio da sala estava matando-a. Ouvira a transmissão do Almirante Taylor e sua cabeça entrara em parafuso. Sempre soubera que havia a possibilidade de algo muito ruim acontecer na viagem, mas ver o perigo imaginário se tornar real a deixara sem chão. E, enquanto todos ali se preocupavam com o destino do príncipe Anduin, as preocupações de Lina era muito, muito maiores.
A mais óbvia era sim, Anduin. Amava o menino e não era apenas por ele ser filho de Varian. Anduin era uma alma boa, alguém a quem se apegara como se pertencesse a sua família e não queria que nada de mal acontecesse com ele. Todavia, havia mais duas pessoas importantes para ela naquele navio. Pandora e Pietro. E o Almirante Taylor não falara nada deles.
“Por que falaria?”, sua mente gritou. Seus sobrinhos não eram nobres, não tinham família poderosa e estavam no navio “de carona”. A obrigação de Taylor era proteger Anduin e era isso que estava fazendo. E, exceto ela, ninguém naquela sala se preocupava com Pietro e Pandora.
“Eu devia ter ido.”, pensou pela milésima vez. “Devia ter deixado para depois essas burocracias do cargo e ter viajado com os três. Se eu estivesse lá, nada disso teria acontecido!”
Seria verdade? Sozinha, não teria como vencer uma esquadra toda da Horda. Porém, protegeria as crianças. Ou, pelo menos, colocaria Anduin sob a proteção de Taylor e cuidaria dos sobrinhos. Provavelmente não funcionaria, pois Anduin quereria ir com ela também. E daí? Protegeria os três, com certeza.
Seus olhos se desviaram do vazio para Varian. O rei sentou-se finalmente e estava com as mãos apoiadas na mesa, a expressão dura em sua face. Desde que chegara ali, ele não a encarou e, apesar do aperto no coração, Lina preferia assim; não sabia se continuaria a manter-se controlada caso visse a dor nos olhos dele.
— Enviarei uma pequena força de elite para a nova terra, enquanto a 7ª Legião chega para fincar lá nossa bandeira. — Falou Varian depois que todos os convocados estavam presentes – O objetivo da expedição é óbvio: trazer meu filho de volta. Não vou tolerar erros nessa empreitada.
Ninguém falou nada e o coração de Lina acelerou. Queria ir naquele grupo.
— A almirante do Céu Rogers comandará a expedição, que deve ir no Celesfogo. – Continuou o rei – Almirante, quanto tempo para deixar tudo pronto?
— Podemos partir amanhã de manhã, meu rei. — respondeu a Almirante.
O ânimo de Lina minguou na mesma hora. Claro que Varian escolheria alguém com experiência em exploração. Rogers era uma excelente almirante, entendia de embarcações voadoras como ninguém e já liderara mais ataques à Horda do que Lina podia sequer imaginar. Era uma excelente escolha.
— A AVIN enviará agentes para descobrir todo o possível sobre a nova terra. — falou Matheus Shaw, o espião-mestre – Saberemos os perigos dela, se há povos que possam ser aliados e aqueles que possam vir a se tornar nossos inimigos.
— Eu sugiro que algum dos generais acompanhe a Almirante Rogers. — falou a vice-almirante Jes-Tereth, que estava abaixo apenas do Almirante Taylor na marinha. Lina a conhecia quando ela fora capitã do mar em Nortúndria – Demorarei a juntar os demais capitães da marinha e a 7ª Legião pode acabar presa em um combate marítimo com a Horda.
— Concordo. — falou Rogers – Aqueles cães da Horda podem descobrir sobre o príncipe e fazer de tudo para atrasar nossa busca. Precisaremos de campeões da Aliança para se infiltrar na terra desconhecida e um general que comande as forças em terra. Eu cuidarei dos céus.
— Eu irei. — disse Lina rapidamente.
Todos os olhares se voltaram para ela e pensou que talvez não devesse ter falado tão rápido. Deveria ter proposto uma votação, seria o mais sensato. Só que a preocupação por seus sobrinhos fora maior que sua cautela. Lina pigarreou.
— Digo, eu gostaria de participar da empreitada. – Estava impressionada por conseguir manter a voz calma – Se não houver objeção dos meus camaradas…
— Eu discordo. – Crowe apressou-se em dizer – A general Wood não tem experiência nenhuma fora de Ventobravo e essa missão é importante demais para ser posta em risco.
— Eu participei do assalto bem-sucedido à Nortundria. – retrucou ela – Então, tenho sim experiência fora da capital.
— Você foi como comandada, Wood. Não como comandante. Há uma grande diferença. – disse ele.
A raiva queimou dentro de Lina e não apenas porque fora Crowe a dizer aquilo, mas porque havia lógica no que ele dissera.
“Logo hoje, justo hoje, esse idiota decide usar o cérebro!”, urrou a mente de Lina.
— Pelo regimento do exército, – continuou Crowe visivelmente satisfeito – a prioridade em missões como essa é dada aos com mais tempo no cargo de general. No caso, seria Lady Cláudia, mas ela mesma pediu para ficar afastada de incursões assim, por causa dos filhos. Em segundo lugar, estou eu.
Lina continuava olhando para Crowe, a raiva fervendo dentro dela. Ao seu lado, Cláudia se remexeu, incomodada com a fala dele e Lina só pode imaginar que a outra sentia-se como ela.
— Então, o general Crowe liderará as forças terrestres e responderá à Rogers. – disse Varian, ainda sem olhar para Lina – Alguma objeção, Almirante?
— Não, senhor. – respondeu.
Mesmo que soubesse que deveria aceitar a decisão, que não podia se opor a Varian nem às leis, o coração de Lina mandava-a fazer algo. Qualquer coisa. Se não falasse nada, se não tentasse nada, explodiria.
— Majestade e colegas. – Começou e Varian finalmente a encarou. Lina desviou a vista para almirante Rogers – Sei que sou recente no cargo e que essa missão é importante demais para que erros sejam cometidos. – Ela olhou propositalmente para Crowe – Porém, eu gostaria de ir. Não me importo em não estar na liderança. Não me importo em receber ordens. Só quero, na verdade preciso, estar nessa expedição.
— Se importa se eu perguntar qual motivo da urgência, general? – perguntou Rogers.
A almirante-do-céu não estava se opondo ao pedido, apenas demonstrava curiosidade. E não era apenas Rogers. Outros encaravam Lina, interessados em saber o motivo da urgência em sua voz.
— Além da minha preocupação com o príncipe Anduin, como todos aqui presentes, meus dois sobrinhos, Pandora e Pietro estavam no navio. — Lina fez uma força tremenda para manter a voz calma — E, embora Pandora já seja soldada, Pietro é jovem e tem uma doença que o impede de andar. Quero procurar por eles também.
— Você não pode usar uma missão da Aliança para benefícios próprios, general Wood. – disse Crowe altivo.
Lina teve vontade de pular no pescoço dele e apertá-lo até desprender a cabeça do resto do corpo, mas engoliu a frustração e apenas falou:
— Por isso estou pedindo ao grupo.
Houve um instante de silêncio, onde os presentes se entreolharam. Lina não sabia o que faria caso a proibissem e ir. Era provável que simplesmente largasse tudo, o cargo de general e o que quer que fosse, e embarcasse no Celesfogo. Sim, ela seria capaz disso. O cargo que ocupava era importante, era o sonho de sua vida, mas as vidas de seus sobrinhos eram insubstituíveis. Trocaria qualquer coisa para mantê-las.
— Gostaria de fazer uma pergunta à general. — falou de repente Rell Ventonegro.
Varian fez um gesto para que ele prosseguisse. Rell virou-se na cadeira e encarou Lina.
— A general disse que seu sobrinho mais jovem tem uma doença que o impede de andar. O que fazia então na Nau Capitania?
— O príncipe Anduin concordou de levá-lo, acompanhado da irmã, para que visse o profeta Vellen. A doença de Pietro está progredindo e ele… — a voz de Lina falhou um pouco e ela teve que respirar fundo para prosseguir – E ele pode perder todo o movimento do corpo. Tínhamos a esperança que o profeta pudesse ajudar.
E não falou mais nada. Não sabia se continuaria impassível se o fizesse.
— Varian, se me permite. – Começou Greymane.
O ânimo de Lina minguou no mesmo instante. Depois do que acontecera mais cedo, tinha certeza que Greymane ficaria do lado de Crowe. Não apenas isso, se regozijaria em fazê-la sofrer. Apertou as mãos, se preparando para o pior.
— Fale, Genn. – Permitiu Varian.
Lina tocou a insígnia de general.
“Bem, foi bom enquanto o sonho durou.”, pensou, resignada.
— A Aliança existe para que possamos ajudar uns aos outros. – Continuou Greymane sem olhar para ela – Se a general pode procurar por Anduin ao mesmo tempo em que procura seus sobrinhos, não vejo por que impedi-la. Além do mais, existe a possibilidade de estarem todos juntos.
Lina não conseguiu esconder a surpresa ao ouvir aquelas palavras de Greymane e não foi a única. Varian o encarou com as sobrancelhas franzidas e depois sorriu para o amigo. Enquanto o rei demonstrava satisfação, Lina apertou os lábios, desconfiada. Greymane não mudaria de opinião sobre ela tão rápido. Deveria ser um ardil para confundi-la e fazê-la acreditar que estava do seu lado, para depois fazer algum mal a Doroteya. Não baixaria a guarda.
— Eu concordo. – falou Lady Cláudia – Se a general está disposta a ir, mesmo sem estar na liderança, para procurar sua família, acredito que não devemos nos opôr. No lugar dela, todos nessa sala faria a mesma coisa.
Lina sorriu para Cláudia, em agradecimento. Crowe, incomodado, abriu a boca para falar, mas foi cortado por Rogers.
— Eu também não me oponho. – disse a Almirante – Sei muito bem do desempenho da general Wood em Nortúndria e, mesmo que ela não esteja na liderança, sei que será de muita ajuda nas buscas.
— A preocupação da general Wood é mais que válida. – falou Rell Ventonegro – Se não pudermos ajudar uns aos outros, de que adianta nossa luta?
Crowe não falou mais nada, mas ficou visivelmente irritado com o apoio dado a Lina. Agora, dependia do aval do rei.
— Entendo a posição da general Wood e compartilho sua dor. – Varian não a olhou. Talvez também não conseguisse se manter calmo se o fizesse – Porém, temos que seguir as leis. Ela poderá ir, se não se opor a ficar sob as ordens do general Crowe. E ambos responderão à Almirante Rogers. Se não houver oposição da general Wood, não me oporei também. – Finalizou.
Lina olhou para Crowe e viu que, depois da fala de Varian, ele sorria. Claro que ficaria feliz em estar acima dela mais uma vez. Talvez fizesse até mesmo questão de prejudicar sua busca. Porém, seu orgulho agora não era importante. O importante era seus sobrinhos.
— Não me oponho. – disse resoluta, com o olhar fixo em Crowe.
Ele não a intimidaria. Nem ele, nem ninguém.
— Então, está decidido. – falou Varian – Vamos continuar.
O resto da expedição começou a ser acertada e Lina cuidou de manter a cabeça afastada dos pensamentos sombrios que tentavam se esgueirar para dentro de sua mente. Fora difícil manter-se calma diante de tudo que sentia e, quando a reunião finalmente acabou, Lina estava no limite. Queria sair correndo, escapar dali e dos olhares de todos. Estava cansada. Deprimida. E precisava dar vasão ao que sentia.
Quando Varian deu a reunião por encerrada, foi interpelado pelo almirante Rogers para mais uma reunião. Lina levantou-se e se retirou o mais rápido que podia. Caminhou quase correndo pelos corredores, em direção à sua sala. Não sabia o que faria depois que chegasse lá, estava a caminho por puro reflexo.
— Lina! – ouviu Lady Cláudia chamá-la.
A general parou e esperou. Cláudia se apressou para alcançá-la, a preocupação estampada em sua face. A garganta de Lina apertou-se e suas emoções estavam no limite.
— Não vou perguntar como você está, porque tenho uma ideia. – disse Cláudia, compreensiva – Vim lhe dizer que você pode ir para casa que eu cuido da bastilha pelo resto do dia. Vá conversar com sua família e fazer as malas. – e sorrindo, completou – Pode contar comigo para o que for, você sabe.
Lina fechou os olhos e respirou fundo.
— Obrigada. – disse com a voz trêmula.
Para seu alívio, Cláudia não insistiu na conversa ou a atrasou. Acenou com a cabeça e se afastou. Lina então foi na direção da área externa da bastilha para pegar seu grifo. Tinha agora mais uma batalha pela frente: contar a sua família o que acontecera.
Seria a pior batalha que enfrentaria.
******************
Karen não esperava nada além de um dia normal. Acordaria cedo, como sempre, tomaria café com suas irmãs e faria o trabalho de rainha. Muitas e muitas reuniões chatas, cartas para responder até estar livre para, finalmente, treinar com Lady Liadrin. Aquela era a sua rotina e nada dava mostras que seria diferente.
A reunião em que estava no momento era sobre as obras em Luaprata para recuperar os prédios perdidos no ataque do Flagelo. Apesar de já fazer mais de uma década desde a invasão, muito ainda faltava para que a cidade recuperasse o antigo esplendor. Karen não lembrava como era a cidade antes, pois era um bebê quando tudo acontecera, por isso sempre recorria às irmãs para ajudá-la. Naquela manhã, contudo, Tinuviel acordara com um mal humor incomum e Luxuriah decidiu passear com ela, para acalmá-la. Ash, que também não lembrava muito da cidade, preferira treinar sua pontaria enquanto esperava a reunião acabar. Por isso, quem estava auxiliando a rainha era Lor’themar, Rommath e Vivithi, que estava substituindo Halduron. Na sala também estavam dois representantes das obras: um representando os engenheiros e outro os trabalhadores da cidade, que traziam, cada um, seus relatórios para mostrá-los. Ambos pareciam bem nervosos em falar com a rainha.
Sentada em sua mesa, Karen sorriu, acalmando-os. O representando dos engenheiros era um elfo de cabelos brancos, com uma expressão cansada, mas determinada. A representante dos trabalhadores era uma elfa de cabelos negros, com uma grande cicatriz no rosto. Estavam sentados em frente a ela, enquanto os conselheiros da rainha ficavam atrás, de pé.
— Como anda a reconstrução da Praça do Falcão? — perguntou Karen ao engenheiro.
— Depois que os ignóbeis foram controlados, a recuperação do local acelerou consideravelmente, minha rainha. — respondeu o elfo – As pessoas estão felizes por ajudarmos a recuperar suas casas.
— Depois que as casas dos cidadãos da região estiverem terminadas, podemos prosseguir para os prédios públicos. — Continuou Karen olhando um dos relatórios – As sentinelas já foram neutralizadas?
Quem respondeu foi Rommath.
— Meus magos as reiniciaram e já estão funcionando novamente. Com os resquícios da praga sendo contidos, a magia estabilizou e as sentinelas não voltarão a enlouquecer.
Karen deu um sorriso satisfeito.
— Quanto tempo para terminarmos os reparos e passar para a próxima etapa? — perguntou para a representando dos trabalhadores.
— A projeção é de três a quatro meses, minha rainha. — respondeu a elfa – Estamos todos ansiosos para trabalharmos na capital e restaurá-la.
— Eu também, mas devemos priorizar os arredores. — Karen meneou a cabeça – Não adianta o centro da cidade está lindo enquanto as pessoas das redondezas não têm nem onde morar. — ela sorriu – Estou feliz por podermos deixar nosso povo seguro e confortável.
Lor’themar observou os representantes praticamente derreterem diante do sorriso de Karen. Trocou olhares com Vivithi e sorriram. Era muito fácil para a menina colocar qualquer um em seu bolso com aquela simpatia.
— Majestade. — falou Rommath de repente – E sobre minha requisição?
O Grão-Magíster há tempos falava da necessidade de retirar as estátuas de Kael’thas de Luaprata. Lor’themar sempre respondia que não era prioridade, mas o mago andava cada vez mais insistente.
— Quando formos reformar a cidade, Rommath. — respondeu Karen – E precisamos definir o que colocaremos no lugar.
— Não vai pôr estátuas suas, majestade? — perguntou o engenheiro curioso.
A surpresa de Karen foi evidente.
— Minha? Não, não! — ela sacudiu a cabeça – Não quero estátuas minhas!
— Mas as pessoas vão querer homenagear sua rainha. — argumentou a representante dos trabalhadores – E será uma homenagem muito justa!
O elfo ao lado dela assentiu com a cabeça vigorosamente.
— Há muitos heróis e heroínas do nosso povo que merecem mais homenagens. — explicou a menina – Podemos fazer uma consulta popular para pensar em quem homenagear, mas não eu. — Karen sacudiu a cabeça – O que eu fiz de mais até agora?
— Você nos deu esperança. — disse o engenheiro com sinceridade.
O rosto de Karen ficou vermelho e a ela sorriu, sem jeito. Baixou os olhos para os papéis, antes de dizer:
— É muito cedo para pensarmos em uma homenagem como essa. — desconversou – Vamos primeiro terminar os trabalhos, não é? — ela sorriu – Visitarei as obras amanhã, certo?
A reunião terminara e Lor’themar acompanhou os representantes até a saída da torre e depois retornou. Karen suspirou e se encostou em sua cadeira quando o lorde regente pôs mais papéis a sua frente.
— Você ficaria bem numa estátua. — brincou Vivithi tentando distraí-la.
Karen sorriu e entrou na brincadeira.
— Eu sei, mas teria que ser uma bem, bem grande que desse para ver até de Quel’thalas! — riu alto – Mas prefiro não ter uma. Temos que homenagear que não está mais entre nós. – ela pensou um pouco – Acho que devemos consultar os historiadores. Fazer uma relação e colocar sob consulta popular. O que acham?
— Desde que tirem as estátuas do traidor, estou satisfeito. – falou Rommath seriamente.
— Eu concordo com sua ideia, Karen. – disse Lor’themar, contente com o progresso da jovem.
— Eu ainda acho que deveria ser uma estátua sua bem grande, no centro da praça. – gracejou Vivithi.
Karen riu e balançou a cabeça, em negativa.
— Certo, qual a próxima coisa chata para fazer? – perguntou a Lor’themar.
O lorde regente verificou suas anotações.
— A próxima pauta…
Contudo, ele não concluiu a sua fala, pois uma batida na porta o interrompeu. Karen o encarou, confusa.
— Estamos esperando alguém? — perguntou.
— Não. — respondeu Lor’themar, também estranhando a interrupção.
Franzindo o cenho, a rainha ordenou:
— Entre.
Uma serva entrou na sala e fez uma reverência.
— Majestade, sua amiga Saba está aqui e quer vê-la.
Karen ficou surpresa, mas imensamente feliz. Levantou-se rapidamente.
— Saba? Aqui? Onde ela está?
A serva fez um gesto para a porta e Saba apareceu, timidamente, e acenou para Karen.
— Saba! — Karen exclamou e correu até a amiga.
As duas meninas se abraçaram e, apesar da evidente felicidade de Karen ao ver a amiga os adultos da sala estranharam a visita surpresa. Sabá jamais viera sem avisar antes. E com séculos de experiência, eles se entreolharam, preocupados.
— Será que aconteceu algo? – perguntou Vivithi apenas para Lor’themar e Rommath ouvirem.
— Vamos já saber. – disse o lorde regente sem tirar os olhos das meninas.
Enquanto abraçava a amiga, Karen não percebeu a tensão em seu rosto. Apenas apertou-a em seus braços, a saudade falando mais alto do que qualquer coisa.
— Saba! – exclamou animada – Que surpresa boa!! Achei que você só viesse daqui a um mês! Sua mestra mudou de ideia?!
— Sim, de certa forma… – murmurou Saba retribuindo o abraço, com menos entusiasmo.
Estranhando a falta de animação da amiga, Karen a soltou e a encarou. A expressão de Saba era de tristeza. Lor’themar trocou mais olhares com Vivithi e Rommath e os três já se preparavam para notícias ruins.
— O que foi? – perguntou Karen confusa por um momento. Todavia, logo entendeu que Saba não viera fazer uma visita comum – Saba… aconteceu algo?
A menina fez que sim.
— Sim… — havia tristeza em sua voz – Eu vim avisar…
— Espere. — pediu Karen.
A jovem rainha dispensou a serva com a mão e fechou a porta. Puxou a amiga até o sofá que tinha na sala e sentou-se junto a ela.
— Eles podem ficar ou é algo que você queira falar só para mim? — perguntou Karen apontando para Vivithi, Rommath e Lor’themar.
Saba não havia reparado que Karen não estava sozinha, mas não se importou. Na verdade, era até melhor que eles estivessem ali. Era uma pena que Luxuriah e Ash não estivessem. Não queria ter que dar a notícia outra vez.
— Não, eles podem ficar. O que eu tenho para falar… É bom que eles ouçam também.
Um arrepio percorreu a espinha de Karen. Era notícias ruins. Seu primeiro pensando fora que algo havia acontecido com a família de Saba ou com sua mestra. Por isso, apertou a mão da amiga antes de perguntar, ansiosa:
— Aconteceu algo com seus pais? Com a senhora Shikrik?
Saba fez que não com a cabeça e apertou com mais força a mão de Karen.
— Karen… O navio onde tava a Kass e o Ted sumiu. – falou sem encarar a amiga.
Silêncio.
— Como é?! – gritou Vivithi, enquanto os demais estavam surpresos demais para falar.
— O navio sumiu. – falou novamente a menina – As notícias chegaram a Orgrimmar hoje. – Saba segurava com força a mão de Karen, que continuava calada – Disseram que o barco entrou em combate com uma nau da Aliança e sumiu num nevoeiro. E depois… Depois acharam uma nova terra. O Chefe Guerreiro está convocando pessoas para tomar posse dessa terra.
— Espere um momento. – pediu Lor’themar – O navio com Kassyeh sumiu e Garrosh está convocando para tomar posse de uma terra e não para procurá-los?
— É... – Murmurou a menina encarando Lor’themar – Por isso o Mhuu pediu para eu vir. Para avisar. – Ela olhou para Karen – E eu queria te ajudar… Desculpe dar essa notícia, Karen…
Todos encararam Karen, temendo sua reação. No primeiro momento, a menina nada disse. Apenas Saba percebeu um leve tremor na mão que segurava. O que passaria na mente de Karen? se perguntou Saba. De todos ali, apenas a jovem orquisa sabia do contrato que Karen tinha com a Nascente do Sol sobre a vida de Tewdric. Teria Karen, em algum momento, pensado que de nada valera o acordo? E que, além de ficar sem Tewdric, poderia ficar sem irmã? E tudo ao mesmo tempo?
Sim, Karen pensara. Era algo recorrente em sua mente. Não havia um só dia desde que Kassyeh e Tewdric viajaram que Karen não pensava nas coisas ruins que poderiam acontecer. Algumas vezes chegara a pensar em, depois que eles voltassem, proibi-los de sair de Luaprata. Depois de pensar essas coisas, se xingava, percebendo o quão egoísta parecia. Sim, salvara a vida de Tewdric. Sim, o ligara a sua própria vida. Só que, do que adiantava o que tinha feito se ele não pudesse viver como sempre vivera e ser o Ted que ela sempre amara? Devia confiar na força dele. Na força de Kassyeh.
E havia algo que Karen suspeitava. Se a vida dela e de Tewdric estavam vinculadas, ela saberia quando ele morresse. Seria como perder um pedaço de si mesma. Não queria pôr a prova aquela teoria, mas sentia, em seu coração que era verdade. Por isso, quando recebeu a notícia de Saba, sabia que eles estavam vivos. Sim, pois Tewdric morreria antes de deixar qualquer mal acontecer a Kassyeh. E saberia se algo acontecesse a Tewdric. Ainda assim, temeu. E se eles estivessem vivos, mas sofrendo?
Sem dizer uma palavra, Karen soltou a mão de Saba gentilmente, se levantou e se encaminhou até um mapa imenso que estava na parede de sua sala.
— Essa nova terra… — começou a rainha olhando o mapa – Fica ao sul de Kalimdor? — perguntou lembrando-se do que lera sobre a viagem de sua irmã.
— Sim. — Saba se levantou também e foi até onde estava Karen – Acreditam que por essa região aqui. — E apontou para um ponto bem abaixo da Voragem – Dizem que ela estava coberta por névoa.
Todos estavam apreensivos. Karen estava calma demais para a notícia que recebera. E o temor de todos se confirmou quando a jovem rainha pôs as mãos na cintura, analisou o mapa e assentiu com a cabeça.
— Eu irei buscá-los. — Anunciou.
Houve uma reação geral, todos falando ao mesmo tempo até que Lor’themar elevou a voz e disse:
— Karen, você não pode ir.
A jovem rainha virou-se na direção dele e franziu o cenho.
— Por que não? — questionou – Eu sou a rainha ou não?
— Claro que é e é exatamente por isso que você não deve ir. — ponderou o elfo – Pense na instabilidade que isso causará à Luaprata!
Karen cruzou os braços, a raiva começando a borbulhar em seus olhos. O lorde regente sustentou o olhar, pois sabia o perigo de permitir que Karen fizesse aquela viagem. Porém, não adiantaria brigar; aquilo só complicaria as coisas. Por isso, tentou ser diplomata.
— Karen… Eu entendo o que você sente, mas…
— Não, não entende! — cortou a menina – Não é sua irmã que está sumida!
— Eu já perdi um irmão, caso não esteja lembrada. — falou ele com calma.
Lor’themar sabia que era um golpe baixo, mas falou mesmo assim. E aquilo surtiu o efeito desejado: Karen calou-se e olhou para Vivithi, num misto de tristeza e confusão. A jovem patrulheira manteve a expressão impassível, mas fervia por dentro. Não estava com raiva de Karen, longe disso. A menina tinha todo o direito de estar nervosa. Só achava que seu tio não estava sendo justo com Karen, por mais sua atitude estivesse correta.
— Desculpe Vivi e Temma, eu… — começou a menina.
— Tudo bem, Karen. — falou Vivithi levantando uma mão e cortando-a – Entendemos sua preocupação, mas queremos que você lembre que estamos preocupados também. Como a Lux e a Ash também ficarão.
Rommath se remexeu, incomodado. A reação de Karen o preocupava, mas a de Luxuriah poderia ser bem pior, dependendo da forma como a notícia fosse dada.
— Eu tenho certeza que eles estão bem, Karen. — disse Saba tentando acalmar a situação – Ted e Kass são fortes.
— Eu sei que eles estão bem. — Retrucou Karen – Mas eu quero trazer eles para casa! E nunca mais deixá-los irem para Orgrimmar! Nunca gostei dessa ideia de embaixatriz, nunca! — a jovem bufou – O lugar deles é aqui!
— Mais um motivo para você não ir, se for apenas para buscá-los. — Continuou Lor’themar, a paciência em pessoa – Tenho certeza que nem Kassyeh nem Tewdric quereriam arriscar sua segurança, principalmente se for por causa deles. E você está esquecendo, Karen, que eles não foram os únicos a sumirem.
— Halduron. — lembrou Rommath.
Karen levou a mão à boca, surpresa com a própria insensibilidade. Lor’themar então, aproveitou para continuar.
— Karen, pense da seguinte forma: eles têm tudo a seu favor. Kassyeh tem experiência no mar e Tewdric em terra. Halduron é um excelente patrulheiro e conseguirá se virar em qualquer terra onde aportarem. Acredito que devemos nos perguntar agora é porque não recebemos um aviso oficial do Chefe Guerreiro.
— É óbvio que ele não nos achou dignos do aviso. — falou Vivithi.
— Ele está mais preocupado em tomar posse dessas novas terras, acredito. — Completou Rommath.
— É isso mesmo… — murmurou Saba.
A cabeça de Karen agora funcionava a todo vapor. Precisava ir em busca de Kassyeh e Tewdric, mas era óbvio que ninguém deixaria. Poderia bater o pé e ir, mesmo contra a vontade de todos. Porém, assim que encontrasse Tewdric e Kassyeh, eles ficariam chateados. E, Lor’themar tinha um ponto. Sua saída deixaria o povo de Luaprata apreensivo. Uma princesa sumida era uma coisa. Uma princesa sumida e uma rainha partindo em sua busca numa terra desconhecida, seria um problema. Se havia algo que Karen já havia percebido em seu povo era que eles precisavam saber que seu governante estava ali, em Luaprata, para se sentirem seguros. Afinal, foi em uma busca que Kael’thas se corrompera.
A tensão ainda estava pairando sobre a sala quando ouviram um grito infantil e a porta foi aperta em um estrondo. Tinuviel adentrou o recinto correndo e se agarrou nas vestes do pai.
— Papa! — gritou feliz.
Rommath agora sorria, esquecendo momentaneamente a preocupação.
— Parece que o humor de alguém melhorou! — disse enquanto se abaixava e pegava a menina nos braços.
— Sim! — exclamou a menina, o abraçando.
— O humor dela realmente melhorou. — disse Luxuriah entrando na sala – Mas parece que o humor de vocês caiu vertiginosamente.
Luxuriah passou os olhos pela sala e parou em Saba. Já havia sido informada da chegada da jovem orquisa e, como sempre, esperava o pior. O clima da sala lhe informara na mesma hora que estava certa.
— O que Garrosh fez dessa vez? — perguntou sem pestanejar.
Ninguém respondeu de imediato e Rommath aproveitou a deixa para tirar a filha dali.
— Titi, o que acha de continuarmos o passeio? — perguntou encarando a menina – Vamos procurar tia Ash?
— Tia Ash! — gritou a menina animada.
Rommath trocou olhares com a esposa e saiu com a filha nos braços, fechando a porta atrás de si. Luxuriah encarou a irmã e percebeu que Karen estava alterada.
— Kass e Ted sumiram. — foi o que Karen conseguiu dizer.
E só naquele momento, quando colocou em voz alta o que fora dito, é que o fato se tornou concreto para Karen. Seus olhos se encheram de lágrimas e ela apertou os lábios, para não gritar. Rapidamente Saba foi até ela e a abraçou. Lor’themar relaxou. Preferia Karen colocando sua frustração para fora por meio de lágrimas do que de decisões ruins. Só que esperava uma reação pior de Luxuriah.
A primogênita dos Fendessol recebeu a notícia e fechou os olhos, respirando fundo. Quando vira Saba ali e percebera o clima da sala, tinha certeza que o que ouviria não era bom, porém, não imaginava que seria tão ruim assim. Cruzou os braços e caminhou até o centro da sala.
— Quando aconteceu? — perguntou a Lor’themar, num fio de voz.
— Não sabemos. — respondeu ele – Tudo que sabemos é que o navio sumiu ao entrar em um nevoeiro ao sul de Kalimdor. — E repassou para ela as informações que Saba lhe dera.
Luxuriah ouviu em silêncio, as emoções borbulhando intensamente dentro dela. Queria gritar e esbravejar, mas diante do estado de Karen, tinha que manter o controle.
— Gostaria de dizer que estou surpresa com Garrosh, mas eu não estou. — disse sombriamente a elfa — Talvez ele esteja se congratulando por se livrar de Tewdric…
— Ele não se livrou do Ted! — gritou Karen – Ele tá vivo! Ele, a Kass e o Halhal!
Luxuriah encarou a irmã, que ainda estava abraçada a Saba. A dor da menina era visível e Luxuriah a entendia muito bem. Como sabia que a raiva que borbulhava nos olhos dela não era direcionado a si, mas à situação e, possivelmente, a Garrosh.
— Claro que eles estão vivos, Karen. — disse Luxuriah com uma calma que ela não teria dois anos atrás. A maternidade lhe proporcionara muitas coisas e paciência era uma delas – Nós sabemos disso, mas Garrosh não. E temos que provar que ele está errado.
Aquilo pareceu acalmar Karen, cujas lágrimas foram secando. Luxuriah caminhou até a irmã e colocou a mão no ombro dela.
— O que você quer fazer? — perguntou seriamente.
— Eu quero ir em busca deles.
Era exatamente o que Luxuriah achava que ela diria.
— E isso seria prudente, para uma rainha? — quis saber apertando ombro de sua irmã com suavidade.
Todos os pensamentos ponderados de Karen sumiram de sua mente.
— Não me importa! — explodiu – Eu quero ir!
Da mesma forma que ser mãe dera mais estabilidade e ponderação a Luxuriah, a adolescência e as responsabilidades de rainha levavam Karen à frustração com muita facilidade. Luxuriah imaginava que se fosse ela ou Ash a sumir, Karen ficaria desesperada sim, mas não ao nível em que estava. Claro, ela quereria ir em busca de qualquer irmã sumida, só que ter Tewdric sumido dificultaria muito as coisas. Dificultaria manter Karen em Luaprata.
— Vamos fazer o seguinte. — Começou Luxuriah – Pondere essa tarde antes de decidir. Pense um pouco além de sua dor, pense em suas responsabilidades.
— Não quero saber dessas responsabilidades! — gritou a jovem rainha – Eu vou sim, em busca deles dois! Eu não preciso da autorização de ninguém! — e olhando para Lor’themar, ordenou – Comece a preparar a frota! Vamos partir amanhã! — e saiu da sala pisando forte, pronta para ignorar qualquer coisa que lhe fosse dita.
Mas nem Lor’themar nem Luxuriah disseram nada. Apenas se entreolharam, antes de se voltarem para Sabá.
— Saba… — começou Luxuriah.
— Eu sei. — Foi logo dizendo a menina – Foi pra isso que eu vim. Vou falar com ela. — e saiu também.
Luxuriah respirou fundo e sentou-se no sofá da sala, afundando com as mãos no rosto.
— Já esperávamos por essa reação dela. — lembrou Vivithi – Mas acho que Saba veio justamente evitar isso. Ultimamente, ela é a única pessoa que Karen ouve.
— Nem me fale. — Luxuriah massageou as têmporas – Estou pagando o que fiz vocês passarem, não é?
— Não tenha dúvida disso. — Apesar da situação, Vivithi sorriu tristemente – E você? Como está?
— Entorpecida. — falou com sinceridade – Ainda não acredito que isso seja verdade…
— O que você quer fazer agora? — perguntou Lor’themar.
Luxuriah os encarou.
— Ash precisa saber o que aconteceu. E titio Aethas.
O estômago de Vivithi revirou por dois motivos: seria ela a dar aquela notícia bombástica para Aethas e, para tanto, teria que ir para Dalaran, perigando dar de cara com Vereesa. As coisas só pioravam.
— Eu vou falar para Ash o que aconteceu. — disse Lor’themar.
— Por favor, a convença a permanecer em Luaprata. — pediu Luxuriah – Já será difícil manter Karen aqui sem termos que acorrentá-la. Não quero ter que lidar com Ashrial gritando comigo também.
— Você aguentou bem Karen gritando com você. — falou Lor’themar com admiração.
— Se você soubesse a vontade que eu estava de dar na cara dela, você não estaria tão admirado. — Confessou – Mas só pioraria as coisas. E estou cansada. Titi já me esgotou essa manhã. Vou deixar as coisas nas mãos de Saba.
Lor’themar a observou por um momento.
— Acredito que você irá em busca deles. — falou ele.
— Claro. Alguém tem que ir. Karen não pode sair, porque é rainha. Precisa ficar em Luaprata. Ash poderia ir, mas não quero que ela vá. Eu sou a mais velha. Eu tenho que proteger todas.
— E Tinuviel? — quis saber Vivithi.
— Ficará com o pai, óbvio. Rommath vai entender que eu preciso ir.
— Não é bom que você vá sozinha. — lembrou Lor’themar.
Luxuriah o encarou,
— Espero que você não esteja sugerindo uma guarda para mim, Lor’themar.
— Não. Sugiro que você chame pessoas que se preocupam tanto quanto você com Kassyeh e Tewdric. E que não sejam suas irmãs, claro.
— Vou ter que desfalcar a segurança da cidade, então.
Lor’themar e Vivithi se entreolharam. Claro que ela quereria levar a amiga naquela empreitada.
— Minha sobrinha, infelizmente, não poderá ir. — disse ele – Precisamos dela.
— Aí você me fode, Lor’themar. — Reclamou Luxuriah.
Apesar da situação, o elfo gargalhou.
— Não deixe Rommath ouvir isso. — pediu.
— Eu também queria ir com você, Lux, mas preciso ficar aqui e proteger todos. — falou Vivithi – Mas eu tenho uma sugestão. Uma pessoa que será de grande valia.
— E você poderá escolher mais alguém da guilda. — lembrou o lorde regente – Tenho certeza que será difícil escolher só um. Todos vão querer ir procurar por Kassyeh e Tewdric. Vou deixar tudo preparado para a partida de vocês amanhã. Supondo, claro, que Saba seja bem-sucedida em sua empreitada de manter Karen aqui.
— Ela será. — falou Luxuriah com confiança.
— Eu vou avisar a Aethas. — Avisou Vivithi – Voltarei logo com notícias dele. — e ela se retirou da sala.
Quando estavam apenas os dois, Luxuriah apontou para uma cadeira e pediu:
— Agora, me fale de seus planos.
Lor’themar assentiu, sentou-se e começou a falar.
*********************
— Tudo bem, Arshe, não estou chateada com você. — disse Doroteya delicadamente.
— Mas eu estou chateada comigo mesma!
Passado o susto da descoberta, Doroteya se acalmara. Kayliel estava impressionado com a calma e a placidez da worgenin. Desde que soubera da existência daquela raça, os worgens, sempre ouvira falar os quão selvagens e perigosos eles eram. Porém, olhando para Doroteya placidamente sentada com sua filha recém-nascida no braço, acalmando Arshe quando ela quem deveria estar nervosa, quebrava totalmente a expectativa do elfo. Tudo bem que a vira quase se transformar mais cedo, de raiva, mas ela se controlara tão rápido que era impossível não se impressionar.
Sentado com um copo de chá gelado nas mãos, Kayliel encarava as ruas de Ventobravo do terraço da casa dos Wood, no final da tarde. O pergolado oferecia sombra e um vento fresco soprava do litoral. Era uma vista muito bonita, tinha que admitir. Pensava se algum dia poderia levar Arshe para Luaprata, para que ela admirasse o mar de Quel’thalas como ele admirava o mar de Ventobravo naquele momento. Esperava que fosse possível.
— Eu gostaria de me desculpar com você, Kayliel. — pediu Doroteya inesperadamente.
— Por que? — perguntou ele, surpreso, encarando-a.
— Você, com certeza, não teve uma boa impressão de mim. — explicou.
Ele sorriu, timidamente.
— No seu lugar, minha reação seria bem pior. — Confessou.
Depois do estresse inicial, Kayliel soube o motivo da confusão. Compreendeu que era uma situação bem similar à que acontecera entre Luxuriah e Grey, só que esta última fora bem mais dramática e com mais danos. Por isso, o elfo não considerara o que acontecera ali tão tenso quanto eles viam. Porém, as coisas poderiam mudar, quando a mulher chamada Lina chegasse. Era isso que Arshe temia. Aparentemente, a general não seria tão compreensiva quanto Doroteya estava sendo.
— Eu trouxe mais chá gelado. — Tommy apareceu com uma jarra no terraço – Aceita mais um copo, Kayliel? — perguntou.
— Sim, obrigado.
O marido de Doroteya era um homem muito centrado, pensou o elfo enquanto ele enchia seu copo e depois sentava ao lado da esposa. Mesmo depois do que acontecera, ele manteve a calma, ficou com a druidesa até ela se acalmar e então conversou com todos. Foi quando Kayliel ficou ciente da história toda. Depois, foi preparar o almoço. Kayliel se oferecera para ajudar com o preparo da comida, o que não foi aceito.
— Você é visita. — Dissera Vincent pondo seu avental de “Melhor namorado do mundo” – Visita não trabalha.
Mas ele queria fazer algo, pois assim ficaria menos ansioso. O que deixaram que ele fizesse fora cuidar de Doroteya. Todavia, depois que acordou, a druidesa pediu para conversar a sós com o marido. Ficaram um tempo dentro do quarto, no qual Theo ficou ansioso, andando de um lado para o outro. Depois, Tommy chamou o menino e conversaram mais um pouco. Doroteya estava se colocando a par do que houvera no dia anterior. Quando terminou as várias rodadas de conversa, os irmãos alfaiates e Vincent saíram para o ateliê, eles estavam agora no terraço e tudo estava mais calmo.
— Como está a vida em Shattrath? — perguntou Doroteya, tentando distrair Arshe.
— Tranquila. — respondeu a maga, tomando um gole de chá – Tenho ajudado a resolver conflitos em Terralém, principalmente entre os Aldor e os Áugures. — Ela balançou a cabeça – Hadgar andava bem estressado com esses dois.
— Ele até disse que rejuvenesceu alguns anos depois que Arshe passou a ajudá-lo. — comentou Kayliel sorrindo para a esposa.
As bochechas de Arshe ficaram rosadas e ela sorriu, envergonhada. Doroteya sorriu. A felicidade de Arshe era evidente; não apenas isso, ela estava visivelmente mais saudável também. Sem a magreza excessiva, ou palidez mórbida que ostentava antes, Arshe era a cara da saúde e do bem-estar naquele momento. Doroteya sabia como era difícil abandonar sua antiga vida e para começar uma nova e orgulhava-se que a amiga tivesse tido a coragem de fazer aquela mudança e agora colher os frutos dela.
— E os bebês? — perguntou, ninando a filha nos braços – Quando será a vez de vocês?
Arshe e Kayliel se entreolharam e deram uma risada, ambos encabulados.
— Estamos tentando. — disse a maga.
— Espero que consigam logo. — Desejou a druidesa.
— É o meu maior desejo. — Confessou Kayliel.
Era o que ele pensava todos os dias: quando viriam seus filhos? Tinha a esperança que, quando Arshe engravidasse e mandasse aquela notícia para Luaprata, Rommath se sensibilizasse e o perdoasse. Ou que, pelo menos, fosse visitar o sobrinho ou sobrinha. E Kayliel desejava muito ver Tinuviel. Uma possível gravidez de Arshe poderia reaproximá-lo da família e abrandar as tensões entre ele e o irmão.
Ouviram passos na escada e Theo apareceu. Kayliel achara o menino muito meigo e simpático; lhe lembrava Karen quando não estava tentando enlouquecer as irmãs e as pessoas ao seu redor. Porém, no momento em que chegara, o menino estava nervoso e todos logo ficaram sabendo do motivo.
— Tia Lina chegou.
Tommy pegou Liana nos braços e Arshe ajudou Doroteya a se levantar. Apesar de Kayliel ter cuidado bem dela, o parto era recente e Doroteya ainda andava devagar. Foram até o elevador e, enquanto desciam, a druidesa perguntou ao filho:
— Como está Lina? Preocupada? Aliviada?
Theo hesitou um pouco antes de responder:
— Ela não parece bem, mamãe.
Uma das coisas que Doroteya aprendera desde que virara worgenin era que poderia perder facilmente a calma caso se permitisse perder-se em seus sentimentos e em suas angustias. Seu controle era resultado de uma permanente luta contra sua besta interior. E para que seu filho e as pessoas ao seu redor não sofressem com sua maldição, ela tinha que manter o controle. Isso a levara a sempre pensar o melhor das situações e não se deixar tomar pelo desespero; confiar nos outros era a chave do sucesso. E Doroteya confiava em Lina. Se a sua amiga saíra mais cedo dizendo que resolveria aquela questão antes de falar para ela, assim o faria.
Todavia, assim que a viu, percebeu que algo estava terrivelmente errado. Lina estava pálida, com ar cansado e toda sua vitalidade parecia ter sido drenada. A general entrou em casa, colocou a espada no porta-guarda-chuva e coçou os olhos, como se estivesse pensando no que fazer a seguir.
— Lina. — Chamou Doroteya
Lina virou-se e ficou surpresa ao ver Arshe ao lado da druidesa. Em vez de ficar feliz, uma ruga de preocupação apareceu em sua testa.
— Arshe? — perguntou como se ainda duvidasse de sua visão.
— Lina, eu contei sem querer a Doro de Greymane! — foi logo dizendo Arshe, sem esperar que a outra falasse – Sinto muito, muito mesmo!
E fechou os olhos, como se esperasse uma pancada.
Não houve nenhuma reação por parte de Lina. A general apenas tirou a capa da armadura, colocou em cima do sofá e se dirigiu para a escada. Não disse uma palavra sequer.
— Lina, o que aconteceu? — falou Doroteya em um tom que era um misto de preocupação e ansiedade.
— Tive uma conversa com Greymane e ele vai ficar fora do nosso caminho por um tempo. — Revelou.
— Então por que você não parece feliz? — questionou a druidesa.
Lina parou e respirou fundo. Tommy já vira aquela expressão desolada de sua irmã. Era a mesma expressão quando soubera da morte de Ana e das crianças. O rosto dele também ficou pálido, mas ninguém viu porque ele estava atrás de todos. Agradeceu o fato de Mel e Fey não estarem ali.
— Eu preciso de um banho. — disse Lina com a voz cansada – Conversamos quando eu terminar.
— Lina, o que aconteceu? — insistiu Doroteya.
Lina colocou as mãos no rosto e respirou fundo. Era nítido que ela segurava as lágrimas.
— Greymane não vai nos perturbar. — Ela insistiu – Mas aconteceu… Aconteceu outra coisa… Mas preciso de um banho primeiro, por favor. E tenho uma bagagem para preparar. Amanhã viajo. — e quando Tommy abriu a boca, ela já o cortou – Eu vou contar a vocês, só preciso… Preciso de um banho. — e sem esperar resposta, subiu as escadas correndo antes que alguém a interpelasse.
Doroteya trocou olhares com Arshe e Tommy, preocupados. Kayliel não teve um bom pressentimento: já vira aquela expressão antes. Não era apenas família. Algo no rosto de Lina gritava guerra. Quis ir embora imediatamente. Algo lhe dizia que não queria ouvir o que seria dito ali.
— Arshe, talvez devamos ir. Voltar um outro dia… — sugeriu.
— De jeito nenhum! — exclamou a maga – Não saio daqui até saber o que aconteceu!
— Será que eu devo ir chamar tio Mel e tio Fey? O tio Vin também tá com eles, né? — perguntou Theo a Tommy.
— É uma boa ideia, campeão. Podemos ir nós dois. — E olhando para Arshe perguntou – Tudo bem para você ficar com a Doro e a Liana?
— Claro! Podem ir, sem medo!
Tommy e Theo saíram e Doroteya chamou Arshe e Kayliel para esperarem na cozinha.
— No final das contas é aqui que todas as conversas são travadas. — Riu-se Doroteya, tentando se mostrar mais calma do que realmente estava.
— Posso fazer mais chá, se você não se importar que eu use sua cozinha. — Sugeriu Kayliel.
— Ah, por favor, fique à vontade. E gostaria de provar sua torta. Não consegui comer mais cedo.
Enquanto na cozinha havia uma tentativa de manter a calma, no banheiro, Lina pode dar vasão a toda a angústia e desespero que sentia. Deixou a banheira enchendo e, abafado pelo barulho da água, seu choro saiu alto e doloroso. Não conseguia acreditar no que acontecera. Não podia, não podia em hipótese alguma perder três pessoas tão amadas por ela. Mesmo que o almirante Taylor tivesse dito na transmissão que Anduin estava bem, sabia que o menino estava bem apenas no momento em que a transmissão fora feita. Quanto tempo passara desde então? Horas? Dias? E Pandora e Pietro, que sequer foram mencionados? Onde estariam seus sobrinhos?
— Eu devia ter ido! — gritou para o vazio – Eu devia estar naquele navio!
Mas algo dentro dela sabia que não seria assim tão simples. Sua presença poderia ter ajudado, sim, mas também poderia não ter feito nenhuma diferença. Ela poderia ter morrido. Ao pensar nisso, deu uma risada seca e sem ânimo. Ah, sem dúvida ela teria morrido para protegê-los. Mas, ao menos, eles estariam salvos, certo?
“Será?”, sua mente insistia.
— Não importa! — gritou, agora para si mesma – Eu vou buscá-los!
Sim, iria. Mesmo que ficasse debaixo das ordens da Almirante Rogers. Mesmo que estivesse subordinada a Crowe. Não importava. Traria suas crianças, sãs e salvas para casa, não importa o que custasse.
Afundou na banheira, tomou um banho demorado, adiando ao máximo a notícia que teria que dar. Não queria imaginar a dor que causaria a todos, principalmente a Theo e a Arshe. Por que, pela Luz, ela tivera que chegar tão cedo? Já seria ruim falar com Theo. Com sua amiga ali seria mais drama e mais lágrimas do que esperava. Pelo menos Arshe já lhe fizera o favor de contar a Doroteya de Greymane; não sabia se teria força para dar duas notícias ruins. Quando finalmente saiu da banheira e foi para o quarto, vestiu-se e fez logo sua mala. Partiriam no dia seguinte, bem cedo, e estaria na belonave da Aliança assim que ela estivesse pronta. Não esperaria um minuto a mais; iria naquele momento, se pudesse. Quando fechou a mala, lembrou-se que saíra tão transtornada da bastilha que sequer falara com Varian. Talvez devesse ir vê-lo… ou não. Não sabia o que ele lhe falaria e não fazia ideia se aguentaria mais qualquer coisa.
“Vou voltar para a bastilha.” Decidiu. “Não conseguirei dormir de qualquer forma, melhor passar a noite deixando tudo encaminhado. E acompanhar os preparativos da belonave, mesmo que eu não esteja no comando.”
Com isso em mente, finalmente foi ao encontro da família.
Estavam todos na cozinha e a olharam quando ela entrou. Foi a primeira vez que ela percebeu que havia um desconhecido entre eles. Só que não era um desconhecido, reparou depois do susto inicial. Era Kayliel, o marido elfo de Arshe. Hesitou por um momento, afinal, ele era da Horda. Ou fora, no passado. Estaria ali em busca de informação?
“Não posso me deixar levar pela paranoia.”, disse para si mesma “Não posso fazer isso com Arshe.”
Olhou para todos. Esperava dar a notícia sem cair no choro. Caminhou até a mesa e sentou-se.
— Quer uma bebida? — ofereceu Vincent.
Ela fez que não com a cabeça.
— Preciso ir à bastilha ainda hoje. — explicou – E viajarei amanhã. Preciso ficar sóbria.
— Aceita um chá e um pedaço da torta maravilhosa que o Kayliel, tão gentilmente, nos trouxe? — insistiu o paladino.
Lina levantou a cabeça e encarou o elfo. Dava para ver claramente o quão nervoso ele estava. Estaria escondendo algo? Não… Era só receio por estar no meio de um monte de humanos.
— Aceito. — falou.
Vincent lhe trouxe um pedaço da torta e o chá, mas Lina achou difícil de comer. O único barulho da cozinha era seu talher batendo no prato e os sons fofinhos que Liana fazia. Ninguém falou nada enquanto ela comia. Quando decidiu falar, começou pelo tema mais fácil e que já estava praticamente resolvido.
— Quando falei com Greymane mais cedo, ele levou a esposa. — disse depois da segunda garfada e sem tirar os olhos do prato.
— A rainha Mia? — ofegou Doroteya, surpresa.
— Sim. Devo dizer que ela ficou muito surpresa quando soube de sua existência.
— Ela não sabia?! — surpreendeu-se Arshe.
Lina fez que não, pegando outro pedaço de torta.
— Eu já desconfiava. — falou Doroteya ninando Liana em seus braços – Liam sempre falou que tinha medo do que a mãe diria. Disse que poderia suportar a raiva do pai, da irmã, mas jamais a da mãe…
— Pois se ele tivesse falado, hoje você seria princesa de Guilneas. — falou, olhando-a finalmente e apontando o garfo para ela – A rainha ficou muito, muito, mas muito chateada mesmo por não ter sabido de você e de Theo. — E deu o primeiro sorriso desde que entrara na casa – Vocês deviam ver a comida de rabo que ela deu no marido…
— Comida de rabo? — perguntou Kayliel, confuso com a expressão.
— Quer dizer que a rainha ficou muito irritada com Greymane e brigou bastante com ele, de forma agressiva. — explicou Arshe.
— E como! — Lina deu uma risada sarcástica – Doro, você teria adorado! — e dando uma olhada na expressão de tristeza da amiga, completou – Não, não teria. Mas, isso foi bom. — Lina voltou a atenção para a torta – Greymane tá morrendo de medo da mulher depois da briga. Vai ficar quietinho até a rainha Mia dizer algo. E isso só vai acontecer depois que ela falar com você, Doro.
— Comigo? — surpreendeu-se.
— Bem, era esperado. — falou Tommy – Ela vai querer ouvir sua versão da história. Não é? — perguntou olhando para Lina, que assentiu com a cabeça.
— E quando ela virá? — perguntou Doroteya.
— Quando você quiser. — respondeu Lina – Mas gostaria que você esperasse eu voltar. Quero estar aqui, para qualquer eventualidade.
— Pra onde você vai, tia? — perguntou Theo, preocupado.
Lina não quis encarar Theo, por isso olhou para torta e tentou comer mais um pedaço. A comida desceu rasgando em sua garganta. Não conseguiu se segurar mais. As lágrimas explodiram em seus olhos e ela cobriu o rosto com as mãos, escondendo a dor. Kayliel percebeu que ele era o único que não estava terrificado com a cena. Imediatamente, Fey e Mel foram para o lado de Lina e começaram a abraçá-la, dizendo palavras gentis para acalmá-la. Quando o choro arrefeceu, Lina percebeu que tinha que dar a notícia rápido, sem pensar, da mesma forma como se tira um curativo.
— A Nau Capitania desapareceu após um conflito com a Horda.
Arshe deu um grito, agarrou-se com Kayliel e começou a chorar. Doroteya e os demais adultos estavam chocados demais para dizer alguma coisa e foi Theo quem perguntou:
— O barco onde Pietro e Pandora estavam?
Lina fez que sim, as lágrimas voltando aos olhos.
Kayliel sentiu uma vertigem e respirou fundo, tentando não despencar da cadeira. Sabia que navio era aquele. Arshe só falava nele a dias. Era o barco onde estava o príncipe Anduin, o irmão de criação de sua esposa. E aqueles dois nomes, Pietro e Pandora… Já os ouvira também. Era sobrinhos da general. Um menino e sua irmã. Ele ficou atônito, sem saber o que dizer ou fazer. Sentiu-se muito, muito culpado, mesmo que não tivesse culpa nenhuma; há dois anos não sabia de nada sobre a Horda. Ainda assim, um vazio imenso se apossou de seu interior. Abraçado a Arshe, se perguntava se a esposa o culparia por aquilo.
— Como isso aconteceu? — perguntou Vincent.
Lina balançou a cabeça, impossibilitada de falar.
A essa altura, Theo também chorava e agarrou-se com Tommy, que tentava se manter calmo. Olhou para Doroteya e percebeu que a druidesa, como ele, estava por um fio. Como manter a calma depois daquilo?
Vincent se levantou de repente e Kayliel instintivamente se encolheu. Mas o paladino apenas falou para todos, com sua voz potente:
— Por favor, vamos todos nos acalmar. — pediu, atraindo a atenção de todos – Lina disse que o navio sumiu, não que ele afundou ou qualquer coisa assim. Vamos esperar que ela possa nos dar as informações. — e olhando diretamente para Lina, disse – Lina, leve o tempo que precisar se acalmando.
A atitude do paladino possibilitou que todos fossem se acalmando e as lágrimas escasseando. Menos as de Liana. Porém, era só fome e, assim que a druidesa deu o peito a filha, ela se acalmou, comendo com voracidade.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Arshe se soltou do marido e limpou as lágrimas.
— Vin.. — falou com a voz um pouco arrastada – Poderia me fazer um chá?
— Claro. Farei chá para todos. — e olhando para Kayliel, perguntou – Me ajuda?
O elfo assentiu com a cabeça e levantou-se, sem dizer nada. Quando estavam na despensa, pegando as ervas do chá, o paladino disse, calmamente:
— Ninguém acha que é sua culpa. Não se preocupe.
Kayliel sorriu, agradecido.
Ficaram em silêncio até todos terem suas xícaras nas mãos. A essa altura, Lina estava um pouco mais calma. A pior parte já passara, a de dar a notícia. Podia se concentrar agora nas explicações. E foi o que fez. Contou todos os detalhes do que sabia até aquele momento. Não conseguiu se segurar e também relatou como se sentia mal por não estar no navio, por permitir que viajassem sem ela. Se culpava por não estar lá, ao lado dos três que amava tanto. Não se constrangeu em dizer que temia mais por Pandora e Pietro, já que Anduin teria todos os soldados para o proteger… Ainda assim, sofria pelo menino. E se todos os soldados morressem? Sim, Lina despejou tudo em cima de sua família. E eles ficaram gratos por isso.
— Deve ter sido difícil para você sobreviver a essa reunião com tudo isso dentro de você, hein? — brincou Fey alisando os cabelos dela.
Lina fez que sim.
— Achei que fosse explodir. — Confessou.
— Estou orgulhoso que você tenha resistido tão bem. — Elogiou Mel, limpando as próprias lágrimas – E orgulhoso também de você não ter escondido nada de ninguém dessa vez.
— Aí sim ela explodiria. — brincou Tommy.
— Tommy, pode por Liana para arrotar? — pediu Doroteya
Ela nem precisou repetir o pedido. Tommy levantou-se e pegou a filha. Doroteya então foi até Lina e a abraçou. Com a mão, chamou Arshe para o abraço. As três se abraçaram, como fazia tempo que não faziam e os últimos resquícios de desespero se foram.
— O que você vai fazer, tia Lina? Sobre Pietro e Pandora? — perguntou Theo, ansioso.
Lina o encarou. O menino estava ansioso, com os olhos vermelhos, como os dela. Ela se soltou carinhosamente do abraço das amigas e estendeu a mão para o menino. Theo a segurou e fitaram um ao outro.
— Eu vou buscá-los. — disse resoluta.
A alegria voltou imediatamente aos olhos de Theo.
— Se for a senhora quem for, vai achar eles e trazer pra casa rapidinho! — exclamou o menino, esperançoso.
O peso dessa responsabilidade deixou Lina desnorteada. Porém, a esperança nos olhos de Theo lhe deu o ânimo pelo qual buscava desde que soubera da notícia. Sorriu para o menino e afirmou:
— Sim, farei isso.
O menino virou-se para Tommy, que segurava Liana, e disse para a irmã:
— Viu, Liana? A tia sempre resolve tudo!
Naquele momento, a menina soltou um sonoro arroto e isso acabou por fazer todos rirem.
— Acho que ela concorda. — falou Tommy, feliz pelo ar mais leve.
— Todos nós concordamos. — disse Doroteya.
Aquela confiança seria seu tormento e sua esperança naquela jornada, percebeu Lina.
— Lina… — chamou Arshe timidamente – Anduin… Você vai buscá-lo também, não é?
— Eu jamais o deixaria para trás, Arshe. — respondeu com sinceridade.
A maga sorriu, aliviada. Mas logo a preocupação retornou ao seu rosto.
— Como está tio Varian? — perguntou.
— Não tive oportunidade de falar com ele. — revelou, tristemente – Eu estava transtornada, ele estava transtornado e a almirante Rogers o engoliu depois da reunião. Vou agora na Bastilha, preparar o que puder e tentar falar com ele.
— Iremos com você. — Resolveu Arshe.
Kayliel empalideceu e Lina percebeu.
— Tudo bem você vir, Arshe. Vai ser ótimo para Varian. Mas não acho seguro para Kayliel ir à Bastilha nesse momento. — disse ela – Sei que ele não é mais da Horda, mas é um elfo sangrento. As pessoas estão com muita raiva da Horda nesse momento. Acredito que é mais seguro para ele ficar aqui.
O sacerdote deu um olhar agradecido para Lina.
— Tudo bem. — Arshe se levantou – Vamos? — ela estava visivelmente ansiosa.
— Deixe-me apenas lavar o rosto e pôr minha armadura. — Lina se levantou também – O que farei com minha bagagem? Não se está faltando algo… devo levá-la logo?
— Não se preocupe Lina, cuidaremos disso. — falou Vincent – Apenas vá. Tenho certeza que o rei precisa de você agora. — e olhando para Arshe acrescentou – De vocês duas.
As duas assentiram. Mais do que ninguém sabiam o quão verdadeiras eram as palavras de Vincent.
**********************
Aportar em Dalaran sem suas armas e sem sua armadura dava a sensação de vulnerabilidade para Vivithi e ela odiava aquilo. Porém, desde o que acontecera em Theramore e desde que Jaina Proudmore estava na liderança do Kirin Tor, os membros da Horda sentiam-se receosos de exibir qualquer comportamento que pudesse resultar em uma retaliação por parte do Kirin Tor, isso incluía a simples exibição de armas. Era um tempo de tensões na cidade voadora.
Vivithi não queria estar ali. Não queria que Aethas estivesse ali. E, como Karen, tudo que queria embarcar no próximo barco e partir rumo à terra desconhecida onde Kassyeh, Tewdric e Halduron sumiram. Porém, tinha que ficar em Luaprata. Precisava manter as coisas funcionando. Por um instante, desejou que Karen não tivesse mudado de ideia e fosse ela, não Halduron, na viagem. Queria estar ao lado de Kassyeh e Tewdric naquele momento. Suspirou. Não se podia ter tudo. Ela sempre quisera o cargo de Halduron e o tinha. Só não queria que fosse naquelas circunstâncias.
— Cuidado com o que desejas. — Falara sua mãe tantas vezes para ela – Porque pode se realizar.
Agora entendia a alegoria.
Caminhou pelas ruas de Dalaran e quase podia sentir a tensão no ar. Os membros das raças da Aliança a encaravam e cochichavam. Não lhes deu atenção. Subiu as escadas da Cidadela Violeta como se estivesse andando em direção a um julgamento, sendo que não cometera crime nenhum. A sensação piorou quando adentrou o salão do Kirin Tor e a primeira pessoa que viu foi Vereesa.
O ódio da alta elfa por aqueles que não considerava mais seu povo aumentara exponencialmente depois de Theramore. Isso porque Rhonin, antigo líder do Kirin Tor e marido de Vereesa, morrera no cerco à cidade. Pelo que Vivithi soubera, ele se sacrificara para salvar Jaina Proudmore. Com todo respeito ao morto, Vivithi achava que ele cometera uma imbecilidade imensa: se ela tivesse dois filhos e uma esposa rancorosa, não se sacrificaria por outra pessoa. A não ser que fosse uma pessoa tão amada quanto as pessoas que deixaria, o que, pelo que sabia, não era o caso de Rhonin.
Quando a viu, a expressão de Vereesa foi de puro ódio. Vivithi ficou em alerta, esperando um ataque a qualquer momento, mas a elfa apenas acompanhou seu caminho com os olhos ardendo em fúria. Assim que entrou no corredor que levava a sala de Aethas, Vivithi virou-se, esperando algum ataque. Sabendo que era apenas paranoia, voltou a andar, ainda que com cautela. Sentia que podia ser alvejada pelas costas, se baixasse a guarda.
A porta da sala de Aethas estava aberta e Vivithi franziu o cenho. O mago não costumava deixá-la daquele jeito, pois gostava de sua privacidade. Aproximou-se, pensando que talvez ele não estivesse lá, que dera uma saída rápida, mas Aethas estava. Vivithi tomou um susto ao vê-lo. Aethas estava abatido, perdera peso e tinha olheiras escuras ao redor dos olhos. Seu cabelo, de um vermelho normalmente tão vivo quanto o fogo, estava opaco e descuidado. Sentiu-se mal imediatamente, pois não ia vê-lo há mais de um mês e agora trazia uma notícia que só pioraria o estado do elfo.
— Aethas. — Chamou, antes de entrar.
Ele levantou o rosto, a encarou e um sorriso lindo tomou conta do rosto cansado.
— Vivithi! — ele exclamou surpreso, se levantando.
Vivithi sentiu-se péssima com as notícias que daria a ele. E, antes que o fizessem, o abraçou forte. Só então reparou quanta falta sentira dele no tempo que passaram afastados.
— Você está com uma cara péssima. — disse a elfa, sem rodeios, ainda abraçada a ele.
Ele deu uma risada triste.
— Eu sei.
Ficaram abraçados um bom tempo e, relutantemente, ele a soltou.
— Venha, sente-se. — Chamou indo para a mesa e sentando-se – Você não me avisou que vinha! Desde que… — ele fez uma pausa – Desde que as coisas ficaram tensas, entendo que você tenha evitado Dalaran, mas… — ele baixou o tom de voz – Sinto sua falta…
— Eu sei. — Ela sentou-se de frente a ele, com o coração apertado – Mas, como você mesmo disse, as coisas não estão muito boas para a Horda aqui. Vi a cara de Vereesa e confesso que nunca pensei que teria ainda mais vontade de quebrá-la.
Aethas deu outra risada, essa mais alegre. Como sentia falta de Vivithi! Ela conseguia deixar as coisas muito mais leves, não importando o que estivesse acontecendo.
— Bem, se você não estiver muito apressada, podemos almoçar juntos. — disse animado – Não poderia ficar muito tempo fora por causa… Bem, por causa de tudo.
— Não posso, Aethas. Por mais que eu quisesse lhe ver, eu vim por outro motivo… — e sua voz se perdeu.
O sangue de Aethas congelou em suas veias. A expressão de Vivithi lhe dizia que algo estava muito errado.
— Vivithi… — sua voz falhava – Aconteceu algo?
— Aconteceu. — respondeu sem rodeios – Posso fechar a porta, para conversamos mais à vontade?
— Melhor não… — ele olhou para fora – Eu tenho feito de tudo para não dar mais motivos para…. — Ele gesticulou em direção à porta e não terminou a frase.
— Aethas. — Vivithi ficou ainda mais séria – Tem a ver com a Kassyeh.
O choque perpassou o rosto de Aethas e ele se levantou de supetão, assustando Vivithi. Foi até a porta, ainda hesitou um pouco, mas a fechou. Voltou rapidamente para a mesa e sentou-se pesadamente.
— Foi Garrosh? — perguntou quase sussurrando – Ele fez algo a minha sobrinha?! — e antes que Vivithi respondesse, ele mesmo se corrigiu – Não, espere, ela e Tewdric haviam saído em uma expedição marítima, certo? — ele se tocou da gravidade da situação – Pela Nascente do Sol! O que aconteceu a eles?
Vivithi contou toda a história que ouvira de Saba. Começou pelas coisas que estavam acontecendo em Orgrimmar, a convocação de campeões e a pouca importância dada pelo Chefe guerreiro ao barco sumido. Contou da chegada de Sabá em Luaprata e a reação de Karen. Contou que Luxuriah lideraria os elfos sangrentos naquela incursão e que partiria no dia seguinte. Aethas ouviu tudo, calado, empalidecendo cada vez mais. Quando Vivithi terminou de falar tudo, o mago se recostou na cadeira e respirou fundo. Ficou calado, extremamente calado por um tempo. Depois, levantou-se, foi até sua estante e pegou uma garrafa de bebida e dois copos. Colocou duas doses, uma para ele e outra para Vivithi e bebeu em silêncio. Ela o acompanhou. Depois do copo vazio, Aethas falou, a voz enrouquecida:
— Sabe o que é pior? Eu não estou surpreso com a atitude de Garrosh. — Confessou – Nem um pouco.
— Luxuriah disse a mesma coisa. E você reagiu melhor do que eu esperava, como ela. — Admitiu a elfa, surpresa.
— Já recebi notícias piores. — falou olhando para o quadro de Samanthah – E a Lux… Já teve a cota dela também. — e colocou mais uma dose e bebeu-a toda de uma vez só.
Vivithi não disse nada. Depois de um momento de silêncio, Aethas retomou:
— Você disse que o lugar onde a nau sumiu… É um novo continente?
— É o que dizem os relatórios. — respondeu.
Aethas balançou a cabeça, afirmativamente.
— Eu tenho certeza que eles estão bem. — o mago falava com confiança – Kassyeh e Tewdric. Eles estão bem. Eles não são heróis da Horda à toa.
Apesar daquelas palavras, Vivithi percebeu um leve tremor nas mãos dele.
— Porém… — sugeriu Vivithi, incentivando-o a continuar falando.
— Porém, a descoberta dessa nova terra fará ambas facções sangrarem. — havia dor em sua voz – E o Kirin Tor estará bem no meio dela.
A dor dele a atingiu com mais força do que esperava. Vivithi não queria vê-lo daquele jeito; queria de volta a alegria e o calor nos olhos dele. Queria arrancar a tristeza dele, como se arranca um galho apodrecido de uma árvore. E percebeu, consternada, que faria qualquer coisa para ter o Aethas que conhecia de volta.
— Aethas… — Vivithi se inclinou para ele e segurou sua mão – Por que não ir embora? Por que não juntar todos os Fendessol e partir para Luaprata? Por que ainda insistir… — ela abriu os braços, mostrando a sala dele – Nisso?!
— Não posso desistir agora. — Foi tudo que disse.
— Essa situação está acabando com você! Você sabe disso! — exclamou, inconformada.
— E o que você acha que Garrosh fará se eu simplesmente sair do Kirin Tor? — perguntou alterando a voz — Ele nos quer aqui. Depois do que aconteceu em Theramore, depois que eu descobri que tem pessoas leais a ele entre os Fendessol, eu não posso simplesmente sair. Pelo bem de Luaprata. Pelo bem das minhas sobrinhas. — e a encarando, pensou “Por você.”. Mas não o disse, pois, sabia que, se dissesse, ela o socaria.
— Podemos dar um jeito. — Falou a elfa.
— Será? — a esperança parecia ter morrido um pouco dentro dele.
— Eu posso conversar com meu tio. Conversar com as meninas. Todos vão apoiar! Podemos… — ela parou quando ele ergueu a mão, pedindo silêncio.
No início, Vivithi não entendeu, mas percebeu que ele e olhava para um sino transparente. E o sino emitia uma pequena vibração, quase imperceptível. Aquilo não era uma simples decoração. Era um alerta.
— Aethas… — ela começou.
Aethas pegou em sua mão e a puxou para um beijo. Ela se inclinou sobre a mesa, correspondendo-o com um desespero que nem sabia que sentia. Foi quando a porta foi aberta bruscamente. Houve um momento de silêncio, enquanto as pessoas que chegavam viam a cena de intimidade e uma delas pigarreou. Eles interromperam o beijo e olharam. Vereesa e Jaina Proudmore estavam paradas, na porta. Jaina estava visivelmente constrangida; Vereesa, não.
— Não precisava disso, Vereesa. — disse, um leve tom de censura na voz – Podíamos ter batido. — E então, completou – Sinto muito pela entrada, Aethas.
Vivithi tinha certeza que ela não sentia, mas o aperto da mão de Aethas a manteve calada.
— Ele mesmo disse que não tinha nada a esconder. — Retrucou Vereesa – E acredito que todos já saibam desse relacionamento há tempos…
— Não sabia que o Kirin Tor tinha tanto interesse em nós dois, Aethas, a ponto de invadir sua sala. — Vivithi falou, sem conseguir se conter.
Antes que Vereesa pudesse dizer qualquer coisa, Aethas falou:
— Foi providencial a vinda de vocês. — a calma dele era surpreendente – Eu ia mesmo informar as notícias vindas de Luaprata. — Vivithi o encarou incrédula, mas ele não parou – Vivithi acabou de me informar que uma das minhas sobrinhas está desaparecida, junto com o marido, no mar.
— E imagino que você vá cuidar disso. — O desprezo era evidente na voz de Vereesa.
— Não. — A resposta dele a deixou um pouco confusa e Aethas continuou – Luaprata cuidará disso. Estou informando para caso… caso aconteça o pior… — ele as encarou – Acredito que não se oporão caso eu precise ir a um funeral.
— Eu sei a importância de se comparecer um funeral… Graças a Horda. — falou Vereesa, sem dar mostras que sentia empatia pela situação de Aethas.
— É bom estar ciente desse tipo de coisa. — falou Jaina olhando de Aethas para Vivithi – Acredito que podemos nos retirar, Vereesa.
A alta elfa ainda olhou por mais uns instantes para os dois e depois saiu, fechando a porta. Demorou uns instantes, nos quais Vivithi continuou encarando a porta, com ódio e depois virou-se para Aethas, pronta para brigar e percebeu, chocada, que ele estava em prantos. Engoliu toda a raiva, levantou-se, foi até o seu lado e o abraçou. Aethas agarrou-se nela, como uma criança agarra-se com a mãe após sair de um pesadelo.
— Eu estou aqui… — murmurou no ouvido dele – Estou aqui…
Era tudo que ele precisava ouvir naquele momento.
(CONTINUA)
Fale com o autor