Herdeiros da Guerra

7 Capítulo VII – Recomeços


Uma das coisas em que Orgrimmar e Luaprata eram parecidas era no fato que mal amanhecia e todos já estavam ativos. Os elfos sangrentos eram criaturas tipicamente diurnas; os orcs também. Tão logo o sol tinha nascido, as ruas da capital da Horda já estavam cheias de aventureiros ou civis, comprando e vendendo coisas, ou simplesmente fazendo seu desjejum em alguma das inúmeras hospedarias ou mesmo no mercado.

– Coma um pouco. – pediu Huaru preocupado.

Luxuriah olhou para a mesa farta à sua frente. Depois que voltaram para Orgrimmar, Huaru se recusara a deixá-la sem que tivesse certeza que ela estaria bem. Depois de chorar horas a fio, a caçadora não estava com ânimo de discordar de nada. Deixou que o jovem tauren a conduzisse até o Vale da Sabedoria, onde uma simpática taurena os atendeu e dispôs toda aquela comida. Luxuriah percebeu que a fêmea estava lançando lânguidos olhares para Huaru. Bem, com certeza ele era um belo espécime de sua raça, mas não parecia ter muita noção disso.

– Olha, o pão está ótimo. – continuou ele sem notar que era alvo de cobiça da garçonete – E tem queijo de kodo fresquinho, você deveria provar.

– Você é um amor sabia? – falou Luxuriah com a voz ainda rouca depois de tanto choro.

Huaru coçou a cabeça, envergonhado.

– Não gosto de ver ninguém triste. – respondeu o paladino sincero.

Luxuria balançou a cabeça.

– Há muito tempo não sei o que é ser feliz, Huaru. – ela olhou ao redor, e percebeu que a fêmea continuava olhando para o paladino – Você deveria estar em uma companhia mais agradável que eu.

– Você é agradável. – disse ele sorrindo.

Foi impossível não sorrir da forma carinhosa com que ele falou.

– Você parece muito com a Kassyeh. – Luxuriah acabou pegando um pedaço de queijo e mordiscando-o mais por consideração a Huaru que por vontade — Sempre pensa o melhor das pessoas. – e o encarando, concluiu – Eu não sou agradável Huaru. Sou uma pessoa amarga e desagradável.

– Isso é o que você pensa sobre você. — respondeu alargando o sorriso – Tenho o direito de ter uma opinião diferente.

Sem acreditar que estava realmente ouvindo aquilo, Luxuriah suspirou balançando a cabeça pesarosa e comeu mais do queijo. Estava realmente gostoso. Ou podia ser só sua fome. Huaru comia com gosto, provando e tudo que tinha na mesa e ainda tomando grandes goles de chá. Estava cheio de energia como se não tivesse passado toda a noite no meio do deserto, consolando uma completa estranha de suas dores.

Era estranho, percebeu Luxuriah, que a pessoa que no momento mais a conhecia era alguém que mal conhecia. Não se lembrava de ninguém saber tanto sobre ela mesma que seus pais. Suas irmãs eram mantidas seguras longe de suas dores e amarguras e a Grey nunca fora permitido explorar nada mais que seu corpo. No entanto, o jovem tauren vira sua alma naquela madrugada. Ele desnudara a essência dela, sem ao menos ter consciência disso. È claro, Grey agora sabia. Mas Grey se fora. Huaru, contudo, estava ali. Por quê?

– Por que você foi atrás de mim ontem? – perguntou sem conseguir esconder a curiosidade.

Huaru respondeu sem pestanejar:

– Queria ter certeza que Grey não iria te fazer nenhum mal. – diante do silêncio de Luxuriah, ele continuou apressado — E nem sujar o nome da nossa Ordem. – e dando uma pausa, acrescentou meio hesitante – Sabe, ele é meio que... Conhecido por ser meio que...

– Estúpido, egoísta, orgulhoso e egocêntrico? – completou taxativa.

O jovem paladino caiu na risada.

– Sim. Ele é um pouco disso. — e ofereceu chá a ela.

– Você está sendo bondoso Huaru. – Luxuriah aceitou a xícara de chá — Ele é tudo isso em grau maior. — bebericou a bebida e viu que ela era deliciosa.

Fez um breve silêncio. Luxuriah tinha impressão que Huaru a olhava em expectativa, como se esperasse algo.

– Gostaria de lhe fazer uma pergunta. — disse de repente.

– Faça. — permitiu Luxuriah, mas não sem estranhar.

– Você o ama? – claramente ele se referia a Grey.

Aquela pergunta era complicada. Pensava que sim, achava que não. Não tinha certeza. Nunca teve. Grey, apesar de tudo, lhe dera uma tranquilidade no coração numa época em que ela precisara mais que tudo. Quando o conhecera na Cidade Baixa, seis anos antes, sentira-se bem, como nunca se sentira com nenhum outro. Tornaram-se amantes e o sexo com ele sempre fora bom, livre de qualquer coisa que remetesse ao trauma que levava consigo. Mas poderia chamar aquilo de amor?

– Sinceramente, não sei o que lhe responder Huaru. — confessou – Grey foi algo bom e acredito que tenho sentimentos fortes por ele, mas não sei se posso chamar isso de amor.

– Por que não?

– Porque eu sempre soube que chegaria ao fim. – ficava triste em admitir aquilo, mas era a mais pura verdade — E eu acho que quando se ama, não se espera que acabe, certo?

Huaru concordou.

– Por isso você nunca o apresentou para suas irmãs?

Luxuriah assentiu.

– Eu conheço minhas irmãs. Eu sabia que se Grey tivesse contato com elas, encantador como é, as cativaria como me cativou. – ela suspirou — E eu sabia também que quando ele soubesse do meu passado, ele me daria as costas, como fez. Então, eu quis poupá-las.

– Mas você não se poupou. — retrucou Huaru franzindo a testa – Você sabia que ele a deixaria, mas continuou com ele. – balançou a cabeça — Não faz sentido para mim.

– É simples Huaru. Para afastá-lo, eu teria que revelar tudo. E eu não estava preparada. — ela deu de ombros – Na verdade, nunca estarei preparada para voltar àquele tempo. Só que ele estava perto demais delas. Ele queria algo mais de mim. Algo que eu jamais poderia dar. Então, tive que fazer.

Huaru lhe sorriu.

– Moça, você é incrível. – havia tanta meiguice na forma como ele falou que Luxuriah sentiu seu coração se aquecer.

– Quando vai me chamar pelo meu nome Huaru? — perguntou sem conseguir deixar de sorrir para ele.

– Desculpe. — pediu solenemente antes de acrescentar – Luxuriah, você é incrível.

Ela caiu na risada. Aquilo era tão estranho. Deveria estar se sentindo a pior das pessoas, mas estava rindo. Sabia que isso tinha a ver com a presença de Huaru. Não entendia como alguém que acabara de conhecer pudesse deixá-la daquele jeito, tão à vontade. Ainda mais levando em consideração que ele sabia de tudo.

– Obrigada Huaru. — agradeceu pegando a mão dele e apertando – Por estar aqui. Por me ouvir. Quem é incrível é você.

Luxuriah pode ver os olhares mortais dirigidos a ela pela jovem taurena que observava Huaru. Teve vontade de rir. Nem ela conseguia disfarçar o interesse, nem ele parecia ter sequer notado a presença dela.

– Você chama a atenção das fêmeas de sua espécie. – comentou resolvida a mudar um pouco de assunto.

– Hein? – perguntou distraído, gostando de sentir a mão dela sobre a sua. Mas antes que pudesse virar a palma para cima e entrelaçar os dedos nos dela, Luxuriah retirou a mão para pegar mais um pedaço de queijo.

– Aquela taurena não tira os olhos de você. – disse apontando discretamente com a cabeça.

Luxuriah quase caiu na risada quando, nada discreto, Huaru girou todo corpo na direção que indicara. A taurena ficou extremamente envergonhada, colocou a bandeja em frente ao rosto e saiu de fininho. Parecia irritada de ter sido pega em flagrante. Mas com certeza sua raiva era direcionada a elfa e não ao paladino.

– Não conheço. – falou ele simplesmente voltando sua atenção para Luxuriah – Deve está me confundindo com alguém.

A caçadora riu.

– Você realmente parece com a Kass.

Se sentindo mais a vontade, continuou a comer. Naquela hora, o sol já estava mais forte e logo ficaria insuportável. Luxuriah sabia que tinha que voltar para casa, dar notícias a Kassyeh, mas estava se sentindo tão bem naquele momento que não queria que ele acabasse. Huaru parecia estar sentindo o mesmo, porque ainda que tivesse acabado de comer, continuou bebericando o chá e olhando para ela, como se esperasse por algo.

– Sabe – começou Luxuriah fazendo com que Huaru largasse imediatamente a xícara e a encarasse – acho injusto você saber tanto sobre mim e eu não saber quase nada sobre você. Sei que você é irmão mais novo do Mhuu e só.

– Ah! – exclamou ele aparentemente encabulado – Minha vida é muito sem graça...

– Por que você não me deixa decidir isso? – retrucou com um sorriso desafiador.

Huaru riu.

– Na mesma moeda? – brincou antes de continuar – Bem, eu nasci na Aldeia Narache, próxima ao Penhasco do Trovão. Como você já sabe, sou o caçula.

– Tem outros irmãos?

– Não, só o Mhuu e eu. Meus pais dizem que os espíritos foram generosos, pois lhes testou a paciência com o Mhuu e perceberam que eles não tinham muita, aí mandou só eu depois. – quando ela caiu na risada, ele deu de ombros – Mas devo confessar que meu irmão é tão chato que até o mais benevolente espírito acabaria sem paciência perto dele.

– E seus pais? – quis saber interessada – Moram na Aldeia Narache?

Huaru fez que sim.

– Meu pai, Raziel é caçador. Liderou os outros caçadores da vila até um centauro arrancar um pedaço de sua perna. Já minha mãe, Linore, é a xamã da vila. – respondeu sem esconder o orgulho – Meu pai adora viajar, mas minha mãe não gosta muito de sair de lá sabe? Diz que se sente perdida em qualquer outro lugar. Cuida de todos que chegam lá, sem distinção. Faz partos, remédios, cerimônias religiosas...

Apesar de amar claramente ambos, havia um carinho tão grande no jeito dele de falar sobre a mãe, que Luxuriah não teve dúvidas sobre quem fora o grande exemplo na vida do jovem paladino. Pela forma com que ele falara, sua mãe tivera a mesma importância em sua vida quanto Dhomm tivera na dela.

– Eles devem ser maravilhosos... – comentou sem deixar de sentir uma pontinha de inveja dele.

– São sim. – e sem pestanejar, falou – Você deveria ir lá conhecê-los!

– Eu?! — se surpreendeu.

– É! – ele parecia muito animado com a ideia – Passar uns dias em Mulgore! É mais ameno que aqui, você poderia caçar um pouco, conhecer minha aldeia. Meus pais iriam adorar ter visita em casa.

Aquele convite era sem dúvida surpreendente. E mais surpreendente ainda era ela sentir tentada a aceitar. Enquanto Huaru a olhava em expectativa, ela pensava no que responder.

Todavia, naquele momento, uma voz conhecida chamou o nome dela. Era Opiel, o goblin bruxo de sua guilda. Huaru bufou, irritado com a interrupção, mas Luxuriah logo percebeu que havia algo errado. O goblin parecia estar desesperadamente feliz em vê-la.

– Luxuriah! Ainda bem que te achei! – disse ofegante.

– O que aconteceu? – perguntou preocupada.

O pânico então tomou conta dela. Seria Grey e suas irmãs?

– O Tewdric! – disse ele – Ta quebrando tudo lá na hospedaria! Grita pelo elfo atrevido e fala que ele fez algum mal a você! – e agitando as mãozinhas completou – Corre que a guarda já ta indo lá prender ele!

Luxuriah levantou apressadamente e seguiu Opiel, com Huaru logo atrás dela. Ir pra Mulgore, de repente tinha se tornado uma ideia bem mais atraente que antes.

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Tewdric estava irritado, muito irritado. A festa de seu casamento tinha sido inesquecível sem dúvida. O fato de ainda ter convidados bêbados largados pelo chão quando o sol nasceu era a prova viva que a comemoração tinha sido memorável. Embora os goblins garçons estivessem com problemas de juntar todos os ébrios para por numa carroça e sair deixando em suas respectivas hospedarias, tudo tinha sido formidável.

Exceto o fato daquele elfo paladino imprestável ainda está respirando em algum lugar.

Depois que Luxuriah saiu com Grey para acertar seus problemas, quaisquer que fossem eles, o humor de Kassyeh murchou sensivelmente. Ainda que ela tentasse passar a impressão de estar bem, de estar aproveitando tudo, ele sabia que não era aquilo que realmente sua elfa sentia. Depois que pôs as irmãs mais novas para dormir e se despediu dos últimos convidados sóbrios, ela entrou na casa e foi direto para o quarto. Aquilo o animou; com certeza um pouco de sexo faria bem aos dois.

Empolgado, ignorou os goblins que zanzavam pela casa e foi tirando a roupa no caminho. Não deu ouvidos aos gritos ofendidos dos pequenos verdes e entrou no quarto usando apenas a roupa de baixo. Todavia, quando chegou lá, todo seu ânimo se transformou em fúria.

Kassyeh estava chorando.

– O que aconteceu? – bradou ele alto, muito mais assustador do que pretendia.

A maga se sobressaltou, assustada com a fúria do marido. Limpando as lágrimas, tentou disfarçar.

– Nada... Besteira minha... Preocupada com Lux...

Não foi necessário dizer mais nada. Ele rugiu em fúria e saiu correndo do quarto. Passou a mão no machado que estava na sala e, chutando goblins e convidados desmaiados, saiu de casa gritando o nome do elfo cuja cabeça ele decidira que ia enfeitar sua caixa de correio.

E foi assim que Luxuriah o encontrou. Todos na hospedaria estavam assustados, alguns embaixo da mesa, outros no canto da parede. Havia também alguns no chão, desmaiados, provavelmente que tinham tentado conter o orc.

– Cadê ele? Cadê a porra daquele elfo??!!!! – gritava a plenos pulmões.

– Eu já disse! – disse a estalajadeira Nufa, que cuidava da hospedaria do Vale da Honra – Ele foi embora de noite!

– Ele deve ta escondido em algum canto daqui!!!! – continuava gritando Tewdric.

– Que isso meu chapa! – falou o troll que cuidava do bar – O Ferrugem aqui não mente. O palada foi-se embora lá pra cidade dos elfos cara. Pegou o zepelim e zap!

Tewdric não parecia satisfeito com a resposta e continuava gritando e arremessando qualquer um que se aproximasse.

– Quer que eu o segure? – perguntou Huaru assim que chegaram.

– Não precisa. – respondeu Luxuriah calmamente.

Ela se aproximou sem medo e pegou a orelha de Tewdric.

– Posso saber o que o senhor está aprontando, hein?! – perguntou irritada.

Toda a fúria de Tewdric evaporou-se totalmente quando ele viu quem estava apertando sua orelha. Baixou o machado e falou mansamente, até quase envergonhado.

– Oi Lulu. Eu tava te procurandoe, olha só, te achei.

–Me achou uma ova! – ela puxou mais a orelha dele – Eu pude te ouvir lá do Vale da Sabedoria! Você estava era atrás de uma confusão!

– Sabe o que é? É que a Kass tava preocupada com você. – o orc falava manso, e até um pouco receoso, como uma criança diante da mãe – Aí achei que o elfo tinha feito alguma coisa com você...

Luxuriah caiu na risada.

– Ora Tewdric! Parece que você se esqueceu de quem eu sou! Era mais fácil eu fazer alguma coisa com ele. – e dando uma pausa, percorreu o corpo do orc com os olhos – E que indecência é essa? Minha irmã sabe que você ta exibindo seu corpo por Orgrimmar hein?!

Tewdric parecia envergonhado.

– É que sai apressado sabe? Pra cortar a cabeça do elfo...

A cena era tão hilária, que quando a guarda chegou, com o propósito de prender Tewdric, pararam e ficaram assistindo enquanto ele, ainda preso pela orelha, tentava convencer a cunhada que fizera nada mais que sua obrigação como macho da família. Luxuriah estava tão irritada, que os guardas acharam que aquilo já era castigo suficiente e foram embora, tão rápido quanto chegara. Enquanto isso, Opiel e Huaru davam boas gargalhadas.

– Você vai pedir desculpas agora! Vamos! Peça! – exigiu a elfa.

– Foi mal aí pessoal. – disse para Ferrugem e Nufa – Vou pagar os estragos...

– Com o dinheiro escondido na sua cueca? – perguntou Luxuriah irônica – Você vai deixar seu machado lindo aí, como garantia.

O guerreiro fez uma expressão desolada.

– Meu machado?

Huaru tinha certeza que ele estava choramingando.

– Sim, seu machado! Mais tarde você trás o dinheiro, paga e pega ele de volta. – e então levou Tewdric, pela orelha, até Ferrugem, que pegou o machado, não sem antes dar um enorme sorriso vingativo pra Tewdric.

– Pode deixar brô! Eu cuido bem dele. – O troll fez questão de dizer.

– Agora vamos! – Luxuriah saiu puxando o cunhado até a porta da estalagem – Minha irmã deve estar morta de preocupação! – quando chegaram à rua, ela soltou a orelha do orc, que parecia prestes a chorar a qualquer momento – Eu devia ir te carregando pela orelha até em casa, mas vou relevar apenas porque estou de bom humor hoje de manhã!

Tewdric passou a mão pela orelha, que adquirira uma cor verde muito escura. Huaru até se ofereceria para curar o orc, se não tivesse certeza que a seria ele quem ficaria sem orelhas se fizesse isso. A caçadora agradeceu Opiel pelo aviso e não parou de reclamar sobre o fato de Tewdric estar quase nu em plena luz do dia.

– Onde já se viu uma coisa dessas! – disse ela pela enésima vez a Huaru, que apenas concordava com a cabeça – Sair correndo como um doido com um machado por ali.

– Kass estava preocupada – se defendeu Tewdric pela enésima vez também – Ela até chorou...

– Mas está tudo bem, não está? – Luxuriah deu de ombros – E não precisa se preocupar, o elfo foi embora.

Saber daquilo não deixava Luxuriah triste. Nem zangada. Apenas com um sentimento de vazio. Uma parte de sua história estava encerrada, e cabia ela agora passar uma borracha em tudo. Sua maior preocupação, no entanto, era onde iria conseguir seu próximo amante. Depois que descobrira com o sexo podia ser bom, não gostava de passar muito tempo sem.

Só quando estavam quase chegando à casa, foi que Tewdric reparou na presença do jovem tauren que caminhava ao lado de Luxuriah.

– E quem é esse aí? – perguntou o orc já na defensiva.

Agora era ele quem parecia o pai interrogando a filha.

– Esse é o Huaru, irmão mais novo de Mhuu. – e sorrindo para o paladino acrescentou – Ele me ajudou com Grey ontem.

– Sério? – o orc parecia mais aliviado e se aproximou do jovem – Você bateu nele? Arrancou algum membro?

– Infelizmente não tive esse prazer. – respondeu sorrindo.

Ainda havia alguns convidados estirados na frente da casa quando eles chegaram. Para a surpresa de Huaru, um deles era seu irmão. Mhuu estava deitado bem em cima da caixa de correio, com o cabelo cheio de lacinhos cor de rosa, que Luxuriah reconheceu como sendo de Karen. A menina provavelmente achou engraçado fazer trancinhas no tauren embriagado. Quem também estava à porta de casa, falando com um dos goblins garçons, era Kassyeh. Assim que os viu, ela correu em direção à irmã.

– Você está bem? – perguntou preocupada ao abraçar Luxuriah.

– Estou ótima. E você tem que aprender a controlar seu marido! – e apontou para Tewdric quase nu ao seu lado.

– Se ele tivesse matado aquele tal de Grey, podia andar nu se quisesse, todos os dias! – respondeu a maga visivelmente avessa ao elfo paladino – Espero que Tewdric tenha partido ele em dois!

– Ah como eu amo essa elfa! – disse Tewdric antes de abraçar Kassyeh e lhe dar um demorado beijo na boca. Depois, ele a colocou no braço e correu para dentro de casa, sem dar oportunidade de Luxuriah trocar mais nenhuma palavra com a irmã.

– Parece que eles vão começar a lua-de-mel. – comentou Huaru bem humorado, tirando os lacinhos rosas do cabelo de seu irmão.

– Pela Nascente do Sol, você tem razão! – falou Luxuriah se tocando pela primeira vez de quão barulhento seriam os dias seguintes – O convite ainda está de pé?

Huaru parou o que estava fazendo e a encarou, com os olhos brilhando de excitação.

– Você vai à minha aldeia? – perguntou sem esconder a empolgação.

Luxuriah riu com o ânimo dele.

– Vai ser bom mudar de ares um pouco. – e quando ouviu o grito de Ash e de Karen pedindo para Kassyeh e Tewdric fecharem a porta, ela acrescentou – Iremos todas.

O jovem paladino nada disse, apenas sorriu. Achava que falar qualquer coisa naquele momento podia simplesmente fazer com que a explosão de felicidade que tomara de conta de seu corpo destruísse Orgrimmar.

*******************

– Uau! – exclamou Karen maravilhada – Como isso aqui é lindo!

A planície de Mulgore se estendia verdejante bem em f rente aos olhos deles. As meninas acharam a ideia de viajar para dar privacidade à irmã recém-casada uma ótima ideia; Ash queria caçar, Karen queria viajar pelo simples prazer de conhecer algo novo. Pegaram um voo até o Penhasco do Trovão e de lá seguiram por terra, Luxuriah e Ashrial em seus falcoztruzes, Huaru em seu magnífico kodo encouraçado, e Karen, que ainda não sabia montar, em uma carroça alugada, puxada por um simpático kodo fêmea, treinada para fazer aquele percurso sem a necessidade de um condutor. Mesmo assim, todos vinham andando ao lado do transporte, mantendo o mesmo ritmo de marcha.

No inicio, Kassyeh fora contra; não queria se afastar das irmãs. Todavia, Luxuriah lhe prometera que seria só alguns dias, tempo o suficiente para que a irmã aproveitasse sua lua-de-mel e se preparasse para a viagem que fariam a seguir: Luaprata. Afinal, Tewdric prometera um casamento aos moldes élficos, e Luxuriah o faria cumprir nem que tivesse que mata-lo para isso. Por fim, a maga aceitara, e na manhã do dia seguinte, as três elfas partiram.

– Isso aqui é muito lindo! – Karen olhava a paisagem, embevecida – Que animal é aquele Huaru? – perguntou apontando.

– Aquele ali é um pinote. – respondeu o tauren sorrindo – Minha mãe faz uma ótima torta de pinote.

– Podemos levar um de presente! – se prontificou Ash, já puxando o arco.

– Não precisa. – disse o paladino suavemente – Depois que recebeu meu recado que eu ia levar visita, provavelmente ela fez meu pai caçar todos os pinotes da região. – e vendo o desânimo de Ash, completou – Você terá tempo de caçar coisas mais interessantes enquanto estiver por aqui, não se preocupe.

– Huaru! Huaru! – chamou Karen novamente – E aquilo ali, o que é?

– Um lobo-da-pradaria. – e dando uma pausa, acrescentou — Esse é todo seu Ash.

A elfa sorriu e desviou seu falcoztruz na direção do lobo, que já estava de olho no kodo fêmea.

Luxuriah sorriu para Huaru quando ele a olhou. Estava feliz de ter decidido viajar por Mulgore, e era notório que suas irmãs também estavam. Karen não parava de falar, apontando tudo de novo que via e perguntando, enquanto Ash abatia o lobo e ficava de olho nos arredores, esperando qualquer animal incauto cruzar seu caminho.

A viagem não foi muito longa. Chegaram à aldeia pouco depois do almoço e todos os taurens que estava ali saudaram Huaru quando ele passou. O jovem paladino parou um pouco e trocou algumas palavras com alguns deles. Depois, voltou para junto das elfas e apontou para o oeste.

– Minha casa fica para lá, vamos.

– Huaru! Huaru! – chamou Karen e quando ele olhou, perguntou – Qual daquelas ali é sua namorada? – e apontou para um grupo de três taurenas que não paravam de olhar na direção do paladino.

Luxuriah e Ash caíram na risada quando Huaru olhou diretamente para as fêmeas, que ficaram totalmente sem jeito.

– Karensky... – Luxuriah sempre usava o nome completo da menina quando ia censurá-la – Não seja inconveniente.

– Tudo bem moça! – disse Huaru se aproximando mais da menina – Não tenho namorada Karen.

– Por quê? – insistiu.

– Karen! – dessa vez foi Ash quem reclamou.

– Ah, não sei, nunca tive tempo de ter uma. – respondeu dando de ombros – Sempre estudei muito para ser um paladino.

– Então você nunca namorou? – continuou ela.

– Não.

Karen riu com gosto.

– A Ash também não!

Ashrial ficou vermelha de vergonha, muito mais por causa da forma debochada com que Karen falou do que com a informação compartilhada.

– Lux! Olha a Karen!

Luxuriah fez força para não rir.

– Karensky, pare. – disse séria, mas não sem dar uma piscadela para Huaru – Você não pode falar da sua irmã, também não teve nenhum.

– Mas eu sou criança! – argumentou a menina – E Ash não namora porque não quer! Todo elfo em Luaprata dá em cima dela!

A caçadora mais jovem não aguentou e meteu um beliscão na irmã. Karen não deixou por menos e deu outro. Logo as duas estavam trocando beliscões, precariamente equilibradas em suas montarias.

– Parem agora! – a voz potente de Luxuriah fez com que as duas se encolhessem e parassem – O que Huaru vai pensar de vocês hein?

– Ah, elas são muito divertidas. – disse ele rindo, mas completou quando viu que Luxuriah fazia um leve movimento com a cabeça de censura – Mas vocês vão acabar caindo e se machucando se continuarem com isso.

Não demorou muito e a casa de Huaru surgiu. Na verdade, era uma enorme tenda, aos moldes dos taurens, com muitos adornos e totens ao logo dela. Era rústico, mas muito bonito. Uma taurena estava sentada bem na entrada da tenda, costurando um longo tecido, quando os viu. Não precisou mais que o sorriso de Huaru para Luxuriah saber que se tratava da mãe dele.

– Que bom que vocês chegaram! – exclamou Linore quando eles apearam – Estava ficando preocupada!

– Oi mãe. – Huaru abraçou a mãe, que era bem menor que ele.

– Ah, meu novilhozinho! – disse ela carinhosamente – Estava com saudades! – e olhando atentamente para ele, censurou – O pelo de sua testa está assanhado! Deixe-me ajeitar.

– Mãe! Na frente das visitas não! – protestou ele quando sua mãe pegou no seu chifre, baixou sua cabeça e passou a lamber seu pelo da testa.

Karen e Ash deram risadinhas, antes de Luxuriah as calar com dois potentes beliscões.

Depois de deixar a aparência de seu filho mais aceitável, Linore se voltou para as elfas, com um enorme sorriso.

– Você deve ser Luxuriah, não é? – perguntou ela se dirigindo à mais velha.

– Sim, sou eu. – respondeu ela estranhando ser conhecida, mas mesmo assim fazendo uma pequena reverência para a senhora – É um prazer conhecê-la.

– Ah, sem formalidades! Já ouvi muito falar de você por aqui! Você ajudou muito quando a Aliança tentou nos invadir a algum tempo, não foi?

Luxuriah olhou para Huaru, que apenas piscou o olho, cúmplice.

– Sim sou eu. – respondeu sem sabe por que de repente ficara sem jeito – E essas são minhas irmãs, Ashrial e Karensky.

– Que coisa mais fofa! – exclamou Linore ao ver Karen – Que bochechas rosadas! – e apertou as bochechas de Karen.

– Osbridgadasss – tentou falar a menina – PosdhemeecharsmarKasrens.

– O que ela disse? – perguntou a senhora ao filho.

– Se a senhora soltar as bochechas dela, vai entender mãe.

– Ah, claro! — e soltou as bochechas da pequena elfa, que estavam ainda mais vermelhas.

– Pode me chamar de Karen! – ela não parecia aborrecida mesmo tendo as bochechas apertadas tão fortemente.

Linore sorriu encantada com a menina, e depois desviou a atenção para Ash.

– E essa jovem caçadora, quem é?

– Ashrial senhora, muito prazer. – e fez uma reverência.

– Não, não, nada de formalidades. – disse a senhora antes de também apertar as bochechas da outra – Sejam bem vindas e sintam-se em casa! Fiz torta de pinote e pudim de amora pra sobremesa! Vocês devem estar famintas! — e se voltando para o filho, pediu carinhosamente – Hu, você leva as montarias para o estábulo querido?

– Claro mãe. – respondeu ele alegremente.

– Eu te ajudo. – se ofereceu Luxuriah.

– Não precisa! – protestou o paladino.

– Faço questão! – insistiu ela antes de acrescentar baixinho – Estou salvando minhas bochechas!

Huaru riu com gosto e apontou para o estábulo, enquanto sua mãe conduzia alegremente as meninas para dentro da tenda. No estábulo, Luxuriah ajudou Huaru a amarras os kodos e os falcoztruzes, colocar água para eles e deixar a carroça num lugar que não incomodasse os animais.

– Sua mãe é muito simpática. – elogiou Luxuriah quando se dirigiam à tenda.

– Ela é sim. – o paladino sorria meigamente.

– Você tem o sorriso dela.

Ele coçou a cabeça encabulado.

– Obrigado moça. – e diante do olhar de censura dela, corrigiu – Luxuriah.

Era tão bom estar com ele. Fazia se sentir a vontade, se sentir ela mesma, sem máscaras nem armaduras. Apenas ela.

– Então... – disse antes que chegasse à tenda, de onde um cheiro maravilhoso de comida saia – Você nunca teve namorada?

Ele fez que não com a cabeça.

– Peguete? Ficante? Caso? – insistiu ela.

– Não, Luxuriah, nunca me envolvi com ninguém. Não tinha tempo. – e deu de ombros.

– Ou talvez nunca tenha achado alguém com quem valesse a pena perder algum tempo.

Huaru a encarou demoradamente, e Luxuriah sentiu seu rosto arder levemente. Estaria ficando encabulada com a intensidade do olhar do jovem?

– É, talvez... – concordou ele antes de lhe dar um belo sorriso e indicar a entrada da casa.

A comida de Linore era muito melhor do que qualquer uma que as meninas já haviam provado, melhor até que a de Kassyeh. Comeram com vontade tudo que a xamã as ofereceu, e repetiram mais de uma vez, para o total deleite da senhora.

– Coma mesmo, vocês são muito raquíticas! – falou encantada com o apetite das jovens.

– Dona Linore, posso te fazer uma pergunta? – quis saber Karen ao pegar o terceiro prato.

– Claro querida.

Luxuriah e Ashrial se entreolharam. A expressão de expectativa de Karen as deixou preocupadas.

– Os taurens já nascem com chifres?

Todos riram. Não fora tão mal assim.

– Sim, já nascem com pequenos chifres.

A menina pareceu extremamente surpresa.

– E não rasga tudo lá embaixo?! – perguntou assombrada.

As irmãs mais velhas tiveram sensações parecidas diante da fala da menor, mas com sentidos diferentes: Ash queria morrer de vergonha e Luxuriah queria matar Karen por causa da vergonha. No fim, ambas tiveram a mesma ação.

– Karensky! – gritaram.

Huaru gargalhou alto, sendo acompanhado por sua mãe.

– Minha querida, os chifres é o menor dos problemas, já que ele nasce pequenininho. O problema é quando vem a cabeça!

Não houve vergonha que resistisse a meiguice de Linore. Todos riram com gosto e Luxuriah teve a certeza que aquele foi o melhor dos almoços que tivera em anos.

Depois de devidamente alimentadas, Huaru fez questão de mostrar os arredores para elas. A casa deles era afastada do centro principal da aldeia, perto de uma colina rodeada por árvores. Também havia um rio por perto, onde o paladino instruiu as meninas do melhor lugar para mergulhar, se quisessem. Foi somente no jantar que elas conheceram Raziel, o pai de Huaru. A primeira vista, a aparência dele era assustadora. Era o maior tauren que Luxuriah tinha já tinha visto, com exceção do falecido Caerne Casco Sangrento. Ele tinha cicatrizes espalhadas por todo o corpo e na perna esquerda, abaixo do joelho, trazia uma prótese de madeira. Todavia, o sorriso com que recebeu as convidadas mostrava que ele tinha um coração terno, como da sua esposa e filho.

– É um prazer tê-las aqui! – disse efusivamente apertando as bochechas de Karen antes de dar um apertado abraço em Luxuriah e Ash – Eu estava falando justamente ao chefe Casco Sangrento minha honra de receber Luxuriah do Cair da Noite em minha casa!

Agora sim, Luxuriah corou. Fazia algum tempo que ninguém se referia a ela por aquele título.

– Obrigado senhor Raziel. – disse fazendo uma mensura.

– Sem o senhor, por favor! Apenas Raziel. E vamos comer, que to morto de fome, eu comeria um kodo!

Enquanto todos jantavam, Luxuriah percebeu, com dor no coração, que era a primeira vez que Karen e Ash tinham uma típica refeição de família. Linore as enchia de comida e Raziel as enchia de história. Ash ficou muito satisfeita quando o velho caçador disse que iria falar com o novo líder do grupo de caça para levar a jovem elfa na próxima caçada para conhecer o território. Karen ficou muito satisfeita quando Linore disse que precisaria ir ao centro da vila e que a levaria, para que pudesse brincar com as crianças taurens.

– Parece que só vamos sobrar nós dois. – comentou Huaru animado diante dos planos para o dia seguinte.

– É. – respondeu Luxuriah baixando a cabeça para o prato.

– O que foi? – perguntou preocupado.

– Nada.

– Não quer minha companhia? – a voz de Huaru de repente ficou muito triste com a possibilidade.

– Não é isso! – disse rapidamente – Eu adoro ficar com você!

E era verdade. Mesmo naquele momento, estavam sentados um ao lado do outro, comendo placidamente, enquanto a festa acontecia ao redor deles. Ambos percebiam o quanto gostavam de estarem perto. Isso acalmava Luxuriah e animava Huaru.

– E o que é então? – insistiu ele, mas respondeu em seguida – Lembra sua família não é?

Luxuriah suspirou e assentiu.

– Mas isso deveria te deixar feliz, não? Viver um pouco disso de novo?

A forma simples e sensata que ele falava a fazia se sentir como se tivesse diante da coisa mais óbvia do mundo. Gostava daquilo.

– Tem razão. – falou se esforçando para sorrir para ele – Vamos viver um pouco disso!

O jantar durou mais que o usual. Logo, estavam tomando chá em volta da fogueira do lado de fora da tenda, enquanto Linore contava velhas lendas taurens e de Azeroth, enquanto jogava ervas e alguns tipos de pó na fogueira, que estalavam em faíscas e perfumavam o ar. Karen e Ash ouviam tudo embevecidas. Quando a lua já estava bem alta Luxuriah decretou que era hora delas dormirem e, apesar dos protestos das meninas, Linore concordou. Deveriam se deitar se queriam aproveitar bem o dia seguinte.

Havia uma tenda que servia como casa de banho, bem atrás da casa. As elfas se banharam usando as loções perfumadíssimas que a xamã fizera especialmente para elas, e depois foram para o que poderia chamar de quarto. Era uma parte da tenda, separada com uma cortina belíssima que lhes dava privacidade. Luxuriah explicou para as irmãs que ao invés de paredes, era com aqueles tecidos que os taurens separavam os cômodos de suas tendas. As camas que foram providenciadas para elas eram muito confortáveis, ficavam no chão como as esteiras dos orcs, mas tinham colchões e eram cobertas por peles macias. Logo depois de deitarem, Ash e Karen já dormiam em um sono profundo.

Luxuriah, no entanto, permanecia acordada.

Era a terceira noite que o sono não vinha. No casamento de Kassyeh, fora a conversa com Grey e seu choro que mantivera acordada. Na segunda noite, antes da viagem, até dormira um pouco, antes de ser acordada por pesadelos terríveis do dia em que seus pais morreram. E agora, estava com medo de dormir. Não queria acordar todos com seus gritos como fizera da última vez.

Um movimento na cortina do quarto chamou a atenção. Foi bem de leve, mas pode ver Huaru olhando através da abertura.

– Desculpe. – sussurrou ele ao ver que Luxuriah o encarava – Só vim verificar se vocês estavam bem.

– Eu sei. – sussurrou ela de volta – Obrigada.

Contudo, ele permaneceu a encarando.

– Sem sono? – indagou.

– Sem vontade de dormir. – respondeu sinceramente. Afinal, não havia mais sentido esconder nada dele, havia?

Huaru ponderou um pouco sobre a resposta dela e abriu um pouco mais a cortina.

– Poderia então fazer companhia a mim? – e apontou para o outro lado do corredor, onde ficava o quarto dele – Podemos conversar um pouco até você ter vontade de dormir.

Luxuriah quis responder que provavelmente jamais teria vontade de fechar os olhos outra vez, mas aquilo seria rude com ele. E a última coisa que queria era ser rude com Huaru. Levantou-se devagar, para não acordar as irmãs, e saiu do quarto. Silenciosamente, caminharam até o quarto de Huaru. Quando Luxuriah viu o ambiente, não aguentou e deu uma pequena risada. Ironias da vida.

– O que foi? — quis saber ele sentando no chão e apontando para a cama dele, para que Luxuriah sentasse lá.

– Livros. – respondeu ela apontando para os amontoados de livros no chão do quarto – Eu disse uma vez a Kassyeh que ela casaria com um paladino louco por livros. Assim como você. E ela me disse que eu casaria com um orc.

Riram enquanto ela se sentava.

– Bem, já sei que história contar se um dia nos casarmos. – e piscou o olho para ela.

– Que nada, você vai casar com alguma daquelas jovens taurenas que ficaram te olhando hoje mais cedo. – e acrescentou maliciosa – Elas estão loucas para estar aqui, onde estou. – e bateu com a mão na cama de Huaru.

– Prefiro que você continue ai. – respondeu taxativo.

Luxuriah normalmente se sentia lisonjeada quando algum macho mostrava interesse nela, mas daquela vez, ao ver nos olhos de Huaru que ele falava sério, ficou temerosa. Todavia riu, e preferiu mostrar que tinha encarado aquilo como brincadeira.

– Obrigada, prometo cuidar bem de sua cama. – disse brincalhona se esparramando na cama dele – Muito fofinha.

– Eu não estou brincando. – Huaru falou suavemente, com um sorriso no rosto – Eu realmente prefiro você a todas as outras.

Sentindo o coração acelerado, Luxuriah se endireitou e encarou Huaru demoradamente.

– Isso não é bom para você. – disse ela seriamente.

– O que? – indagou.

– Ter interesse em mim.

– Por que não? – perguntou inocentemente

– Você sabe por quê. – respondeu exasperada – Não sou uma pessoa boa Huaru. Principalmente pra alguém inexperiente como você.

Huaru apenas sacudiu a cabeça.

– Achei que tinha dito que isso que decide sou eu, não você. – disse com simplicidade.

A caçadora respirou fundo e colocou a mão no rosto. Que menino teimoso!

– Acho melhor voltar pro meu quarto. – disse ela fazendo menção de se levantar.

– Não! – pediu ele tocando levemente em seu braço – Não vá. Eu... Não falo mais sobre isso, se você não quiser...

O jeito com que ele falou foi tão pesaroso, que Luxuriah teve vontade de enfiar uma faca no próprio peito, por ter permitido que aquela sombra passasse nos olhos dele. Voltou a sentar na cama, deixando-o mais aliviado. E tinha que admitir, também preferia estar ali, com ele.

– Por que você não quer dormir? – perguntou ele, mudando e assunto.

– Pesadelos. – respondeu sinceramente – Fazia anos que não os tinha, mas eles voltaram noite passada. — e achando que devia ser totalmente clara com ele, completou – Pesadelos com aquele dia.

– Entendo... Então você está com medo de dormir...

O que mais a impressionava era a facilidade com que ele chegava à verdade.

– Sim, estou. – confessou por fim.

Balançando a cabeça, pensativo, Huaru se aproximou mais dela e sentou na cama ao seu lado.

– Então durma comigo aqui hoje. – ofereceu.

Normalmente Luxuriah sabia exatamente o que um convite como aquele significava. Todavia, estava claro que Huaru estava realmente falando em dormir.

– Eu nunca dormi com ninguém, além das minhas irmãs. – confessou, e diante do olhar surpreso dele, acrescentou – Quando eu estava com Grey ou com outros, não era exatamente dormindo que ficávamos. Fazia o que eu queria e ia embora depois.

– Também nunca dormi com ninguém. – revelou solenemente – Em nenhum sentido.

Luxuriah sorriu carinhosamente para ele.

– Então, será a primeira vez para nós dois. – brincou a caçadora.

Deixou que Huaru se acomodasse na cama, e se aconchegou a ele. Era estranho, estar junto com alguém na mesma cama e simplesmente continuar vestida. Huaru, por outro lado, parecia extremamente feliz em estar ali com ela. O mais impressionante, foi que ele não tentou absolutamente nada. Deixou que se aconchegasse em seu peito, passou a mão em seus cabelos e fechou os olhos. A inocência dele a comoveu.

– Não quero macular você com meus pecados... – sussurrou na escuridão.

– Shhhh... Não fale nada... – pediu carinhosamente – Apenas me abrace...

Ela o abraçou. Chorou. E por fim dormiu. Não viu quando Huaru depositou um casto beijo em seus lábios, antes de sorrir e cair no sono.

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Lor’themar Theron estava em sua sala, com uma pilha de documentos em sua mesa. A maioria era relatórios diários de missões de reconhecimento e proteção de Quel’thalas. Era um trabalho tedioso, mas um trabalho que alguém tinha que fazer.

Quando Rommath entrou na sala, com uma expressão de perplexidade, o Lorde Regente esperava qualquer notícia, menos a que recebeu.

– Senhor, precisa ver algo. – seu tom era urgente — É importantíssimo.

Não questionou seu conselheiro, e o seguiu para fora da Torre Solfúria. Quando Rommath tomou a direção do viveiro de falcoztruz que ficava fora da cidade, ele teve um pressentimento. Só havia um motivo para estar sendo levado ali.

– Lorde-regente. – saudou o elfo que cuidava das aves quando ele se aproximou.

Estava lá. No meio de outros ovos chocados, com filhotes de todas as cores, destacava-se um pequeno filhote totalmente branco. Lor’themar ficou em silêncio, observando a pequena criatura. Parecia não acreditar no que via.

– Meu lorde – começou Rommath – Isso significa...

– Eu sei. – cortou Lor’themar – Sei exatamente o que significa. Quando um falcoztruz branco nasce, é sinal que está na hora do herdeiro da linhagem Andassol começar a se preparar para assumir o trono. – e olhando para Rommath, ordenou – Vasculhem todos os documentos reais. Há alguém da linhagem Andassol que desconhecemos. – e sorrindo, acrescentou – Alguém com o real direito de guiar nosso povo. E nós vamos achá-lo.