Herdeiros Da Noite - O Trono
2 Capítulo 01 - Pesadelo
Notas iniciais
Um campo nunca fora tão verde como este; as flores nunca foram tão perfumadas como estas; o céu nunca fora tão límpido e estrelado; a lua nunca se mostrara tão serena, tão pura e tão hipnotizante. Não lembrava-me daquele lugar; se é que o já vira em algum momento de minha vida. Recordaria de tamanha exuberância. A leve brisa veio acariciar minha pele e brincar com meus fios de cabelo, enquanto apreciava o perfume das flores misturado ao salgado aroma do mar. Se eu fechasse os olhos e me concentrasse apenas um pouco ouviria o som das águas batendo nas rochas.
Ruínas me cercavam naquele ambiente alucinante. Deitada na grama úmida e verdejante fechei os olhos lentamente, puxando uma quantidade considerável de ar para meus pulmões. Algo suave e macio roçava meu rosto. Percebi que era uma flor pelo aspecto aveludado. Lentamente abri os olhos que se encontraram com os de um desconhecido. Olhos escuros e tão profundos como o oceano. Eu deveria fugir de um estranho, mas mesmo não sabendo quem era este homem sentia como se o conhecesse há décadas. Eu não conseguira ver sua face, apenas os olhos brilhantes, hipnotizantes e redondos como a lua. Beijei a tulipa amarela que agora acariciava meus lábios e, novamente, fechei os olhos, em uma tentativa desnecessária para sentir o perfume inexistente da flor.
Era apenas um sonho.
Todos já haviam acordado. Minha convicção para isto devia-se ao fato de não conseguir voltar ao meu sonho, pela infinidade de sons ruidosos vindo de diversos cantos da casa: portas batendo, panelas caindo, reclamações e conversas em uma uníssona. Foi à primeira vez em tempos que eu tivera um sonho agradável e não poderia apreciá-lo como gostaria.
Definitivamente os finais de semana nunca foram os meus dias prediletos. A maior parte dos momentos onde me sentia entediada devia-se aos passeios em família. Um carma que eu deveria carregar, e passar de geração a geração. Era uma tradição da família Desmond que não poderia ser quebrada, por quaisquer que fossem as circunstâncias; uma tradição tola e muito sentimentalista. Tinha que deixar meu computador e livros para aproveitar o momento familiar. Papai sempre ficava entusiasmado com nosso “ritual” matinal. Isso por muitas vezes era irritante. A figura paterna mudava nesses dias. Cada final de semana em que podia estar conosco ele era como uma criança a conhecer pela primeira vez o parque de diversões. Não era para menos, exercer sua profissão devia ser maravilhoso e ao mesmo tempo cansativo. Ser piloto tem suas vantagens e desvantagens. Papai constantemente viajava, conhecia lugares maravilhosos, sem gastar um tostão sequer de seu bolso, mas em compensação ficava fora por muitos dias e sem muito contato conosco, por isso quando tinha uma folga seus olhos cintilam quando ouvia a frase final de semana. Porém nem sempre suas folgas batiam com os da família, contudo quando a oportunidade surgia às chances eram mínimas de ficar dentro de casa, para qualquer um de nós. Enquanto seres humanos normais dormiam até tarde, para descansar da semana exaustiva, ou levar o trabalho para dentro de casa, papai nos fazia acordar cedo. Eu já tinha muito com o que me ocupar na semana, um deles era o colégio (estudar não é nada fácil), e não podia fazer o que queria no único dia que tinha para descansar. Uma grande injustiça. Ainda mais com toda a pressão escolar e familiar para saber ao que me dedicaria quando terminasse o colegial. Não fazia a mínima ideia.
Eu tentei ao máximo me mover. Mas era sábado, meu corpo pedia para continuar sendo aquecido pelo cobertor e cama macios. Um feixe de luz, que vinha da janela, bateu diretamente em meu rosto, fazendo-me automaticamente afundar o rosto no travesseiro. Odiava a luz do sol. Mais um dos motivos para não sentir-me animada. Não que ela me fizesse algum mal de fato, mas particularmente esse seria um dos momentos que me sentia desconfortável. Nunca gostei de praia ou calor, até porque minha pele se tornava de translucida a um vermelho intenso e não era algo muito bonito de se ver. A sistemática de tomar sol não fazia sentido algum para mim. Não compreendia como as pessoas gostavam de fazer esse tipo de coisa por livre e espontânea vontade.
Eu nunca fiz um exercício físico sequer em minha vida por vontade própria, pois isso me deixava com calor e suada. Eu não era uma péssima atleta, ao contrário, eu era até boa nos esportes, apenas optara por não fazê-los com muita frequência, um dos motivos para eu quase repetir em Educação Física. Se eu pudesse escolher os dias que me faziam mais feliz seriam todos aqueles em que o sol não me causa seus efeitos.
Tentei concentrar-me em pegar no sono novamente. A tentativa mais frustrada que eu pude fazer. Dormir em uma estação de trem seria mais fácil — ou ao menos mais silencioso que minha casa. Minha família dificultava mais a minha vontade de dormir até tarde. Eu nunca conseguira ficar aos sábados em casa na cama. Não que eu me lembrasse. E não lembrava-me de já ter estado doente em algum momento que me fizesse ficar de cama. De qualquer forma, sempre havia uma atividade á fazer — muitas vezes cultural. Interagir com minha família não era algo que eu tinha disposição em fazer, não aos benditos finais de semana. Preferia os amigos da escola ou minha literatura, a cama, obviamente, também era uma melhor opção. Isso tudo seguido pelo discurso repetitivo do qual eu sabia de cor, onde mamãe sempre dizia “Esse comportamento é típico de um adolescente. Na minha época as coisas eram bem diferentes”. Entediante.
Ouvi passos no corredor; provavelmente meus pais indo em direção à minha porta (me acordar era outra parte da tradição).
— Evy — disse meu pai batendo na porta —, se você não se arrumar logo, vamos sem você.
Eu desejava fervorosamente que isso acontecesse, entretanto papai nunca fora bom ator. Diga-se os jogos de mímica e adivinhações que eram um desastre por sua performance. E, acima de tudo, iniciara a frase com o apelido carinhoso que geralmente me chamava, o que mostrava que não estava nem um pouco irritado.
— Katherine Eveline Desmond — a voz estridente e ensurdecedora de mamãe. Diferente de meu pai com toda a certeza ela estava sem muita paciência —, sei que você ainda está na cama. Levante-se e se arrume.
Minha cama sempre parecia mais aconchegante à medida que falavam para sair dela. Uma situação inevitável nas minhas condições. A preguiça demasiada transformava meu corpo e o cobertor em um só. Infelizmente eu sempre perdia a batalha, pois não havia pessoa cujo sono fosse mais forte que ouvir mamãe, gritando a plenos pulmões em um sábado de manhã. Os vizinhos já estavam acostumados a isso. Eu não. Mas seria inútil continuar, ainda mais com meu irmão caçula Max invadindo meu quarto e me chacoalhando, atrás de um boneco de ação que, não sabia o motivo, achava que eu conhecia seu paradeiro. Assim como das outras vezes desisti de continuar.
Tive certa dificuldade de largar meu travesseiro, mas o fiz, mesmo contra minha vontade. Tirei pesadamente o cobertor florido de cima de mim e joguei os pés no chão, sentindo o piso frio, ainda de olhos fechados esperando o momento certo de encarar a luz. Como uma sonâmbula, me dirigi rapidamente ao guarda-roupa, mexendo nas gavetas atrás de algo para vestir. Coloquei um jeans e uma camiseta branca de algodão. Após ouvir mamãe me chamar pela centésima vez coloquei as meias, e meu tênis surrado e sujo, que há tempos já era meu mascote. Fui lavar o rosto e escovar os dentes. O emaranhado de meus cabelos que gritavam por um pente, logo já estavam penteados. Passei uma maquiagem básica, destacando meus olhos cor-de-mel com o delineador. Fiz uma checagem rápida dos meus e-mails, respondendo sem muito interesse alguns deles, e deletando principalmente spams. Ao ouvir o roncar de meu estômago resolvi tomar o café-da-manhã. Peguei meu celular e o Ipod; ambos ao lado do computador. Coloquei os fones de ouvido e desci correndo as escadas, levando-me quase a um tropeço que seria seguido de uma série de rolamentos e provavelmente hematomas. A culpa, claramente, seria de meu irmão caçula, que não consegue guardar seus brinquedos e deixa-os espalhados pela casa — preferencialmente a escada.
Correndo em direção a cozinha fui fazer uma rápida análise dos suprimentos que minha mãe teria colocado na cesta de piquenique, para eu ter a certeza de que seria algo comestível. Talvez as refeições preparadas por mamãe tenham me influenciado em uma vida sedentária à base de gordura e carboidratos.
— Aprovado? — ironizou.
— Sim, senhora. — bati continência.
Quando mamãe se distraiu aproveitei para pegar um dos sanduíches de dentro da cesta, mas ela me fitou com olhar de reprovação. Naquela circunstância comeria qualquer gororoba para saciar os gritos que vinham de meu estômago.
— Mãe, você viu meu patins? — gritou Max, em algum lugar da casa onde sua voz fizera eco.
— Você vai encontrá-lo provavelmente perto da escada, onde alguém possa quebrar um braço ou uma perna — respondi como meu dever de irmã mais velha e aborrecida.
Papai transbordava de empolgação. E era tanta que empurrava-nos para a porta em direção ao carro. Joguei-me no banco de trás do Meriva preto, tendo uma surpresa pela dor que algo me causara. Mentalizei um palavrão.
— Acho que isso é seu. — entreguei a Max o boneco de ação que tanto procurava.
Já que eu não conseguira alcançar meu objetivo em casa pelo menos faria uma das coisas que eu mais gosto. Troquei a facha do meu Ipod e apertei play, colocando Requiem de Mozart para ouvir. Enquanto o carro se movimentava eu fechei os olhos para prestar atenção na sonoridade de cada instrumento. A melodia me fazia refletir deixando-me sonolenta. Música era uma das formas de escapar do que me cercava, ou de manter conversas indesejáveis. Aquilo me acalmava e distraía. Cai em um sono suave, e novamente estava no mesmo campo verdejante de meu sonho; ainda conseguia sentir o cheiro de terra e grama. Desta vez eu não encontrara o estranho de olhos hipnotizantes, e sim olhos famintos e
tão escuros que facilmente poderiam se confundir com a noite. Seu olhar era feroz e revelava suas intenções. Despertei assustada, com o barulho da buzina do carro, e com as palavras obscenas que vinham da boca de papai.
Era um dia ensolarado, típico da temperatura tropical do Brasil. Como sempre, São Paulo estava infernizada de pessoas estressadas, e cansadas do trabalho. Muito comum, e muito quente também para meu desagrado; por volta de uns 32 graus. Isso já fazia parte da agitada vida dos cidadãos paulistanos. Como os congestionamentos constantes e lentos que se estendiam por horas, um dos motivos para o temperamento explosivo dos condutores. Assim como os dilúvios repentinos que inundavam a cidade acinzentada. É fácil perder a paciência em São Paulo, principalmente quando há trânsito, uma condição quase inevitável nesta caótica cidade. Até mesmo aos finais de semana.
— Me desculpem! — disse ele, se referia principalmente a Max.
Esforcei-me ao máximo para pensar em algo coerente que pudesse me auxiliar no significado daquele sonho. A única coisa que eu conseguia pensar, e que me intrigava, era em poder voltar àquele campo mais uma vez.
Minutos depois havíamos chegado ao Parque Burle Marx. Um lugar lindo, verde e cheio de vida. Mesmo que eu não gostasse do sol o local ficava ainda mais belo com a presença de luz. Ainda sim preferia o frio ou a chuva, ou ambos, para mim era mais confortável e apreciativo. Dentre a floresta havia uma trilha, da qual sempre fez parte do nosso cronograma de lazer. Entravamos no meio da mata e observávamos as árvores, pássaros e outros seres vivos que ali habitavam. Eu gostava do cheiro do verde e ainda mais das altas árvores. Era gostoso sentir a umidade e a mudança de temperatura, do jeito que gosto em dias de chuva. Dirigimo-nos em seguida para a área de piquenique, enquanto continuávamos com esse momento de contato com a natureza. Olhei o espaço verde à minha volta, tentando achar uma relação ou um resquício de meu sonho com aquele lugar.
Não, disse a mim mesma. Não é o lugar.
Lembrei-me das poucas vezes que algo que eu havia sonhado ter acontecido. Ou teria sido apenas um comum Déjà Vu? De qualquer modo há poucos meses começara a ter os mesmos sonhos. Repetindo-se e repetindo-se. Aquilo não me fazia sentido algum, pois não reconhecia nada daquele sonho: o lugar, o cheiro, aquele olhar.
Mamãe estirou a toalha xadrez na grama fresca e colocou a cesta em cima, retirando todo o conteúdo de dentro dela. A cena me parecia um tanto clichê: o dia maravilhoso, a grama verdejante, uma mulher de vestido florido estirando uma toalha com uma cesta cheia de comida, a espera dos filhos e do marido, algo como em um filme americano antigo. Era engraçado de se pensar. Aproveitei a oportunidade para comer novamente um de seus sanduíches. Era impressionante a evolução culinária de mamãe — não fui a única a percebê-lo, já que recebera muitos elogios e não foi deixada qualquer sobra de sanduíche. A comida dela não era ruim, mas lhe faltava um pouco mais de habilidade, coisa que papai tinha de sobra. Herança de família talvez, junto com o guisado que só papai e seus familiares sabiam fazer. Porém, eu não podia reclamar, afinal de contas, era um zero à esquerda quando se trata de afazeres domésticos. Todavia mamãe estava melhorando e, obviamente, o progresso estava sendo benéfico para todos nós. Ela sempre estava muito ocupada, não só cuidando da casa, mas também se dedicando a música, que era sua paixão. Papai sempre deixou claro que, mesmo com família, ela não devia privar-se do que amava. Seu amor por música fez crescer em mim um sentimento tão forte quanto o dela, não só por ser minha professora no colégio, o que era mais um motivo para não querer interagir com meus pais, mas pela felicidade que a consumia. Era tão bom sentir aquilo. Aprendi a apreciar os mestres Mozart, Chopin, Vivaldi, Beethoven, Bach e muitos outros através de suas sinfonias. Enquanto mamãe me instruía no clássico papai me mostrava as bandas e canções do “rock clássico”: Beatles, AC/DC, Rolling Stones, Guns ‘n’ Roses, e a lista se estendia. Ele até tivera uma banda quando mais jovem.
O tempo passara depressa, depois de tanto correr e jogar bola, mesmo contra minha vontade, acatando aos desejos de meu irmão mais novo, logo nos preparávamos para irmos embora. Fiquei feliz por não ter percebido o tempo passar, pois a maioria das vezes ele é vagaroso, o que me deixa extremamente entediada quando não tenho o entretenimento que me agrada.
Senti meu celular vibrar freneticamente no bolso da çalça e o seu toque soar cada vez mais alto, Rock You Like a Hurricane, do Scorpions. Olhei para a tela e atendi imediatamente ao ler o nome que piscava. Era Jasmine, minha melhor amiga e colega de classe, perguntando se eu iria dormir em sua casa. Aquilo me deixara feliz, pois no domingo seria o show de uma banda nacional que começava a fazer sucesso, da qual o vocalista era primo de Jasmine, fora que eu adorava ouvir um bom rock. Eu nem precisava fazer cara de choro. Meus pais amavam Jasmine — um dos motivos para ser minha melhor amiga — e Dona Fátima, sua mãe. Então não negaram a minha vontade.
A casa de minha amiga era mais frequentada por mim do que eu em minha própria casa. Sentia-me muito à vontade com ela, pois era a irmã que eu gostaria de ter. Coloquei-a neste posto mesmo assim. Partilhava praticamente das mesmas ideias e gostos que eu, algo que nos uniu de imediato e não nos separou nunca mais.
Sem perder mais tempo me apressei ajudando a guardar alguns utensílios na cesta de piquenique, enquanto mamãe dobrava a toalha e papai procurava Max para irmos embora. Não queria perder um segundo sequer. Antes de nos direcionarmos ao estacionamento olhei para o céu. Meu olfato era uma coisa extraordinária. Conseguia notar a mudança do clima antes mesmo que acontecesse, algo que meus pais achavam um tanto quanto curioso. Eu nunca errava nas minhas previsões. Não me lembrava quando isso começara a acontecer, apenas sabia que quando os acertos tornaram-se constantes consultar a previsão do tempo no jornal já não era mais necessário. Olhei para meus pais e eles entenderam o recado. Fomos até o estacionamento. Papai e mamãe correram junto com Max, colocando nossos pertences no automóvel, joguei-me no banco de trás do carro, sem nenhuma surpresa a minha espera e logo todos já estávamos dentro do veículo. O céu que estava azul e límpido começara a mudar para uma carregada e cinzenta tempestade. Papai pôs a chave na ignição em um movimento tão rápido que eu ao menos percebera que o carro já estaria indo em direção à casa de minha amiga. Não demoraríamos muito para chegarmos lá e nem contava com isso. Aquele momento me deixara ansiosa, faria algo que eu não teria objeção em realizar: me divertir com minha amiga.
A respiração dentro do veículo embaçou as janelas do Meriva, enquanto a chuva batia instável no vidro do carro. Isto deixara Max muito inquieto. Uma criança presa dentro de um carro, em um sábado de dia chuvoso, não espera isso como um meio de diversão. Já eu adorava aquele clima. Porém Max fazia de qualquer tempo algo bom, pouco lhe importava se chovia ou fazia sol. Em poucos minutos a janela do banco traseiro do carro havia algum tipo de desenho distorcido com criaturas inexistentes, e caricaturas assimétricas que designavam respectivamente ser cada um de nós, pelo que dissera. Ao contrário de mim ele adorava as saídas em família e tinha energia além da conta.
O carro parou. Mamãe foi a primeira a sair dele, abrindo a porta traseira para que a seguisse. Me agarrei ao seu corpo, enquanto segurava o guarda-chuva para que eu não me molhasse e fomos até a campainha da casa para toca-la. Ela aproveitou e colocou seu cardigan branco em meus ombros. Pedi para que não se esquecesse de me trazer roupas e colocá-las em minha mochila de couro, onde havia vários chaveiros de pelúcia pendurados, e que não se esquecesse também de me trazer algum livro, em cima da mesa do computador, onde praticamente todas as minhas coisas importantes ficavam. Jasmine e sua mãe apareceram, cumprimentando e se despedindo da minha.
— Eu te amo! — disse mamãe, abraçando-me.
Revirei os olhos.
Aquilo era embaraçoso. Entrei e fui direto para o quarto de Jasmine, ignorando a cena que havia acontecido. Lá era como meu segundo quarto, quase como se não saísse de minha própria casa, exceto pelo papel de parede cor de rosa que tomava conta do ambiente. Essa era uma das coisas que nos diferenciava, ela gostava de rosa, até demais, eu preferia vermelho.
Conversamos por horas, principalmente sobre o show que iríamos e também sobre o suposto interesse de Pedro, seu primo, em me conhecer. Com toda a certeza ela fizera uma grande propaganda de mim, apenas por eu ter visto uma única vez a foto de Pedro e comentado que ele era fofo. Seu sensor de cupido não desligaria até finalizar seu trabalho.
Nem vimos o tempo passar; já passava das 7:00 pm. Fiquei preocupada com o horário, afinal de contas, meus pais ainda não tinham retornado ou telefonado. Decidi ligar para o celular de mamãe para saber o que acontecera. Mas nada. A chuva estava forte, então poderia estar interferindo no sinal. Eu sempre fui um tanto frenética e impaciente com qualquer coisa que me deixasse ansiosa, não gostava de esperar. Fitava hora ou outra a janela na esperança de aparecerem. Apesar disso tentei manter a calma e relaxar. Talvez já estivessem a caminho.
Ouvimos Dona Fátima gritar da cozinha, avisando que o jantar já estava pronto e que se não nos apressássemos iria esfriar. Descemos as escadas e fomos até a mesa. A mãe de Jasmine colocou uma porção de macarronada com almôndegas para nós, sua especialidade. O dourado do macarrão parecia ainda mais apetitoso junto ao molho vermelho que escorria procurando o fundo do prato. Era tão bela aquela visão culinária que eu pensara apenas em observar o encontro deste casamento perfeito, mas a partir do momento que eu sentira o cheiro do molho não pensei duas vezes e ataquei. Em nossos pratos fundos saboreávamos aquela deliciosa refeição. Sempre que podia a mãe de minha amiga preparava este prato, pois era o meu preferido e o dela também, mas não antes do guisado de papai. Eu simplesmente não conseguia enjoar daquilo, ainda mais que sua mãe tinha dedos divinos para a melhor macarronada que eu já comera em toda a minha vida. Enquanto comíamos o telejornal anunciava alguns acidentes ocorridos daquele dia, e que a tempestade pioraria ao longo da noite. Para mim o tempo estava ótimo, era perfeito, não poderia pedir outra coisa.
Após o jantar retiramos os pratos da mesa, lavamos a louça e subimos até o quarto novamente. E nada dos meus pais. Novamente peguei o telefone, dessa vez discando para o número de papai, e mais uma vez sem sinal algum. Minha bateria já estava acabando, liguei então diretamente para casa e o telefone só chamava. Será que saíram? Mas, para onde se ainda não chegaram? Perguntei-me, eles teriam me avisado, ainda mais minha mãe, conhecendo-a como a conhecia. Enquanto Jasmine arrumava a cama onde eu iria dormir fui ao banheiro, levando a toalha, o sabonete e um pijama emprestado de minha amiga. Aproveitei para escovar meus dentes (com uma escova reserva que ela também me emprestara) e tomar banho. Enquanto escovava meus dentes liguei o chuveiro. Terminando, tirei a roupa que vestia e coloquei a mão debaixo da água. Perfeita. A água quente relaxava todo o meu corpo enquanto me ensaboava, mas, não conseguia deixar de pensar nos meus pais, principalmente em minha mãe, um ser geneticamente protetor e demasiadamente neurótico com relação á sua cria. Coloquei o pijama (amarelo de algodão; eu o vesti rapidamente, pois sentia o ar frio entrando no banheiro) e fui me deitar ainda pensativa. Por que meus pais estavam demorando tanto?
Parecia que o mundo havia parado. O tempo não corria e o relógio fazia tudo parecer em câmera lenta. Fiquei a pensar que, apesar de ter 17 anos — quase 18 —, adorava quando minha mãe me cobria — dizia sempre para parar com aquilo —, seu beijo de boa noite era aconchegante e carinhoso, fazendo com que eu dormisse instantaneamente. Não gostava de admitir, entretanto aquilo estava me fazendo falta àquela noite. Agora eu estava me sentindo como mamãe, tendo a mesma sensação que provavelmente ela sentia quando eu saía sozinha ou ía pra algum “lugar de ar duvidoso”, segundo suas próprias palavras, ligando de hora em hora para saber se eu estava bem. Acho que havia puxado seu instinto maternal.
— Você vai conseguir dormir com essa chuva? — Jasmine preferia os dias quentes e calmos, diferente de mim que sempre gostei da chuva e do frio, porém não quando os pingos de água batiam na janela brutamente e me ajudavam na perda de sono. O tempo realmente estava piorando.
— Não, quem sabe daqui a pouco, Kate — falou em tom de desânimo, acrescentando um longo suspiro.
Eu sabia que aquela conversa terminaria por ali mesmo, quando Jasmine caiu em um profundo sono minutos depois, seguido de um ambiente silencioso. Já tínhamos conversado sobre um monte de coisas e, quando simplesmente já não havia assunto para tagarelarmos era hora de dormir. Mas eu não conseguia. Estava ficando impaciente. Minha boca parecia estar secando e não conseguia tirar da cabeça o paradeiro de meus pais. Resolvi levantar, já que não alcançara o sono, para beber um copo de água. Era o que eu fazia em situações como essa, também aproveitaria para usar o telefone já que a bateria de meu celular havia ido para o espaço. Levantei-me vagarosamente para não fazer barulho e acordar Jasmine. Usei as pontas dos pés para alcançar a porta, e rapidamente consegui chegar até escada. No primeiro degrau, onde meus pés tocaram, notei que a luz da sala estava acesa e ouvi uma voz feminina falar ao telefone. Era a mãe de Jasmine. Desci mais um degrau com cautela, para que não me visse.
— Que tragédia! — captei a frase que Fátima falara com desespero. Atentamente continuei descendo as escadas, tentando escutar mais alguma coisa que ela poderia dizer.
— Não sei como vou falar isso a Katherine.
Fiquei surpresa por ouvir meu nome.
— Falar o quê? — não imaginava ao que se referia.
Ao dizer isto agradeceu e desligou o telefone. Muito nervosa seu rosto rapidamente mudara. Parecia que sentia dor.
— Falar o quê? — repeti a pergunta.
Ela me fitou, e eu conseguia enxergar seu pesaroso olhar. O que ela falaria não era nada bom. Tomou fôlego antes de começar a falar.
— Sente-se.
Sentei-me no sofá de chenille colorido que parecia ser confortável e ela me acompanhou. Era difícil me sentir à vontade com a ansiedade. MEstava agoniada com o ar de tensão que vinha sobre mim. Segurou as minhas mãos falando:
— Querida, não sei como lhe dizer isso... Seus pais...
— O que aconteceu com os meus pais? — interrompi, retirando minhas mãos das dela, temendo o que diria.
Ela estava cautelosa, procurando um modo certo para dizer o que acontecera. Seus dedos estavam inquietos na mão fechada. Respiração instável, olhos lacrimejando e um frenético pestanejar. Ela abria e fechava involuntariamente a boca, era nítido que estava muito desconfortável com o que falaria e aquilo me deixava aflita.
— Bem,... seus pais... er...
A cada pausa eu sentia uma sensação estranha; um aperto no peito. Meu corpo estava sendo tomado por cargas de ansiedade, vibrava mesmo que imperceptivelmente, um frisson gélido.
— Seus pais... sofreram um... acidente de carro.
Meus olhos fitaram o chão. Eu estava trêmula e a garganta arranhava queimando. Eu sentia que não conseguia respirar. O desespero tomou o meu corpo. Coloquei as mãos sobre minha cabeça, pois sentia uma repentina enxaqueca aparecer. A palavra morte rodeava minha cabeça, e me sufocava cada vez mais me deixando tonta, e fazendo com que eu desmaiasse no piso duro e frio da sala. Senti a enxaqueca piorar pelo impacto de minha cabeça ao bater no chão. Ouvi muitos sons diferentes — vozes talvez. Senti algo frio tocar meu peito e logo após algo segurar meus braços e pernas firmemente. Eu queria mover meu pescoço, mas não conseguia e meus olhos queriam enxergar, mas não podiam. Ouvi outro som — acho que era algo parecido com uma sirene. Minha respiração não parecia ser minha. Eu queria saber o que estava acontecendo. A única coisa que eu percebera era um vulto ao meu lado, no meio da penumbra de meus pensamentos, que dizia repetidas vezes “Katherine, você está bem?”, com uma voz rouca e pouco audível.
Abri aos poucos os olhos, e o vulto parecia tomar forma; meu pai. Fiquei assustada, ao mesmo tempo em que eu percebera que eu não estava mais no chão, e sim em cima de uma cama de hospital. Olhei a minha volta e não só vi Dona Fátima e Jasmine, como também meu pai no leito ao lado, com o braço esticado em minha direção. O mesmo braço no qual havia soro. Sua aparência exprimia tristeza, e cada vez que tentava falar meu nome parecia que as palavras sumiam em pleno ar.
— Katherine,... você está bem? — as lágrimas enchiam seus olhos.
— O que houve pai? — a pergunta fez minha cabeça latejar. Coloquei a mão sobre ela como se acabasse de acordar com uma ressaca. Em meu braço também havia soro.
Ele não conteve a angústia e começou a chorar. Eu sabia que, por aquelas lágrimas, o que me diria não era algo com que eu pudesse me alegrar. Fechei os olhos para ouvir o que tinha para dizer. Eu precisava de um analgésico.
— Filha, eu não tive culpa! — murmurou — A pista estava molhada e não pude fazer nada.
— Onde está mamãe e Max? — perguntei, impaciente abri os olhos em sua direção para que me dissesse logo o que acontecera. Tentei controlar a respiração.
— Max está na ala pediátrica, mas sua mãe...
Olhou-me nos olhos e segurou minha mão com força. Senti-o tremer e sua mão ficar gelada.
Tomou fôlego.
— Kate,... sua mãe... — começou a chorar e prosseguiu — morreu.
Por alguns segundos minha mente tentou processar o que havia me dito, até que senti o impacto de suas palavras dilacerando meu coração e cortando minha alma como uma espada; senti que não conseguia respirar novamente. Minha garganta queimava mais uma vez. As lágrimas rolaram de minha face e caíram no avental azul do hospital que eu usava. Não podia ser verdade, não admitia que fosse.
Lembrei-me da última coisa que minha mãe havia me dito: Eu te amo!
Eu estava perdendo o chão, o mundo. O quarto girava. Jasmine pedia para que eu não gritasse. Dona Fátima chamou a enfermeira, que pediu para segurar-me bem forte enquanto me sedava. Aos poucos eu voltaria á penumbra de meus pensamentos. Vi o último vestígio de luz. Apaguei.
Apesar de estar desacordada eu imaginava como seria se eu não tivesse aceitado o convite para dormir na casa de Jasmine. A angústia pesava em meu ser. Nunca me perdoaria pelo ocorrido e, provavelmente, minha mãe ainda estaria viva. Porque eu? Porque agora? A dor parecia se intensificar cada vez mais e não havia forma de acabar com aquilo, também não queria que terminasse. Sentir o que sentia era a única coisa viva que podia ter dela, a única coisa palpável de minha alma. O refúgio para o qual pudesse me encontrar com minha mãe e sentir sua presença.
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