Herdeiros Da Noite - O Trono

3 Capítulo 02 - Decisões


Notas iniciais
Olá! Como vai você? Mais um capítulo que se inicia. Aproveite!

Correr era a única coisa que conseguia fazer naquela floresta escura. Não sabia do que ou de quem eu corria — e nem me importava com isto naquele momento —, então não me atreveria a parar para descobrir, já que o pulso acelerado de meus batimentos revelava uma grande dose de adrenalina, precisando cada vez mais de oxigênio em meus pulmões.

O luar não ajudava a iluminar o suficiente para ver-se algo, mas ainda podia ouvir com clareza os galhos caídos se quebrando com o meu pisar e o barulho da vegetação, que indicava que eu estava correndo naquela densa e negra floresta. Eu estava descalça, podia sentir a textura do chão da mata úmida em meus pés. Com as mãos à minha frente desviava-me e protegia-me de algumas plantas que surgiam no caminho. Algumas vezes seguia o impulso de olhar para trás, para ter certeza de que estaria longe daquilo que eu fugia.

Acordei assustada. Olhei ao meu redor e notei que eu havia sido transferida de quarto. Tentei manter o controle de minha respiração quando vi Jasmine, que dormia na poltrona ao lado em uma posição nada confortável. Com as mãos retirei o excesso de suor de minha testa. Levantei-me fazendo o mínimo de barulho possível, sendo acompanhada pelo suporte de soro, e fui ao banheiro lavar o rosto. Dei uma boa olhada no espelho. Os olhos semicerrados por causa da luz e inchados de tanto chorar, o cabelo embaraçado e um leve resquício de enxaqueca. Eu estava horrível, não só porque o espelho refletia explicitamente minha imagem deplorável, mas meu corpo clamava de dor. Um flagelo intrínseco que se mantinha constante. Voltei para a cama, fadigada de tudo, tentando dormir novamente. Fechei os olhos esperando não estar de volta àquela floresta ou encontrar o motivo pelo qual eu corria.

Minha saída do hospital no dia seguinte foi pior do que quando entrei. Estava voltando para a casa de Jasmine, ainda atordoada pelo efeito dos calmantes, afundando em uma melancolia que crescia dentro de mim e transbordava para fora de meu corpo. A viagem até sua casa estava me deixando nauseada, e a toda hora Fátima parava o carro, para que eu não vomitasse no estofamento de seu Corsa prata. Ao chegarmos, pediram para que eu comesse algo. Mas não conseguia me imaginar comendo, pois não tinha forças; até o cheiro me enjoava, e a água descia como se eu estivesse engolindo lâminas. A única coisa que eu conseguira fazer foi ir ao quarto de minha amiga e cair na cama, para dormir novamente, esperando que quando eu acordasse fosse apenas um pesadelo; triste, trágico e de final infeliz.

Na manhã seguinte, na intenção de poupar-me de mais sofrimento, Fátima continuou a cuidar dos preparativos para o enterro de minha mãe, fazendo ligação atrás de ligação. Na quarta-feira acordamos cedo. Eu não iria à escola como de costume, apesar de faltar poucos dias para as férias. Não cogitei ir a minha casa, nem sabia se teria forças para tal, apenas Fátima foi a minha residência a pedido de papai.

Não sabia o que vestir, ou não queria realmente vestir-me, por esse motivo minha amiga emprestara uma roupa de sua preferência para a ocasião, já que eu não estava em clima de tomar decisões.

Ainda não conseguia engolir com facilidade qualquer tipo de alimento, na verdade eu mal me alimentara esses poucos dias, o que deixara visivelmente aparente minha palidez e uma ligeira perda de peso em pouquíssimo tempo. A sensação de minha garganta ser cruelmente arranhada por cacos de vidro não passava, eu conseguia sentir o gosto do sangue. Eu tentei ao máximo me alimentar, porém tratava-se de uma árdua tarefa, mas me esforcei um pouco mais para a felicidade da mãe de Jasmine, que ao ver a torrada com geleia sendo devorada abriu um sorriso de aprovação. Meu estômago se revirava. Corri para o banheiro e enfiei a cara na privada, sendo seguida por minha amiga. Enquanto eu sentia que estava morrendo Jasmine segurava meus cabelos e acariciava minhas costas, em um ato automático de dizer que ficaria tudo bem. Eu não estava nem um pouco otimista. Meu mundo havia desabado e eu não sabia como recompô-lo. Seria possível fazê-lo? Tinha minhas dúvidas.

Durante a semana o tempo estava fechado, as poças de água que se formaram mostravam os vestígios da tempestade. Não foi muito diferente aquele dia, a não ser pela chuva fina que caia do céu. Em meus melhores dias diria que era o tempo perfeito, que era um pedaço do paraíso. Estava muito longe de ser. Quando você perde um objeto ou o quebra é só substituí-lo, você não vê a diferença, porque outro tomou o lugar e é tão bom e eficiente como o anterior. É engraçado como podemos substituir qualquer coisa, mas não uma pessoa. Mesmo que tudo o que me fizesse feliz estivesse ali comigo, não chegaria nem perto do que seria ter mamãe viva. Gostaria de poder voltar ao passado e corrigir os meus erros; tê-la escutado mais, conversado mais, ter compartilhado meus dias com ela sem reclamar, pedido perdão pelos meus enganos, a abraçado com mais frequência, dito mais vezes “eu te amo”. Será que ela sabia que eu a amava, mesmo sendo muitas vezes egoísta? Eu não era a filha perfeita e, de certo, nunca haveria de ser. Quando se é jovem você não pensa muito nos seus pais, não mede palavras, você quer apenas curtir sua juventude, explorar novos lugares, fazer algumas loucuras, acha que eles são eternos, até que simplesmente você nota que não é bem assim, e muitas das vezes da pior maneira possível. Não esperava que aquilo fosse acontecer daquela maneira, na verdade nunca imaginei que aconteceria.

Fátima foi até o carro e, logo em seguida, sua filha e eu entramos no banco de trás. Eu não queria ir para aquele lugar, sentia-me culpada pela morte de minha mãe, mesmo que Jasmine e Fátima tentassem convencer-me do contrário. Papai e meu irmão não poderiam estar no enterro sem a alta do hospital, não estavam em condições para isso, mas eu os queria lá comigo. Eu não estava sozinha, entretanto me sentia como se estivesse. Um aperto no peito, um vazio avassalador dentro de mim, e o pior de tudo é que a única pessoa que poderia amenizar aquilo nunca mais estaria comigo. Quando eu ficava doente, quando tive minhas desilusões amorosas, quando não havia conquistado algum objetivo, era ela que me abraçava e dizia que tudo ficaria bem, que sempre estivesse com um sorriso no rosto porque aquilo era passageiro. Não tinha como sorrir naquele momento. Sentia-me exausta.

Chegamos ao Cemitério Parque dos Pinheiros em menos de uma hora de percurso, passamos pela portaria e logo fomos conduzidas até o local onde minha mãe seria enterrada. O lugar era bem amplo, cheio de árvores e, ironicamente, as diversas plantas davam vida ao local. Mas, as cores das flores, árvores e da grama estavam apagadas pelo tempo que continuava fechado e não abriria tão cedo. Talvez se estendesse por um bom tempo. Eu não ligava. Independente do tempo que surgisse eu continuava a sentir o que sentia.

Vi muitas pessoas com rostos que me eram familiares. Outros nem tanto. Minha mãe era filha única. Vovô havia falecido há alguns anos antes de mamãe conhecer papai. Já minha avó morrera ano passado, deixando mamãe apenas com marido e filhos.

Alguns vieram até mim dando-me as condolências, porém não conseguia dizer nada. Não havia o que dizer. Minha quase irmã estava abraçada a mim e sua mãe acariciava meu ombro direito. Eu já havia derramado todas as lágrimas que podia, expelido tudo o que tinha dentro de mim e, agora, me sentia completamente vazia, como se nada pudesse preencher o que tinha destituído meu interior. O Pastor, então, abriu a bíblia e começou a falar. Eu sentia como se estivesse sozinha ali, e não ouvi uma palavra sequer da qual ele proferiu. A boca dele parecia apenas abrir e fechar. Uma garoa fina começou a cair, como se os céus chorassem por mim, junto com minha dor.

Uma senhora deu-me uma rosa branca, a flor preferida de mamãe e me deu as condolências. Eu já lhe vira em retratos com minha mãe e em algumas apresentações dela, e recordei-me de ser sua professora quando começou a tocar violino. Esperei aos poucos que as pessoas se afastassem do caixão. Queria ter um momento com ela. Um momento que eu evitava ter em sua estadia em vida na terra. Aquilo não era justo, não era aceitável, não deveria ter sido dessa maneira. Se tivesse recusado a ida à casa de minha amiga, teríamos chegado em casa, todos a salvo, todos vivos. Agora me sentia morta, andando entre os vivos. Aproximei-me lentamente do caixão. Mesmo inerte ela continuava com a mesma doçura em sua face; com alguns pequenos cortes no rosto, o tom de pele pálido, os lábios arroxeados, contudo ainda assim estava linda. Os cabelos longos e castanhos até então brilhavam, já seus grandes olhos amendoados estavam escondidos pelas pálpebras fechadas. Usava um vestido longo de cetim preto — o vestido que papai comprara de presente de aniversário — onde suas mãos pálidas repousavam em seu peito sem fôlego.

Era chegada a hora de me despedir. Enquanto as pessoas jogavam rosas em seu caixão eu a fitava, afastando-se cada vez mais de mim, até que desapareceu por completo no buraco fundo e lúgubre, joguei então a última rosa.

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A semana passou depressa, e a volta de papai e Max estava se aproximando. Não via a hora de estarem comigo. Eu vi algumas fotos do estado do carro e não havia maneira de resgatá-lo. Aquele carro era uma das coisas que ele mais gostava, porém não tanto quanto amava mamãe. Quando Fátima levou-me novamente ao hospital vi seus rostos abatidos. Max estava com o braço direito engessado e com um pequeno curativo na testa, acima de sua sobrancelha esquerda. Agachei-me ao seu lado e ele me abraçou; dei-lhe um beijo em cima de seu curativo e ao me levantar abraçou minha cintura com o braço sadio, como uma criança que abraça a mãe para não perdê-la de vista. Já papai se recuperara fisicamente, mas não emocionalmente. Veio em minha direção e abraçou-me como um pedido de perdão. Olhou-me fixamente com olhos suplicantes. Toquei em seu rosto; com os dedos contornei levemente a cicatriz que ficara em seu olho esquerdo, para secar as lágrimas que escorriam de sua face. Afastei-me pegando ligeiramente as malas, para levá-las até o carro, e para também não chorar, enquanto a mãe de minha amiga acertava a saída de papai e meu irmão do hospital.

Entramos no carro e ele tomou partida. Max a toda hora me cutucava com o gesso e dizia que aquilo coçava muito e não via a hora de tira-lo. Apesar de meus olhos estarem na direção da janela eu nada reparava, meu pensamento estava bem longe. A semana tinha sido difícil para todos nós, inclusive para Jasmine e sua mãe. Se não fosse por elas eu estaria pior com toda certeza. Agradecia imensamente o que fizeram e continuavam a fazer por mim e minha família.

Voltar para casa estava sendo muito difícil para mim. Mas era o que eu mais queria naquele momento: estar onde me sentia segura e com quem amava. Peguei o molho de chaves e tomei fôlego antes de abrir a porta.

A casa continuava a mesma, com cada objeto onde tínhamos deixado antes de sair para aquele passeio em família. O cheiro de mamãe ainda se encontrava no lugar, mesmo pela fina poeira que havia coberto os móveis.

Agradeci Fátima por toda a ajuda que me dera nos dias que foram tão tristes para mim e minha família, que agora apenas baseava-se em mim, meu irmão e papai.

— Ligue-me para o que você precisar, ok? — Fátima falara com um olhar de ternura. Assim como mamãe fazia me deu um beijo na testa para despedir-se.
— Ok. — concordei. Fiz um gesto de adeus com a mão e fechei a porta.
Subi as escadas correndo para chegar o mais depressa possível no quarto de papai. A porta estava aberta. Ele estava sentado na cama como uma estátua, os dedos entrelaçados, o olhar fixo e o pensamento distante. Vê-lo daquela maneira deixava-me triste.
— Pai — meu tom de voz era baixo. Andei em sua direção —, você está bem?
Ele demorou alguns segundos para responder, mas o fez.
— Sim. — abaixou a cabeça e colocou as mãos no rosto. Logo as retirou olhando para o teto respirando fundo e em seguida soltando o ar com força, como se quisesse expelir algo mais além daquilo. — Preciso falar com você. — seu tom era de seriedade
Concordei, balançando a cabeça de forma positiva e sentando ao seu lado na cama. Não sabia do que se tratava exatamente, mas achava que teria relação com o acidente. Era provável que me desse explicações.

— Eu pensei muito esses dias, enquanto estava no hospital, e tomei uma decisão. — seus dedos estavam entrelaçados novamente e seu olhar estava fixo no piso onde seus pés tocavam.

— E o que seria?

— Bem,... — pude perceber sua hesitação momentânea, mas prosseguiu — eu decidi que iremos morar na Irlanda.

— O quê!? — pulei da cama — Irlanda?

— Sim. Irlanda.

Eu esperava por um diálogo totalmente diferente. Aquilo era uma ideia totalmente absurda. A morte de mamãe deveria tê-lo afetado muito. Eu sabia que papai tinha irmãos na Irlanda, que sua origem era irlandesa assim como a minha, porém nunca pensei que eu tivesse que ir para a Irlanda morar ou viver. Essa hipótese nunca existiu, até aquele momento.
— Mas, pai, eu não conheço ninguém que more na Irlanda, não conheço direito nem ao menos meus parentes, e todos os meus amigos estão aqui no Brasil, e ainda tem a escola... — eu estava exaltada e um pouco descontrolada pelo desconforto de pensar em sair do meu país, não de origem, mas ainda sim o lugar que vivi toda a minha vida.
— Evy — me interrompeu, segurando meus braços fortemente —, tenha calma. Eu sei que é difícil passar por tudo o que você e Max estão passando. Para mim não está sendo nada fácil também. Eu estou fazendo isso porque vai ser o melhor para todos nós. Você sabe que meu trabalho exige que eu fique longos períodos longe de casa, não posso deixar vocês dois sozinhos. Acho que essa é a decisão certa a tomar.
— “O melhor para todos nós” — ironizei, desvencilhando-me de suas mãos e levantando-me da cama — Não é o melhor para nós, é o melhor para você.
— Kate, me escute...
— Por sua causa tudo isso aconteceu; por sua causa nós estamos assim. Eu fiquei me culpando um bom tempo por isto, mas percebi que a mamãe morreu por sua culpa.

— Eu não tive culpa, estava chovendo… E..

— Não era eu quem dirigia aquele maldito carro. — gritei apontando para ele com fúria no olhar. Seus olhos se abriram assustados.

Naquele momento senti o peso de minhas palavras sobre papai. Ele não esperava por aquilo, e muito menos eu. Eu achava que havia superado a morte de minha mãe, ou pelo menos aceitado o fato iminente.

— Desculpe. — sai do quarto. Senti o rubor de minha face.
Eu não queria ter dito aquilo. Estava tão assustada com aquela hipótese que falei o que não devia. Claro que a culpa não era dele ou minha, contudo eu já tinha perdido mamãe, agora teria que perder minha vida que fora construída no Brasil? Quando passei pela porta me deparei com Max, sentado, encostado na parede, com os braços cruzados e a cabeça baixa — provavelmente ouvindo tudo.

— Eu não quero ir embora — a voz era baixa e triste.

— Não se preocupe. — passei as mãos sobre seus cabelos — Eu vou cuidar de você. Agora é melhor você ir para seu quarto e dormir.

Max se levantou e correu para o quarto, logo em seguida fui atrás dele pesarosa. Troquei a roupa que ele usava por um pijama limpo. Cobri-o com o cobertor azul e beijei o alto de sua cabeça. Dei-lhe boa noite desligando a luz de seu quarto e fui para o meu. Joguei-me na cama e por alguns minutos admirei o teto.

Viajar para um lugar desconhecido era um grande passo — ou talvez insanidade — e eu não sabia se seria realmente o melhor. Apesar de minha mente irrevogavelmente querer minha estadia no Brasil, algo mais forte dentro de mim estava me impulsionando a ir para a Irlanda. Essa sensação era muito estranha. Um conflito contraditório. Um misto de medo e ansiedade.

Eu vejo tudo isso como uma grande brincadeira de mau gosto do destino. É como um jogo: há muitos jogadores; ele te dá às peças para jogar, os caminhos para seguir; e você nunca sabe como esse jogo termina. Para ganhar você tem que apostar; e bem alto. Sempre haverá um ganhador e um perdedor. No momento eu estava perdendo.

Pensar demais nunca foi o meu forte, isto exigia certo esforço de minha parte. Sempre me dava sono. A exaustão também estava ajudando na sonolência. Em segundos eu já caíra no sono. Com isto tive a confirmação de minha facilidade em ficar entediada.

Comecei a sonhar.

Eu estava em um saguão iluminado apenas pelas velas dos castiçais dourados, porém não era o suficiente para prover luz a todo o lugar. Sentia o forte cheiro de mofo, provavelmente aquele lugar não recebia muitos visitantes — muito menos deveria haver moradores além das aranhas, ratos e morcegos. Percebi que havia uma escadaria que parecia ser infinita. Quadros e mais quadros revestiam as paredes do ambiente fúnebre e úmido. Nas pinturas pessoas trajavam roupas do século XVIII ou XIX — história nunca foi o meu forte, mas me interessava pelo o assunto. Presumi que eu estivesse no interior de algum castelo medieval, completando com os outros itens que eu observara; os móveis de época empoeirados e os vestígios de tempo pelas paredes.

Eu também havia notado que não estava sozinha. Alguém falava meu nome; uma voz acetinada, doce e amena. Naquele momento via tudo girar à minha volta. Uma sombra me envolve abruptamente em seus braços rígidos. Senti frio.

Acordei ofegando. Senti um arrepio eriçar os pelos de meu braço e um calafrio descer por minha nuca, fazendo-me tremer. Eu nunca tivera tantos sonhos esquisitos — pesadelos, por assim dizer — em um único ano. Lembro-me de algo parecido aos 12 anos de idade, antes do meu aniversário. Começara com imagens embaçadas e que logo tomaram forma, depois vieram às vozes. Com o passar do tempo aquilo se tornou frequente e tudo ficou vívido, como se realmente presenciasse cada momento ou lugar que sonhava. Pensei na possibilidade de estar louca, mas afinal um louco não se torna mais louco do que já é. Dizer o que eu via para os meus pais era o mesmo que pedir passagem no psiquiatra. Eu deveria estar com algum distúrbio ou algo do tipo, entretanto médicos sempre me deram medo. Tentei não pensar sobre isto. Depois daquilo não voltaria a dormir até beber um copo d’água e pela escuridão da casa já era bem tarde e eu havia dormido muito. Desci as escadas para chegar à cozinha e percebi que havia luz na sala. Fui em direção à área iluminada e me deparei com papai sentado na poltrona feita de jacar de algodão. A cor era uma das minhas favoritas; ônix vermelho. Ainda usava as mesmas roupas na qual viera do hospital e na mão ele segurava um porta-retrato. Aproximei-me, mas papai não se moveu, ignorando por alguns instantes minha presença e continuando a acariciar a fotografia.

— Ela estava linda, não acha? — ele olhava a foto com fascínio.

— Sim, estava.

Realmente mamãe estava linda. Em uma das mãos segurava o violino. Lembro-me muito bem daquela noite, pois eu tirei aquela foto. Eu tinha a mesma idade de quando meus sonhos começaram a aparecer e meu irmão ainda nem sabia falar direito. Ela vestia o mesmo vestido longo de cetim preto com a qual fora enterrada. O sorriso largo de lábios rosados e os olhos expressivos mostravam o amor pela música. Ainda consigo me lembrar da melodia de seu violino onde cada nota soava tão suave e aveludada. Meu gosto pelo clássico devia-se inteiramente à mamãe. Ela sempre vivera da música. Uma vez eu não conseguira dormir e então ela resolveu tocar-me algo como uma cantiga de ninar. O meu interesse em aprender a tocar aquele instrumento era inspirado em minha mãe. E assim o fiz. Segui seus passos e me dediquei à música, não só na escola, como em casa também, tendo minha própria professora particular. Assim eu segui durante alguns anos, até que simplesmente parei. Não por não gostar, mas porque não sentia que fazia parte da minha identidade quase adulta. Mamãe dizia que era como andar de bicicleta, quando eu quisesse tocar novamente eu saberia o que fazer e nunca me repreendeu ou foi contra a minha decisão, nesse quesito ela dizia que era minha escolha e que não tinha direito de me fazer gostar ou não de tocar. Nunca vi ninguém ser tão doce e tão talentosa quanto ela. Sempre me surpreendia com seu jeito totalmente carinhoso.

Interrompi meus devaneios.

— Pai, é melhor o senhor ir descansar. — estendi a mão e ele a segurou. Levantou-se, me entregando o retrato e vagarosamente andou em direção as escadas. Olhei novamente para a fotografia tentando não chorar. Aquela era uma das lembranças boas que deixara e que invadia sem permissão o meu coração

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Levantei cedo para fazer o café-da-manhã, limpar a casa e lavar as roupas. Algumas queimaduras sem dor e cortes sem sangue. Cozinhar definitivamente não era uma das minhas habilidades, na verdade nenhuma tarefa doméstica era, contudo agora eu teria que ocupar o cargo matriarcal da casa e cuidar de minha família. Entretanto, gritar era algo tão natural para eu como respirar, de certo modo me lembrando como mamãe fazia quando queria me acordar. Ri comigo mesma. Eu reclamava tanto dela que agora eu estava sendo exatamente igual a ela. Deve ser o instinto maternal das mães. Faria o que fosse preciso para que todos se sentissem bem e novamente pudéssemos ser felizes. Obviamente não poderia apagar o ocorrido, e nem queria, pois seria também o mesmo que esquecer-me de mamãe, algo que não cogitava fazer em hipótese alguma. Lembrava-me dela a cada nascer e pôr-do-sol, em cada canto da nossa casa, em cada detalhe de minha vida. A comida estava pronta, tudo perfeitamente organizado em cima da mesa, o pó retirado dos móveis e as roupas estavam sendo lavadas, principalmente as do acidente que se encontrava com manchas enormes de sangue. Ali também estava o vestido florido, um pouco rasgado e sujo, mas não queria olha-lo por muito tempo, minha cabeça ficaria imaginando como ela teria morrido, e eu já havia superado aqueles dias tristes. Só queria me lembrar do seu rosto sorridente. Coloquei-o dentro do balde, a água límpida foi sendo tingida lentamente pelo vermelho e o cheiro de ferrugem ficava cada vez mais forte. Coloquei uma quantidade excessiva de sabão em pó, mais para que o cheiro desaparecesse do que as manchas dali.

Não demorou muito para que papai e Max descessem as escadas e atacassem a comida. Pareciam dois ursos após a hibernação, famintos, diligentes e dispersos. A Hora perfeita para pedir algo ou somente iniciar uma conversa.

— Pai — sentei à mesa —, eu fiquei pensando...

— Sim? — me olhou enquanto colocava café em sua xícara. Aproveitou e pegou uma fatia de pão.

— Acho que o melhor será mesmo irmos para a Irlanda.

Fiquei um pouco hesitante com a reação de Max, ele era quem mais me preocupava naquelas circunstâncias. Para uma criança de 8 anos, para a maioria pelo menos, o que acontecera naquela noite chuvosa deveria deixá-lo traumatizado, porém ele encarava os acontecimentos como um adulto, ou assim como eu chorara tanto em sua estadia no hospital a ponto de não ter mais o que arrancar de si. Olhei bem para Max, esperando uma resposta. Ele não concordou ou discordou de minha decisão, apenas continuou a mastigar a torrada que segurava.

— Isso é ótimo, filha. — sorriu com aprovação. Seu café da manhã agora lhe parecia mais proveitoso.

Em certa parte entendia alguns dos motivos para irmos à Irlanda. Papai queria ter um ombro amigo, alguém com quem contar, descarregar as mágoas, rever a irmã que há anos não via e, também, apresentar a nossa família. Nunca tivemos tempo para viajar, não para tão longe, e o que conheço da família de papai são por fotos e alguns cartões de natal e aniversário que recebia de minha tia. Seria um recomeço em nossas vidas papai visitar o país onde nascera — e onde eu também nascera —, Max conhecer os familiares, respirar um pouco de ar puro e eu, bem, fazer algo quando chegássemos lá. Esperava não me arrepender da decisão que havia tomado.

Todos já havíamos comido. Papai derrubou o resto de café da xícara na toalha de mesa. Fiz uma péssima escolha na cor. Para se redimir se ofereceu para lavar a louça. Menos um afazer na minha lista. Corri para a lavanderia para lavar a mancha monstruosa de café naquele tecido branco, boa parte já havia saído, mas a mancha persistia em ficar, então a deixei de molho. Aproveitei para ter um momento com meu irmão. Eu nunca me importei muito com ele. Entretanto, depois da morte de mamãe, Max era quem mais precisava da família. Em minha obrigação de irmã mais velha deveria cuidar dele e protege-lo. Subi as escadas e encontrei-o sentado no corredor, segurando um de seus brinquedos e de cabeça baixa.

— Você está bem? — perguntei a ele apoiando-me na parede. Cruzei os braços e o observei, esperando uma resposta positiva.

— Sim.

— Você está bravo com o que eu disse?

— Não. — suas respostas monossilábicas eram compreensíveis.

— Como papai disse, “isso é o melhor para nós”. Eu prometo que nada vai acontecer com você. Eu vou estar sempre com você, seja o que for.

— Kate?

— Sim? — ele levantou a cabeça em minha direção.

— Eu... te amo — levantou-se, correndo aos meus braços e agarrou-se ao meu pescoço. Ficamos alguns minutos ali parados e abraçados. Beijei-o no rosto, acariciei seus cabelos, olhei-o nos olhos — iguais os de mamãe. Os meus me traíram, não pude evitar as lágrimas. Nenhuma criança deveria passar por uma experiência como essa, muito menos meu irmão. Mas eu faria tudo por ele e não deixaria que ele sentisse essa sensação de perda novamente.

— Eu também te amo. — continuei a afagar seus cabelos castanhos, que enxugavam minhas lágrimas. Eu precisava daquele abraço apertado e ele muito mais.

Tudo estava acontecendo tão rápido, como uma cascata de emoções e acontecimentos que quase eu esquecera de ligar para Jasmine, ou ao menos mandar um e-mail (a caixa de entrada deveria estar cheia). Mesmo relutante desatei-me daquele quente e carinhoso abraço e mandei Max brincar, enquanto me dirigia até meu quarto. Fechei a porta e peguei o celular em cima da mesa do computador, digitando os números rapidamente.

— Alô? — a ouvi no outro lado da linha.

— Oi, Jasmine. É a Kate.

— Oi, Kate. — o tom de voz alegre — Tenho muitas novidades para te contar.

— Eu também tenho novidades. — não tão boas como as dela provavelmente, mas eram noticias novas. Não sabia como reagiria quando dissesse. — Mas, me conta, o que aconteceu?

— Bem, lembra-se do Gustavo, aquele gato, primo da Jéssica?

— Sim. — não tinha maneira de esquecê-lo, todas as garotas do colégio só falavam dele. Era o assunto mais comentado entre as garotas e por um motivo obvio: Além da beleza, era jogador de futebol e esperava o dia em que seria reconhecido. Um deleite para as meninas.

— Ele me chamou para sairmos. — a histeria em sua voz era demasiada. Eu sabia o quanto ela gostava daquele garoto, não como uma fã ou oportunista, mas porque ele era realmente um garoto legal, por isso o motivo de tanta felicidade. Com certeza havia um largo sorriso com dentes a mostra por trás do telefone. Gostaria muito de ver a cara que fazia.

— Isso é maravilhoso!

— Eu sei! — gritou — E qual sua novidade?

Havia chegado o momento de contar a ela, então o fiz de uma vez.

— Eu vou viajar para a Irlanda.

— Que legal. — ela realmente estava feliz, porém eu não havia explicado direito. Se tivesse era provável que não ficasse alegre. Eu não ficaria se fosse o contrário — E quando você vai?

— Acho que daqui a algumas semanas ou menos, ainda não tenho certeza. Mas não sei quando irei voltar.

— Por quê?

Eu temia por esta pergunta, pois teria que respondê-la.

— Irei morar lá. — despejei.

Eu esperava alguma reação, grito ou algum barulho que significasse um desmaio, mas não pude ouvir nada além do silêncio. Um longo silêncio. Por fim a ouvi soltar um Ah!

Jasmine sempre foi minha melhor — e única — amiga e isso era recíproco. Desde pequena nós sempre estivemos juntas: quando demos nossos primeiros passos; quando cabulamos a aula de matemática do Sr. Xavier; quando uma ajudou a outra a dar o primeiro beijo com o garoto que gostava; quando demos nossa primeira fugida á um show de rock e quase ficamos de porre. Jasmine era uma parte significativamente importante na minha vida. Uma irmã não sanguínea. Eu não queria deixa-la, se pudesse até a levaria comigo, mas com certeza isso não seria possível.

— Não se preocupe. Venho te visitar nas férias, e espero que me visite também. — tentei alegrá-la de alguma maneira, não queria que ficasse triste com minha partida. Já bastava eu ter que lidar com tudo o que estava acontecendo.

— Pode deixar. — parecia não ter surtido efeito. Ela estava chateada. Mesmo por telefone eu reconhecia quando ela não estava bem e isso se deve a nossa constante vivência juntas. Era a mesma coisa comigo, não podia esconder nada dela, sem duvida saberia que era mentira. Esperava que a distância não abalasse nossa amizade.

— Vai me ajudar com as malas?

— Claro. — a voz um pouco mais sorridente. Isso me deixava alegre.

Ir de encontro ao desconhecido seria o inicio de tudo. O começo de uma nova vida. Cada parte de meu corpo dizia que, em alguns dias, eu presenciaria este momento. E de certa forma estava ansiosa para que isso acontecesse, mas antes precisava fazer uma coisa.

Despedi-me de Jasmine e em seguida chamei um táxi. Coloquei um casaco e fui correndo até a floricultura que havia perto de casa, para comprar algumas rosas brancas. Estavam perfeitas. Paguei as flores e voltei para casa, o táxi havia acabado de chegar, pedi um momento para o motorista e me dirigi novamente para dentro de minha casa. Então chamei papai e Max para me acompanharem. Papai me olhou e sabia o que eu queria dizer, enquanto segurava as flores. Ele sorriu e me seguiu, juntamente com meu irmão. Os dois entraram no carro junto comigo, dizendo ao motorista que nos levasse até o cemitério.

Era impossível ficar sem pensar em mamãe um minuto sequer. Tudo a lembrava: o sorriso angelical, a doçura nos olhos, o seu cheiro, seus gritos para me acordar, as canções que tocava no violino, até a comida ruim estava fazendo falta. Meu próprio irmão era um pedaço dela, não só por ter nascido de minha mãe, poremos sua genética se assemelhava muito a ela, olhos, cabelo, o modo como sorria, enquanto eu havia puxado mais meu pai. Meu irmão se manteve todo o tempo abraçado a mim, enquanto eu admirava a janela, tal como papai. O céu já mostrava um azul intenso, com gomos de nuvens brancas brilhantes e o sol tocando o verde deixava tudo cheio de vigor.

Segurei a mão de meu irmão mais novo, enquanto a outra segurava as rosas. Andamos entre alguns túmulos até encontra-la. Soltei a mão de Max e fui em direção à lápide de mamãe, que ficara bem ao lado do de seus pais. Vovô Manoel e vovó Eulália. Coloquei as rosas delicadamente no chão e meu pai e Max se aproximaram. Observei a lápide de granito, lendo mentalmente o que ali estava escrito: “Alice Oliveira Desmond. Mãe, esposa e professora dedicada. 22 de Fevereiro de 1971 a 14 de Agosto de 2012.” Papai agachou-se ao meu lado e colocou as mãos sob a inscrição e fechou os olhos. Com os dedos tocava cada linha entalhada no granito. Ele não falou em voz alta, nem sequer abriu a boca, mas eu sabia que conversava com ela e era o que eu também fazia naquele momento. Podia senti-la presente e escutar sua voz.

Eu também te amo, mãe.

Notas finais
O que achou? Me diga, pois eu quero saber. Küsse
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.