Herdeiro da Lua

4 Os Preparativos


Quando Nox estava próximo das chamas da fornalha, sentia no peito uma euforia que se espalhava pelas veias. O fogo, as brasas e o aço superaquecido não o machucavam, sequer avermelhava suas mãos.

Foi obrigado por Gillian e Madame Carmilla a manter a touca de couro cobrindo os cabelos sempre que um cliente aparecia, pois pareciam reluzir nas tonalidades das brasas acesas.

O que menos precisavam era de algum inspetor da capital bisbilhotando, ou mercadores clandestinos atraídos por coisas exóticas — ainda mais levando em conta a crescente demanda por mercadorias humanas.

Odiava a sensação do couro abafando a pele no ambiente quente e seco da ferraria, como se fervesse em panelas ao fogo baixo.

Nox manuseou a chapa de aço presa por alicates, colocou-a dentro do barril de água, liberando uma onda de vapor, e pôs sobre o balcão de pedra ao lado enquanto Gillian entregava um par de facas bem amoladas à um açougueiro do Terceiro Distrito.

— Ele foi embora. Já pode tirar a touca e as luvas, pirralho.

Como se um trinco girasse, Nox arrancou a touca e as luvas que lhe sufocavam e atirou-as para os lados, em seguida segurou o pedaço de ferro incandescente com a mão esquerda e o martelou repetidas vezes com vigor renovado.

O martelo de pena ressoava igual pontas de flechas defletidas no peitoral robusto de uma armadura de placas de aço. A criança tinha um talento natural para a coisa. Era como ver um oleiro em uma manhã de início de primavera dando forma aos jarros de flores.

Foi assim nos últimos quatro anos, desde que se tornara aprendiz de Gillian. Ao forjar pela primeira vez um par de facas decentes, foi liberado nas manhãs para ir caçar com Henry nos limites da Floresta da Morte; assim, vendia a pele e a carne dos animais abatidos para quitar a dívida por ter incendiado a ferraria na primavera passada.

Tudo começou quando perdeu a noção do tempo brincando de fazer malabarismo com os pedaços de carvão que pegou dentro da fornalha.

Em certo momento, como era costumeiro, passou a ouvir o cântico das sacerdotisas vindo desde os muros de Barcel, atravessando as frestas da ferraria.

Marcou-se o início dos preparativos de mais um festival.

Ele entrou em um transe e começou a entoar os cânticos junto delas. Acordou para a realidade sendo sacudido bruscamente por Gillian, o anão parecia prestar a ter um ataque de raiva, e não era para menos já que enquanto estava fora de si, deixou cair os pedaços de carvão em brasas que rolaram para todos os cantos, espalhando fogo pelos móveis.

Por sorte, o incêndio não se alastrou para os demais prédios. Três capangas da guilda dos ladrões que passaram pelo local foram agarrados por Gillian e obrigados juntamente com Nox a carregar baldes de água para apagar o fogo.

Ficaram a noite inteira indo e voltando do rio.

Após terminarem, os três ladrões desabaram de exaustão e Nox foi castigado por Madame Carmilla, sendo proibido de brincar com as chamas da fornalha, carvão, pedras de fogo, aço superaquecido, independente do estado, e qualquer outro objeto que tivesse capacidade de iniciar outro incêndio.

Madame Carmilla e Gillian se viram ambos desesperados, era como se cada novo castigo servisse de pólvora para um incidente pior no futuro.

O pirralho era o diabinho com aparência angelical mais caótico que já tivera o desprazer de conhecer; levando em conta os seus séculos da vida de Gillian, significava bastante coisa.

Desde então, passou-se um ano e estavam às vésperas de outro festival da primavera; os preparativos de Nox estavam prontos.

Passou os últimos meses aprendendo com Henry a cozinhar os animais que caçavam, estocando facas e lâminas que ele mesmo forjara, trocando favores por informações sobre como passar pelos portões de Barcel e guardando dinheiro para comprar botas e luvas novas, além de uma capa feita por Leonardo em troca de ervas para chá que só podiam ser colhidas na Floresta da Morte.

Não esperaria mais. Iria assistir os preparativos do festival da primavera com os próprios olhos e descobrir o segredo por trás do cântico das sacerdotisas e porque conseguia ouvi-lo todos os anos.

Antes do Sol nascer, Nox se esgueirou para fora da cama, tomando cuidado para não acordar Lily. Foi até o guarda-roupa e colocou as botas e luvas novas, enrolou a capa nos ombros e pôs a boina de couro sobre a cabeça, depois abriu a janela vagarosamente e escapuliu pelo telhado.

Crescera três palmos nos últimos anos, estava mais alto e robusto, frequentemente o confundiam com um jovem adulto de quinze anos, apesar de seu décimo aniversário ainda estar próximo.

Nox ajeitou a trouxa improvisada nas costas e pulou o muro que cercava a taverna. Uma multidão se reuniu nos limites do subúrbio para assistir a comitiva dos nobres que vinham de fora de Ouro Negro e dos reinos adjacentes.

Seu destino era a estrada que levava até o Terceiro e Segundo distritos, onde viviam os cidadãos de classes superiores. A terra, lama e as pedras irregulares deram lugar às ruas de concreto muito bem pavimentado, emaranhadas em um labirinto de casas e prédios edificados com tijolos e argamassa.

Um grupo de crianças vestindo roupas limpas faziam uma roda envolta de um vendedor de doces; jovens casais passeavam de mãos dadas retribuindo com sorrisos os gestos e saudações dos lojistas e comerciantes locais.

Nox apertou a boina escondendo seus cachos dourados e puxou o capuz da capa sobre a cabeça, tentando não chamar atenção igual Madame Carmilla e Gillian sempre lhe disseram para fazer.

Não havia ruas esburacadas, poças de lama e nem carcaças de animais mortos espalhadas nas redondezas; sapateiros, costureiros, lavadeiras e donos de armazéns se agruparam e seguiram juntos em direção ao próximo distrito.

Ele os seguiu de perto, se escondendo atrás de postes, becos, placas de rua e até entre outros pedestres.

Sem cavalos ou carruagens, levaria dois ou três dias para chegar em Barcel e atravessar os portões dos Círculos Exteriores até atingir o Círculo Interno, onde ocorriam as procissões do Templo de Luna.

Na viagem, manteve-se próximo do grupo de sapateiros. Andaram a maior parte do primeiro dia; a noite, Nox se acomodou nos galhos de uma árvore próxima das barracas e dormiu.

Na manhã seguinte, retomaram o percurso. Quando sentia fome, se afastava da estrada e montava uma fogueira improvisada para assar a carne que estocara durante as caçadas com Henry, também comia frutas silvestres que encontrava.

Na medida em que se aproximavam dos muros de Barcel, outros grupos começaram a se juntar na estrada. Avistaram ao meio dia as muralhas distantes do principal distrito da capital e a jóia do reino Crisol.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.