Herdeiro da Coruja
2 Capítulo 2 - É de Maracujá!
Notas iniciais
De uma brisa fria a rosa branca, a vida de Eduardo se transformou. O que mais poderia acontecer em uma quarta-feira além de atropelamento e falta?
— Meu nome é... Diego... Eu fiquei meio sem graça agora. — Diz o ciclista que até alguns segundos atrás era apenas um estranho.
— Não, a culpa foi minha, eu me deixei levar pelo... Essa praça mudou muito desde que eu... Ela mudou muito. — Respondia Eduardo enquanto olhava para a praça, onde haviam crianças brincando e correndo enquanto uma senhora mais velha os vigiava.
— Não, eu insisto retribuir, vou deixar a minha bicicleta ali e a gente pode tomar um suco... Por minha conta, ok? —Dizia Diego com a mão direita sobre o ombro de Eduardo.
Eduardo voltou seu olhar para Diego exatamente quando os raios de Sol atingiram sua face, evidenciando seus olhos claros e intensos. Diego não pensou duas vezes para elogiar o rapaz. — Caraca! Você já percebeu que seus olhos são tipo... Muito diferentes? — O que Diego não sabia é que Eduardo, ao olhar para ele, apenas se viu admirando os curtos cabelo cacheados do ciclista mas era tímido demais para retribuir o elogio.
Ambos riram enquanto Diego guiava sua bicicleta até a calçada. Ele a encostou ao lado do balcão de uma lanchonete e disse "Moço, eu queria dois copos de 500ml de suco de maracujá, por gentileza!" e ao mesmo instante Eduardo admirava uma senhora bonita que estava ao lado do atendente da lanchonete, logo percebeu que ela não estava mais entre os vivos e parecia muito triste. Em sua mente foram se formulando frases contendo um suposto nome, idade e causa da morte, costume que Eduardo tinha antes do incidente da Rosa Branca.
— Eu deveria estar na aula... — Disse o rapaz, sem jeito com a situação, já que ele havia parado de tentar entender os mortos a sua volta.
— Eu não sei o seu nome, você sabe o meu e... Oh! Maracujá é bom para acalmar os nervos! Eu prometo que te ajudo a se recuperar dessa aula... Eu realmente fiquei sem-
Antes que Diego pudesse terminar sua frase, o atendente já havia terminado de preparar as bebidas, Diego então pegou os dois copos e buscou com os olhos um lugar para se sentarem. A lanchonete estava cheia, nesse horário, muitas pessoas saem para trabalhar e acabam tendo que se alimentar fora de casa.
— Ok, não temos lugar pra sentar... Podemos... Tomar isso aqui andando? Não vai me dizer que se importa... Coisinha? Qual seu nome, cara!? — Dizia Diego em um dialogo completamente informal, olhando para os copos de suco que pareciam estar gelados.
— Meu nome é Eduardo, eu acabei me perdendo aqui, eu não ligo de beber andando não, mas você também não tinha que estar fazendo algo agora?
— Eu sinceramente não sei, eu saí de casa com a bicicleta que... Ué, quase esqueço minha bicicleta, Edu! Um minutinho... — Respondeu Diego enquanto estendia a mãos para Eduardo, no intuito do jovem ajuda-lo segurando os copos enquanto buscava sua bicicleta.
Diego então trouxe sua bicicleta apoiando-a com seu braço direito e pegou um dos copos de suco com a mão esquerda. Ambos começaram a caminhar enquanto tomavam suas bebidas.
— Eduardo, você gosta de fazer o que com seus amigos? Eu cheguei na cidade tem duas semanas e conheço só a minha casa, ah sim! Eu dizia, a minha bicicleta! Eu quase me esqueci. Eu saí de casa pra conhecer a vizinhança, e você? Ah claro! Aula, aula! Eu quase me esqueci, na verdade eu tive um branco na cabeça. Não branco de verdade, você entendeu, né? — Dizia Diego enquanto tentava manter uma conversa saudável com seu mais novo conhecido e ainda preocupado com a opinião de Eduardo depois de quase atropela-lo.
Eduardo mostra um sorriso e diz para Diego: — Calma, calma! Você gosta de falar, hein?
— Desculpa, é que eu não sei bem como agir nessas horas, eu sou afobado e nem sei se você tem ideia do significado dessa palavra, por que até eu tenho minhas dúvidas, minha mãe que fala isso e meu pai concorda sempre. Eu, nossa, desculpa, perdi a linha novamente. — Dizia Diego logo antes de levar o copo de suco até a boca e tentar dar espaço para Eduardo falar um pouco.
Eduardo logo solta uma risada tímida e completa: — Eu gostei, eu gosto. Na verdade eu não sou de falar muito, eu gosto de pessoas entusiasmadas, principalmente as que pagam suco pra mim!
— E as que tentam te atropelar? Essas sim são incríveis, nossa. Amizade eterna! — Responde Diego assim que tira o copo da boca, mostrando um bigode de espuma de maracujá.
Eduardo logo começa a rir novamente, levando sua mão livre até a boca tentando esconder o sorriso enquanto repara que Diego não percebeu que sua pouca barba fez da situação um momento cômico.
— O que? A piada não foi tão boa assim, não creio... — Continua Diego após perceber a reação de Eduardo.
— Tem espuma na sua... Você tá parecendo o Mário com bigode albino! — Diz Eduardo.
Ambos riram juntos da situação enquanto Eduardo tentava entender por que se sentia tão bem. Sua interação com as pessoas dificilmente fluía como essa conversa com Diego, era como se a vida tivesse lhe dado uma chance de acreditar na amizade mais uma vez. Enquanto riam, Eduardo admirava o sorriso de Diego, um sorriso que fazia com que os olhos de Diego parecessem rir junto da boca, tornando a atmosfera ao seu redor extremamente leve e agradável.
Os rapazes caminharam por quase 20 minutos, em passos suaves até que chegaram a entrada da Universidade onde Eduardo estudava. Diego se despediu e perguntou se Eduardo teria tempo de vê-lo após a aula para mostrar a cidade.
— Você espera eu chegar em casa, tomar um banho pra poder ir? Eu saio da aula por volta das quatorze horas, então podemos combinar de nos encontrar na praça às quinze? — Disse Eduardo de forma direta.
Diego começou a rir com os olhos e a boca, Eduardo não entendeu muito bem mas logo Diego explicou. — Quem diz 'quinze' e 'quatorze' horas, cara? Que coisa estranha!
Eduardo absorveu fôlego para responder Diego, mas antes que pudesse responder, Diego o abraçou e disse próximo ao seu ouvido: — As 'quinze', ok?
Eduardo concordou com a cabeça e eles se separaram, Diego colocou seu capacete que até pouco tempo estava em seu braço, subiu em sua bicicleta e logo desapareceu no horizonte.
Eduardo, apesar de permanecer firme, explodia de empolgação por dentro. A ansiedade tomou conta do jovem e cada minuto na aula parecia uma eternidade.
No intervalo Eduardo estava com fome e teve de ir até a lanchonete da universidade para comprar algo para se alimentar. Alguns colegas o chamaram para ir com eles até uma sorveteria fora do campus, mas como sempre, após ver que seriam muitas pessoas, Eduardo preferiu não ir e dar alguma desculpa, o que era irrelevante para os outros, já que eles se acostumaram com as desculpas do rapaz para não se enturmar. Logo quando chegou na lanchonete, Eduardo pediu "Uma coxinha mais escura, com suco." e logo recebeu seu lanche. Quando levou o copo de suco até a boca e sentiu o gosto, percebeu que era de Maracujá. Mas não era doce e nem tão bom quanto o que ele havia tomado mais cedo, não era um suco natural como antes e a presença de Diego fez até um simples suco ser algo apetitoso.
Enquanto degustava seu lanche, Eduardo avistou no horizonte um garoto com vestes muito parecidas com seu amigo... Lohan. Antes mesmo que Eduardo pudesse reagir ao acontecido, uma brisa fria, mesmo em um dia ensolarado, o atingiu e o vento carregou consigo uma frase. "Você esqueceu de mim, Eduardo?". A pressão de Eduardo subiu imediatamente, o rapaz ficou fisicamente alterado e em seguida foi ao chão. O dono da lanchonete logo começou a gritar por uma ambulância, e o garoto começou a tremer e chorar, seu corpo estava frio e seus olhos cor-de-caramelo estavam estáticos, Eduardo estava em choque.
Até onde o corpo pode chegar a reagir diante da saudade?
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