Herdeiro da Coruja

1 Capítulo 1 - A Rosa Branca


Eduardo se vestia em seu quarto enquanto sua mãe preparava o jantar, era fácil saber o que ela estava elaborando. — É macarrão, né mãe? — Gritou Eduardo enquanto se equilibrava em um pé só na tentativa de vestir sua bermuda. Em seguida caiu no chão, olhou para cima e fitou o vaso com uma rosa branca em sua estante. — Tenho que trocar a água da minha rosa! — Dizia para si mesmo.

Era uma terça-feira, bem no fim do semestre letivo, em um período pós-provas onde o que podia ser feito era esperar e torcer para que os resultados fossem favoráveis. Eduardo, de 21 anos, cursa Arquitetura na única faculdade de sua cidade. Seus olhos são seu grande trunfo, apesar de não serem azuis, verdes ou brilharem, são do mais claro castanho, é como se fosse feito por abelhas escultoras com o seu mel mais puro. Mas, o que torna seus olhos tão especiais é que Eduardo podia enxergar além da realidade, ele podia ver seres e espíritos em ambientes onde o tecido da realidade era tênue. Ele é um herdeiro da Coruja.

Anos atrás, quando a humanidade foi incumbida de proteger a terra da magia vil, os paladinos, servos dos primeiros papas, empunharam suas armas diante dos maiores e mais impuros seres, os Duques do Inferno. Herdeiros do Rato, da Coruja e do Tigre lutaram contra as criaturas profanas utilizando sua sensibilidade única, o sentir, ver e ouvir que tornava-os especiais, herdeiros de habilidades fantásticas que poderiam torna-los capazes de combater o sobrenatural... Mas para alguns, o dom se tornava uma maldição. Homens e mulheres se mataram, crianças foram sacrificadas e animais caçados apenas pela ignorância do homem moderno, e de sua negação diante do legado que receberam.

Eduardo, ao completar 16 anos, já havia percebido que algumas pessoas que ele via não eram completamente reais, na verdade ele dava nome a elas e, apesar de sentir certo medo, no caminho da escola pra casa brincava de imaginar a causa da morte daquele espírito. Seu primeiro contato foi aos 19 anos com um espírito, Lohan, que apesar de ter morrido em um continente diferente, estava ali na praça todos os dias. Eduardo não tinha amigos na faculdade, então Lohan era sua válvula de escape de seu dia de silêncio nas aulas.

Os garotos conversavam sobre tudo, Lohan, mesmo sendo Italiano tentava conversar em inglês com Eduardo, mas este tinha certa dificuldade e, pelo amigo, prometeu estudar para poderem se comunicar. Os dias se passavam e Eduardo sempre aparecia após as aulas, Lohan lhe contava histórias do folclore de sua terra natal e seu amigo sempre se mostrava intrigado, Lohan se preocupava em tornar as histórias reveladoras, com clímax bem acentuado para surpreender Eduardo e forçar seus olhos cor-de-mel a responderem de forma muito encantadora. Eduardo certa vez tentou impressionar o amigo trazendo-lhe uma pulseira de um desenho animado que gostava muito, mas o corpo de Lohan não estava ali, era um espírito e era incapaz de ser ou sentir alguma coisa física. Eduardo, preocupado com o humor do amigo, usou a pulseira por ele.

— Tá tudo bem, eu acho que não ia ficar bem em você, até por que, vejamos, ficou muito melhor em mim! — Dizia Eduardo tentando confortar o amigo.

Lohan sorria sempre que Eduardo não entendia muito bem algumas de suas histórias, por serem nomes muito diferentes da cultura Brasileira, Eduardo sempre insistia para Lohan lhe explicar melhor. Quando Lohan tinha cuidado em ser muito detalhista em ditar exemplos minuciosos, Eduardo se levantava para abraça-lo quase que instintivamente e em todas as vezes que ocorria, seguia de um desconforto na conversa, afinal... Ele não podia abraçar Lohan e ambos sempre quiseram que fosse possível.

Em um dia nublado, Lohan havia desaparecido e Eduardo, sentado em seu velho banco de madeira, aguardou por mais de duas horas mesmo sabendo que seu amigo nunca havia atrasado. — Os mortos também parecem ser ocupados. — Murmurou o rapaz.

Eduardo desviou o olhar do horizonte, olhando para o céu enquanto o vento o presenteou com uma corrente de ar fria, logo o rapaz levou suas mãos até seus braços para protege-los do frio e lá estava, no banco... Uma rosa branca e um pedido de desculpas. "Seria impossível para nós e eu estava perdendo o controle. Por favor, me perdoe."

Eduardo, em um momento de choque, deixou-se levar pelo sentimento e ficou paralisado. Por ser um garoto que não fazia muitos amigos, ele apostou seu amor fraternal em uma entidade que não tinha um futuro, uma vida. Lohan era alguém muito especial para ele, seus olhos se encheram de lágrimas que logo escorregaram pelo seu rosto até a rosa que recebeu como presente. Após aquele dia, Eduardo nunca mais conversou com os espíritos a sua volta.

— A janta tá pronta, filho! — Disse a mãe do outro lado da porta enquanto se dirigia ao espelho. — Nossa, eu não tenho mais idade pra ter espinhas!

— Pera um pouquinho mãe, eu vou só colocar água na minha rosa e vou descer pra comer com a senhora! — Disse o rapaz abrindo a porta, com metade da camisa vestida.

Após buscar água no filtro para sua rosa, Eduardo sentiu uma brisa fria vinda da janela de seu quarto, seu coração acelerou e ele, após colocar água para a rosa, levou as mãos até os braços se protegendo do frio e com um sorriso no rosto se retirou do quarto.

A noite foi tranquila, mas a manhã sempre era agitada em casa.

— Pegou sua mochila?

— Peguei!

— Viu meus óculos, filho?

— Ta na sua cabeça, mãe!

— Verdade... Não... Espera... Esse é o seu!

— Nossa, quase que eu saio sem eles e, nossa, você pegou aqui com a mão suja de que?

— Eduardo, amor, mamãe tá com pressa!

— Eu também, né? Enfim, vou lava-los!

Ambos tinham certa dificuldade em acordar pela manhã e não tinham senso de organização algum, então as vezes saiam de casa sem tomar café por falta de tempo. E Eduardo não gostava muito de comprar comida na faculdade. — Vou ter que comprar aquela coxinha de 4 reais hoje, que saco... — Dizia com a escova de dentes na boca enquanto tentava calçar seus tênis nos pés.

Eduardo teve que correr um pouco para chegar a tempo para a primeira aula, o professor da quarta-feira sempre começava às aula com a chamada de alunos então o rapaz não podia se atrasar.

No caminho Eduardo avistou uma multidão, um corpo estava no chão e parecia não ter vida, o rapaz tentava passar pelas pessoas mas os curiosos não facilitavam. Eduardo resolveu pegar um caminho diferente. — Vou passar pela rua de baixo e subir até a praça onde... Enfim, preciso chegar na aula a tempo! — Pensou o rapaz.

Logo quando chegou próximo a praça onde conversava com Lohan, Eduardo se distraiu vendo que o banco onde conversavam foi removido junto de todos os outros, dando espaço para um playground. — A quanto tempo não passo por aqui? Eu...

Enquanto Eduardo olhava para a praça, caminhava lentamente em direção a mesma quando um ciclista se chocou com ele.

— Nossa! Cara, tu ta bem? Eu não vi, juro que não vi, você começou a andar sem rumo e eu estava desatento e o freio acabou que, nossa, eu machuquei você? — Dizia o ciclista enquanto tentava remover seu capacete para melhor socorrer Eduardo.

— Eu tô bem, sério, me desculpa por ter andado assim sem olhar, eu tô atrasado, preciso ir... O que é isso? — Respondeu Eduardo.

Logo quando Eduardo se levantou por completo, o ciclista o abraçou e disse "Ainda bem!" enquanto respirava de alívio.

Uma brisa fria se envolveu neste abraço e Eduardo teve seus olhos banhados por lágrimas, recebeu o abraço do estranho e retribuiu abraçando-o ainda mais forte. — Mas o que? — Pensou o ciclista.

Neste dia Eduardo se atrasou para a aula.