Notas iniciais
ESTOU VIVA! Perdoem a demora, mas eu fiquei muito enrolada e com um bloqueio gigantesco! Eu só conseguia desenhas coisas aleatórias, eu tentei escrever mas não deu certo. Depois de muita luta o capítulo saiu. Em compensação, eu vou postar um capítulo bônus amanhã, sei que pode não ser muito, mas é o melhor que eu consigo com toda essa confusão. Obrigada por acompanharem e pelos comentários, espero que gostem!

— Estou exausto disso. Por que você decidiu fazer exercícios em um encontro? — Miguel reclamou se alongando. — Amanhã se eu não conseguir andar a culpa é sua.

Arquei as sobrancelhas percebendo o sorriso que contradizia suas palavras, afinal, quem sugeriu tal atividade foi ele mesmo durante o primeiro encontro.

— Não acredito que perdi. — soltou entre ofegos, fazendo-me sorrir.

— Quer correr contra a Hipátia? Ela vai amar a ideia.

— Por que você não faz um evento conjunto com vários esportes? Todos os selecionados participando, seria muito divertido. Aproveitar que o príncipe francês ainda está aqui, fazer uma corrida, jogo de vôlei, qualquer uma dessas opções seria incrível.

— Bom, quer que eu lhe acompanhe? — questionei estendendo minha mão, ele segurou e se levantou.

— Não, eu sei que você está com uma lista de encontros hoje, eu vou ficar por aqui mais um pouco. — ele passou a mão no cabelo úmido de suor e refez o rabo de cavalo. — Se eu faltar o jantar...

— Não exagere.

Olhei para os lados no corredor quando ouvi passos e escorregadas, no final dele Hipátia surgiu com as bochechas vermelhas sendo seguida por Adarie. Encostei na parede esperando as duas passarem. Seguindo o caminho pelo qual elas vieram, demorou apenas alguns minutos para eu encontrar William, que ia para a sala de treino com passos lentos.

— Estava esperando você. — sorriu. — Cunhado.

— Vocês ainda não se casaram. — ele deu de ombros. — O que foi?

— Eu preciso discutir algumas coisas com um dos selecionados.

William estava com roupas mais informais, provavelmente porque foi convencido a participar de algum treino maluco, ainda assim seu cabelo continuava impecável.

— Depois do jantar?

— Antes, só meia hora.

— Vou ver o que posso fazer.

Elliot estava balançando no lugar quando cheguei ao seu quarto, fingindo tocar algum instrumento musical, seus criados estavam sentados observando-o com compaixão, ao menos assim parecia. Ainda não entendia a natureza do cabelo dele para ficar tão elegantemente desorganizado, seus olhos estavam fechados enquanto ele fazia uma última pirueta e fazia a reverência recebendo aplausos, ação que imitei para chamar-lhes a atenção.

— Vossa alteza. — dispensei as mesuras com um gesto, o rapaz de olhos angulares sorriu e como uma doninha se aproximou quase dançando, ele segurou meu pescoço e ficou na ponta dos pés.

— Ainda não. — as palavras tocaram minha boca, ele se afastou. — A que devo a honra, Gael?

— Lembro-me de ter enviado um convite há alguns dias.

— Esqueci. O que faremos hoje?

— Pode escolher.

— Que tal cavalgar?

Meus músculos estavam com uma dormência lancinante, por conta do jogo da manhã e os desafios de Miguel, minha vontade era de deitar e relaxar o reto do dia, principalmente depois do banho. Cavalgar é uma opção que não está nos meus planos, só de pensar na dor que sentirei nas pernas amanhã...

— Brincadeirinha, vamos ver um filme? — soltei o ar com um suspiro.

Ele segurou o meu braço e nós fomos para o “cinema”, Elliot se dirigiu as estantes para procurar pelo filme enquanto eu preparava a pipoca. Lembrando o que Adarie disse antes que a sessão de encontros começasse “Detalhes te darão dicas sobre o que perguntar ou não”.

Uma palavra, o que será que os meninos podem ter falado que se adequa as palavras dela...

“Minha família? Ah, meus pais e minha tia são incríveis. ”

“Elliot é um nome que combina com a minha grandiosidade. ”

“Via poucas cores em casa. ”

“Eu viajo bastante, foi uma sorte incrível. ”

— Achei! — pulei, olhando assustado para Elliot. — Você estava em outro mundo, heim?

— Exagerado.

Coloquei manteiga no meu balde de pipoca enquanto ele polvilhava chocolate na dele. Combinação estranha.

— Espero que você goste, mesmo sendo tão antigo.

— É em preto e branco?

— Não é tão antigo assim, meu caro.

— Mudo? — sentei, ele se acomodou do meu lado.

— Os filmes mudos eram incolores.

— O que veio primeiro, o filme colorido ou com som?

— Quer saber? Fica quieto. — ele tapou a minha boca. — E presta atenção no filme.

Revirei os olhos.

Quando o filme começou acabei esquecendo até mesmo que estava em um encontro, era sobre um assunto com o qual me identifiquei tanto que acabei ficando melancólico com o decorrer da história, sentindo dez vezes mais do que o suposto. As luzes se acenderam e Elliot se espreguiçou.

— Como que você chegou em Gael?

— Oi? — perguntei, não havia compreendido o fundamento da pergunta.

— Como que você chegou em Gael? Escolher um nome não é tão fácil quanto parece, e você só tinha cinco anos, como achou um nome com o qual se identificasse tanto?

— Meu segundo nome e minha melhor amiga, ela adora... — arregalei os olhos, sentindo o pânico chegar como um balde de água fria, percebi uma expressão chocada em seu rosto.

***

— Quantos dedos tem aqui? — Zeno perguntou mais uma vez.

— Três.

— Qual é o nome das suas irmãs?

— Adarie e Hipátia.

— Quantos anos você tem?

— Dezenove. — seus olhos se fecharam, ele relaxou aliviado.

— Coloca a cabeça nos joelhos e conta até sessenta. — fiz o que ele mandou, ele ficou passando a mão nas minhas costas, depois me estendeu um copo com água. — Pronto. Melhor? — assenti, sentido minhas bochechas arderem com vergonha, sabia que não estava necessariamente corando, mas o constrangimento continuava o mesmo. — Seria bom você ir dormir, seu corpo já está exausto. — sacudi a cabeça, eu ainda tinha encontros hoje, cancelá-los por um motivo tão insignificante seria...

Os momentos entre a pergunta de Elliot e a chegada de Zeno não possuíam nitidez. Eu tinha a vaga ideia de que o outro também estava na sala de cinema, mas não conseguia vê-lo.

— Gael, não faça nenhum trabalho extra e evite se esforçar desnecessariamente. Quer ficar sozinho um pouco?

— Não, já vou sair. — levantei, ele colocou a mão no meu braço para me apoiar, vendo que eu estava ainda instável. — Obrigado.

— Tome cuidado.

Passei por Elliot sem olhar para ele, despedi com um aceno de Zeno e fui para o quarto de... Lizando.

Ele e Oliver estavam jogando cartas sentados no chão, com as roupas amarrotadas, extremamente solenes.

— Vamos fazer um encontro diferente, alteza, senta aqui com a gente e pega três cartas. Quando terminarmos poderemos sair. — os olhos violetas dele não se desviaram do baralho quando falou.

Permaneci em pé esperado que o jogo se desenrolasse, eles analisavam as cartas tão minuciosamente que quase parecia xadrez. Depois de quinze minutos decidi sentar, os olhos de Oliver brilhavam transformando seus olhos em ouro líquido, talvez pela emoção e os raios de sol que batiam neles, os cílios negros transformavam-lhe em um predador; num milésimo de segundo as costas de Lizandro relaxaram, não tinha a visão de seu rosto, portanto não pude ver a mudança em suas feições. Pela expressão confusa de Oliver, a reação do loiro era inesperada.

— Venci. — ele abaixou as cartas.

— Ótimo jogo. Quantos pontos?

— Sessenta e um, acho. É, você só tem trunfos pequenos. Uma pena que halo e sete de roda inteira não conta quando estamos em dupla.

— Que jogo complexo. — comentei, eles gargalharam.

— Não é, pessoas normais terminariam em menos de cinco minutos, nós somos enrolados. — Oliver explicou. — Até o jantar, príncipe Gael.

Lizandro empurrou o amigo para fora do quarto rindo, se virou para mim e fez uma reverência, cruzando a perna direita para trás e imitando como se tivesse em suas mãos um leque e uma saia.

— Vamos?

— Vamos, tem algum lugar em mente?

— Ouvi Kyan comentando sobre ateliê noutro dia, mas acho que a biblioteca é o suficiente. A não ser que você tenha uma ideia melhor.

Ainda eram... Cinco horas da tarde, eu só tinha duas horas para o jantar, amanhã aconteceria mais uma série de encontros, eu realmente gostaria de relaxar...

— Vamos para o jardim? Oliver contou sobre as incríveis espécies que existem lá.

— Espécies incríveis?

— As cores, você entende, não? Como aquela criança em corpo de adulto se encanta fácil. Nós podemos só ficar caminhando por ali.

— É, sim. Uma ideia melhor do que a minha.

— Que era nenhuma.

— Infelizmente.

O vento estava agradável, atenuando o calor da tarde, alguns insetos teimosos ficaram zumbindo a minha volta, mas nada desesperador. A conversa fluiu naturalmente, ele contou um pouco sobre lugares que visitou por conta de seu trabalho, no caminho esbarramos com William e Adarie, fazendo com que eu relembrasse o pedido do príncipe horas mais cedo.

— Gael...

— Lizandro, se importaria se terminássemos o encontro por hoje? Prometo que teremos outro futuramente.

— Claro!

Voltei para o castelo e procurei por Alexei, as opções mais prováveis eram a biblioteca, seu próprio quarto ou o salão dos homens, após tentativas falhas, descobri que estava conversando com minha mãe à porta do salão das mulheres. Eles discutiam algo sobre príncipes impacientes ou insistentes.

— Oh! Querido, aí está. Alexei está procurando pelo príncipe William.

— O William está procurando por ele.

— Perfeito! — ela sorriu, as rugas embaixo de seus olhos se acentuaram. — Meu jovem, procure por Ada, eles devem estar juntos.

— No jardim, banco de pedra. — complementei. — Will afirmou que esperaria lá. — quando Alex sumiu na distância, minha mãe fez um sinal com os dedos, chamando-me para mais perto.

— Você percebeu a semelhança? — ela estava entusiasmada. — Fazia tantos anos que não o via que mal o reconheci! A voz não mudou quase nada. Só não entendo o motivo dele ter pintado o cabelo e usar lentes de contato, os óculos dele...

— Espera, como assim você conhece o Alexei?

— Eu o vi em uma das viagens que fiz para a Rússia, você e suas irmãs ficaram em Illéa com seu pai. Há... sete anos?

— Mãe, como você lembra de um civil de outro país?

— De quem você acha que herdou essa boa memória, bebê? Óbvio que era um gene recessivo que passou para você, sua lembrança de rostos é opaca por conta de um possível gene dominante do seu pai.

Bufei.

— Não exagere na biologia. Nem sabe se é isso mesmo.

— É divertido. Se nós não fossemos da realeza o que você seria, meu bem?

— Não gosto de pensar nisso, ao contrário de você e Pátia.

Ela beijou minha testa e entrou no salão de novo. Ao mesmo tempo que Olivia apareceu trazendo uma bandeja com doces e uma chaleira, ela parecia mais inteira do que de manhã, seus olhos não estavam nublados por desolação. Agora o mel estava retornando ao normal, demoraria, mas...

— Olá, alteza. Como está?

— Muito bem, Lira. E você, majestade?

— Entediada, não tenho mão para poder comer os doces, vê que triste? — frutas com chocolate, peguei um morango e mordi metade, estava fresco ainda, ela abriu a boca e dei a outra parte para ela. — Delicioso, obrigada pelo lanche.

Ela entrou no salão proibido. Tomei rumo ao salão dos homens, meu pai contara no almoço que dividiria sua experiência como monarca com aqueles que se interessassem pelo assunto, uma forma de prepara-los para amanhã.

— E foi assim que nós decidimos que os três, só poderiam sair juntos. — ele cruzou os braços sobre a barriga.

— Pai, o que a fuga da Hipátia tem com...

— É uma experiência como monarca. Eu usava a coroa quando isso aconteceu. — replicou. — Sem falar que nós temos que mostrar que também somos humanos, assim como eles. Isso faz com que eu me lembre de outra história, ela começa numa bela tarde de verão na província de Hudson. As minhas meninas decidiram ir para o hospital visitar as crianças de lá...

Sentei em uma das poltronas, várias das histórias envolviam os desastres de Hipátia, que foram tantos que deveria ter uma seção na biblioteca somente para eles. Alguns momentos embaraçosos, principalmente quando Ada chegou para o meu pai dizendo que se casaria com o William — o que aconteceu antes dela completar doze anos, porém a união aconteceria de todo o modo, visto que era um casamento arranjado.

Eu já estava apoiado no braço da cadeira quando minha cabeça começou a tombar de exaustão. Meu pai era um excelente contador de histórias, principalmente se seu objetivo fosse fazer os ouvintes caírem no sono, o timbre relaxante e as palavras suaves apenas contribuíam para que isso ocorresse. Foram curtas sonecas consecutivas, que acabaram cansando ainda mais quando tive te ir para o jantar com eles.

Eu não entendia a felicidade dos rapazes com a comida, principalmente Zeno, ele parecia apaixonado pelos sabores diferentes. Algo que observei em nosso primeiro encontro, o modo como ele saboreava os doces, sempre com pedaços pequenos. Henrique era um chef, então era entendível, os temperos diferentes, ele já havia pedido permissão apenas para ficar na cozinha sozinho para aprender mais técnicas.

— Adarie, pode parar de pisar no meu pé? — resmunguei.

— Vá num encontro com ele.

— Eu já fui ontem!

— Vá de novo.

Hipátia fez um muxoxo por não entender a conversa, e deixei de lado. Um encontro esta noite não seria ruim... Talvez se fosse amanhã pela manhã ou...

— As estrelas estão tão lindas... — mamãe suspirou olhando para a janela. — Não concorda?

Detesto quando ela dá indiretas para encontros.

— Josh, pode vir aqui um minuto? — ele se aproximou e se inclinou.

— Sim, alteza?

— Poderia falar para o loiro sentado na ponta da mesa que passarei no quarto dele esta noite?

— Um encontro, senhor? — ele riu. — Farei isso nesse instante.

— Discrição, por favor.

Com um ou dois sinais que trocaram, o mordomo que ficava na outra ponta da mesa trocou algumas palavras com Zeno, sua expressão era estranhamente confusa, não consigo enxergar o motivo para tal resposta. Ele sorriu quando o homem se afastou e voltou a brincar com a comida, com a expressão mais perdida do que antes.

O que estava acontecendo?

Notas finais
Então... O Gael não vai morrer! Não me matem, no capítulo bônus nosso querido narrador vai explicar o que é que o Gael tem exatamente. Sugestões? Teorias? Críticas?