Herdeira das Trevas
2 Bem-Vinda a Hogwarts
Notas iniciais
Entrei tardiamente na escola. Meus pais decidiram me ensinar em casa até os cinco anos, mas depois se tornou necessário minha convivência com outras crianças. Papai tinha muito medo do que aconteceria comigo, ele nunca havia passado pela escola trouxa e achava que eu jamais me adaptaria. Nesse dia, senti medo pela primeira vez na vida, um medo imenso de conhecer outras pessoas e de essas não me aceitarem. Mas Samanta foi a primeira criança a me cumprimentar, lembro até hoje do momento em que ela me puxou pela mão para pular corda com mais duas meninas. Voltei para casa com um sorriso imenso no rosto, louca para voltar no dia seguinte. Meu pai pode respirar tranquilo.
E hoje, anos depois, a sensação que tenho é a mesma que tive segundos antes de entrar naquela escola, antes de Sam me puxar pela mão. Quando olhei para trás e, ao invés de ver minha mãe, vi uma enorme coluna de tijolos senti meu coração palpitar violentamente.
A estação estava lotada de alunos e familiares, mas não havia um rosto conhecido por ali. Empurrei minhas malas até o bagageiro do trem e coloquei meus óculos escuros na tentativa de evitar encontrar com os outros olhares. Tudo que quero é me enterrar em um buraco no chão e só sair quando o ano letivo terminar.
-Estão com nome? -Perguntou uma senhora rechonchuda pegando a primeira mala nas mãos. Revirei os olhos disfarçadamente e apontei para as iniciais cravadas no corpo da bagagem. Quando finalmente ela guardou todas as minhas quatro malas, entrei na fila de jovens que aguardavam para entrar no trem.
Caminhei por todo o trem até encontrar uma cabine vazia quase no fim do primeiro corredor. Sentei-me na poltrona desconfortável e respirei fundo tirando meu livro de dentro da bolsa, estou lendo pela milésima vez “Assassinato no Expresso Oriente”.
-Tem lugar aqui. -Exclamou um menino ruivo invadindo a cabine com outros dois colegas: uma menina de cabelos bem cheios castanhos e um garoto de cabelo escuro com uma cicatriz esquisita na testa. -Bom dia. -Cumprimentou ele cheio de energia. Não tirei os olhos do livro mesmo que já não estivesse lendo uma só palavra.
-Educação está em falta hoje em dia. -Murmurou a garota para seus colegas e sentou na poltrona à minha frente. Controlei minha vontade de responder e apenas cruzei as pernas tentando continuar minha leitura. Fazer amigos não é meu foco no momento.
-Hermione. -Repreendeu o moreno da cicatriz com rispidez e sentou no único lugar que sobrava, justamente ao meu lado. Ao contrário dos amigos, ele não tentou puxar assunto, para minha felicidade. -Então, preparados para mais um ano em Hogwarts? -Perguntou para os amigos que bufaram e começaram um papo animado sobre suas férias. Não, menino da cicatriz. Não estou preparada.
Meu pai sempre foi muito bom em contar histórias, mas nem se tentasse muito seria capaz de descrever perfeitamente Hogwarts.
Quando finalmente chegamos ao imenso castelo, fui separada do restante de alunos da minha idade e colocada em uma fila cheia de criancinhas. Tentei disfarçar o meu desconforto, mas era evidente que eu me sentia deslocada. Segundo uma senhora bem séria que veio nos receber, seremos selecionados para nossas devidas casas agora.
Papai era da Grifinória e nunca escondeu seu orgulho por pertencer ao grupo. Sempre contava sobre os melhores momentos de sua vida, deixando bem claro que conhecer minha mãe e me buscar eram os mais especiais. No fundo do meu coração, existe uma vontade de ser selecionada para a Grifinória, mas senti uma sensação de que não era o lugar certo para mim.
Minha tão esperada vez chegou e sentei-me no banco esperando colocarem o Chapéu Seletor em mim. Toda a escola me observava com curiosidade, as pessoas fofocavam entre si e esperavam ansiosos pelo resultado.
-Sei qual é seu verdadeiro desejo. -Falou o chapéu fazendo-me revirar os olhos. -Mas não posso realiza-lo. -Chapéu babaca. -Sua alma pertence completamente à Sonserina.
A mesa da direita explodiu em gritos de felicidade. Levantei-me amargurada e andei em direção aos alunos da bandeira verde e prateada. Meu pai nunca respondia quando eu perguntava em qual casa eu ficaria e hoje entendo o porquê, já que ele passou a vida inteira odiando todos os membros da Sonserina e falando de suas personalidades escrotas e maldosas. Sinto muito por ser seu pior pesadelo, papai.
-Tira o olho, Zabini. -Falou um menino de cabelos platinados assim que me sentei à mesa. -A novata é minha. -Revirei os olhos pesadamente mais uma vez. Garotos, por que tão idiotas o tempo inteiro?
-Para de ser babaca, Draco. -Exclamou uma menina de cabelos escuros sentando ao meu lado. -Por que não se concentra na vadia da Pansy? -Comprimi os lábios para não rir do comentário feito e ainda mais da fúria no olhar de uma menina sentada do lado do loiro, que apenas riu e deu de ombros. -Eu sou a Francis, prazer.
-Mia Hathaway. -Falei sorrindo de lado. A forma como a menina agiu me lembrou muito Sam, mas acho que por estar muito recente, qualquer coisa me recorda minha amiga e não necessariamente Francis.
O homem com longas barbas prateadas, o famoso bruxo Alvo Dumbledore, finalmente terminou seu discurso e fez com que um banquete aparecesse sobre nossa mesa. Havia todo tipo de comida que eu pudesse imaginar e parti direto para a salada tropical que estava bem na minha frente, como se fosse destinada a mim. Coloquei um pouco de molho de laranja por cima e servi-me com um copo de limonada.
-Está de regime, querida? -Perguntou a tal Pansy com um sorrisinho falso no rosto.
-Não, mas talvez você devesse estar. -Retruquei irritada. Não faz nem uma hora que estou aqui e essa menina já quer encher o meu saco? Francis deu uma risada baixa e colocou mais um pedaço de frango em seu prato. Pelo visto, já tenho uma aliada.
O jantar durou mais alguns minutos e comi uma fatia imensa de torta de creme depois da comida. Se continuar comendo desse jeito durante o ano inteiro, engordarei uns vinte quilos. Ao contrário do que imaginava todas as comidas estavam deliciosas e havia muitas opções vegetarianas, me deixando bem mais tranquila.
Logo após o jantar, Dumbledore deu mais algumas informações e fomos guiados por nossos monitores até os aposentos da Sonserina, que ficam a milhares de lances de escada do Salão Principal, nas masmorras do castelo. Só de passar pelo corredor já pude sentir o clima ficar ainda mais gélido o que se intensificou conforme chegamos mais perto de nossa Sala Comunal.
-Sangue ruim. -Falou o monitor ao quadro da parede, que viria a liberar a entrada, e todos caíram na gargalhada. Então essa era nossa senha? Que interessante.
A Sala Comunal era fantástica, um pouco gótica demais para mim, mas ainda assim tinha seus detalhes luxuosos e uma lareira que tornava o ambiente mais agradável. As janelas davam para um enorme lago e para o céu estrelado. Havia muitas poltronas espalhadas, mesas de jogos, uma fonte de água e milhares de estantes com todos os livros que pudesse imaginar, além de alguns troféus.
-Francis. -Chamei a menina que virou prontamente. -Você pode mostrar onde ficam os dormitórios?
-A Francesca eu não sei, mas se você quiser, posso te mostrar a minha cama. -Falou o menino loiro passando o braço pelos ombros de Francis que revirou os olhos. -Ela é bem grande, tenho certeza que tem lugar para dois. -E piscou galanteador.
-Sinto muito, é que eu sou muito espaçosa. -Brinquei e ele mordeu o lábio inferior rindo. -Quem sabe outro dia?
-Quando quiser, estarei do outro lado do corredor. Draco Malfoy. -Apresentou-se ele pela primeira vez e beijou minha mão. Pelo visto, alguma diversão tenho garantida por aqui.
Francis deu um empurrão no loiro e me puxou até o dormitório feminino. O quarto era tão espetacular quanto todo o restante do local. Cinco camas estavam distribuídas pelo ambiente, cada uma com seu criado-mudo ao lado e um baú nos pés, além de alguns armários espalhados e espelhos por todos os lados, também havia sobre a janela uma escrivaninha de estudos com algumas cadeiras. Nada mau para uma escola de milhões de anos.
-O Draco é assim mesmo, com o tempo você se acostuma. -Falou ela deitando-se sobre a cama. -Se te incomodar, é só fazer um escândalo.
-Eu estou de boa. -Respondi colocando minha bolsa sobre a cama que estava ao seu lado direito. Minhas malas estavam no canto do quarto e respirei fundo só de pensar em guardar todas aquelas roupas. Decidi esperar a inspiração vir. -Você está aqui há muito tempo?
-Em Hogwarts? -Perguntou ela e assenti com a cabeça. -Desde os meus onze anos, então são cinco anos de estudo. -Tentei não arregalar os olhos, mas ela percebeu e deu uma risadinha. -Não é tão ruim quanto parece. Para falar a verdade, gosto muito de estudar aqui.
-Entendo. -Como alguém pode gostar de ficar preso durante todo esse tempo num castelo medieval? Sem ir à praia! -Você é filha de bruxos e tal, ou vive no mundo trouxa?
-Filha de bruxos e tal. -Brincou arrancando sua varinha da capa e rodopiando entre os dedos. -Eu nunca visitei o mundo trouxa, mas também não tenho vontade. Meus pais são bruxos bem famosos, somos da Primeira Classe.
-Entendo. -Repito sem ironia, tentando entender melhor as coisas por aqui. -Nunca visitei o mundo bruxo, então acho que temos algo em comum. Ah, e também sou da Primeira Classe, se isso significa ser podre de rica. -Ela riu mais uma vez e encarou-me.
-O que uma menina como você veio fazer em Hogwarts depois de tanto tempo no mundo trouxa?
-É uma longa e triste história, não cabe ser contada agora, sabe? -Foi sua vez de assentir e continuar a girar sua varinha entre os dedos. -Me ajuda a desmontar essas malas? Você não ideia da quantidade de roupas que eu trouxe.
-Posso até ajudar. -Falou vindo em minha direção. -Mas só se você me contar um pouco mais sobre os trouxas.
-Por onde começo... Você já assistiu Magic Mike?
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