Herdeira Consorte
1 Capítulo 01
A Herdeira Perfeita
Os primeiros raios de sol atravessavam as cortinas de seda azul do quarto de Louise Valliere muito antes que ela abrisse os olhos. Às cinco e meia da manhã, seu corpo já estava desperto por puro hábito, quinze anos de treinamento real não se apagavam por alguns minutos a mais de sono.
- Senhorita Valliere, seu banho está preparado — anunciou Margo, sua dama de companhia, entrando com a discrição de quem servia à família há quinze anos.
A bandeja de prata trazia chá quente e uma rosa branca, o mesmo ritual de todas as manhãs desde que Louise completara treze anos.
- Obrigada, Margo. — Louise sentou-se na cama, aceitando a xícara com ambas as mãos, gesto que aprendera aos cinco anos: segurar objetos reais sempre com respeito, mesmo quando ninguém estava observando. — A água está na temperatura de sempre?
- Perfeitamente, senhorita. Quarenta graus, como a senhora prefere.
- E meus pais? Já se levantaram?
- O ministro Valliere está em seu escritório desde as quatro, revendo documentos para a reunião do conselho de hoje. Sua mãe ainda não, mas deixou recado que a espera para o café da manhã.
Louise sorriu levemente. Seu pai Marcus, o ministro da Estratégia, era conhecido em todo o reino por sua disciplina implacável, qualidade que ela herdara em dose dupla. Sua mãe, por outro lado, era o coração da família, a única pessoa no mundo capaz de fazer o ministro Valliere esquecer protocolos e simplesmente... ser ele mesmo em seus raros momentos de espontaneidade.
O banho foi rápido, eficiente, quase militar. Louise não se permitia os longos momentos de relaxamento que outras jovens de sua idade e posição desfrutavam. Tempo era recurso, e recurso não se desperdiçava.
Ao sair, Margo já havia separado seu traje: vestido azul-cobalto, o preferido para compromissos oficiais, com detalhes em prata que combinavam com o broche da família Valliere, um cervo saltando sobre montanhas, símbolo de nobreza e perseverança.
- Hoje temos visita ao orfanato Municipal às nove — Margo começou a listar em seu tablet, acompanhando cada movimento de Louise com os olhos treinados de quem conhecia cada etapa da rotina. — Depois, almoço com a Liga das Damas da Corte. À tarde, ensaio para o jantar de gala com a família real. À noite...
- Sei o que tenho à noite, Margo. — Louise ajustou o broche no vestido, verificando no espelho se estava perfeitamente centralizado. — Estudo de protocolo com o mestre de cerimônias.
- Isso mesmo, senhorita. Até as dez. — confirmou ela.
- Até às dez. — Louise respirou fundo. — Como todos os dias.
Desceu as escadas com a postura impecável que lhe era característica: costas retas, queixo erguido, passos medidos. No salão de café da manhã, sua mãe a esperava com uma xícara fumegante e um sorriso que iluminava o ambiente. Dentre os Valliere, sua mãe era a única que não tinha muita rigidez. Louise não conseguia acreditava em como seu pai havia se apaixonado por sua mãe.
- Minha filha! — a mãe levantou-se para abraçá-la, gesto que quebrava ligeiramente o protocolo, mas que Louise aprendera a aceitar como a única exceção permitida em sua vida rigorosa, sua mãe sempre seria a excessão. — Dormiu bem?
- Sim, mãe. — Louise retribuiu o abraço com afeto genuíno, permitindo-se um momento de calor antes de sentar-se à mesa, voltando para sua posição contida — E meu papai?
- Ainda trancado com seus documentos. — A mãe revirou os olhos com carinho. — Às vezes acho que ele casa com o trabalho, não comigo.
- Ele casa com o dever, mãe. Como todos nós. — justificou Louise.
Ela observou a filha com um misto de orgulho e preocupação. Louise era tudo o que sempre sonhara: elegante, inteligente, dedicada. Mas havia algo em seus olhos que inquietava o coração materno. Uma frieza contida, uma disciplina tão arraigada que parecia sufocar qualquer espontaneidade.
- Filha, você tem vinte e dois anos. — a mãe tocou sua mão sobre a mesa. — Não precisa ser perfeita o tempo todo.
- Preciso, sim. — Louise respondeu sem hesitar. — Sou a futura princesa consorte de Ametista. Cada gesto meu reflete na família real, no ministério de seu pai, na imagem da coroa. Não há espaço para imperfeições.
- Há sempre espaço para ser feliz. — a mãe escondeu bem suas emoções.
- Ser feliz — Louise repetiu a palavra como se fosse um conceito estrangeiro. — O que é felicidade, mãe? Cumprir o dever? Servir ao povo? Honrar o nome da família?
- É também sentir. Amar. Ser amada.
— Louis vai me respeitar. Com o tempo, talvez até me estime. Amor não é necessário.
A senhora Valliere suspirou. Quantas vezes ouvira o mesmo discurso? Sabia que a filha fora treinada desde cedo para acreditar nisso, que sentimentos eram secundários, que dever era tudo, que a monarquia se sustentava em obrigações, não em afetos. Mas isso não impedia que desejasse mais para Louise.
- O príncipe Louis tem comparecido aos ensaios? — perguntou, mudando de assunto.
- Não. — a voz de Louise manteve-se neutra, mas algo em seus olhos escureceu. — O mestre de cerimônias diz que ele está sempre "indisposto" ou "ocupado com assuntos de Estado". Danço com um substituto.
- Isso não é...
- É o protocolo, mãe. Enquanto houver um substituto, o ensaio acontece. Quando chegar o dia da cerimônia oficial, Louis estará lá. Ou não. — ela deu de ombros com elegância estudada. — Não posso controlar as ações do príncipe. Apenas as minhas.
O ministro Valliere entrou nesse momento, poupando a mãe de responder. Ele beijou a esposa na testa, cumprimentou a filha com um aceno e sentou-se à cabeceira da mesa com uma pilha de papéis.
- Pai — Louise chamou sua atenção. — O jantar de gala com a família real hoje à noite. Devo preparar algum discurso específico?
- Não. — O ministro tomou um gole de café sem tirar os olhos dos documentos. — Apenas siga o protocolo. O rei e a rainha já te conhecem. Louis provavelmente não aparecerá.
Quando havia aceitado essa casamento com a corte de Ametista, sabia que não seria fácil, mas incomodava o príncipe ser tão indiferente com sua única filha.
- Devo me preocupar com isso? — Louise quebrou a linha de pensamento do pai.
- Não. — desta vez ele ergueu os olhos, fixando-os na filha com uma intensidade que só os Vallieres compartilhavam. — Louis Ametista é um príncipe mimado que nunca aprendeu o significado de dever. Você não pode controlá-lo. Pode apenas continuar sendo quem é. E quem você é, Louise, é mais do que suficiente para qualquer trono.
- Mesmo para o trono de Ametista?
- Especialmente para o trono de Ametista. — O ministro voltou aos papéis, mas sua voz carregava uma convicção inabalável. — Um dia, Louis vai perceber isso. Ou não. O problema será dele, nunca seu.
Louise sentiu o peito aquecer. Seu pai era econômico com elogios, mas quando os fazia, valiam ouro.
[...]
O carro parou diante do orfanato Municipal pontualmente às nove horas. Louise desceu com a ajuda do motorista, ajustando o vestido com um movimento automático.
- Senhorita Valliere! — a diretora Matilde, uma mulher corpulenta de sorriso fácil, veio recebê-la no portão com duas crianças pequenas segurando suas mãos. — Que alegria vê-la novamente. As crianças mal dormiram de ansiedade.
- Espero que não tenham se desgastado por minha causa, senhora Matilde. — Louise apertou suas mãos com calor, depois ajoelhou-se para ficar na altura das crianças. — Olá. Como se chamam?
- Eu sou a Lívia — disse a menina, tímida. — E ele é o Pedro.
- Muito prazer, Lívia. Muito prazer, Pedro. — Louise cumprimentou cada um com um aperto de mão formal, arrancando risinhos nervosos dos dois. — Trouxe os livros prometidos. Cada criança com uma dedicatória especial. Querem ver?
O dia no orfanato era, para Louise, o momento mais autêntico de sua rotina. Longe dos olhares avaliadores da corte, ela podia relaxar ligeiramente a postura, não completamente, claro, pois Vallieres nunca relaxavam completamente, mas o suficiente para ler histórias com vozes engraçadas, para ouvir com atenção os sonhos de cada criança, para prometer voltar e cumprir.
- A senhora é diferente dos outros nobres que vêm aqui — disse Pedro, o menino que a recepcionara, agora sentado em seu colo durante a hora da leitura. — Eles olham pra gente como se a gente fosse... não sei, um quadro na parede. A senhora olha como se a gente existisse de verdade.
Louise sentiu um aperto no peito. Quantas vezes ela mesma se sentira um quadro na parede? Observada, avaliada, mas nunca realmente vista? Desde que entrará na corte, isso acabou virando sua segunda pele.
- Todos existem de verdade, Pedro. — ela passou a mão pelos cabelos do menino. — Nunca deixe ninguém fazer você esquecer disso.
- A senhora volta mês que vem?
- Você é novo por aqui, eu sempre volto. E no outro mês, e no outro. Até você ficar cansado de me ver.
- Nunca vou cansar! — ele garantiu, sério. — Quando eu crescer eu vou casar com a senhora!
Ela sorriu para o menino de forma contida.
- Estou comprometida com outra pessoa! — ela tocou o rosto da criança. — Você deve encontrar sua própria pessoa e ser feliz!
No caminho de volta, Louise olhava para a janela lá fora sem realmente apreciar a paisagem. Deveres acima de tudo.
- A senhorita tem um dom com crianças. Será uma excelente mãe para os futuros herdeiros do trono. — Margo quebrou o silêncio.
- Se Deus quiser — Louise respondeu, mas algo na frase ecoou vazio.
Mãe dos herdeiros. Esposa do príncipe. Rainha consorte. Títulos, papéis, obrigações. Em nenhum momento desses cálculos havia espaço para perguntar: e se Louis não for o homem que sonhei? E se eu não for feliz?
Ela sacudiu a cabeça, afastando os pensamentos. Felicidade era um luxo que futuras rainhas não podiam se permitir. Ela se preparou para o próximo evento.
A Liga das Damas da Corte reunia-se todas as quartas-feiras no salão rosa do palácio. Era um evento social obrigatório para todas as mulheres da nobreza, e Louise o frequentava com a pontualidade de um relógio.
Querida Louise! -a marquesa de Altamira, uma senhora de sessenta anos com um sorriso, acenou de sua cadeira. — Venha sentar-se ao meu lado. Precisamos conversar sobre os preparativos do casamento.
- Com prazer, marquesa. — Louise curvou-se ligeiramente antes de ocupar o lugar indicado. — Há novidades?
- Pelo o que sei o rei finalmente definiu a data para o noivado oficial. Daqui a dois meses, durante o encontro com a comitiva do condado de Cristal. O início das negociações será a sua festa de noivado e após isso os acordos comerciais com o norte.
Louise manteve a expressão serena, embora por dentro processasse a informação. Dois meses. Em dois meses, seria oficialmente princesa consorte. Noiva de um homem que mal olhava em seus olhos.
- Será uma honra — disse.
- Você é tão educada, minha querida. — a marquesa apertou sua mão. — Diferente de certas jovens da corte que preferem fofocas a protocolos.
O almoço transcorreu com a previsibilidade de sempre: conversas superficiais sobre moda, casamentos, filhos. Louise respondia com elegância, ria nos momentos apropriados, concordava com os comentários pertinentes. Era uma dança que conhecia bem, a coreografia social da nobreza.
Mas seus olhos, vez ou outra, desviavam-se para a ponta da mesa, onde um lugar permanecia vazio.
O lugar do príncipe Louis, que nunca comparecia.
- Ele não vem mesmo — sussurrou a seu lado a condessa de Montebelo, uma jovem recém-casada com quem Louise mantinha uma amizade cordial. — Disseram que está "incomunicável" hoje.
- Compreensível — Louise respondeu, neutra. — Príncipes têm muitas obrigações.
- Obrigações? — a condessa ergueu uma sobrancelha. — Louise, você é a noiva dele. Deveria ser a prioridade.
- Sou uma prioridade política. É diferente.
A condessa pareceu querer dizer algo, mas conteve-se. Em vez disso, apertou a mão de Louise sob a mesa, um gesto de solidariedade que valia mais que mil palavras. Louise a aceitou, mas sem alterar sua expressão.
À tarde, Louise seguiu para o salão de ensaios do palácio. O mestre de cerimônias, um homem idoso chamado mestre Alaric, a esperava com expressão cansada.
- Senhorita Valliere, que bom que veio. — Ele fez uma reverência. — Infelizmente, sua alteza o príncipe Louis não pôde comparecer novamente. Enviou um substituto.
- Naturalmente. — Louise assumiu sua posição no centro do salão. — Podemos começar.
O ensaio durou três horas. Louise dançou com o substituto, um jovem guarda real de expressão envergonhada, praticou as reverências, memorizou a ordem dos discursos, ajustou cada movimento milimetricamente.
- Perfeito! — mestre Alaric declarou ao final, exausto mas satisfeito. — A senhorita está mais preparada que qualquer noiva real que já treinei.
- Obrigada, mestre. — Louise fez uma reverência final. — Amanhã no mesmo horário?
- Se Deus quiser. — ele hesitou. — Senhorita, posso falar como alguém que a observa desde criança?
- Pode.
- A senhorita merecia um noivo que estivesse aqui. Que a visse dançar. Que a admiasse.
Louise manteve a expressão serena, embora algo dentro dela doesse.
- Obrigada, mestre. Mas não posso controlar o que não me cabe. Posso apenas fazer minha parte.
- E faz tão bem. — ele suspirou. — Até amanhã, senhorita.
No caminho de volta para casa, Louise permitiu-se um momento de cansaço. Apoiou a cabeça no vidro do carro e fechou os olhos por um instante.
- A senhorita está bem? — Margot perguntou, preocupada.
- Estou. Apenas... um dia longo.
- Todos os dias são longos, senhorita.
- Sim. Todos os dias.
À noite, Louise vestiu seu traje mais formal para o jantar com a família real. O rei e a rainha a receberam com o carinho de sempre, ela era, para eles, mais filha do que nora, mais família do que aliança política. Mas nunca deixava se apegar, para ela, estava cumprindo o seu dever e mantendo a honra da família Valliere.
- Louise, minha querida! — a rainha consorte abraçou-a com afeto genuíno, e pouco demostrado. — Sente-se ao meu lado. Precisamos conversar sobre as flores do casamento.
- Com prazer, majestade. — Louise fez a reverência adequada antes de sentar-se.
O rei, à cabeceira da mesa, observava a cena com satisfação. Louise Valliere era tudo o que sempre sonhara para o filho, inteligente, dedicada, amada pelo povo. Se seu filho tivesse metade da sensatez da noiva, o reino estaria em ótimas mãos.
Faltava apenas Louis.
- Sua alteza não jantará conosco? — Louise perguntou, educadamente.
- Infelizmente não. — O rei trocou um olhar com a rainha. — Disse estar indisposto.
- Compreendo. Desejo-lhe melhoras.
O jantar transcorreu agradavelmente, com conversas sobre política, sobre o povo, sobre os preparativos para a chegada da comitiva de Cristal. Louise contribuía com observações pertinentes, fazia perguntas inteligentes, ria nos momentos adequados.
Perfeita, como sempre.
Ao final, a rainha a puxou para um canto.
- Minha querida, sei que meu filho não é o noivo mais presente. — ela segurou as mãos de Louise com carinho. — Mas peço que tenha paciência. Ele é... complicado.
- Todos somos, majestade. — Louise inclinou a cabeça com respeito. — Não me preocupo com isso.
- Mas eu me preocupo. — a rainha suspirou. — Você merece mais do que ausências, Louise. Merece um marido que a veja.
- Com o tempo, ele me verá, tenho certeza!
- Espero que sim. Porque se não vir, será o maior tolo do reino. — a rainha sabia que ele era um tolo.
Louise sorriu, mas o sorriso não alcançou seus olhos. Estava acostumada a isso, a receber elogios, a ouvir que merecia mais, a esconder a solidão atrás de expressões serenas.
Era o que Vallieres faziam.
De volta a casa, Louise ainda tinha duas horas de estudo de protocolo com o mestre de cerimônias particular da família. Ele a esperava na biblioteca, com pilhas de livros e pergaminhos.
- Hoje estudaremos as tradições de casamento das famílias reais vizinhas — anunciou. — Especialmente as de Cristal, já que a comitiva virá para o encontro.
- Cristal? — Louise franziu a testa. — Por que precisamos estudar Cristal?
- Porque durante o evento de boas vindas, haverá a sua cerimônia de oficialização do noivado com príncipe Louis e será testemunhado pelos representantes do norte. É importante que entenda os costumes deles para não cometer deslizes.
- Compreendo. — Louise abriu o primeiro livro. — Pode começar.
- Segundo a tradição, quando a princesa herdeira termina seu treinamento, ela deve sair pelo reino sozinha em uma viagem de uma semana e voltar em segurança...
Louise não se interessou pelo assunto, estava divagando sobre as crianças do orfanato. Já pensando em quis livros levaria na próxima visita.
As duas horas se passaram voando. Louise absorvia informações como esponja, nomes, datas, tradições, protocolos. Quando o mestre finalmente se despediu, já passava das dez.
- A senhorita é uma aluna exemplar — ele disse, antes de sair. — Se todos fossem como a senhorita, meu trabalho seria fácil.
- Obrigada, mestre. Até amanhã.
Sozinha, Louise sentou-se por um momento na biblioteca. A casa estava silenciosa, seus pais já dormiam, os criados recolhidos. Era o único momento do dia em que ninguém a observava, ninguém a avaliava, ninguém esperava nada dela.
Ela permitiu-se suspirar.
- Você consegue — murmurou para si mesma. — Vallieres não desistem.
Subiu para seu quarto, despiu-se com a ajuda de Margo, e deitou-se na cama fria. O relógio marcava onze horas.
Amanhã, acordaria às cinco e meia novamente. E faria tudo outra vez.
Perfeita, como sempre.
Sozinha, como sempre.
[...]
O que ela não sabia é que, naquele exato momento, nos jardins do palácio, Louis Ametista jurava amor eterno a uma plebeia de cabelos cor de mel, prometendo-lhe que jamais se casaria com outra.
E que sua vida estava prestes a mudar para sempre.
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