Herança de Cinzas
10 Sombras do Passado
TOBIAS
Continuo sentado no chão, ainda sentindo os carinhos de Ártemis, tentando absorver a mínima sensação de conforto que seu toque proporciona. Mas minha mente não para.
Uma pergunta surge. E sei que não posso fugir dela. Levanto o rosto, afastando-me do abraço, e encaro seus olhos.
— Mãe? — Minha voz sai baixa, mas carregada de algo indigesto. — Quais são as chances de Luna sobreviver a esse torneio?
Ártemis solta um suspiro pesado.
— Sinceramente?
Eu afirmo com a cabeça. Não quero uma mentira. Não quero ser confortado. Quero a merda da verdade.
— Quase nulas.
Meu peito aperta, mas não demonstro nada.
Ártemis continua.
— Ela vai ficar muito exposta. Por mais que você seja o melhor rastreador e caçador que já conheci… serão centenas de semideuses.
Ela olha para as próprias mãos, como se estivesse tentando controlar algo dentro dela.
— Milhares de essências diferentes. Qualquer um deles pode ser quem estamos procurando.
Minha mandíbula se trava. Respiro fundo, absorvendo a informação antes de soltar a próxima pergunta.
— E se eu não conseguir protegê-la… o que acontece comigo?
Sinto Ártemis ficar tensa, mas, mesmo hesitante, ela responde.
— Há 16 anos, quando precisávamos de um guardião para Luna…
Sua voz soa distante, como se estivesse revivendo aquele momento.
— Eu achei que o encantamento de ligação seria perfeito.
Mas então, seu tom muda.
— Depois que conheci os dois candidatos a guardião, não tive mais tanta certeza se a ligação seria a melhor opção.
Ela faz uma pausa. Sinto o arrependimento em cada palavra que diz.
— Os dois candidatos partilhavam do mesmo sangue. O mais novo tinha cinco anos. Era assustado, baixinho. Sempre agarrado à mãe mundana.
Ela solta um breve riso, lembrando-se da cena.
— Já o mais velho…
Sua expressão muda, se ilumina de um jeito diferente.
— Ele era incrível.
Seus olhos encontram os meus.
— Apenas sete anos. Mesmo com medo, ele não demonstrava nada. Suas feições eram calmas e em momento algum cogitou se buscar conforto na presença da mãe.
Meu corpo está rígido, mas pergunto do mesmo jeito.
— Quem você queria que fosse escolhido?
Ártemis sorri, mas seu sorriso é cheio de pesar.
— O mais velho. Sempre. — Seu tom não carrega dúvidas. — Desde o primeiro momento em que o vi, soube que ele, e apenas ele, era digno de cuidar da pequena Luna.
Minha garganta seca.
— E o que aconteceu?
Sua expressão fica mais séria.
— Começamos o processo de ligação com o mais novo. — Ártemis respira fundo antes de continuar. — Mas ele não aguentou. Antes de completarmos a primeira marca, começou a empalidecer.
Seu olhar se perde por um instante.
— Soube, naquele momento, que a marca sugaria toda sua vida.
Eu engulo em seco.
— E o outro?
Ártemis sorri de novo, mas dessa vez, com orgulho.
— O mais velho aguentou tudo com determinação. Depois que tudo terminou, passou uma semana entre a vida e a morte.
Minha respiração falha. Ela continua.
— Tentando suportar toda a força que os símbolos exalavam.
Ela olha para nossas mãos unidas, e por um segundo, não consigo desviar o olhar.
— Foram dias terríveis. Eu passava o tempo todo segurando sua mão. Pedindo para você não desistir.
Minha boca seca. Ártemis aperte minha mão com mais força.
— Porque eu não iria desistir de você.
Seu tom é carregado de algo que eu não quero analisar agora. Ela finaliza, quase em um sussurro:
— E até hoje eu não o deixei. E não quero ter que deixá-lo agora.
Fecho os olhos por um breve segundo, mas já sei a resposta. Ainda assim, pergunto:
— O que vai acontecer se eu não conseguir?
Ártemis solta outro suspiro.
— Você já percebeu que Luna não é apenas uma simples semideusa. Desde o momento em que nasceu, Luna já exalava um poder incontrolável. Se ela crescesse com todo aquele poder, provavelmente não conseguiria controlá-lo e seria o nosso fim.
É claro que percebi, mas não digo nada. Deixo que ela continue. Ela olha para o lado, como se estivesse revivendo algo que a perturba.
— A ligação uniu você e Luna de uma forma além do que esperávamos. Inicialmente queríamos apenas que vocês compartilhassem sensações como dor, frio, calor, medo...
Ela faz uma pausa antes de continuar.
Minha respiração continua pesada.
— Quando ela tinha sete anos e você quatorze… — Seus olhos ficam escuros. — Luna encontrou na floresta uma planta extremamente venenosa, Erva de São Cristóvão. Ela comeu seus frutos.
Meus ossos parecem rígidos. Minhas mãos se fecham em punho na hora.
— Ela não demonstrou nenhum sinal de envenenamento, mas alguns minutos depois, um dos instrutores do acampamento apareceu com você nos braços.
Meu peito pressiona. Sei exatamente o que aconteceu, mas Ártemis relembra do mesmo jeito.
— Eu fiquei louca. — Ela me encara. — Você estava desacordado, espumando pela boca.
Seus dedos apertam minha mão ainda mais forte.
— Naquele momento, entendemos tudo. Vocês uniram seus fios da vida no momento da ligação.
Porra.
— Se qualquer coisa que possa matá-la atingir Luna…
Ela respira. Me encara diretamente nos olhos.
— Você irá morrer junto com ela.
Seu tom não carrega dúvidas.
— Por isso sempre dizíamos que seu coração pertencia a ela. Porque ele se fundiu ao dela, tornando os dois um só coração.
Cruzo os braços, encarando Ártemis, absorvendo tudo que acabei de ouvir.
A conexão com Luna.
O vínculo de nossas vidas.
A forma como fomos entrelaçados desde sempre.
Respiro fundo, tentando organizar o caos na minha mente. E então percebo a verdadeira dimensão das coisas.
— Por isso você sempre fez de tudo para que eu fosse o melhor.
Minha voz sai baixa, carregada de um peso que não consigo ignorar.
— Por isso me treinou como se treina um assassino.
Ártemis apenas confirma com um sorriso triste.
— Sim, sim. — Seu tom é tranquilo, mas ainda carrega resquícios da culpa que ela tenta esconder. — Eu não suportaria perder meu menino.
Suas mãos se apertam ao redor das minhas.
— Meu pequeno príncipe que sempre lutou tão bravamente para sobreviver.
Eu engulo seco.
Passo uma mão pelos cabelos, tentando afastar a sensação de impotência que me atinge. E então, um pensamento me faz franzir a testa.
— Mas se nossa ligação foi tão forte, por que Luna não tem nenhuma marca como eu?
Ártemis sorri alto. Um sorriso cheio de algo que eu não consigo decifrar de imediato.
— Ah, ela tem.
Meus olhos se estreitam.
— E tenho certeza de que foi a primeira coisa pela qual você se apaixonou nela.
Seu tom é afirmativo, sem espaço para dúvidas.
Minha respiração vacila. Por um instante, me sinto perdido. E então sussurro, quase sem perceber:
— Os olhos...?
Ártemis solta um riso baixo, como se estivesse esperando por essa reação.
— Você já foi mais esperto, filho.
Cruzo os braços, esperando sua explicação.
— Até o momento da ligação, Luna tinha os olhos tão azuis quanto uma pedra de Tanzanita.
Meus ossos parecem mais pesados na hora.
— Durante a semana em que você esteve entre a vida e a morte, os olhos dela começaram a variar.
Ártemis olha diretamente para mim, observando minha reação enquanto continua:
— Entre o azul profundo de um oceano calmo e o verde vibrante das folhas tocadas pelo sol.
Fecho os olhos, tentando absorver.
— No dia em que você ficou bom, ela acordou reclamando de uma irritação nos olhos.
Meu peito pressiona. Ártemis sorri.
— E quando fomos olhar...
Ela faz uma pausa, como se quisesse que eu descobrisse sozinho. Mas eu já sei.
— Lá estavam as pedras preciosas.
Minha respiração se acelera.
— Ela ficou com um olho azul e outro verde.
E então, Ártemis completa com um tom que me obriga a pensar:
— Se olhar bem, o tom de verde de vocês é idêntico.
Meu estômago afunda. Fico pensando em tudo isso e percebo que estou ferrado.
Desde o primeiro momento em que a vi, aos três anos, eu já estava condenado.
Já sabia que Luna era incrível. Desde então, a protegi.
Sempre escondido, sempre cobrindo seus rastros. Tirando cada perigo do seu caminho antes que ela notasse. E agora, estou aqui.
Com minha própria vida em jogo. E eu faria qualquer coisa para salvar minha garota.
— Ártemis?
— Diga.
Cruzo os braços. Respiro fundo. Eu preciso saber.
— O que faz de Luna uma semideusa tão especial?
Os olhos de Ártemis brilham com hesitação.
— Durante 19 anos, minha única missão foi protegê-la. Vocês me treinaram para isso. Principalmente você. — Minha voz sai carregada de algo que não consigo esconder. — E quando atingi idade suficiente, me afastaram dela.
Cruzo as mãos sobre os joelhos.
— Disseram que seria mais seguro protegê-la de longe. Sem contato. Sem presença. Por quê?
Ártemis suspira.
Por um segundo, posso ver claramente a batalha interna que ela trava para decidir o que pode ou não me contar.
Finalmente, ela fala:
— É complicado, Tobias.
Passa uma mão pelos cabelos.
— Você demorou mais do que esperávamos para questionar isso. — Mas então, sua expressão se fecha. — Ainda não é o momento certo para falar sobre isso.
Minha mandíbula trava na hora.
Ártemis escolhe bem suas palavras antes de continuar.
— Mas o que posso lhe contar é que Luna possui um poder muito maior que o de qualquer semideus que você possa imaginar.
Minha respiração falha.
Ela finaliza:
— Um poder tão grande que poderia superar o próprio Zeus.
Meu corpo se endireita na hora.
— Como isso é possível? — Pergunto, surpreso.
Mas Ártemis ignora completamente a pergunta.
— Esse tipo de poder nas mãos erradas poderia levar ao fim de muitas vidas.
Ela me observa, esperando minha reação.
— Por isso decidimos colocar alguém para protegê-la.
Minha cabeça gira.
— Você não é apenas um guardião, Tobias. — Seu olhar pesa sobre mim. — É um receptáculo sagrado.
Cada palavra me atinge como uma lâmina.
— Parte do poder dela habita em você, aguardando o momento certo para ser libertado.
Minha respiração se acelera.
— Eu ainda não entendo. — Tento absorver. — Como tudo isso é possível?
Ártemis suspira de novo.
— Isso é tudo que posso contar.
Ela se levanta, encerrando o assunto.
— Na hora certa, saberá a verdade por inteiro.
Minha mandíbula trava novamente.
— Mas, por agora, você tem algo mais importante para se preocupar.
Seus olhos são diretos.
— Manter nossa garota viva.
Solto um suspiro pesado. E então decido parar de lamentar.
— O que devo fazer?
Ártemis sorri.
— Bom, primeiro de tudo, arrumar a bagunça que fez no apartamento.
Seu tom é de bronca, mas carregado de diversão.
— E depois...
Ela sorri ainda mais.
— Temos uma viagem a fazer.
LUNA
O expediente no café passa rápido, como se cada pedido, cada xícara servida, cada cumprimento apressado dos clientes tivesse sido apenas um borrão.
Agora, já estou saindo pelos fundos da cafeteria, indo de encontro ao Kaique. Assim que chego à frente do café, o vejo escorado no carro, esperando por mim.
E hoje, ele está um pecado. Jeans claro, blusa social azul-escuro de mangas longas, paletó cinza por cima, sapato bege. Uma composição que, de algum jeito, fica perfeita nele.
Assim que me vê, ele abre os botões do paletó e vem ao meu encontro, sem pressa.
— Boa madrugada, senhorita.
Kaique fala com aquele tom debochado, pegando minha bolsa.
— Serei seu acompanhante durante essa madrugada.
Ele me guia até o carro, abrindo a porta para mim com uma reverência exagerada antes de me entregar a bolsa novamente, me fazendo rir. Ele dá a volta e entra no carro. Antes de dar partida, se vira para mim. Seu sorriso é suave, e o toque de sua mão no meu rosto é leve, como se estivesse testando a intensidade do momento.
Então, delicadamente, me puxa para perto, selando nossos lábios.
O beijo é calmo.
Carinhoso.
Exatamente como foi mais cedo.
Kaique encosta a testa na minha e sussurra, ainda segurando meu rosto:
— Esperei a noite toda por isso.
Seu polegar desliza pela minha bochecha. Eu seguro o olhar dele, com um sorriso pequeno.
— E por que demorou tanto para fazer?
Minha pergunta o faz rir baixo.
— Também não sei.
Ele responde antes de me beijar de novo, e então dá partida no carro. A estrada se estende à nossa frente, escura e silenciosa, mas então percebo algo estranho.
— Aonde estamos indo?
Pergunto, atenta ao caminho que ele escolheu.
Kaique continua dirigindo, relaxado, mas seus olhos brilham com um quê de diversão.
— Bom, antes de sairmos do acampamento mais cedo, você disse que só voltaria no domingo. Mas acho que seus planos mudaram.
Levanto uma sobrancelha, esperando que ele termine.
— Então pensei que poderíamos aproveitar um fim de semana normal, longe do acampamento.
Minha expressão suaviza. Apenas balanço a cabeça, concordando. A ideia não parece ruim.
Depois de cerca de meia hora, Kaique estaciona o carro em frente a uma casa simples, com uma decoração meio vitoriana.
Ele desliga o carro e sai, dando a volta até abrir a porta para mim. Desço e espero ele começar a caminhar, mas antes que eu possa segui-lo, ele me segura contra o carro.
Sua cabeça encaixa no espaço do meu pescoço, e eu sinto sua respiração contra minha pele. Ele inspira profundamente.
— Sempre gostei do seu cheiro. — Seus dedos deslizam por uma mecha solta do meu cabelo, afastando-a do rosto. — Mas sempre achei que o meu combinava mais contigo.
Levanto a cabeça devagar, segurando seu olhar firme.
— Mas aí não seria mais o meu cheiro. — Minha voz sai tranquila, mas firme. — Seria o seu. E eu gosto do meu cheiro.
Kaique solta uma risada curta, como se tivesse previsto minha resposta.
— E a cabeça dura está de volta.
Ele finalmente se afasta, puxando minha mão.
— Vem, vamos entrar.
A casa tem um pequeno jardim na frente, cercado por um muro baixo. As flores são vibrantes, trazendo vida para a fachada de tijolos vermelhos.
Por um instante, me pego pensando na casa de Tobias. E então me repreendo por isso.
Passo a observar o jardim com mais atenção, tentando desviar meus pensamentos. A casa tem apenas um andar. Duas janelas na frente. Sem garagem.
Simples. Mas aconchegante.
Cruzo os braços e solto um comentário, enquanto Kaique procura as chaves no bolso.
— Pensei que tivesse vendido o apartamento na cidade para suprir os gastos do tratamento.
Ele não me olha de imediato, ainda focado em achar as chaves, mas sua resposta vem, sem hesitação.
— Eu vendi. — Kaique finalmente encontra as chaves e me encara. — Mas não quis me desfazer da casa da minha mãe.
Meu peito pressiona ao ouvir isso. Por um instante, o silêncio nos envolve. A mãe de Kai morreu alguns anos depois que ele entrou no acampamento.
No começo, ele não morava lá. Apenas ia para cumprir suas atividades e voltava para casa. Na época, ela já estava doente.
Síndrome de Guillain-Barré. Uma doença que ataca os nervos, roubando cada movimento e sentido aos poucos.
Ela já estava internada há bastante tempo quando teve uma parada respiratória, e não resistiu.
Depois disso, Kaique vendeu seu apartamento na cidade para custear os gastos hospitalares. E se mudou definitivamente para o acampamento. Ele passou quase dois anos sofrendo pela morte dela.
Foi um período difícil. Até hoje, esse assunto é evitado. Então eu não digo nada. Apenas observo
Kaique destranca a porta e a empurra, me dando passagem. Entro primeiro, sentindo o ar morno da casa se misturar com o frescor da madrugada. Ele vem logo atrás.
Meus olhos percorrem o ambiente. O piso de madeira range suavemente sob nossos passos, e as paredes têm um tom de róseo quase bege, transmitindo uma sensação aconchegante.
À esquerda, a sala de estar tem um sofá confortável, voltado para uma lareira que fica ao lado de uma das janelas com vista para a rua. Uma poltrona no canto e uma pequena mesa de apoio completam o ambiente.
Uma estante presa na parede oposta abriga vários livros, alinhados com cuidado. Tudo ali parece simples, mas acolhedor.
Do lado direito, há outro sofá, virado para uma televisão pregada na parede, que deve ter cerca de 52 polegadas. Um móvel abaixo sustenta vários aparelhos eletrônicos, e quadros ocupam as paredes ao redor.
Meus olhos se prendem a eles. Quadros que, de alguma forma, me são familiares. Minha testa franze automaticamente.
São extremamente parecidos com os da casa de Tobias.
O reconhecimento me atinge como uma lâmina fria, cortando meus pensamentos antes que eu possa bloqueá-los.
O cheiro do lugar.
A forma como os quadros estão dispostos.
A leve sensação de déjà vu me consome.
Como se, por um instante, eu estivesse em outro espaço. Em outra casa.
Na casa dele.
O pensamento me incomoda. É irracional, ilógico. Mas ainda está ali.
Pressiono os lábios, me obrigando a desviar os olhos rapidamente.
Se eu permitir que meu cérebro vá mais fundo, sei que não vou gostar do que vou encontrar.
Solto um suspiro discreto e ignoro a conexão. Tento me focar no presente. Na casa onde estou agora, e não na casa onde que eu deveria estar esquecendo.
— Na sua cabeça deve estar passando que é simples e medieval, mas é bem confortável.
Kaique solta o comentário com um sorriso, largando a bolsa perto da porta antes de seguir pelo corredor entre as duas salas.
Me permito um riso leve, como se o comentário dele quebrasse o peso invisível que se acumulou em mim nos últimos segundos.
— É agradável.
Respondo, deixando minha bolsa sobre o sofá e indo atrás dele. Ele para diante de uma porta e se volta para mim.
— Cansada?
— Um pouco.
Ele solta um pequeno riso e abre a porta do quarto.
— Bom, a casa só tem um quarto…
Seu tom adquire um toque brincalhão, e eu já sei o que está por vir.
— Mas como já estou acostumado a ser esmagado por ti, não vou me incomodar.
Reviro os olhos com um sorriso.
— O banheiro fica ali.
Ele aponta para uma porta dentro do quarto e, sem perder a oportunidade, bagunça meus cabelos.
Solto um grunhido e empurro ele para trás, passando rápido pelo espaço.
— Sendo assim, sai da frente, Bob Esponja, porque eu vou tomar banho primeiro!
Digo antes de disparar para o banheiro, mas não sou rápida o suficiente. Kaique segura minha mão de jeito torto e me puxa, me fazendo girar e cair em cima dele. O impacto faz meu coração disparar por um segundo.
Agora, estou deitada sobre ele, e ele está de olhos fechados, mas sei que isso é mais uma de suas táticas. Abaixo o rosto, aproximando minha boca de seu ouvido.
— Perdeu, playboy. Eu vou primeiro.
Dou um tapa na sua barriga, fazendo-o gemer de dor—mas nem bati tão forte assim. Disparo para o banheiro antes que ele possa reagir, fechando a porta rápido ao entrar.
— Luna, sua trapaceira! Acho bom deixar água quente pra mim!
Ele reclama, sem fôlego, batendo na porta. Apenas rio e ligo o chuveiro.
O banho alivia a tensão que carrego nos ombros. Me enrolo em uma toalha que achei no banheiro e uso outra para secar o cabelo.
Nos últimos dias, o deixei na sua forma natural, cacheado, mas amanhã pela manhã vou alisar.
O pensamento é quase um reflexo automático.
Termino de enxugar o cabelo e abro a porta, saindo do banheiro enquanto penteio os fios com uma escova que achei.
Meus olhos encontram Kaique, deitado na cama apenas de cueca box, sua camisa jogada de lado, minha bolsa ao seu lado.
Cruzo os braços, balançando a cabeça.
— O banheiro tá liberado, peixinho. Pode ir.
Digo, rindo, me esticando para pegar minha bolsa.
— Muito engraçado, palhaça.
Ele murmura, levantando-se. Mas antes de passar por mim, puxa a toalha do meu corpo.
O tempo congela. Meus olhos se arregalam. Estou nua.
— BASTARDO!
Grito, puxando o lençol da cama para me cobrir.
Kaique apenas ri alto, sem nenhuma vergonha na cara.
— Só tem essa toalha, então temos que dividir.
Ele assobia ao completar.
— Bela bunda, minha deusa!
Minha mão se fecha ao redor da escova.
Em um movimento rápido, jogo ela em sua direção, mas ele fecha a porta do banheiro, fazendo-a se chocar contra a madeira e cair no chão.
Solto um suspiro exasperado, mas logo ignoro a situação. Abro minha bolsa e começo a procurar algo para vestir. Escolho um vestido vermelho simples, que vai até os joelhos.
Visto e saio do quarto.
Meus passos me guiam pela casa sem rumo. Atravesso os cômodos, explorando cada canto até chegar ao quintal. Ali, há uma piscina.
O chão é coberto por grama e muitas flores, trazendo mais vida ao espaço. Me aproximo e sento na beira da piscina, mergulhando os pés na água fria. Minhas mãos descansam sobre os joelhos enquanto olho para o céu.
A noite está escura, assim como meu coração. A lua está parcialmente escondida, e as estrelas decidiram não iluminar a noite hoje.
Uma brisa suave balança meus cabelos. O vento traz o cheiro de terra, mas não terra molhada. Por um instante, me sinto decepcionada.
Fecho os olhos.
Se eu me concentrar, consigo sentir o cheiro que tanto anseio.
Terra molhada com menta.
O cheiro de casa.
O cheiro de Tobias.
Por mais que eu não goste de admitir, ele conseguiu me fazer sentir inteira. Como há 19 anos eu não me sentia.
O som da porta se abrindo ecoa pela noite silenciosa. Não me viro de imediato. Apenas espero. Kai se senta ao meu lado, mergulhando os pés na piscina, sem dizer nada.
Por um tempo, ele fica apenas mexendo a água com os pés. Então, levanta uma mão e começa a brincar com as gotas que saltam da superfície.
A água flutua, girando no ar como pequenos fragmentos de luz refletida. Lentamente, ele junta as gotas, formando uma única bolha azul, que ganha uma cor pálida sob o brilho fraco da lua.
Minha mente é levada para o passado.
Quando éramos mais novos, e eu estava triste, Kai sempre me levava até o rio próximo ao acampamento. Ele brincava com a água. Criava formas, movimentos, explosões sutis apenas para me fazer sorrir. E mesmo agora, anos depois, ele ainda sabe o que fazer.
A bolha para bem na frente do meu rosto.
Com um simples estalar de dedos, Kai a explode, criando uma brisa gelada que bate no meu rosto. Minha pele arrepia, mas meu coração se aquece.
— Vem, vamos descansar.
Ele estende a mão. Olho para ela por um breve segundo antes de pegá-la, e o acompanho.
Nos levantamos e entramos na casa. Kai nos conduz até o quarto, arrumando a cama rapidamente. Eu me deito e ele faz o mesmo, apagando a luz antes de me puxar para perto.
Meu corpo se encaixa contra seu peito, e eu me aconchego nele, buscando uma sensação de pertencimento que, há tempos, me escapa.
Por um momento, apenas escuto.
Seu coração batendo sob minha orelha. O som é estável, tranquilo. Tão diferente do que estou acostumada.
— Eu sei que não tenho o direito de pedir isso, pequena.
Sua voz chega em um sussurro suave, enquanto seus dedos deslizam pelo meu cabelo em um cafuné quase involuntário.
— Mas eu não quero mais ser apenas um amigo ou um irmão.
Minha respiração se torna mais lenta. Não porque estou surpresa. Mas porque, de alguma forma, eu já esperava por isso.
— Você não é apenas um amigo.
Minha voz sai baixa, mas firme.
— Você é o meu melhor amigo.
Friso a palavra "melhor", e sinto seu peito vibrar com uma risada leve.
— Me sinto 90% pior agora.
Ele brinca, mas há algo mais profundo escondido em suas palavras.
— Eu não quero mais ser apenas um ombro amigo. Quero ser um companheiro para todos os momentos.
Ele fala devagar, como se cada palavra precisasse ser absorvida antes da próxima vir.
— Quero ser aquele com quem você vai dividir suas conquistas e derrotas. Quero poder te amar de verdade, como você merece.
Kai solta um suspiro.
— Não apenas como minha amiga. — Seus dedos param no meu cabelo. — Mas como minha mulher.
Meu peito aperta.
Não porque eu não queira ouvi-lo dizer isso.
Mas porque não sei como responder.
Minha saída é o sarcasmo.
— A gente mal se beijou e você já está me pedindo em casamento? — Minha voz carrega um riso abafado. — Não acha muito cedo?
Kaique balança a cabeça, soltando uma risada curta antes de responder:
— Eu seria capaz de dar minha vida por você no momento em que te vi pela primeira vez. Daria meu coração a você sem pensar duas vezes.
Não digo nada. Apenas fico pensando em suas palavras.
Eu sei que ele está sendo sincero, mas também sei que essas palavras não devem ser desperdiçadas comigo.
O silêncio se prolonga. Sinto sua respiração acalmar. Kaique adormeceu.
Então, resolvo fazer o mesmo. Minha voz sai em um sussurro, para mim mesma.
— Eu adoraria lhe dar o meu coração, Kai.
Me aconchego ainda mais contra ele, deixando minha consciência se desfazer aos poucos.
— Mas às vezes eu sinto que ele já não pertence a mim.
E, finalmente, durmo.
Os dias passam rápido. Melhor do que eu esperava. Passamos os três dias juntos, entre filmes, piscina e sessões de amasso casuais.
Ainda não temos nada sério, mas me permiti viver esse momento. Me permiti não pensar tanto. Me permiti não sentir tanta dor. Cansei de me sentir sozinha.
E, por mais que Kai não traga todo o conforto que o Tirano me fazia sentir, ainda assim, é bom estar com ele.
Mas falando no diabo…
Na sexta, enquanto estava na cafeteria, recebi uma caixa cheia de peças e instruções detalhadas.
"O que fazer" e "como fazer" o programador inicial.
Tudo bem organizado e explicado. Como se ele tivesse gastado horas garantindo que eu entendesse cada detalhe. Ele ainda se deu ao trabalho de desenhar à mão o passo a passo de montagem.
Suspiro ao lembrar disso.
O carro segue pela estrada, o som da música baixinho no fundo.
Kaique segura o volante com uma mão. A outra está descansando sobre minha coxa, seus dedos traçando carícias despreocupadas. Ainda é fim de tarde, mas resolvemos voltar logo.
Thoth me dispensou dos treinos nesses três dias, mas eu sei que ele vai descontar tudo amanhã.
Seguimos em silêncio, sem pressa. Logo, já estamos entrando no acampamento. Kai estaciona o carro e saímos. Pego minha bolsa e a caixa que recebi, que havia deixado no carro.
Espero Kai pegar a dele. Ele para ao meu lado, segura minha mão e caminhamos juntos para o prédio dos dormitórios. O corredor está silencioso. Todos devem estar descansando.
Seguimos direto para meu quarto. Eu abro a porta e entramos. Sem perder tempo, vou guardar minhas coisas no closet.
O peso da rotina retorna aos poucos. O fim de semana acabou e amanhã, tudo volta ao normal.
— Tá precisando abastecer a despensa, pequena.
A voz de Kai chega abafada de dentro do frigobar, onde ele remexe com um olhar crítico. Cruzo os braços, observando a cena com diversão.
— Não sabia que agora eu tinha que alimentar um marmanjo.
Solto, voltando para o quarto. Kaique resmunga e pega uma barrinha de chocolate, se jogando na cama como se estivesse esgotado.
— Você abusou de mim, garota. Agora eu preciso repor as energias.
Reviro os olhos, soltando um sorriso.
— É uma pena então…
Minha voz adquire um tom quase provocativo enquanto subo na cama. Deito por cima dele, apoiando meu peso sobre seu corpo.
— Porque eu estava louca para abusar mais um pouquinho de você.
Kaique levanta uma sobrancelha, analisando minha expressão antes de rir baixo.
— Pensando bem… ainda tenho uma reserva de energia.
Meu sorriso cresce.
— Ótimo.
Sem mais delongas, abaixo a cabeça e o beijo. Suas mãos deslizam pela minha cintura, apertando-me contra ele. O beijo esquenta rápido, cada movimento se tornando mais urgente. Meus quadris se movem sem que eu perceba, seguindo o ritmo natural do momento.
Kaique inverte as posições, ficando por cima de mim. Continuamos assim, entregues ao calor que cresce entre nós. Até que o ar se faz necessário e paramos, tentando recuperar o fôlego.
Kai sorri contra meus lábios, ajustando-se dentro da bermuda antes de murmurar:
— Você vai acabar comigo, garota.
Meu peito sobe e desce devagar, enquanto o observo.
— Nada que você não queira.
Minha voz sai baixa, carregada de diversão. Ele se deita ao meu lado, puxando-me para perto. E o resto do dia se dissolve em carícias e silêncio confortável.
A semana passa rápido. Cada dia se mistura com o próximo, em uma sequência de eventos que quase me sufoca.
Faculdade.
Treino pesado.
Trabalho.
E Kaique.
Todos os dias, pontualmente, uma caixa chega na cafeteria. Novas peças. Novas instruções.
Cada detalhe milimetricamente pensado. Cada questão resolvida antes mesmo de eu ter dúvidas. Ele não esqueceu nada. Não errou nada.
Por mais que eu o odeie agora, preciso admitir: Tobias é incrível no que faz.
O tempo corre mais rápido do que eu consigo acompanhar. E, enfim, a semana acaba.
Agora, estamos todos aqui, no limite da barreira de proteção do acampamento. Centenas de semideuses, aguardando o conselho para dar início ao tão esperado torneio.
Respiro fundo, sentindo o peso do momento crescer. Minhas roupas foram escolhidas estrategicamente. Legging preta, moletom preto por cima. Blusa cinza justa ao corpo e um casaco de moletom escuro. Dessa vez, deixei meu All Star vermelho de lado. Tênis confortável.
Uma adaga presa ao coldre de cada perna. Pequenas lâminas ocultas dentro do casaco.
Estou pronta para a luta.
Kaique murmura ao meu lado.
— Ainda não acredito que você não veio de All Star.
Seu tom é desapontado, quase brincalhão. Eu apenas sorrio de lado, puxando o capuz do casaco enquanto prendo o cabelo em um rabo de cavalo.
— Não sei quanto tempo vou passar no meio da floresta.
Solto, ajustando meu coldre.
— Então tinha que vir confortável.
Kaique apenas balança a cabeça, aceitando minha lógica.
Ele veste moletom colado preto, regata escura, casaco cinza e tênis preto. Simples. Elegante.
Exatamente como ele sempre foi.
Ainda não amanheceu.
Todos esperam Thoth e os outros deuses para dar início ao torneio assim que o primeiro raio de sol raiar.
Minha mente se mantém alerta, observando a entrada do acampamento. E então, vejo um Pajero 4x4 familiar estacionar.
Meu coração prende o ritmo por um segundo.
Tobias sai do carro, mochila no ombro, caminhando até nós. Minha respiração diminui, como se meu corpo já soubesse o que vem a seguir.
Ele veste jeans preta, blusa branca de mangas compridas, casaco preto e suas boas e velhas botas militares.
Luvas pretas cobrem suas mãos. O capuz esconde seu rosto.
Mas eu sei que é ele.
Porque há algo impossível de ignorar na sua presença.
Ele caminha de cabeça baixa, o corpo carregado de exaustão.
E então, como se o próprio destino decidisse não me permitir ignorá-lo, um vento forte empurra seu capuz para trás.
Seu rosto fica exposto.
Minhas mãos se fecham em punho.
Ele está cansado. Mais cansado do que da última vez que o vi.
A barba cresceu, um sinal claro de que ele não se preocupou em se barbear nos últimos dias.
Está mais forte. Como se tivesse passado horas descontando alguma fúria silenciosa no treino.
Ele para a um metro de distância de mim. Levanta o rosto e então, eu encaro aqueles olhos.
Esmeraldas vivas.
Intensas.
Hipnotizantes.
E, naquele exato segundo uma única certeza preenche todo o meu ser.
Eu posso viajar o mundo inteiro.
Posso estar ao lado de qualquer pessoa.
Posso correr para longe.
Mas nunca vou me sentir em casa como me sinto ao olhar nos olhos dele.
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