Herança de Cinzas
1 Prólogo
Notas iniciais
~ 19 Anos Atrás ~
Os salões do Olimpo tremiam com a ira dos deuses. O mármore branco, adornado com colunas douradas e entalhes que contavam histórias milenares, refletia os raios de tempestade que cortavam o céu. O aroma de ambrosia, doce e inebriante, flutuava no ar, contrastando com a tensão sufocante.
— Você não tem esse direito! — A voz de Poseidon ecoou, grave e cortante, como uma onda furiosa se chocando contra as rochas. — Ela não é um brinquedo que você pode manipular!
Zeus permaneceu imóvel no trono do Olimpo, feito de ouro celestial e energia pulsante, suas feições inabaláveis como se as palavras do irmão fossem mero ruído.
— Já está decidido! — retrucou, sua voz carregada de autoridade divina.
Poseidon cerrou os punhos. O oceano dentro dele rugia, inquieto, mas ele sabia que sua fúria seria inútil.
— Você está condenando uma criança à morte!
Zeus se inclinou, o brilho de seus olhos relampejando pelo salão.
— O tempo está passando, tic-tac, tic-tac. A cada instante, a lua retorna ao seu curso e o destino da Megala Thea se aproxima. Se ela não for protegida, todos pagarão o preço.
A voz veio de um canto sombrio da sala. O Oráculo, envolto em um manto esmeralda, surgiu das sombras como se fosse parte delas. Seus olhos, um vórtice de conhecimento infinito, cravaram-se em Poseidon.
— Escute a profecia, irmão. Pelo menos uma vez, não seja um tolo orgulhoso.
Poseidon hesitou, mas então respirou fundo.
— Muito bem. Então chame-o.
Um novo nome foi invocado no Olimpo, e o deus mensageiro partiu para cumprir sua missão. Quando retornou, um homem de presença imponente entrou no salão.
Thoth, o deus do conhecimento, não parecia impressionado com o chamado do rei dos deuses. Seu porte era firme, seus olhos cor de âmbar analisando a cena com cautela.
— O que você quer, Zeus?
— Preciso que proteja a Megala Thea.
A reação de Thoth foi instantânea. Seus músculos se tensionaram, sua expressão tornou-se grave.
— Isso não deveria estar acontecendo agora. O que você fez?!
Zeus ignorou a pergunta.
— O que importa é que ela precisa ser protegida.
Poseidon se aproximou.
— Precisamos que você seja o guardião dela.
O Oráculo falou novamente:
— Você não estará sozinho. Um filho do oceano o ajudará.
Thoth olhou para os dois deuses e soube, naquele instante, que não havia mais volta. A guerra agora também era dele.
~ Presente ~
— Anda logo, Luna! Vamos nos atrasar!
Kaique estava impaciente, como sempre. Já havia dito isso pelo menos dez vezes.
— Se você parasse de me apressar, eu já estaria pronta! — murmurei, saindo do banheiro e empurrando-o para fora do quarto.
Meu nome é Luna Hagne, uma semideusa órfã que não sabe sua ascendência. Fui deixada no acampamento com poucas horas de vida, acompanhada apenas por um bilhete: "Seu nome é Luna."
Nem uma explicação. Nem uma promessa. Apenas um nome.
O Acampamento é meu lar. Funciona como um refúgio para semideuses, onde treinamos e estudamos antes de ingressar no mundo mortal. Agora, aos 19 anos, chegou minha vez de entrar na Universidade de Ottawa, onde começo minha jornada em Análise e Desenvolvimento de Software e um novo emprego em um dos empreendimentos do acampamento, a cafeteria Café dos Deuses.
Visto uma calça jeans preta e minha camiseta favorita das Relíquias da Morte. Harry Potter é uma das poucas coisas que me dão conforto em meio ao caos da minha vida.
Pego minha bolsa e o sobretudo antes de sair, dando de cara com Kaique ao abrir a porta, que me olha com uma mistura de irritação e desgosto.
— Por que demorou tanto?! Estamos atrasados!
Sorrio de canto, ajeitando minha franja.
— Calma, senhor pontual. Não consegui acordar na hora.
Saio do quarto, ajustando a alça da bolsa sobre o ombro, mas antes de seguir pelo corredor, viro à direita e paro diante da porta no final, o escritório de Thoth.
Bato duas vezes e espero.
— Pode entrar, pequena.
Abro a porta e encontro Thoth no sofá, o tablet apoiado na perna enquanto ele revisa algum documento com atenção. Apesar dos séculos de conhecimento acumulado, ele nunca rejeitou as modernidades do mundo mortal. Uma xícara de café fumegante repousa sobre a mesa ao lado dele.
— Então o grande dia chegou, hein? — Ele levanta o olhar, um meio sorriso brincando no canto dos lábios.
— Chegou. — Tento parecer indiferente, mas sei que ele percebe minha ansiedade.
Thoth desliza o tablet para o lado e se inclina para frente, apoiando os antebraços nos joelhos.
— Você vai se sair bem. Sempre se sai.
Respiro fundo.
— Só queria te avisar que estou saindo.
Ele assente, passando a mão pela barba bem aparada.
— Vai lá. Aproveita cada momento. Só não esquece do que eu sempre digo: inteligência é sua melhor arma, mas saber confiar nas pessoas pode ser ainda mais importante.
Reviro os olhos, mas acabo sorrindo.
— Você sempre me fala isso.
Ele ri, balançando a cabeça.
— E vou continuar falando, até você finalmente ouvir.
Se levanta, bagunça minha franja com um toque leve e dá um último gole no café.
— Boa sorte, pequena. E não se esquece de me mandar uma mensagem quando chegar.
— Tá bom, pai. — brinco, e ele ri baixo, como se nunca fosse admitir que gosta disso.
Saio do escritório e caminho pelo corredor, alcanço Kaique e seguimos em direção ao carro.
Antes de entrar, dou um último olhar ao acampamento. Os chalés familiares, o caminho de terra que percorri milhares de vezes. Era só uma mudança de rotina, um passo natural—mas por algum motivo, naquele momento, parecia mais definitivo do que deveria.
Respiro fundo, afasto o pensamento e entro no Range Rover Sport de Kaique.
Enquanto saímos, observo o mundo ao meu redor mudar.
Uma nova fase.
Uma nova vida.
E talvez… novas verdades.
Fale com o autor