Herança de Cinzas

22 Ecos da Realidade


Notas iniciais
Capítulo não revisado, perdoem os erros.

“Alguns sonhos sussurram… outros ecoam para sempre.”


POV LUNA

Um por um, os corpos começam a se mexer.

Primeiro um suspiro contido. Depois, um leve estremecer. Um soluço. Uma lágrima que escapa sem explicação. A sala dos divãs desperta como se fosse um campo de flores finalmente tocado pelo sol.

Sebastian é o primeiro a despertar por completo. Ainda pálido, os olhos perdidos em algum lugar além das paredes.

Logo atrás dele, Helena, franzindo o cenho como se saísse de um afogamento emocional. Ela toca os próprios pulsos, como quem confere se voltou inteira.

Uma menina que não lembro o nome cobre o rosto e chora baixinho. Johny grita ao despertar, mas logo cai num choro contido, como se o pesadelo ainda o alcançasse pelas bordas.

Ao meu redor, o círculo da meia-lua vai ganhando vida. Os semideuses voltam, não ilesos, mas vivos. Lutando ainda. Como sempre foi.

Morpheu, parado no centro do salão, observa tudo em silêncio por um tempo. A sombra de uma expressão, surpresa, talvez, cruza seu rosto antes de se dissolver.

Inacreditável — ele diz por fim. A voz baixa, como se falasse mais para si do que para nós. —Nem mesmo os filhos do olimpo mais antigos resistem aos meus sonhos. Eu os criei para permanecer… e mesmo assim, vocês escolheram acordar.

Peter se ergue do divã como se carregasse mil batalhas nas costas, mas com aquele olhar impetuoso que eu já conhecia tão bem.

— É que você não conhece o que a gente enfrentou lá fora.— Ele diz, cruzando os braços. — Não conhece o desespero de quase abraçar a morte como uma velha amiga durante a noite, e ainda assim sorrir no dia seguinte como se tudo estivesse perfeito.

Ele se levanta e caminha para o centro da meia lua.

—Nós não chegamos até aqui por acaso. Isso aqui — ele aponta ao redor — é só mais uma quarta-feira no Acampamento.

Morpheu sorri de lado. Quase reverente.

— Orgulho. Dureza. Vontade. Eu entendo agora por que vocês resistem tanto à paz. Ela nunca foi ensinada a vocês.

Peter ergue o queixo.

— Não é sobre resistir à paz. É sobre não aceitar viver mentiras bonitas só porque o mundo real é difícil. Nós lutamos. Nós sangramos. Mas nós escolhemos as batalhas pelas quais queremos sangrar.

As palavras de Peter caem na sala como uma lâmina limpa — afiadas, mas justas.

Durante anos nós fomos inimigos, no entanto, naquele momento, era como se eu o escutasse pela primeira vez.

A voz dele não vinha carregada de deboche, nem de superioridade. Vinha do fundo de uma memória que todos nessa sala partilhavam, ainda que nunca tivéssemos nomeado: as noites frias no acampamento, os treinos exaustivos, os gritos nas batalhas, as cicatrizes que ninguém via.

Ainda me doía lembrar o quanto ele me fez duvidar de mim mesma, o quanto tornou minha vida quase insuportável durante anos. Mas havia verdade ali. E honra. E a lembrança de que, apesar de tudo, Peter nunca fugiu de uma luta que importasse.

Morpheu inspira devagar, os olhos passeando pelos rostos ainda marcados por sal e sombras. Há uma reverência silenciosa em sua expressão agora. Por um instante, ele parece muito menos deus — e muito mais testemunha.

— Vocês são... fascinantes — diz por fim, quase com encanto. — Acordaram quando ninguém jamais acordou. Resistiram ao que foi moldado para aliviar tudo que mais dói. Escolheram... continuar sentindo.

Ele se aproxima do centro da meia-lua, onde o silêncio já deixou claro o que falta.

— Todos... exceto um.

A dor se rearranja dentro de mim, como se algo antigo estivesse prestes a sangrar de novo.

— Tobias ainda está dormindo — digo, e as palavras doem só por existirem.

Morpheu me encara. Não há ironia em sua expressão. Apenas uma quietude densa.

— Ele está... feliz. Sonha com tudo o que sempre desejou. Paz. Amor. Você. — A pausa que ele faz não é teatral. É quase gentil. — Às vezes, o que salva um coração cansado... é justamente se entregar.

— Mas ele não escolheu isso. Ele só… não sabia que havia uma escolha.

— Quem dorme raramente sabe.

— Então eu vou lembrá-lo — digo. Minha voz sai mais firme do que esperava. — Eu vou entrar.

Um murmúrio se espalha pelos outros semideuses. Sebastian se endireita, como se entendesse imediatamente. Peter apenas fecha os olhos por um segundo, respirando como quem reconhece o peso.

— Se você tentar — Morpheu alerta, a voz mais grave agora —, deixará de ser apenas convidada. Estará quebrando a fronteira dos sonhos com plena consciência. Isso tem um preço.

— Eu não me importo.

Ele me observa como se pesasse não apenas minha fala, mas tudo o que fui até aqui.

— Ninguém sai ileso de um mergulho assim. Mesmo que consiga trazê-lo, talvez parte de você nunca volte.

— Ele sempre acreditou em mim — digo. — Chegou a hora de eu retribuir.

A sala se cala. Os outros me olham, não com espanto, mas com respeito.

Morpheu estende a mão em direção ao fundo do salão, onde está o divã de Tobias. Uma névoa densa escapa pelas paredes em direção a ele, como uma respiração viva. As dormideiras despertam e começam a se esticar em direção a ele.

— Então vá, Megala Thea. Encontre aquele que ainda sonha. E veja se o amor... é forte o bastante para despertá-lo. — Sem hesitar, dou o primeiro passo rumo ao devaneio de Tobias.

— Mas esteja ciente do que está arriscando, no momento em que entrar no sonho dele, aqueles que guardam esse reino irão saber. Eles virão atrás do infrator, se conseguirem pega-la, mesmo que esteja consciente não poderá escapar, não há despertar para o sono eterno.

— Não precisa se preocupar, Luna. Para pega-la eles terão que passar por nós. — A fala vem de Helena e quando percebo todos já estão com suas armas na mão. — Vá pegar ele, irmãzinha. Nós damos conta do que vier.

Eu olho em volta, contando os rostos. Todos ali. Todos prontos para morrer lutando. A determinação em seus olhos esquenta meu coração.

— Não vou demorar. — Me armo com a coragem de todos ali e caminho em direção ao divã.

Me deito ao lado de Tobias e permito que a nevoa fria e o cheiro das dormideiras me abrace. Rapidamente os sons do salão vão diminuído, e então o silêncio me encontra. Como um sino que só eu ouço. O sono me embala e minha mente nubla, então me entrego a escuridão.

Quando a consciência retorna me sinto fraca, como se tivesse tomado um porre na noite anterior e estivesse de ressaca. Pisco tentando entender onde estou, uma planície verdejante me cerca.

Esse lugar me parece estranhamente familiar, é quando o vento trás o aroma do mar que reconheço. Atenas. Rodo no lugar e ao longo, próximo a um rio enxergo uma cabana.

É a cabana de Tobias, onde ele nos trouxe na prova anterior, porem ela está diferente. Mais bem cuidada, maior, há fumaça saindo da chaminé. Começo minha caminhada em direção ao lugar, mesmo que tal ato me cause estranhamento e deixe todo meu sistema defensivo em alerta.

— O que há de errado?

Quando me aproximo escuto vozes na parte de trás, dou a volta pela lateral da casa. Estou escondida atrás de uma oliveira, num ponto onde a sombra me envolve por completo. A brisa carrega o cheiro de café fresco e pão assado e quando estou perto o suficiente o que vejo me deixa totalmente paralisada.

Ali, sentados à mesa no jardim, estão eles.

Ele.

E eu.

Ou melhor… uma versão minha. Um recorte suavizado, sereno, com um vestido claro e um sorriso sem cicatrizes.

A cena é absurdamente bonita. Simples. Dolorosamente perfeita. É o tipo de memória que alguém inventaria se tivesse esquecido as partes que doem.

Vejo a risada que ela dá, o olhar caloroso dele ao escuta-la. Vejo as mãos que servem o café, com a tranquilidade de quem nunca soube o peso de uma espada.

Então vêm os dois.

Minha garganta aperta antes que eu consiga me impedir.

Eles correm pela grama como se nada no mundo pudesse tocá-los. Como se guerras nunca tivessem sido travadas, como se deuses nunca tivessem morrido. São lindos. São nossos. São... impossíveis.

Seth carrega meus olhos e minha energia. Ayla tem o rosto dele inteiro, mas o temperamento é claramente meu.

Eles são pedaços vivos de algo que nunca aconteceu ou que talvez só pudesse existir aqui.

E Tobias… Tobias está tão feliz. Um tipo de felicidade que eu nunca consegui dar a ele do lado de fora, e talvez nunca consiga.

Uma parte minha quer entrar correndo no jardim, abraçá-lo, dizer que estou ali, que tudo é mentira e que ele precisa voltar. Mas outra parte…

Outra parte deseja permanecer aqui, calada, só mais um minuto.

Porque ver ele inteiro, rindo com a cabeça jogada para trás, chamando aquelas crianças de filhos e me olhando, mesmo que não seja a mim, com tanta ternura...

É lindo.

É cruel.

E talvez, no fundo, seja exatamente o porquê de eu ter vindo. Para lembrar a ele do que é verdadeiro. Mesmo que para isso eu precise ser a primeira a deixar esse sonho partir.


TOBIAS

A luz entra pelas frestas da cortina de linho, dourando as paredes de pedra clara da casa. O aroma do pão fresco chega da cozinha, misturado com o café que ela adora preparar nos fins de semana.

Ouço risadas ao longe. Pequenas. Felizes. Um som que reverbera no peito como algo que sempre esteve destinado a acontecer, mesmo que, por muito tempo, eu não soubesse como.

Me espreguiço devagar. Os músculos doem levemente, mas é uma dor boa. Como se o corpo finalmente tivesse permissão para descansar. Do lado esquerdo da cama, os lençóis ainda estão quentes.

Ela deve estar no jardim.

O lago reflete o céu de Atenas como se fosse um espelho vivo. O vento suave balança as cortinas, e por um instante, fico apenas ali, sentado na borda da cama, ouvindo o silêncio confortável de uma vida que nunca pensei que teria.

Talvez seja isso. Talvez tenha sido para isso que eu lutei tanto.

Na parede, um quadro antigo, um retrato nosso, feito a carvão, com traços imprecisos, mas com sorrisos que eu conheço de olhos fechados. Luna está com os cabelos mais longos. Tem marcas de tempo no rosto, como eu. Mas o olhar dela… contém todo o meu mundo.

Visto a camisa de linho jogada na cadeira e caminho até a porta. Antes de abri-la, meus dedos tocam o batente. Há algo ali. Uma sensação. Um pequeno ruído. Um esquecimento.

Mas passa.

Ela está descalça no terraço de madeira, de costas, olhando para o lago. O vestido claro dança com o vento. Por um segundo, penso em chamá-la, mas não. Prefiro apenas observar. Como se falar fosse trair aquele instante. Como se tudo fosse evaporar no ar.

E mesmo assim, mesmo com tudo em perfeita harmonia, algo se move dentro de mim. Uma ausência sem forma. Como se parte de mim soubesse… que o preço dessa paz foi algo caro demais, contudo já não lembro mais.

— Achei que você fosse dormir o dia inteiro — ela diz, sem se virar, com aquele tom leve que sempre usou quando queria brincar com meu sono pesado.

— E perder o cheiro do café na varanda? Jamais — respondo, me aproximando devagar.

Luna sorri. Os pés descalços tocando a madeira aquecida pelo sol. A brisa bagunça seus cabelos e, por um instante, penso que não há nada além disso. Nada antes. Nada depois.

— Eles foram nadar — ela diz, apontando com o queixo para o lago. — Prometeram voltar antes do almoço, mas você conhece a empolgação deles.

— Dois furacões — comento, sorrindo. Tento pensar nos seus rostos, mas não consigo, minha mente está nublada, tudo meio embaralhado.

Ela percebe. Por trás do sorriso, noto uma sutil sombra nos olhos.

— Está tudo bem, Tobias?

— Claro. Só... cansado. — Desvio o olhar. Um pequeno tremor percorre minhas mãos, mas desaparece assim que ela toca meu braço.

— Você sempre diz isso quando sonha demais — ela sussurra.

Essa frase me prende. Ecoa dentro da cabeça de um jeito estranho. Como se já tivesse sido dita, mas por outra boca. Em outro tempo.

— Sonhar demais? — repito, tentando entender o que ela quis dizer.

— Esquece. — Ela sorri de novo, mas agora o sorriso carrega uma ternura melancólica. — Senta aqui comigo.

Nos sentamos lado a lado, os pés balançando à beira do terraço. O lago brilha. Os pássaros cantam. Tudo é exatamente como deveria ser. E ainda assim...

— Você ama isso? A vida que construímos? — pergunto, só para ouvir.

Luna não responde de imediato. Ela apoia o queixo na mão, como se pensasse, não porque há dúvida, mas porque gosta de saborear a pergunta.

— Mais do que qualquer coisa. Mais do que qualquer lugar que exista.

O silêncio entre nós não pesa. Ele acolhe.

— Então podemos ficar aqui para sempre? — sussurro.

— Podemos tudo, Tobias. Aqui… já está tudo como deveria ser.

Ela encosta a cabeça no meu ombro e, pela primeira vez em muito tempo — ou talvez pela primeira vez em toda a minha vida — eu respiro sem medo de que algo ou alguém vá embora.

Não há som de batalha.

Não há sangue escondido nos cantos.

Não há perguntas que doem ou ausências que cortam.

Apenas ela.

O lago.

E o som do vento tocando as folhas como uma canção antiga que, enfim, aprendi a ouvir.

Me permito fechar os olhos. E, se isso for um sonho… Que demore a acabar. Ou que jamais termine.

A mesa no jardim está posta com uma simplicidade que acalma: pão fresco, frutas cortadas, café recém passado no bule antigo que ela insiste em usar. Luna serve mais um pouco da bebida na minha xícara, o cabelo preso de qualquer jeito, o sorriso leve. O vestido branco que veste um pouco largo nos ombros.

Os raios do sol filtram-se por entre os ramos da oliveira, lançando sombras dançantes sobre a toalha da mesa. No fundo, o som ritmado da água. Risadas infantis.

— Eles não se cansam? — pergunto, afastando a xícara da boca.

— Não mesmo — ela responde, com um meio sorriso. — Eles têm um mundo inteiro inventado dentro daquelas margens.

— Devem estar conspirando como nos vencer no treino mais tarde — digo, e ela solta uma risada baixa.

O barulho de passos desajeitados na grama nos interrompe. Em segundos, dois pequenos tornados surgem no quintal, gotejando água e carregando vozes demais para corpos tão pequenos.

— Mãe! Ayla mergulhou e pegou uma pedrinha preta do fundo! — grita o Seth, todo orgulhoso, mesmo que não tenha sido ele.

Seth era uma pequena tempestade solar. Carregava nos fios cacheados e volumosos os traços indiscutíveis de Luna, mas seus olhos eram de um verde inesperado, como folhas molhadas ao amanhecer. Era uma mistura delicada entre nós dois, como se tivesse sido esculpido pelo equilíbrio. A energia inquieta vinha dela. O sorriso fácil e a curiosidade feroz, dos dois.

— Eu achei que era uma estrela! — diz a Ayla, ofegante, com os cabelos lisos e escuros grudados no rosto.

Uma cópia perfeita de mim. Desde a sobrancelha levemente arqueada até o jeito concentrado de franzir o nariz quando olhava para algo com curiosidade. Tínhamos os mesmos olhos âmbar-dourados, grandes e expressivos, como quem enxerga mais do que deixa transparecer. A forma como ela cruzava os braços quando contrariada era inconfundível, pura teimosia herdada.

Ela se aproxima e abre a mão molhada. Na palma, uma pedrinha comum, mas que ela olha como se tivesse valor de joia.

— Posso guardar com as outras? — pergunta ela, já se preparando para correr antes da resposta.

— Dentro de casa, não. Vai pingar tudo no chão — alerta Luna, em vão.

Eles disparam, gargalhando. O menino passa por mim e dá um tapinha no meu braço.

— Vamos nadar depois, pai?

— Claro. — Respondo.

— Fácil! — ele grita, já longe.

Fico observando os dois desaparecerem porta adentro, deixando um rastro de risos e pegadas molhadas. Luna se encosta na cadeira, um pedaço de pêssego na ponta dos dedos.

— Eles estão crescendo depressa — comento, sem saber exatamente por que isso me inquieta.

Ela apenas me olha. O vento traz o cheiro de terra molhada e folhas.

— É porque você sonhava com eles há muito tempo — ela diz.

Engulo seco. Por algum motivo, aquela frase parece mais real do que tudo ao meu redor.

Ela se levanta, recolhe as canecas, me oferece um beijo rápido e entra pela porta de madeira.

Fico ali, no balanço da brisa, olhando para o lago. Ao longe, as crianças já voltaram para o lago e cantam uma música inventada, tudo parece exatamente onde deveria estar.

Depois de ajudar a retirar a mesa volto para o jardim com as mãos ainda úmidas da torneira. As crianças correm pelo gramado rindo, pingando água pelo chão como se o mundo fosse feito de feriados. Ouço a voz dela no fundo da casa, preparando algo na cozinha.

Ao atravessar a porta de volta para o terraço, ela já está lá. Sentada na beira da mesa, de costas para mim, olhando o lago como se nunca tivesse saído dali. Franzo a testa.

— Deusa? — chamo.

Ela vira o rosto. E algo dentro de mim tropeça.

A roupa está diferente. Não é o vestido claro de manhã, é um moletom escuro, envelhecido, com marcas de terra. O cabelo, mais curto, preso em duas tranças desalinhadas, parece molhado, como se tivesse corrido por horas debaixo da chuva.

E os olhos...

Aqueles olhos não são os que vivem aqui. Eles me atravessam como farpas de algo que já doeu antes.

— Tobias... — ela diz, num sussurro arranhado, cheio demais de mundo.

— Você... como chegou aqui?

— Me escuta. Eu não tenho muito tempo.

— Aconteceu alguma coisa com as crianças? Com você? — dou um passo à frente, o coração apertado.

Ela balança a cabeça, os olhos brilhando demais. Agora vejo as manchas no rosto. Cinza? Poeira? Marcas de luta.

— Elas não são reais — diz, firme, mas ferida. — Nada disso é. Este lugar... este mundo. É um sonho, Tobias. Você está preso.

Um arrepio me percorre. Mas tento sorrir, abafando o nó na garganta.

— Teve um pesadelo? A guerra acabou faz anos, Luna. Estamos bem. Olha ao redor.

O lago, o sol, a varanda.

— Vencemos. Você só precisa descansar. Respirar.

Ela se aproxima.

— Não, Tobias… você precisa acordar.

Rio. Um riso curto, frágil.

— Mas por que eu acordaria... se isso é tudo o que sempre quisemos?

Ela baixa os olhos. E nesse momento, pela primeira vez… eu sinto medo.

Não dela.

Mas da possibilidade de estar certo.

— Você está assustada — digo. Tentando ancorar a lógica. — Só isso. É como antes. Você sonhou e agora está misturando tudo.

— Não — responde ela. Sem espaço para fuga. — Não é isso.

Outro passo. O olhar dela não é paz. É lucidez. E instintivamente, eu sei: esta não é a mulher que serviu o café. Ou, talvez... é a única que deveria estar aqui.

— Onde está a tatuagem? — ela pergunta. Baixo. Quase quebrando. — Aquela marca dourada. A que você carrega desde que se tornou guardião.

Levo a mão ao peito. Pele lisa. Fria. Sem calor.

— Eu... — minha voz falha.

Recuo um passo. O chão parece inclinado.

A cabeça dói. A brisa... cessou.

— Ayla... e Seth — suspiro os nomes como preces. — Eles são tão reais, Luna.

Ela hesita. Os nomes queimando dentro dela.

— Eu sei. Eu os vi — diz. A voz frágil, embargada. — Antes mesmo de você me notar, eu vi tudo. E por um segundo, eu quis viver nessa ilusão com você. Porque talvez... também seja meu sonho.

Fecho os olhos.

Aperto os punhos.

— Então por que você veio?

— Porque amar você... é escolher a verdade contigo. Mesmo quando ela machuca. Mesmo quando ela te leva embora de mim. Porque no mundo real, Tobias... você me escolheu todos os dias. E agora é a minha vez.

Olho para ela, e meu peito parece pequeno demais para tudo que quer transbordar.

Eu sempre quis isso. Ser visto por ela. Ser escolhido.

Olho ao redor. Mas tudo agora vibra em uma névoa confusa.

A luz, o jardim, as crianças...

— E se eu for com você... o que acontece com eles?

— Eles somem — diz. Sem disfarce. — Mas você fica. Comigo. Com o mundo. Com as escolhas que ainda nos restam.

Balanço a cabeça.

A garganta arde. A voz quase não vem.

— E se eu não conseguir? Se eu quiser ficar?

Ela me toca. Pela primeira vez desde que chegou. E o toque... dói.

Porque é quente. Porque é real.

— Você já está conseguindo, Tobias. Você me vê. Você vê as rachaduras deste mundo.

— Você poderia ficar aqui conosco… poderíamos construir tudo isso juntos — digo. A frase amarga, doce como veneno.

— Não podemos... — ela murmura.

— Eu não posso, Luna… não posso arriscar as consequências do mundo real — balanço a cabeça, o peso insuportável. — Perder você... me perder... Este mundo, este futuro... talvez nunca exista.

O tempo parece suspenso, apenas nós dois aqui, entre mundos, entre amores, entre mentiras doces e verdades brutais.

— É um risco que estou disposta a correr pelo prêmio final. — Sua mão toca meu rosto, um carinho tão suave que quase questiono se realmente está me tocando. — A possibilidade de fazer todas as escolhas que quiser com você, construir nosso futuro juntos. Talvez não seja o mundo perfeito, mas será o nosso mundo, nossas decisões, nossas vidas. Sem interferência de ninguém.

Talvez… tenha sido o medo de perdê-la de novo, que construiu esse sonho. Ou talvez seja de fato um pesadelo, vislumbrar tudo aquilo que sempre sonhamos e ter que acordar para um mundo onde esse sonho pode nunca se realizar. Que tortura cruel.

— Me escolha e eu prometo que será a ultima vez que terá que escolher. Trarei o inferno sobre a terra se for preciso, mas não seremos mais marionetes nas mais dos deuses.

Eu a vejo ali, diante de mim, vestida de verdades que ardem mais do que qualquer cicatriz que já tive.

Ela não brilha como a outra. Não me oferece a calmaria de promessas suaves.

Ela carrega as marcas do caminho. As perdas. A sujeira do mundo real.

E mesmo assim… é a coisa mais linda que já vi.

Olho em volta.

O lago ainda cintila. As vozes das crianças ecoam ao longe como ecos de um futuro que nunca existiu. Tudo permanece no lugar, imaculado. Mas alguma coisa em mim já se moveu.

Tobias. — O som me corta como água fria.

O mundo treme. As crianças se calam. Um silêncio ensurdecedor toma tudo.

Quem está aí?

— Não temos muito tempo — Luna diz. — Esse mundo foi criado por Ícelo, deus dos pesadelos. Eu não sou bem-vinda aqui. E desde que começamos a conversar... está se tornando cada vez mais difícil me manter. E no momento em que ele chegar… não haverá volta. — Sua voz vacila. — A decisão é sua.

— Ah, pequena destruidora… — sussurra outra voz. — Você chegou longe demais. Mas essa alma já me pertence. Não é mesmo, querido?

A mulher sai da casa e se aproxima com um sorriso gentil.

É ela. Ou quase. A versão que mora aqui. Aquela que conhece todos os meus gestos.

Ela me abraça por trás, o corpo pequeno encaixando-se nas minhas costas com facilidade quase absurda.

— Diga a ela — sussurra. — Conte como estamos bem aqui. Com nossas crianças. Diga que você vai ficar.

Olho para Luna, cubro sua mão que ainda toca meu rosto com a minha mão. Quando ela me tocou pela primeira vez, desde que tudo começou, eu senti o peso do meu próprio nome. De quem eu sou e qual o meu destino.

Talvez ainda não esteja pronto para dizer adeus a esse mundo ilusório. Talvez parte de mim queira ficar.

— Sinto muito, Deusa. — Me inclino tocando seus lábios com os meus, seu gosto tão inebriante quanto ambrosia. — Você vai ter que ir sem mim.

— Tobias, não!

— Mande-a embora.

Uma das mãos da sócia solta meu tronco e toca o centro da mente de Luna, em questão de segundos elas está desaparecendo. Doeu ver o olhar desamparado dela com a minha decisão, mas agora eu sei que ela me escolheu e está me esperando.

— Agora vamos conversar, Ícelo, filho de Nix. — Me solto dos seus braços e viro para olha-lo de frente, a mulher por trás de mim dissolve como névoa e sou saldado por um sorriso afiado.

Notas finais
XOXO
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.