Herança de Cinzas
4 Conexões Inesperadas
Notas iniciais
"Há pessoas que carregam uma energia impossível de ignorar. Ele era uma delas"
O som insistente do celular me desperta, rasgando o silêncio do quarto.
Abro os olhos com dificuldade. Ainda me sinto exausta, como se não tivesse dormido nada.
Forço meu corpo a levantar e vou direto ao banheiro. É meu primeiro dia de aula, então ficar enrolando não é opção.
Começo a desenfaixar minha mão, pronta para checar os danos da queimadura da noite anterior; ao olhar para a palma, paro abruptamente.
— Mas que droga é essa!?
A pele está intacta. Nenhum vestígio da queimadura. Nada. Nenhuma marca vermelha, nenhuma bolha. Como se nunca tivesse acontecido.
Preciso lembrar de pedir um pouco daquela pomada ao Thoth.
Com o mistério da pomada ainda na cabeça, tomo um banho demorado para despertar de vez.
Saio do banheiro e vou direto ao guarda‑roupas, escolhendo um jeans preto surrado, regata branca e uma jaqueta de couro escura, completando o visual com meu velho e confiável All Star.
Depois de uma maquiagem básica, pego minha bolsa e coloco o essencial para sobreviver ao dia: celular, caderno, carteira, minha adaga e outras coisas essenciais.
Olho para o relógio — ótimo, estou no horário. Saio do quarto e bato de frente com uma parede de músculos.
Recuo um passo, franzindo a testa.
— Construíram o muro de Berlim na porta do meu quarto?
Kaique cruza os braços, me olhando divertido.
— Deixa de frescura e vamos comer alguma coisa.
Antes que eu proteste, ele me puxa pelo braço, mal me dando chance de trancar o quarto, e seguimos para o refeitório.
Pego meu precioso café e alguns pães de queijo. Já o monstro do meu amigo pega um sanduíche absurdo e uma xícara de café.
Comemos em silêncio. Ainda não tenho ânimo para conversar. Quando terminamos, seguimos para o estacionamento.
Kaique destrava o Ranger e, como sempre, abre a porta para mim antes de entrar e ligar o carro.
Pegamos a estrada, e eu vou direto ao som. A voz de Jason Mraz preenche o interior do veículo, afastando o silêncio.
Só depois de meia hora dirigindo ele finalmente diz alguma coisa:
— Que horas termina sua aula?
— Ainda não sei. Te aviso quando acabar.
Ele assente.
— Dormiu bem?
Solto uma risada curta.
— Nem sei. Apaguei.
Ele acaba rindo junto comigo.
— Que horas você foi pro seu quarto?
— Pouco mais de uma hora, acho.
Kaique desvia o olhar da estrada por um segundo.
— E como está a mão? Percebi que não tem mais nenhuma marca.
Levanto a palma, giro o pulso para mostrar o resultado.
— Está perfeitamente bem.
Explico rapidamente sobre a pomada de Thoth. Ele analisa por um instante antes de voltar a focar na estrada.
— Que bom. Estava pensando em sair hoje para comemorar. Depois que você sair do café.
Arqueio uma sobrancelha.
— Comemorar o quê?
Mudo a música no som antes de ele responder.
— Tudo. Sua entrada na faculdade, o emprego novo… vamos, deixa de ser antissocial.
Reviro os olhos, ignorando a provocação.
— Pode ser. Quem vai?
— Uma galera da turma e alguns amigos do posto.
Cruzo os braços, pensativa.
— Você não acha perigoso ficar saindo com mundanos desse jeito?
Kaique solta um suspiro.
— Claro que não, Luna. Não é como se eu estivesse levando eles para o acampamento e apresentando a nossa realidade.
Acabo assentindo, mas meu olhar se perde na paisagem pela janela.
— Passei minha vida toda naquela floresta, convivendo apenas com semideuses e pessoas do submundo. Agora, de repente, estou numa rotina em que passo dois terços do meu dia com pessoas que jamais entenderiam se eu fizesse uma piada sobre crianças da noite.
Kaique mantém os olhos na estrada, mas a voz sai mais branda quando responde:
— Eu entendo, pequena. Mas esse é o melhor momento para você se adaptar. Não vamos viver para sempre debaixo da proteção do acampamento e dos nossos tutores.
Os dedos dele tamborilam no volante antes de completar:
— A universidade é o ambiente ideal para começar a se preparar para a vida fora do nosso lar.
Solto um suspiro leve.
— Entendi… E onde vamos comemorar essas mudanças, então?
O sorriso dele cresce um pouco mais.
— Tem um pub com música ao vivo perto do centro que dizem ser muito bom.
— Pode ser. Me pega no café para irmos.
Não estou exatamente animada; não gosto de sair com pessoas desconhecidas. Porém, sei que preciso trabalhar minhas habilidades de socialização se quiser me adaptar ao mundo fora dos muros do acampamento. Ele só sorri ainda mais, batendo continência de brincadeira.
— Sim, senhora.
Chegamos ao campus com tempo sobrando — o Kai veio voando. Geralmente levamos cerca de uma hora e meia para chegar, mas ele faz isso em apenas 45 minutos.
Assim que estaciona o carro, saímos. Eu caminho devagar enquanto o Kai pega as coisas no banco traseiro. É quando uma moto passa rente a mim, me dando um susto absurdo.
Minha respiração falha por um instante, e eu solto um protesto alto:
— Hoje só pode ser o dia de assustar a Luna!
Algumas pessoas por perto riem.
O motor ronca baixo quando a moto para mais à frente. Uma Harley‑Davidson preta. Meu coração acelera um pouco — sou apaixonada por motos, e aquela é simplesmente perfeita. Não é só uma moto; é liberdade em duas rodas. O ronco parece me chamar, e por um instante eu só consigo pensar em como seria sentir o vento no rosto guiando aquela máquina perfeita.
Mas antes que eu continue admirando a obra de arte, o dono desce retirando o capacete. O moreno da briga de ontem. Telles, se bem me lembro.
O sorriso presunçoso que ele me lança faz meu corpo endurecer involuntariamente.
Que droga.
A voz de Kaique vem como um alerta:
— Luna! Está tudo bem?
Há preocupação na expressão dele, os olhos me avaliando de cima a baixo.
— Tô sim, Kai. Foi só um susto.
Antes que ele responda, Telles solta um comentário carregado de desdém:
— Ela é forte, vai sobreviver, Kaique. Para de ser exagerado.
Kaique, que até então tenta manter a calma, dá um passo à frente e empurra o moreno. Telles sequer reage.
— Não ouse se aproximar dela novamente.
O ambiente parece eletrificado. O moreno mantém o sorriso debochado.
— Tente me impedir, mas nós dois sabemos que você não vai fazer isso, não é mesmo, Kai?
O apelido sai como um insulto, carregado de desafio silencioso.
O olhar do meu amigo se estreita, injetado de uma ira que raramente vejo.
— Não pague para ver, Tobias!
A expressão de Tobias não muda. Ele só ri.
— Dê o seu melhor e nós veremos quem vai cair no final.
Sem mais delongas, ele se afasta rindo. Eu permaneço parada, anestesiada com a cena. Sinto como se houvesse algo que estou deixando escapar, como um quebra‑cabeça com uma peça faltando. E minha intuição raramente está errada.
Só percebo que ainda estou imóvel quando o Kaique começa a me balançar levemente pelos ombros.
— Luna! Volta para a Terra!
Pisco algumas vezes antes de estalar a língua.
— Para de me balançar, que eu não sou balanço! Que porra foi essa, Kaique?!
Ele respira fundo.
— Eu perdi a cabeça. Não suporto aquele cara.
Cruzo os braços.
— De onde você o conhece?
— É uma longa história.
Não insisto. O encontro reacende o mesmo sentimento de quando o vi pela primeira vez: eu conheço o Tobias de algum lugar. Não é apenas a aparência familiar; é a energia que ele carrega ao entrar em qualquer ambiente. Como se fosse perigoso demais para se aproximar, mas fascinante demais para desviar o olhar. Um animal selvagem avistado num safári.
Isso me incomoda. Sacudo a cabeça, tentando afastar o pensamento.
— Certo… vamos entrar que eu já tô atrasada.
Me apresso pelo campus. Já estou atrasada para encontrar a Júlia. É sempre assim: mesmo saindo de casa no horário, alguma coisa acontece para me atrasar.
Kai caminha ao meu lado, agora em silêncio, enquanto seguimos para a praça de alimentação.
Avisto a Júlia concentrada no celular assim que entramos, completamente alheia ao mundo ao redor. Nos aproximamos sem que ela perceba nossa presença.
— Oi, moça!
Minha voz a traz de volta. Ela ergue os olhos, um pouco assustada.
— Oii! Meu Deus, faz tempo que vocês tão aqui?!
Antes que eu responda, Kaique solta uma provocação:
— Quase dez minutos, Jujuba.
Júlia arregala os olhos, enquanto eu só reviro os meus — o apelido é tão sem sentido que beira o ridículo.
— Ohh! — ela leva as mãos à boca, chocada. — Me perdoem! Eu sou muito desatenta! Você sabe, Kai, deveria ter me chamado logo!
Ela lança um olhar acusador para ele, e eu solto uma risada.
— Ele tá brincando, Jú. A gente acabou de chegar.
Ela respira aliviada antes de bater no braço do Kai, que só ri.
— Seu chato. — O sorriso dele se amplia. — Vamos?
— Claro. Deixa só eu pegar algo pra comer, porque esse brutamontes não deixou eu comer em casa.
— Eu também não comi nada, garota atrevida! — Kaique me empurra de leve.
Pego uma vitamina de morango, e a Júlia e eu saímos do restaurante. O Kai fica para merendar.
— Então, animada para dizer adeus oficialmente à sua vida social? — a Júlia pergunta com um sorriso travesso.
— Além de animada.
Ela ri.
— É sempre assim no começo. Quero ver daqui a dois anos.
Continuamos caminhando pelo campus enquanto a Júlia explica os pontos principais. Rodamos o campus inteiro até chegar à sala da minha primeira aula. Ela para na porta e se vira pra mim.
— Bom, está entregue, moça. Boa aula.
— Valeu, Jú! Ei, o Kai me chamou pra um pub depois do meu expediente na cafeteria. Tá afim de ir com a gente?
Os olhos dela brilham com a ideia.
— Claro! Vai ser legal. Me manda o endereço e o horário por mensagem. Anota meu número.
Trocamos contatos e eu dou um sorriso antes de entrar.
A Júlia se despede rapidamente e segue para o bloco da saúde, do outro lado do campus.
Entro na sala e, como sempre, estou atrasada. Porém, por uma graça divina, o professor — ou professora — ainda não chegou.
Solto um suspiro aliviado e procuro um lugar no meio da sala. Há pelo menos 45 pessoas ali, algumas conversando, outras só esperando.
Cerca de cinco minutos depois, uma mulher baixinha entra. Ela tem presença marcante. O vestido tubinho preto desce um pouco abaixo dos joelhos; o blazer branco contrasta perfeitamente com o visual sofisticado, e os saltos pretos completam a postura impecável. O cabelo castanho ondulado e longo molda o rosto de forma elegante. Parece ter uns 40 e exala autoridade e classe por onde passa.
Assim que chega à frente, a voz ecoa com firmeza:
— Bom dia, jovens. Meu nome é Melissa Turing e fico com vocês este semestre, na disciplina de Fundamentos de Sistemas de Informação. Espero que possamos ter uma boa convivência.
Os olhos dela varrem a turma rapidamente, avaliando cada um de nós com discrição.
A aula passa rápido. Melissa é bem‑humorada e envolvente, mas também extremamente rigorosa. Combinação perigosa.
Assim que termina, todos aguardamos o início da próxima aula, até que um homem alto e de postura rabugenta entra.
— Bom dia a todos. — O tom é seguro, confiante. — Meu nome é Anthony e sou coordenador do curso. Fico com vocês na disciplina de Conhecimentos Básicos de Programação.
Anthony faz uma pausa estratégica, estudando nossas expressões antes de prosseguir:
— Serei sincero. Daqui a quatro anos, menos da metade de vocês estará se formando. Então, vou facilitar as coisas.
A maneira como ele diz isso provoca um arrepio coletivo.
— Já que todos vocês têm certeza de que este é o caminho que querem seguir, vamos testar suas habilidades.
O silêncio domina o auditório por um instante antes da bomba:
— Até o final do semestre, cada um de vocês precisa desenvolver um software útil para a universidade. — Meu coração para por um segundo. — O software será testado, e o melhor será implantado no sistema educacional da instituição.
O choque é instantâneo. Na porra do primeiro dia de aula?!
Murmúrios e olhares chocados são inevitáveis.
Anthony só sorri, claramente se divertindo com nosso desespero:
— Vejo que estão um pouco assustados. Como sou uma boa pessoa e quero ver vocês pelo menos no próximo semestre, vou ajudá‑los.
Ele faz um gesto com a mão:
— Vocês devem ter notado a presença de outras pessoas no auditório. — Automaticamente, todos olhamos ao redor. — Esses são alunos do último semestre do curso.
Analisamos rapidamente os veteranos: alguns com olhares impassíveis, outros claramente se divertindo com nosso caos mental.
— Vocês formarão duplas, e cada um terá a ajuda de um deles para desenvolver o projeto. Como não temos a mesma quantidade de alunos nos dois semestres, alguns de vocês ficam comigo.
A tensão no ar é palpável. Anthony pega uma lista e começa a chamar nomes. Um por um, os pares vão se formando.
A cada nome chamado, minha ansiedade aumenta. Metade da turma já foi escolhida, e eu continuo esperando, tentando não roer as unhas. Então, finalmente, minha prece silenciosa parece ser ouvida.
— Luna Hagne.
Eu levanto o braço, me identificando. Os olhos de Anthony varrem o auditório, procurando meu futuro parceiro — ou parceira.
É aí que tudo fica estranho. Ele ergue uma sobrancelha e sorri de canto, como se tivesse acabado de descobrir um detalhe curioso.
— Hum… olha só que coincidência.
Minha expressão cai automaticamente.
— A jovem que passou na prova de admissão com as melhores notas… — O murmúrio cresce. — E o jovem que tem as melhores notas do curso.
Meu estômago afunda. Anthony cruza os braços e lança um olhar divertido para alguém atrás de mim.
— Prevejo algo bem interessante, não é mesmo, Tobias?
Meu corpo gela. Lentamente, giro a cabeça para trás; um arrepio percorre minha pele, subindo pela nuca como um alerta.
Ah, qual é, Luna? Com certeza não existe só um Tobias na universidade toda!
Mas, quando olho na mesma direção do professor Anthony, tenho certeza absoluta de que Zeus não gosta de mim.
Era ele.
Tobias me encara, expressão indecifrável. Meus músculos tensionam antes mesmo de a voz dele ecoar:
— Com certeza, professor, seremos um ótimo par.
O duplo sentido é escancarado, e até a carranca de Anthony se desmancha numa risada baixa.
— Tenho certeza que sim, Tobias. Aproveite o máximo que puder, Luna. Será uma ótima experiência para você.
O professor sorri como se fosse uma boa notícia. Eu só balanço a cabeça, evitando qualquer resposta.
Depois que termina de organizar os pares, Anthony passa os últimos detalhes do projeto, e eu anoto tudo freneticamente.
Sou esquecida. Demais. Se não escrever tudo, estou perdida.
Quando ele finaliza, olha para a turma e diz:
— Bom, ainda temos 20 minutos de aula. Vou dar esse tempo para vocês conversarem com seus tutores.
Ele volta a atenção para os alunos que ficam sob sua supervisão direta. A sala vira um caos organizado, todo mundo indo para os respectivos parceiros.
E eu? Continuo sentada.
Nem um pouco interessada em ir atrás daquele cara. Entretanto, ao que parece, Tobias já sabia disso. Quando viro o rosto para o lado, ele já vem na minha direção.
Solto um suspiro discreto.
Ótimo.
Ele para ao meu lado e se acomoda na cadeira, postura relaxada, mas atento a cada mínima reação minha.
— Desculpa por hoje mais cedo. — A voz sai tranquila, quase despreocupada. — Eu estava um pouco distraído. Não tinha intenção de te assustar, muito menos de te machucar.
Há um leve traço de sinceridade nas palavras dele. Antes que eu analise de fato, ele muda de assunto:
— Então, vamos começar de novo. Tobias Telles. É um prazer conhecê‑la, senhorita…
Ele deixa a frase no ar, esperando que eu me apresente — como se não soubesse meu nome.
Patético. Se ele quer jogar, eu jogo.
Dou meu melhor sorriso cínico.
— Luna Hagne, e o prazer é todo meu.
Ele sorri de lado.
— Tenho certeza que sim. — O sorriso some rápido, substituído por um olhar sério. — Já tem alguma ideia do que vai fazer?
Cruzo os braços, inclino levemente a cabeça.
— Ainda não. Mas tenho certeza que meu maravilhoso tutor vai me ajudar, não é mesmo?
O sorriso retorna, sutil, como se ele se divertisse com meu sarcasmo.
— Em tudo o que a minha pupila quiser.
Sinto meu rosto esquentar na hora; sei que estou ficando vermelha.
Droga.
— Você fica linda corada.
A voz dele baixa um tom e, antes que eu me afaste, os dedos roçam minha bochecha. Minha respiração trava por um segundo — só um segundo.
Empurro a mão dele.
— Não acha que essa cantada barata vai me fazer cair de amores por você, né?
Minha risada sai irônica e levemente nervosa. Ele inclina a cabeça, analisando minha reação.
— Para ser sincero? Eu estava contando com isso. — O tom não demonstra arrependimento. — Pelo visto, vou ter que me esforçar mais.
A expressão frustrada — e quase brincalhona — me faz rir, mas eu não baixo a guarda.
— Me traga a versão original manuscrita de Orgulho e Preconceito, e eu posso pensar na possibilidade de talvez dividir meus pensamentos mais vagos com você.
A risada dele preenche o ambiente, grave e rouca, atraindo a atenção de algumas pessoas ao redor.
Ela causa algo estranhamente agradável em mim.
Não. Para com isso, Luna!
Me repreendo mentalmente antes que o pensamento se estenda.
Tobias ainda sorri.
— Você não é tão mimada quanto eu esperava.
— E você não é tão estúpido quanto eu esperava… Mentira, você é sim.
Minha voz soa despreocupada, e ele só sacode a cabeça, mão no peito, fingindo decepção.
— Que pena. Esperava lhe impressionar.
— Me passa teu número. Precisamos combinar os horários do projeto. — Ele puxa o celular do bolso enquanto fala.
Trocamos contatos rapidamente, e o professor anuncia o fim da aula exatamente quando termino de anotar o dele.
Antes que eu diga qualquer coisa, o Tobias se levanta.
— Te mando uma mensagem e a gente combina os horários.
Ele sai sem esperar resposta. Eu fico ali, parada, observando.
Solto um suspiro leve.
— Babaca.
Enquanto caminho pelo estacionamento, aproveito o tempo livre para enviar mensagem à Júlia com o endereço e o horário do pub mais tarde.
Quando chego ao carro, o Kai já está lá, conversando com alguns rapazes. Assim que me vê, se despede rápido e destrava o veículo.
— Então? Como foi o primeiro dia oficial como universitária?
Ele abre a porta para mim. Eu só espero ele dar a volta e entrar para responder:
— Foi até bem calmo, tirando o fato de que eu tenho que criar um programa útil para entregar no fim do semestre. Foi bom.
Kai solta uma risada curta e liga o motor.
— Para de rir, idiota. — Dou um tapa de leve no braço dele, fingindo indignação.
Ligo o som e começo a procurar uma música. Assim que os primeiros acordes de “Demons”, do Imagine Dragons, preenchem o carro, deixo o som fluir.
Levamos quase uma hora para chegar. Kai me deixa na entrada e volta para o posto.
Depois de me trocar no alojamento, vou ao refeitório pegar algo para comer. Pego só um suco de laranja e sigo para a área de treinamento.
Já estou atrasada mesmo, então correr não faria diferença. Assim que entro no salão, o Thoth já está destruindo um saco de areia. A força dos golpes quase me faz sentir pena do saco.
— Tenho certeza de que o que quer que ele tenha feito com você, ele já está bastante arrependido.
Thoth não sorri. O olhar pousa diretamente em mim.
— Não tente me enrolar, Luna! Você está 15 minutos atrasada!
Reviro os olhos antes de soltar uma desculpa esfarrapada:
— Desculpa, papi. A gente pegou um baita trânsito.
Ele só aponta para a pista, e eu começo a correr sem discutir.
O treino dura até o final da tarde. Assim que o Thoth me libera, corro para o alojamento, me arrumo rápido e volto ao refeitório.
Estou terminando meu bolo de chocolate com limão quando meu celular apita com uma nova mensagem:
Kai:
Te esperando na entrada do acampamento.
Engulo o último pedaço às pressas, pego minha bolsa no quarto e passo no escritório do Thoth para avisar que estou saindo.
Quando chego ao portão, o Ranger já me espera. Entro e me acomodo no banco do passageiro.
— Boa noite, pequena. Como foi a tarde?
Olho para ele com um meio sorriso.
— Boa, grandão. O papi não perdoou; resolveu compensar o que pegou leve ontem.
Seguimos o caminho conversando sobre nossa tarde. Questiono se ele não está se prejudicando por sair mais cedo do posto para me dar carona. Ele explica que está fazendo turnos menores para conseguir me ajudar, então não é problema.
Acabamos levando menos tempo que na ida. Assim que para em frente à cafeteria, ele se vira pra mim:
— Te pego às 23h50?
— Sim. Vamos direto para o tal pub?
— Isso mesmo. Bom trabalho, pequena.
Ele se inclina e me dá um beijo na testa antes de se despedir.
— Valeu.
Saio do carro e sigo para a cafeteria. Dou boa noite para as meninas antes de ir ao vestiário guardar minhas coisas; pego o avental e vou para o balcão.
Converso um pouco com a Maia sobre o movimento da noite e a libero antes de assumir. A noite está intensamente movimentada; mal tenho tempo de respirar.
Estou prestes a concluir um pedido quando ouço uma voz que eu não esperava escutar ali:
— Um expresso duplo, por favor.
O som me paralisa por um instante, e o mesmo arrepio involuntário percorre minha pele antes mesmo de eu erguer a cabeça. É como fogo líquido lambendo minha pele, deixando um rastro em chamas.
Não preciso levantar os olhos para saber quem está ali, mas ainda assim eu faço — só para encontrá‑los com aquele olhar esmeralda que me abduz.
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