Herança de Avalon

6 A Lei Da Relatividade


Os dias não se arrastavam nem passavam voando.

Para Charlotte, eles simplesmente existiam em um estado de suspensão estranha — como se o tempo tivesse perdido todo o sentido. A Lei da Relatividade aplicada à sua própria vida: quanto mais ela tentava se mover, mais presa se sentia. Quanto mais tentava esquecer, mais presente Mordred se tornava.

Entre plantões exaustivos no hospital, sessões secretas de magia com a avó e a pressão crescente do noivado que ela mesma havia aceitado, Charlotte sentia que estava se afogando em silêncio. Não queria ser a mártir de Julian, mas também não conseguia encontrar forças para cancelar tudo. Seus pais, desde que descobriram que o “cara da Itália” era um Le Fay, mal conseguiam sustentar o olhar dela por mais de alguns segundos. O silêncio deles era pior que qualquer acusação.

Ela se sentia sobrecarregada. Uma parte dela sabia que teria que abrir mão de algo — ou de alguém — antes que desaparecesse completamente no mar de obrigações.

Naquela noite, depois de um plantão de dezesseis horas, Charlotte caminhava pelo estacionamento subterrâneo do Hospital St. Thomas, as luzes frias piscando acima dela. Sua mente ainda girava em círculos quando destravou o carro.

Então sentiu.

Uma presença atrás dela. Próxima demais.

Ela se virou bruscamente.

Mordred estava ali — tão perto que ela podia sentir o calor da respiração dele contra sua pele. O cheiro familiar de chuva, whisky e algo selvagem invadiu seus sentidos. Seus olhos verdes, escuros e atormentados, prenderam os dela.

— Mordred — sussurrou ela, sobressaltada, o coração disparando contra as costelas.

— Precisamos conversar — disse ele, a voz baixa e rouca. Ele deu mais um passo, encurralando-a contra a porta do carro. — Você precisa parar de agir como uma garota mimada que foge de tudo que não consegue controlar.

Charlotte sentiu a raiva subir rápido, quente como fogo líquido.

— E você precisa parar de ser o capacho da sua mãe — retrucou ela, grosseira, os dentes cerrados. — O que ela fez foi ridículo, Mordred. Mandar você invadir minha mente? Usar você como uma arma? Isso é doentio.

— O que você fez também não foi muito melhor — rebateu ele, erguendo a mão esquerda dela com brutal delicadeza. O anel de noivado brilhou sob a luz fria do estacionamento. — Isso é sério? Vai mesmo se casar com o cara que te traiu com metade de Londres e ainda teve as fotos vazadas?

— Entre traidores — disse ela, a voz tremendo de fúria —, fico com o que conheço.

Eles se encararam por um segundo que pareceu durar uma eternidade. A Lei da Relatividade novamente: o mesmo segundo podia ser breve para o mundo e interminável para os dois.

— Olha, Mordred… eu não estou com humor nem com ânimo para essa conversa — continuou ela, tentando manter a voz firme. — Eu preciso descansar. São as poucas horas que tenho antes do próximo plantão.

Ele não se moveu. Em vez disso, aproximou-se ainda mais, até que o hálito dele — misturado a whisky e menta — roçasse seus lábios.

— Só queria que soubesse que foi real — murmurou ele, a voz rouca e quebrada. — No começo, eu realmente queria apenas parar as visões. Mas dormir com você… tocar você… me fez parar as visões. Você sempre foi o que eu procurei a vida inteira. Só queria que soubesse disso.

Charlotte sentiu o peito apertar dolorosamente. As palavras dele doíam mais que qualquer insulto.

— Sua mãe jamais teria mandado aquela mensagem se nós fôssemos reais — respondeu ela, quase um sussurro. — E você está tão noivo quanto eu.

Ela tentou recuar, mas o carro atrás dela não permitia. O corpo de Mordred era uma parede quente e sólida, impedindo qualquer fuga.

— Eu realmente preciso descansar, Mordred — disse ela, a voz agora fraca, quase um fio. — Estou cansada além do que é humanamente possível.

Ele ficou em silêncio por um longo momento, os olhos verdes varrendo o rosto dela como se tentasse memorizá-lo. Então, lentamente, passou o braço ao redor da cintura dela, a mão grande deslizando entre seu corpo e o carro. Charlotte prendeu a respiração, o coração batendo tão forte que parecia querer sair do peito.

Mordred abriu a porta do carro atrás dela e se afastou, dando-lhe espaço.

— Tudo bem — disse ele, a voz baixa. — Eu só precisava te dizer.

Charlotte entrou no carro com as pernas trêmulas. Antes de fechar a porta, olhou para ele uma última vez.

— Preferia que não tivesse dito — murmurou ela, quase inaudível.

Ela deu partida no carro. A chuva começava a cair lá fora, fina e constante. Enquanto dava ré, viu Mordred parado no meio do estacionamento, imóvel, a chuva molhando seus cabelos escuros e escorrendo pelo rosto. Ele não se mexeu. Não tentou impedi-la.

Charlotte acelerou e o deixou para trás, engolido pela escuridão úmida.

Só quando estava longe o suficiente permitiu que uma lágrima solitária escorresse pelo seu rosto.

A Lei da Relatividade era cruel: Para o mundo, apenas alguns minutos haviam passado. Para ela, parecia que uma vida inteira havia sido destruída e reconstruída naquela conversa.

E, no entanto, nada havia mudado.

Ela ainda estava noiva de Julian. Ele ainda era um Le Fay. E o amor entre eles continuava sendo o maior erro que nenhum dos dois conseguia parar de cometer.

Charlotte mal se lembrava de ter chegado em casa.

O corpo caiu na cama como se fosse feito de chumbo. O sono veio pesado, sem sonhos — ou, se vieram, foram engolidos pela exaustão. Quando abriu os olhos novamente, a luz cinzenta da manhã londrina entrava pelas frestas das cortinas pesadas. Seu corpo protestava. Cada músculo doía. A mente ainda girava com o eco da voz de Mordred no estacionamento.

Ela virou o rosto no travesseiro e gemeu baixinho.

— Cinco minutos… só mais cinco…

A porta do quarto se abriu com um clique decidido.

— Charlotte Aurelius Vancroft, se você não levantar agora, eu vou jogar um balde de água gelada nessa cama!

A voz da mãe ecoou pelo quarto como um sino de igreja. Charlotte abriu um olho, depois o outro, com grande esforço. Sua mãe estava parada à porta, impecável em um tailleur bege, os cabelos perfeitamente arrumados e uma xícara de café forte na mão — claramente uma oferta de paz disfarçada de ameaça.

— Mãe… eu acabei de dormir — resmungou Charlotte, a voz rouca e arrastada. — Literalmente acabei de fechar os olhos.

— Você fechou os olhos há quatro horas. E temos compromisso com a cerimonialista em cinquenta minutos. Julian já está lá embaixo esperando, tomando chá com seu pai como se fosse o dia mais normal do mundo.

Charlotte enterrou o rosto no travesseiro novamente.

— Diga a ele que eu morri. Morri de exaustão. Me enterrem com o jaleco do hospital.

A mãe se aproximou, puxou as cobertas com firmeza e colocou a xícara de café na mesinha de cabeceira.

— Levanta. Bebe isso. E pelo amor de Deus, tenta não parecer que você passou a noite lutando contra demônios.

Charlotte sentou-se com dificuldade, o cabelo loiro completamente bagunçado. Pegou o café com as duas mãos, como se fosse uma tábua de salvação.

— Tecnicamente… eu passei a noite lutando contra demônios. Demônios chamados plantão, magia e um ex quase algo que apareceu no estacionamento do hospital.

A mãe arqueou uma sobrancelha elegante, mas não comentou sobre Mordred. Em vez disso, pegou uma escova e começou a tentar domar os cabelos da filha com movimentos rápidos e práticos.

— Bebe mais um gole. Seus olhos estão parecendo dois buracos de fechadura. A cerimonialista vai achar que você está de luto pelo próprio casamento.

Charlotte tomou outro gole grande, queimando a língua, e fez uma careta.

— Talvez eu esteja.

— Charlotte.

— Mãe.

As duas se encararam por um segundo. A mãe suspirou, suavizando o tom.

— Eu sei que você está cansada. Eu sei que tudo isso está acontecendo muito rápido. Mas hoje é só uma reunião. Escolher flores, cores, datas… coisas leves. Você consegue fingir por duas horas que está viva, não consegue?

Charlotte olhou para o anel no dedo. O diamante parecia zombar dela sob a luz fraca do quarto.

— Fingir é o que eu faço de melhor ultimamente — murmurou ela.

A mãe a ajudou a levantar, praticamente a empurrando para o banheiro enquanto continuava falando.

— Escova os dentes. Passa um pouco de corretivo debaixo desses olhos. E pelo amor de Deus, sorria quando chegar lá embaixo. Julian está animado. Seu pai está fingindo que está animado. Eu estou fingindo que não quero te sequestrar e te levar para a Escócia até você recuperar o juízo.

Charlotte não conseguiu segurar uma risada fraca e cansada.

— Você seria uma ótima cúmplice de sequestro, mãe.

— Eu sei. Agora anda. Se você chegar atrasada, a cerimonialista vai achar que estamos desrespeitando o santo matrimônio antes mesmo dele começar.

Dez minutos depois, Charlotte desceu as escadas ainda meio zonza, vestindo um suéter largo e calça jeans escura — o mais próximo de “confortável” que conseguiu encontrar. Julian esperava na sala, impecável como sempre, com um sorriso paciente no rosto.

— Bom dia, futura esposa — disse ele, aproximando-se para dar um beijo leve em sua bochecha.

Charlotte conseguiu sorrir. Foi um sorriso pequeno, cansado, mas presente.

— Bom dia… futuro marido.

A mãe, atrás dela, deu um cutucão discreto nas costas da filha e sussurrou:

— Isso. Continue fingindo. Você está indo muito bem.

Enquanto os três saíam de casa em direção ao carro que os esperava, Charlotte sentiu o peso do anel novamente. O dia mal havia começado e ela já queria que terminasse.

Quanto mais ela tentava desacelerar o tempo, mais rápido ele parecia correr em direção ao futuro que ela não tinha certeza se queria.



A cobertura em Mayfair estava mergulhada em penumbra. A chuva que caíra mais cedo agora batia contra as janelas como dedos insistentes e furiosos, distorcendo as luzes da cidade em borrões líquidos e fantasmagóricos. Mordred estava parado diante do vidro frio, uma taça de whisky quase intocada na mão ferida, era de manhã mas o álcool era seu refugio naquele momnto. O corte na palma latejava em sincronia com o coração.

O elevador privativo abriu com um sibilo suave.

Morrigan Le Fay entrou como se o próprio ar lhe pertencesse. O vestido verde esmeralda parecia absorver toda a luz do ambiente, e seus olhos brilhavam com uma intensidade predatória, quase febril. Ela parou no centro da sala, observando o filho como se ele fosse uma obra de arte que começava a rachar.

— Você está sangrando de novo — disse ela, a voz aveludada, quase carinhosa. — Ou ainda é o mesmo corte de quando aquela garota Vancroft foi pedida em casamento?

Mordred não se virou. Seus dedos apertaram a taça com mais força.

Morrigan se aproximou devagar, os saltos ecoando como sentenças de morte. Parou bem atrás dele, perto o suficiente para que ele sentisse o perfume dela — doce demais, podre por baixo, como flores murchas sobre um túmulo aberto.

— Siobhan chegou ontem de Dublin — continuou ela, a voz baixando para um tom íntimo, quase sussurrado. — Ela está ansiosa. O clã inteiro está ansioso. Uma união entre vocês vai estabilizar as visões que te atormentam há anos. Você vai finalmente ser forte. Completo. Como eu sempre soube que poderia ser… como eu te criei para ser.

Mordred deu um gole curto no whisky. O líquido desceu queimando.

— Eu não vou casar com ela.

O silêncio que se seguiu foi tão pesado que parecia sugar todo o oxigênio da sala.

Morrigan inclinou a cabeça, um sorriso lento e perigoso curvando seus lábios vermelhos.

— Como disse, meu querido?

— Eu disse que não vou casar com Siobhan — repetiu ele, virando-se finalmente para encará-la. Sua voz saiu rouca, mas firme. — Não vou continuar com essa farsa.

Morrigan soltou uma risada baixa, doce, quase maternal. Mas seus olhos não sorriam. Eles brilhavam com algo frio, possessivo e profundamente narcisista.

— Ah, Mordred… meu lindo, fraco, ingênuo Mordred. — Ela estendeu a mão e tocou o rosto dele com as pontas dos dedos, um gesto que parecia carinho, mas carregava ameaça pura. — Ainda preso àquela menina dourada? Depois de tudo? Depois de ela ter aceitado o anel de outro homem na frente de toda a Londres, sorrindo como se você nunca tivesse existido? Como se você fosse apenas um erro de verão?

Ela se aproximou mais, a voz baixando para um sussurro venenoso, hipnótico, que se enrolava na mente dele como fumaça tóxica.

— Eu te dei tudo. Eu te criei para ser maior que isso. Maior que ela. E você vai jogar fora séculos de sangue, de poder, de destino… por uma Vancroft que te usa como diversão? Que agora vai se casar com um traidor só para manter as aparências? Que vai te enfraquecer até você não ser mais nada além de um homem comum, chorando por uma garota que nunca vai entender a escuridão que te torna especial?

Morrigan segurou o queixo dele com firmeza, forçando-o a olhar em seus olhos.

— Escolha, Mordred. Escolha entre ser o herdeiro que eu criei com tanto cuidado… ou o fracasso patético que ela vai transformar você. Porque se você escolher ela, eu não vou estar aqui para juntar os pedaços quando ela te destruir. E ela vai destruir você. Elas sempre destroem.

As palavras dela se infiltraram como veneno lento, queimando cada lembrança boa de Capri, cada toque de Charlotte, cada promessa que ele havia feito a si mesmo. Mordred sentiu o peito apertar, a respiração ficando curta. As correntes invisíveis que a mãe sempre soubera manipular apertavam mais e mais.

Ele se afastou bruscamente, se virando de novo para a janela. A chuva caía com mais força agora, batendo contra o vidro como aplausos distantes e zombeteiros.

Morrigan observou-o por mais um segundo, um sorriso satisfeito nos lábios.

— Pense bem, meu filho. O casamento com Siobhan será em breve. E Charlotte… Charlotte já escolheu o lado dela. — Ela fez uma pausa dramática antes de acrescentar, quase sussurrando: — Não me faça escolher o meu.

Quando a mãe finalmente saiu, o elevador descendo com um sibilo suave, Mordred ficou completamente sozinho.

A taça escorregou de sua mão e se espatifou no chão com um estrondo.

Ele não se mexeu para limpar.

Apenas ficou ali, olhando a cidade molhada através do vidro embaçado, sentindo as palavras da mãe se infiltrarem mais fundo em suas veias, envenenando cada batida do coração.

E, pela primeira vez, ele se perguntou se Charlotte realmente havia sido a salvação… ou apenas o veneno mais doce que ele já havia provado.