Herança de Avalon
10 A Lei Da Gravidade
Todos sabem que o que nos mantém no chão é a gravidade.
Mas enquanto Charlotte caminhava pela nave central da capela de Windsor, com todos os olhares presos nela e no pai que a conduzia com orgulho silencioso, ela sentia exatamente o oposto: estava sendo puxada para baixo, sugada, sucumbida por uma força invisível que não era a magia.
Era ela mesma.
O vestido de noiva em branco perolado fluía ao redor de seu corpo como uma nuvem pesada. O véu delicado cobria parcialmente seu rosto, mas não escondia o nó apertado no estômago, a sensação de que alguém havia amarrado pesos invisíveis em seus tornozelos. Julian esperava no altar, sorrindo emocionado, os olhos brilhando com uma felicidade genuína que ela invejava. Ele parecia leve. Ela se sentia afundando.
A marcha nupcial tocava, solene e grandiosa. Rostos conhecidos e desconhecidos sorriam dos bancos. O corredor estava enfeitado com rosas brancas demais, lírios demais, tudo puro demais. O cheiro doce e denso das flores a sufocava.
Quando chegou ao altar, entregou o buquê à mãe. Seus dedos tremiam. Por um segundo, quis fugir. Mas Julian segurou sua mão com delicadeza, o polegar acariciando o dorso da mão dela como se quisesse ancorá-la à realidade. Ele sorriu para ela, os olhos cheios de promessa.
E Charlotte sorriu de volta.
A recepção na casa dos pais de Julian era impecável — um verdadeiro espetáculo de elegância britânica. O salão principal da mansão em Belgravia brilhava com lustres de cristal, mesas longas cobertas de linho branco e arranjos florais exuberantes. O quarteto de cordas tocava suavemente ao fundo.
Lady Catherine se aproximou de Charlotte com seu sorriso maternal, os olhos cinzentos brilhando de orgulho sincero. Ela segurou o rosto da neta com as duas mãos, como fazia quando Charlotte era criança.
— Minha menina… — murmurou a avó, a voz embargada de emoção. — Você está absolutamente radiante. Eu sempre soube que chegaria esse dia, mas vê-la aqui, tão linda, tão forte… Meu coração está transbordando de orgulho. Você é a herdeira que eu sempre sonhei que seria.
Charlotte sentiu os olhos arderem. A avó puxou-a para um abraço apertado, cheirando a baunilha e flor de laranjeira.
— Eu sei que nem tudo é fácil, querida. Mas você está fazendo o que precisa ser feito. E eu estou aqui, sempre. Orgulhosa de você, em cada passo.
— Obrigada, vovó — sussurrou Charlotte, a abraçando de volta com força.
Pouco depois, o pai dela subiu ao pequeno palco improvisado. Ele ergueu a taça, os olhos marejados, a voz carregada de emoção genuína.
— Hoje não é apenas o dia em que minha filha se casa. É o dia em que vejo o futuro da nossa família se concretizar. Charlotte, você sempre foi minha luz. Inteligente, corajosa, cheia de bondade. Julian… você ganhou o maior tesouro que eu poderia entregar. Cuide dela como ela merece. Porque ela merece o mundo inteiro.
Os aplausos ecoaram. Charlotte sentiu o peito apertar.
Logo depois, um amigo de longa data de Julian, um rapaz loiro e extrovertido chamado Thomas, tomou a palavra com um microfone na mão, já com um sorriso malicioso.
— Senhoras e senhores, eu conheço Julian desde o colégio. E quando a gente via a Lottie andando pelos corredores… todos pensávamos: “Quem vai ter a sorte de ficar com essa garota?” Ela era a mais bonita, a mais inteligente, a que fazia todo mundo parar para olhar. E aí apareceu esse príncipe da turma aqui — ele deu um tapa nas costas de Julian, rindo. — O garanhão que finalmente conseguiu! Julian, seu safado, você realmente ganhou na loteria da vida. Cuide bem dela, porque se não cuidar, tem fila atrás!
Risadas encheram o salão. Julian riu, puxando Charlotte para si e beijando sua têmpora. Ela sorriu, forçando o gesto a parecer natural.
A noite seguiu leve. Danças, brindes, conversas. Julian era atencioso — servia vinho para ela, roubava beijos quando achava que ninguém estava olhando, sussurrava no ouvido dela que ela estava linda. Charlotte ria das piadas dele, dançava com as amigas, deixava que a mãe a abraçasse com orgulho.
Por algumas horas, ela quase conseguiu esquecer.
Quase.
Quando a festa finalmente terminou e eles voltaram para o apartamento em Belgravia, Charlotte tomou um banho longo e quente. A água escorria pelo corpo, levando embora o cheiro de flores, perfume e champanhe. Ela saiu do boxe enrolada em uma toalha macia, parou diante do espelho grande do banheiro e se olhou.
Analisou o próprio corpo com atenção quase clínica. Havia algo estranho. Uma sensação sutil, quase imperceptível, como se algo dentro dela estivesse… diferente. Não era dor. Não era a magia. Era só uma inquietação profunda, um desconforto que não conseguia nomear.
Respirou fundo, fechando os olhos por um instante.
É só o cansaço do dia, pensou. Só isso.
Secou o corpo, vestiu uma camisola leve de seda e saiu do banheiro. Julian já dormia profundamente na cama grande, o peito subindo e descendo em um ritmo tranquilo, o rosto relaxado sob a luz fraca do abajur.
Charlotte deslizou para debaixo dos lençóis e se deitou ao lado dele. Ele murmurou algo incoerente no sono e passou um braço ao redor da cintura dela, puxando-a para perto. Ela deixou. Fechou os olhos, sentindo o calor do corpo dele contra o seu, o cheiro familiar de sua pele.
Por alguns minutos, permitiu-se acreditar que poderia ser suficiente.
Que a gravidade, afinal, não era uma prisão.
Apenas o chão onde ela havia decidido ficar.
Mais de uma semana havia se passado desde o casamento.
O tempo, traiçoeiro como sempre, seguia seu curso sem pedir permissão. Charlotte caminhava pelos corredores largos do Hospital St. Thomas ao lado de sua colega de trabalho, a Dra. Lena Hargrove, uma pediatra ruiva e falante que sempre conseguia arrancar um sorriso dela mesmo nos dias mais pesados. O ar cheirava a desinfetante, café velho e o leve perfume de jasmim que Lena usava todos os dias.
— Sério, Lottie, como tem sido? — perguntou Lena, ajustando a alça da bolsa no ombro. — Casada. De verdade. Eu ainda não acredito que você fez isso.
Charlotte sorriu, um sorriso treinado, leve e convincente.
— Tem sido ótimo, na verdade — respondeu ela, a voz suave, quase convincente até para si mesma. — Julian é… carinhoso. Atencioso. Estamos nos ajustando. A casa nova em Belgravia é linda, o café da manhã na cama, as noites tranquilas… É bom. Realmente bom.
Lena soltou um suspiro dramático, levando a mão à barriga.
— Que inveja. Eu estou aqui morrendo de cólica menstrual desde ontem. Parece que alguém está me esfaqueando por dentro. Você tem algum comprimido mágico aí no seu consultório?
Charlotte parou no meio do corredor, a mão já indo automaticamente para o bolso do jaleco branco. Seus dedos tocaram o pequeno blister de analgésicos que sempre carregava.
— Tenho sim. Vem comigo, eu te dou um.
Enquanto caminhavam, Lena continuou reclamando das cólicas, do ciclo irregular, do estresse do plantão. Charlotte ouvia, assentia, sorria nos momentos certos. Mas algo dentro dela tinha travado.
Mais de oito semanas.
A frase surgiu do nada, clara e cortante como uma lâmina. Ela parou de andar por um segundo, o blister de comprimidos apertado entre os dedos. Oito semanas. Oito semanas desde a última menstruação. Oito semanas desde aquela noite no carro com Mordred, no estacionamento do hospital. Oito semanas não dava o tempo que teve relações com Julian a semanas atrás. O corredor pareceu girar. O cheiro de desinfetante ficou mais forte, quase sufocante. Seu coração acelerou, um baque surdo contra as costelas.
Lena acenou com a mão na frente do rosto dela.
— Lottie? Ei, você está bem? Parece que viu um fantasma.
Charlotte piscou, forçando o sorriso de volta aos lábios.
— Desculpa. Só… cansada. Aqui, toma. — Ela entregou o comprimido com dedos que mal tremiam. — Toma com água, vai ajudar.
Lena agradeceu, ainda preocupada, mas Charlotte já se afastava.
— Eu preciso fazer uma coisa rápida — disse ela, a voz mais firme do que se sentia. — Te vejo depois.
Ela caminhou pelo corredor com passos rápidos, o jaleco branco balançando ao redor das pernas. O setor de obstetrícia ficava no fim do corredor principal. Entrou em uma das salas de ultrassom vazias, trancou a porta atrás de si com um clique que soou alto demais no silêncio.
O coração batia tão forte que ela sentia cada pulsação na garganta.
Charlotte abaixou a calça e a calcinha até os joelhos, deitou-se na maca fria e pegou o frasco de gel condutor. O líquido gelado tocou sua pele quente, fazendo-a estremecer. Ela ligou o aparelho, posicionou a sonda no baixo ventre e deslizou devagar.
A tela acendeu.
E lá estava.
Um perfil pequeno, quase formado. Cabeça arredondada, narizinho delicado, a curva da espinha. Um ser humano minúsculo, perfeito, flutuando dentro dela.
Charlotte parou de respirar.
Seus dedos deslizaram pela tela, trêmulos, aumentando o volume. O som encheu a sala pequena e escura — um batimento cardíaco rápido, forte, acelerado. Tum-tum-tum-tum. Como asas de beija-flor.
Ela ficou paralisada.
O tempo parou.
Oito semanas. Talvez nove. O suficiente para que o feto já tivesse forma, já tivesse coração. O suficiente para que ela soubesse, com uma certeza nauseante, que aquele bebê não podia ser de Julian.
A última vez que eles haviam dormido juntos fora depois do casamento. Antes disso… só Mordred. No carro. Naquela noite desesperada.
— Não… — sussurrou ela, a voz falhando. — Isso não pode estar acontecendo comigo.
Seus dedos ainda estavam na tela, traçando o contorno minúsculo do bebê como se pudesse apagá-lo com um toque. O coraçãozinho continuava batendo, rápido e teimoso, como se soubesse que ela estava ali.
Charlotte sentiu um desespero breve e violento subir pela garganta. Lágrimas quentes queimaram seus olhos. Ela deu um print da imagem, imprimiu a foto em papel fotográfico com as mãos trêmulas. O papel saiu quente da impressora. Ela o dobrou com cuidado e guardou no bolso interno do jaleco, contra o peito.
Limpou o gel da barriga com movimentos automáticos, vestiu a roupa novamente. Charlotte saiu da sala de ultrassom como se o chão estivesse em chamas.
Seus passos eram rápidos, quase frenéticos, ecoando pelo corredor branco do hospital. A foto impressa queimava contra seu peito, guardada no bolso interno do jaleco como uma bomba-relógio. Cada batida do coração do bebê ainda ressoava em sua cabeça — tum-tum-tum-tum —, um som teimoso, vivo, que não parava de repetir.
Não. Isso não pode estar acontecendo. Não agora. Não comigo.
Ela negava em silêncio, a mente girando em círculos desesperados enquanto caminhava. Passou pela secretária do setor de neurologia sem diminuir o passo.
— Ana, cancele todas as minhas consultas de hoje e de amanhã — disse ela, a voz mais firme do que se sentia. — Surgiu um imprevisto familiar. Urgente.
A secretária piscou, surpresa, mas assentiu rapidamente.
— Claro, Dra. Vancroft. Está tudo bem?
Charlotte não respondeu. Apenas tirou o jaleco branco com movimentos bruscos, dobrando-o sobre o braço, pegou a bolsa no armário e seguiu direto para o estacionamento. O ar frio do lado de fora bateu em seu rosto como um tapa, mas não conseguiu acordá-la do torpor.
Entrou no carro, bateu a porta com força e ficou alguns segundos com as mãos tremendo no volante. Respirou fundo. Uma vez. Duas. Depois pegou o celular e ligou para a mãe.
— Mãe… — A voz saiu embargada assim que a chamada foi atendida. — Eu preciso de vocês. Agora. Estou indo para a casa da vovó.
Do outro lado, a mãe percebeu o tom imediatamente.
— O que aconteceu? Charlotte, você está bem?
— Eu… eu explico quando chegar. Por favor, só… estejam lá.
Ela desligou antes que as lágrimas que ameaçavam cair conseguissem escapar.
O trajeto até a mansão da avó em Cotswolds foi um borrão. As ruas molhadas de Londres passavam pela janela como um filme em velocidade acelerada. Quando estacionou e desceu do carro, suas pernas pareciam feitas de chumbo.
Lady Catherine e sua mãe já a esperavam na entrada. As duas sorriam ao vê-la — aquele sorriso caloroso e acolhedor que sempre a fazia se sentir segura. A avó abriu os braços, pronta para recebê-la.
Mas o sorriso morreu no rosto delas no instante em que viram os olhos de Charlotte.
As lágrimas já escorriam livres por suas bochechas. O rosto pálido, os lábios tremendo, o corpo inteiro parecendo prestes a desabar.
— Meu Deus, o que aconteceu? — perguntou a mãe, correndo para ela e segurando seu rosto com as duas mãos. — Charlotte, você está me assustando.
Lady Catherine se aproximou mais devagar, mas com a mesma preocupação profunda nos olhos cinzentos.
Charlotte não conseguiu falar. Apenas enfiou a mão no bolso, tirou a foto impressa da ultrassom e entregou para elas com os dedos trêmulos.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
A mãe pegou a imagem, os olhos percorrendo o pequeno perfil do feto, o coraçãozinho marcado na tela. Lady Catherine olhou por cima do ombro dela, o rosto perdendo toda a cor.
— Charlotte… — sussurrou a avó, a voz falhando pela primeira vez em anos.
Charlotte soluçou, o som quebrado ecoando no hall de entrada.
— Eu não sei o que fazer… — disse ela, a voz rouca, desesperada. — Eu não sei de quem é. Eu não sei como vou contar ao Julian. Eu só… eu não sei o que fazer.
As duas mulheres trocaram um olhar carregado de preocupação e compreensão. A mãe puxou Charlotte para um abraço apertado, enquanto a avó colocava a mão gentil em suas costas, o toque quente e firme.
— Respire, minha menina — murmurou Lady Catherine, a voz baixa e ancestral. — Estamos aqui. Vamos resolver isso juntas.
Mas enquanto as lágrimas continuavam caindo, Charlotte sentia o peso da gravidade mais forte do que nunca.
Não era apenas um bebê.
Era a prova viva de que, por mais que tentasse, ela nunca conseguiria escapar completamente do que havia vivido com Mordred.
E agora, o segredo mais perigoso de todos crescia dentro dela.
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