Herança Real

32 ~*~ Se Se Morre de Amor? Desse se morre


https://youtu.be/LoEWmc60wJY

Bônus ~ Serena Kane

Um poeta já dizia que saudade batia que nem maré, e era impossível discordar dele. Enorme, furiosa, repleta de momentos e sensações. Essa era a saudade que tentava me vencer todo dia ao abrir meus olhos pela manhã, ao me deparar com aquele novo quarto, nova casa, novos ares.

Uma coisa que não me saía da cabeça, parecia pregada aos meus olhos, era como o rosto dele se transformava ao dar um mínimo sorriso, aquele que já me daria uma vontade de retribuir e a certeza de que qualquer coisa ao lado dele daria certo, afinal ele era por mim e eu por ele.

Aquele remexer de lábios, a brancura dos dentes e os olhos se contraindo. Era o conjunto todo. Era ele.

Desde de um tombo acidental, minha vida nunca mais foi a mesma. Quiçá meu coração.

Minha razão era a algoz desse coração. Era o dia inteiro para convencê-lo de que aquele por quem ele chorava era o mesmo que o fizera sofrer de outras formas, era aquele que não era o que imaginávamos. Sinto muito, coração, nos enganamos. Vamos recomeçar, por favor.

A nova cama era igualmente macia e confortável, porém ladra de sono. Conrad roubava meus sonhos, quem conseguiria sossegar uma hora do dia quando até mesmo deitar e se abater por um torpor completo não me fazia esquecer aquele maldito sorriso, a contração dos olhos verdes, a suavidade da voz, a quentura do abraço.

Tudo ao relembrá-lo doía porque eu sabia bem demais o que tudo aquilo me proporcionava. Aconchego, familiaridade, intimidade, carinho, pertencimento. Por que era tão perigoso ainda alimentar essas coisas com esse coração?

O novo quarto era de um tom mais ameno, mais amarelado, com móveis no estilo mais antigo-casa-de-campo possível. A janela, minha companheira de insônias, dava uma vista direta para um prado tão verde quanto os olhos do dito-cujo. Nem preciso dizer que isso também não ajudava muito.

De toda forma, estar afastada o suficiente do caos me trazia segurança, o tempo necessário que eu me daria para me erguer e encarar os problemas, pois eles não desapareceriam, conforme falou tio Jean.

Quem é você, Serena, fugindo dos obstáculos? Fugindo da dor?! Oras, viver é um contrato com a dor no qual é imprescindível passar por ela... E sobreviver, se você for forte.

Já passamos por coisa demais para desistir agora, não é mesmo? Então me dei somente um tempinho, o suficiente para acalmar a maré revoltosa que se dava todo dia dentro de meu peito e poder velejar barco afora por este mar.

Esse mar é a vida. Vai desistir dela, Serena?

Não, não mesmo, nem que tenhamos que enfrentar esses olhos tão nítidos e vivos sob minhas pálpebras. Nem que tenhamos que rasgar cada fiozinho de memória que nos resta para seguir em frente.

Adiante!

A paisagem bucólica pelo dia me trazia mais calma. Era só deitar naquele campo e olhar para o céu que a maré se dissipava, o mar se aquietava.

Nós conseguiremos... Uma hora.

A nova casa era um pouco menor, porém muito mais familiar. Eu me sentia parte dela, como um elemento identificador. Um balanço ficava do lado de fora, bem à frente da porta dos fundos e de uma mesa gigante para um possível almoço em família. Aquele também era um refúgio para um bom livro pela tarde.

Certo dia, enquanto eu tentava distrair a mente em meio à ventania intempestiva, tio Jean apareceu para me despertar de sonhos acordada.

— Está fascinada pelas poesias, querida? — ele soprou em meio a um riso preso, temendo o tom de voz para se certificar de que eu estaria bem.

— Achei algumas na sala lá de cima — apontei para o segundo andar da bela casa em tom pastel.

— E anda lendo sobre o amor?

— Oras, tio, não só se falam disto essas poesias? — arqueie a sobrancelha brincalhona para ele. Tio Jean me perscrutava sob o olhar.

— Certamente vemos o que queremos ao lê-las. É quase como um espelho.

Fiquei calada. Tio Jean era muito observador e eu suspeitava de que sabia de mais coisa do que se era esperado.

— Está supondo que estou apaixonada, tio?

— Acho que você acabou de se entregar, querida. — ele riu, afagou meu ombro e sentou-se na cadeira ao lado. — Posso recitar uma de pessoal apreço?

Assenti, pensativa sobre a atitude dele.

— "Se se morre de amor! – Não, não se morre,

Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n'alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve e no que vê prazer alcança!

Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d'amor arrebentar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro."

— Uma poesia sobre o que é o amor, tio? Surpresa com sua escolha.

Tio Jean sorriu, os olhos perdidos na vastidão da campina.

— Minha querida esposa vivia a falar dessa. Na realidade, é uma reflexão sobre de que tipo de amor se morre, minha querida, e que tolamente rotulamos algumas coisas como amor, quando não passam de ilusões.

Os olhos castanhos pousavam em mim e fiquei envergonhada. Será que ele tentava me dizer que qualquer coisa pela qual eu sofria não era amor? Oras, nem eu sabia defini-lo!

— Nem a idade nos dá maturidade para a certeza de quando achamos o amor, querida Serena, compreende? Não precisa ficar confusa, é só analisar o que sente. Sabe o final do poema?

Não consegui nem responder de espantada que estava por estar tão evidente minhas velhas lamúrias.

— Pode dizê-lo.

— "Amar, é não saber, não ter coragem

Pra dizer que o amor que em nós sentimos;

Temer qu'olhos profanos nos devassem
(...)
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre! " Se morre desse amor, Serena, porque amor não tem nem fim.

Tio Jean me deu um tempo calada, somente segurou minha mão e a apertou levemente.

— Perdi minha esposa jovem demais em um acidente, querida, mas não imagina o quanto esse amor me faz falta, o quanto de morrer que existe em mim por conta dele. Perdemos muito tempo tentando tomar o controle de nossas vidas quando só deveríamos seguir a correnteza, entende?

— Sinto muito por sua esposa, tio Jean — cochichei, ainda impossibilitada de articular alguma frase coerente que duelaria com o grosso nó na garganta.

— Se morre de amor, Serena, e não é pouco. Consome-nos, embriaga-nos, nos deixa louco! Mas e não valeria a pena? Ouso dizer que valeria a pena uma vida inteira sozinho por ao menos alguns anos ao lado desse amor. Eu sou a prova viva disso, filha.

— Obrigada por me dizer isso tudo, não sabe como ajudou.

— Só gostaria de ver a nuvem que enevoa seus olhos desaparecer. Mas algumas coisas dessa vida temos que enfrentar sozinhos, não é? Não importa se quiséssemos estar na companhia de alguém, nós temos que fazer isso.

Retribui o aperto de tio Jean.

— Nossa! Sou muito grata pelo senhor.

— Espero que contribua para suas experiências. Afinal, um sábio aprende com os erros dos outros, não é mesmo? Agora eu já vou entrando que Marie deve pôr o jantar daqui a pouco, não se atrase!

— Não irei! — exclamei de volta quando ele já estava a caminho da casa, me deixando sozinha novamente, cheia de pensamentos.

Se eu virasse o olhar para trás, veria um campo verdíssimo sob um sol brilhante, poderia até vislumbrar um pouco do mar, porém quase nada veria de um antigo morro do qual eu me achava pertencedora.

Fechei o livro ao meu colo e suspirei fortemente, tentando expulsar de meu corpo toda vibração ruim.

Se se morre de amor? Do amor certo.

E desse eu estava escrevendo meu próprio óbito.

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Trouxe um bônus para vcs e no próximo vou explicar o que aconteceu e onde todo mundo se meteu! KKKKK, será POV Conrad e já to ansiosa!!! Beijooooo

Eeee essa é a primeira parte da minha dedicatória a linda da Thays! Parabéns atrasada, linda!! Muitas felicidades!

p.s.: morram de amor! é a melhor coisa!