Herança
1 Capítulo Único
Notas iniciais
One originalmente postada no SocialSpirit.
Essa Taiora com uma pegada bem triste, sugiro que preparem os lencinhos para limpar as lágrimas.
Kisses ;*************
Tudo começou há cinco anos, com o meu retorno ao Japão...
Com o término da escola, recebi a proposta de um time da Inglaterra e paralelo com os jogos e treinos poderia cursar faculdade. Era a oportunidade perfeita para realizar um dos meus grandes sonhos, que era ser jogador de futebol, porém estava na dúvida, havia algo que me prendia no Japão, o meu amor por ela. Cheguei a cogitar em não aceitar a proposta só para ficar aqui perto dela, no entanto, demorei demais pra revelar os meus sentimentos e o meu melhor amigo, que também era apaixonado por ela, foi mais rápido em declarar o que sentia.
Moral da história? A garota que eu amava ficou com ele e eu chupando dedo.
Por muito tempo sentia raiva de mim mesmo por ter sido tão idiota em desperdiçar as oportunidades que tive com ela, somos amigos de infância, morávamos um do lado do outro, tínhamos liberdade de falar o que sentíamos, ela sempre bronqueava comigo sobre a minha imaturidade, era como se fosse a minha irmã... Bem, quando entrei na adolescência isso mudou transformando em amor.
Seria um hipócrita em dizer que estava feliz por vê-los juntos, eu não estava. Você se sentiria feliz em ver a garota que ama com outro cara? Não né.
Esse foi o principal motivo pelo qual tomei a decisão de aceitar a proposta e ir embora do Japão tentar uma nova vida. Pensei que tanto tempo longe me faria esquecer de tudo, porém havia me enganado. Quando desembarquei naquela noite, sabia que não havia esquecido, os sentimentos estavam lá, mais fortes do que nunca.
Bem, a pergunta que não quer calar, porque eu voltei depois de tantos anos? Acabei sofrendo uma grave lesão no joelho, o que ocasionou a minha aposentadoria dos gramados. Poderia continuar morando na Inglaterra, virando treinador de algum time juvenil ou até mesmo dando aulas na faculdade, mas sabe, eu estava desmotivado, como se nada tivesse me satisfazendo. Fora que, sentia falta da minha família, minha mãe se encontrava muito doente e precisava de mim naquele momento.
Aquela noite em que voltei estava chuvosa e fria, era início de inverno no Japão. Hikari não pode me buscar, tinha alguns compromissos, acabei optando por pegar um táxi, o qual não conseguia andar pelas ruas, devido a tanta água que caía do céu, ocasionando uma parada numa esquina para esperar a chuva passar ou abrandar. Olhei para janela observando as ruas, notando que nada havia mudado, tudo estava tão igual quanto tinha ido embora. O que me chamou atenção foi um poste de luz fraco e uma garota extremamente pálida, encostada nele. Era notável a batalha que se encontrava para se manter acordada, seus olhos cor de chocolate estavam opacos e os cabelos ruivos estavam colados no rosto... Aquelas cores... Eu as conhecia de algum lugar... Não podia ser, mas era ela...
Desci do táxi, correndo ao seu encontro, a chuva forte molhou as minhas roupas, só que não me importava com aquilo, não podia a deixar ali naquele estado tão deplorável, precisava ajudá-la de alguma forma. A peguei no colo e retornei para o veículo ordenando para que o taxista seguisse com urgência, para o hospital mais próximo. Suas roupas estavam molhadas, sujas e rasgadas, meu Kami, se eu não tivesse chegado a tempo teria acontecido algo muito pior a ela. Minha mente fervilhava por questionamentos, mas aquele não era o momento, precisava salvar a sua vida.
A nossa sorte era que naquela noite quase não tinha ocorrências de feridos no hospital e logo ela foi atendida. Enquanto estava na sala de espera liguei para Hikari avisando que mandei um táxi com as minhas malas, pois havia surgido um imprevisto. Depois disso, tentei a todo custo falar com Yamato, celular, telefone fixo... Nada do loiro me atender… Quando estava tentando mais uma vez o contratar fui surpreendido pela chegada de Joe na sala de espera.
— Taichi-kun? Você era o cara mais improvável que veria essa noite. — Ele deu um largo sorriso me abraçando. Joe fazia parte da nossa turma de amigos, o garoto tímido, medroso e sem confiança havia se tornado um dos melhores médicos do Japão.
— Joe-senpai, que bom ver você por aqui. Como ela está? — Este foi o primeiro questionamento que fiz após me separar do seu abraço. Depois teríamos tempo para conversar trivialidades, naquele momento somente a saúde de Sora me preocupava.
— Bem, a equipe de enfermagem trocou as suas roupas molhadas por algumas secas. O que mais me impressiona é a condição que ela se encontra, seu corpo está muito fraco e desidratado, quase perdeu o bebê por conta disso. — Joe estava sério e bastante preocupado, assim como eu também havia ficado.
— Bebê? Como assim? Cara, cadê o Yamato? Onde ele se enfiou, pois não me atende! — Comecei a andar de um lado para outro, completamente nervoso com aquela situação, me questionando o porquê do meu melhor amigo faz isso com sua esposa.
— Taichi. — Joe me chamou pousando uma de suas mãos em meu ombro. — Eu não sei o que está acontecendo com o Yamato-kun, nos últimos tempos fiquei sabendo que eles estavam brigando muito. Quero que procure por ele quando Sora-chan estiver melhor. — Assenti com a cabeça e ele me indicou o quarto em que Sora se localizava.
Fiquei pensativo com suas palavras... Como assim eles estavam brigando? Pelo o que soube, através de Hikari, o relacionamento deles ia às mil maravilhas. Alguma coisa estava errada e eu precisava descobrir o que era. Conversamos mais um pouco e Joe me conduziu para o quarto onde Sora se localizava, sentei-me em uma das cadeiras e velei pelo seu sono a noite inteira. Analisei cada cantinho do seu rosto, ele estava um pouco mais corado, porém havia alguns arranhões nele, os cabelos ruivos estavam um pouco mais compridos do seu antigo corte. Mesmo com os anos tendo se passado, ainda havia aquele rosto de menina que me encantava tanto.
Senti meu estômago dar voltas e mais voltas, assim como os batimentos cardíacos disparados, daquela mesma forma de quando éramos adolescentes, quando ela chegava perto de mim e lançava seus lindos sorrisos em minha direção. Os anos podem ter passado, mas o amor que sentia por ela nunca tinha ido embora, pelo contrário, só crescia cada vez mais quando via alguma foto sua em jornal ou revista, como uma das revelações do mundo da moda.
— Taichi-kun? — Fui despertado de meus devaneios com sua voz doce e melodiosa. Olhei em sua direção e vi que ela sorria fracamente. Nossa, como ela é linda! Meu coração se encheu de alegria ao ver o seu mínimo sorriso.
— Sora-chan, quanto tempo. — Falei a primeira coisa que veio na minha mente, estava abobalhado demais para pensar qualquer outra coisa.
— Tem razão, seu bobo... Onde estou? — Ela tentou se levantar, porém a impedi apoiando minha mão em seu peito a fazendo deitar novamente.
— Você está no hospital. Ontem quando voltava de viagem, para casa, te encontrei escorada em um poste na chuva. O que deu em você para fazer isso? Ficou maluca? — Bronqueei com ela, exatamente como fazia nos tempos de escola comigo e o Yamato quando saiamos no soco. Esperava uma reação explosiva vinda da parte dela, mas o que recebi foi um muxoxo triste.
— Desculpe por estar causando esse transtorno para você. — Seu rosto se abaixou e algumas lágrimas brotaram dos seus olhos, tanto que uma teimosa, escorreu pela sua face. Instintivamente a limpei com a ponta do dedo indicador. Para ela estar neste estado, alguma coisa grave realmente tinha acontecido.
— Sora-chan, o que está acontecendo? Cadê o Yamato? — Me sentei ao seu lado da cama e fui surpreendido por um abraço dela, seguido de um choro angustiado e desesperado.
— O Yamato me traiu. — Murmurou abafada em meu pescoço.
Traído? Cerrei os punhos completamente furioso. Quem aquele, loiro idiota, achava que era?! Não acreditava que o ele havia traído a sua esposa, isso pra mim era inaceitável! Yamato sempre foi louco por ela, o grande amor da sua vida. O que havia levado ele fazer isso a ela?!
— Apesar das brigas que tínhamos, sempre achei que o nosso casamento duraria para sempre, mas me enganei completamente, ele deixou de me amar da noite para o dia, tirou tudo de mim e me deu os papéis do divórcio alegando que estava apaixonado por uma garota mais nova, que conheceu em uma das turnês da banda. — Os soluços se tornaram maiores e a apertei mais forte contra o meu peito, a protegendo de todo o mal.
— Calma, eu estou aqui agora. — Passei uma das minhas mãos pelos seus cabelos ruivos, tentando tranquilizá-la. — Ele sabe do bebê? — Questionei e recebi um balançar negativo de cabeça, como resposta.
— Não quero que ele saiba. — Ela levantou seu rosto me encarando séria.
— Mas... — Fui interrompido na mesma hora.
— Taichi-kun, por favor, prometa para mim. Não quero que esse bebê sirva como algemas para prendê-lo comigo. Essa criança não precisa nascer em um lar de faz de contas.
— Tudo bem Sora-chan. — Encostei a sua cabeça no meu peito voltando a afagar os seus cabelos. Estava difícil demais de engolir essa história, pelo o que conhecia de Yamato, ele seria incapaz de qualquer coisa que a fizesse sofrer dessa forma.
Naquele dia conversamos bastante, contei sobre a minha vida na Inglaterra, em alguns momentos ela sorriu das minhas besteiras, em outros chorou bastante contando sobre os momentos ruins de sua vida. Alguns exames foram feitos para saber como andavam as coisas com o seu corpo e o bebê, tanto que Joe me passou uma lista de remédios que ela deveria tomar e recomendações, como descansar e fazer muito repouso, pois sua gravidez era de risco.
Era insana a minha vontade de procurar Yamato para tirar toda essa história a limpo, porém Sora me informou que ele estaria em uma turnê pelo Japão e que demoraria alguns meses para retornar. Tive que respirar fundo e me segurar para ir investigar onde estava e ir atrás, aquele ainda não era o momento para nos encontrarmos.
No outro dia ela recebeu alta do hospital e fiquei sabendo que não tinha para onde ir, seus pertences haviam todos ficado na casa de Yamato e não queria mais nada vindo de lá. Minha amiga estava passando por uma fase muito difícil, havia perdido os pais em um acidente de avião há cerca de dois anos, chegou ao topo do sucesso como estilista revelação, mas teve suas criações roubadas e vendidas, ainda por cima por sua ex assistente que ela considerava como se fosse da família. Sem ter como provar que era dona das criações, ela foi acusada de plágio, sua fama e nome foram jogados na lama, denegrido nas revistas, jornais e colunas sociais e seu ateliê teve que ser fechado, a peças foram vendidas, as máquinas e manequins e o local tomado pelo banco, para saldar dívidas antigas.
Sora estava quase a beira de uma depressão, se Mimi estivesse no Japão, com certeza ajudaria, mas essa estava no Havaí com o marido. Até conversamos com Iori-kun, como ele é advogado talvez pudesse ajudá-la a recuperar o imóvel de alguma forma, ele disse que pode conseguir, mas levará muito tempo. Acabei levando-a para morar comigo, não poderia deixá-la sozinha e grávida vagando por aí, como Hikari namorava com Daisuke, passava mais tempo na casa do ruivo do que na nossa, obviamente ela fez um enorme questionário querendo saber o que aconteceu com Sora e a fiz prometer que não comentaria nada ao Takeru, temendo que acontecesse um escândalo em família.
Os meses foram passando, por serem figuras públicas, a notícia da separação de Sora e Yamato correu o mundo inteiro. Por muito tempo Takeru ficou inconformado com a decisão do irmão e o que mais temíamos aconteceu, eles brigaram a ponto de nunca mais um querer olhar na cara do outro. Eu sinceramente, só queria saber o que estava passando na cabeça do loiro para estar agindo daquela maneira com todos.
Bem, nessa passagem de tempo eu e Sora nos tornávamos cada vez mais próximos um do outro, exatamente como era nos tempos de escola, as lágrimas foram transformadas em doces sorrisos. Fazíamos muitas coisas juntos, passeávamos por vários lugares, íamos ao parque, cinema, fazer compras para o bebê que, descobrimos que seria uma menina. Aos poucos a sua motivação para voltar a desenhar voltou, tanto que havia feito uma nova coleção inspirada na palavra superação.
Os sentimentos que nutria por ela, ficaram cada vez mais fortes com o passar do tempo, só que tinha clara noção de que precisava controlá-los, ainda tinha uma coisa mal resolvida em toda essa história e seu nome, era Yamato, aguardava ansiosamente o seu retorno, o que não demorou muito para acontecer, descobri que ele estava na cidade graças a Hikari.
Numa noite deixei Sora com Hikari e fui até a casa de Yamato para colocar toda aquela história em pratos limpos. Bati várias vezes na porta de seu apartamento e me surpreendi quando a porta se abriu, revelando um cara extremamente pálido e magro, os cabelos loiros compridos caídos pelos ombros, o rosto estava quase como uma caveira e as olheiras super fundas. Um arrepio passou pelo meu corpo, aquele cara que vi em minha frente era de longe aquele que um dia foi o meu melhor amigo, era qualquer pessoa, menos ele.
— Taichi, eu esperava por você. — Sua voz me tirou de devaneios. Ele sorriu fracamente dando espaço para eu entrar no apartamento.
Nunca havia vindo à casa onde eles moravam, era um apartamento bem grande e amplo, porém fiquei horrorizado só de entrar naquele lugar, tudo bagunçado e muito sujo. O cheiro daquele ambiente era o mais desagradável possível, parece que algum animal havia morrido ali dentro e estava em estado de decomposição. A mesa de centro da sala estava cheia de bebidas, cigarros e medicamentos.
Voltei o meu olhar apavorado, para Yamato, as roupas estavam extremamente largas no seu corpo, com aspecto de doente, ele retirou um cigarro do bolso e o acendeu na minha frente, tragando tranquilamente.
— Então? — Ele encostou-se à borda do sofá arqueando uma das sobrancelhas.
Estava tentando ficar calmo, respirando profundamente, contando até dez, só que tudo foi para o ralo a partir do momento em que acertei um soco em sua cara, fazendo cambalear caindo no chão. Me atirei sobre ele, sentando em seu estômago, o encurralando e dei mais dois socos no seu rosto pálido, algo estava muito errado, Yamato não reagiu, se deixou ser atingido, antigamente ele teria partido para cima de mim e me acertaria também.
— Seu idiota, porque você fez isso com a Sora? Com o Takeru-kun? — Bati com o punho fechado ao lado de sua cabeça, quebrando o azulejo do chão, de forma que a minha mão sangrou um pouco.
Sentei-me de frente para ele respirando fundo, tentando, em vão me acalmar novamente. Por algum tempo o único barulho que se ouvia naquele ambiente era a minha respiração descontrolada, estava muito irado. As suas atitudes estavam causando sofrimento às pessoas que mais amam ele. Só queria realmente entender o que acontecia naquele momento.
— Eu vou morrer Taichi. — O silêncio foi quebrado com Yamato se sentando ao meu lado limpando um filete de sangue dos seus lábios.
— Morrer? Deixa de besteira Yamato. — Achei que era mais uma de suas brincadeiras de mau gosto, porém ele estava sério, com um olhar triste e vazio.
— Só me escute ok, não faça questionamentos. — Ele suspirou limpando a garganta. — Eu estou condenado, tenho um tumor maligno no meu cérebro. Dores de cabeça, náuseas e vômitos sempre foram comuns devido à enxaqueca que sempre tive. Em um dos shows eu convulsionei e desmaiei em seguida, algo muito estranho, pois nunca havia acontecido isso. — Uma pausa foi feita, respirou fundo e deu seguimento. — Fui a alguns médicos quando voltei e todos me diagnosticaram com essa doença em estágio terminal. Meu cérebro está 90% comprometido, só me resta esperar a morte mesmo.
— Quer dizer que... — Fiquei paralisado, não sabia como reagir naquele momento.
— Eu nunca traí a Sora, só tive que dizer aquilo a ela para terminar meu casamento. — Ele fechou os olhos contendo algumas lágrimas que brotavam. — Eu estou sofrendo demais longe dela, todas as noites quando vou dormir penso nela, não sinto mais vontade de viver, isso está me fazendo definhar ainda mais.
— Porque terminou o seu casamento? Não seria mais fácil contar a verdade a ela, vocês poderiam buscar alguma solução para você se salvar, fazendo quimioterapia, radioterapia… Existem tantos tratamentos que você poderia fazer… — Argumentei tentando abrir os seus olhos para a verdade.
— E todos eles eu vou morrer da mesma forma! — Se exaltou berrando frustrado. — Você acha que eu gostaria de vê-la sofrer com a minha morte? Viver infeliz e sozinha? Não, eu jamais me perdoaria se isso acontecesse. — Cerrou os punhos abrindo os olhos, ai as lágrimas corriam soltas. — O que mais desejo é que ela seja feliz com um cara que cuide dela, que dê amor, que a proteja... Não com um doente acabado como eu.
— Yamato você se entregou a essa doença, poderia ter procurado o Joe, ele acharia uma forma de te...
— Taichi. — Ele me interrompeu, seus olhos estavam opacos, vermelhos e inchados. Seus dedos finos trêmulos foram ao encontro das minhas mãos e as segurou com firmeza. — Taichi, você sempre foi o meu melhor amigo, meu irmão, eu quero que você faça Sora a mulher mais feliz desse mundo. Eu tenho total certeza de que você será um bom pai para a minha filha. Eu menti porque tinha que fazer estes shows para cumprir parte do meu contrato, que assinei com a banda. Se esse contrato fosse quebrado a Sora estaria em risco de vida.
— Como assim cara? — Perguntei confuso.
— Nossos patrocinadores, que deram o pontapé inicial para que decolarmos, não eram boas pessoas. Morrer devendo esse tipo de gente não é bom, eles iriam atrás da Sora e se eu contasse sobre a doença ela me impediria. Eu sei que tirei tudo dela, cada centavo, mesmo ela estando grávida, mas foi para libertá-la, salvar sua vida. Estou partindo e não tenho NADA para deixar para minha esposa e filha.
— Mas Yamato... — Arregalei os olhos, no mínimo Takeru deve ter dito a ele que Sora estava grávida.
— Acha que não enlouqueci quando descobri sobre a gravidez dela? Meu maior desejo era ser pai, ter uma garotinha loirinha correndo pela casa. Mas como você pode perceber, estou neste estado deplorável... — Suspirou triste. — Prometa. — Ele foi firme e eu balancei a cabeça concordando. — Não perca tempo e revele os seus sentimentos a ela. — Arregalei os olhos, nunca havia contado para ninguém sobre o que sentia pela ruiva. — Eu sempre soube que você a amava e sempre entendi o motivo pelo qual você foi embora, se fosse eu, certamente faria isso também.
— Por mais que os anos passaram, eu nunca a esqueci Yamato. Eu jamais tentaria fazer alguma coisa para separar vocês, eu preferi sofrer sozinho a ver o meu melhor amigo sofrer. — Naquela hora o meu coração se apertou, temendo que acontecesse alguma coisa.
— Sei que não faria nada. — Uma crise de tosse foi desencadeada, sua respiração se tornou ofegante. — Eu amo a Sora e vou amá-la para sempre. Por mais que eu esteja destruído, quebrado, quero que ela seja feliz. Entende agora o porquê fiz isso?!
— Sim, eu no seu lugar faria a mesma coisa. — Falei sincero, recebendo um sorriso triste de Yamato.
— Taichi. — Seus olhos se fecharam e os braços se abriram. — Cuide e proteja as minhas meninas… Eu sinto muito não ter nada para deixar para elas, mas quero que saiba que ambas são meu tesouro mais precioso, minha única herança, herança essa que estou confiando a você… Minha mais preciosa he...ran...ça...
Seu corpo foi perdendo peso quedando para trás, caindo como se fosse uma pluma. Acordei de todo o transe quando escutei o baque no chão. A sua respiração não foi mais ouvida... Nada mais foi ouvido naquele momento. As lágrimas fluíam dos meus olhos, não conseguia me mover. Minha mente parou, um flash de memórias passou em minha frente, todas relacionadas ao loiro caído em minha frente, nossos risos e brincadeiras, idas para a escola, encontros de fim de semana, passeios no parque central de Odaiba, conversas sobre garotas e planos para o futuro… Ontem éramos dois idiotas de terno verde trocando socos na rua e hoje...
Meu irmão e melhor amigo estava morto...
Yamato Ishida estava morto...
Aquele foi, sem dúvidas, um dos dias mais tristes para o mundo da música, os fãs choraram o falecimento precoce do loiro. Cartazes, flores e velas foram deixadas na frente de sua antiga casa. Houve pelo Japão inteiro manifestações de homenagem a ele, a CNN comentou que foi uma grande perda para o mundo do rock, estava no auge de sua carreira, comparando-o com grandes artistas como Kurt Cobain, Jimi Hendrix e Jim Morrison, todos falecidos aos vinte e sete anos, idade que Yamato tinha.
Eu estava acabado e destruído por dentro, fui a última pessoa que o vi antes da morte, chamou por socorro, implorando internamente por um fiapo de esperança de que estivesse ainda vivo. Só que não, ele estava morto mesmo. A verdade foi revelada na biópsia de seu corpo, segundo o laudo do necrotério, seu cérebro estava mesmo todo comprometido e faleceu em decorrência de um Acidente Vascular Cerebral.
Yamato se entregou a essa doença após a sua descoberta, durante o seu enterro os companheiros de banda relataram que ele havia perdido a vontade de compor e só estava cumprindo a agenda da banda, para dar a última oportunidade aos fãs de ver o seu show. Eles também me disseram que o loiro estava tão debilitado no último concerto, que cantou apenas duas músicas e saiu do palco, foi algumas horas depois do nosso encontro.
Nossos amigos do tempo de escola estavam todos reunidos naquele dia. Quem diria que nos reencontraríamos numa data tão triste, nenhum deles sabia o que havia acontecido com Yamato e foram pegos de surpresa com sua, precoce, morte. Os mais destruídos e inconformados eram, sem sombra de dúvidas, seus pais, Takeru-kun e Sora, tanto que tiveram que ser medicados por Joe, pois começaram a passar mal durante o enterro.
Quase que naquele dia Sora deu luz ao seu bebê, as recomendações eram de repouso absoluto, tanto que acabei parando de trabalhar para cuidar dela. Os primeiros dias foram complicados, ela não reagia e nem queria comer, ficava ao seu lado a alertando de que não estava sozinha no mundo e tinha uma linda menina dentro dela que merecia atenção e que jamais Yamato permitiria que algo de ruim acontecesse com ela. Aos poucos a ruiva foi se conformando com a morte do loiro e voltou gradativamente a querer viver. O seu renascimento se deu quando escutou pela primeira vez o choro de Atori, não só o dela, como o meu também, eu já considerava aquela menininha linda, como minha filha, tanto que me fiz presente em todos os momentos do seu primeiro ano.
No aniversário de um ano de Atori, nossos amigos voltaram a se reunir e dessa vez todos traziam sorrisos felizes em seus rostos, até Mimi compareceu acompanhada de seu marido, Iori nos deu a boa notícia de que havia conseguido recuperar o espaço que Sora usava como seu ateliê, Hikari e Daisuke estavam de casamento marcado enquanto Miyako e Ken já estavam com seu segundo filho a caminho, Joe está namorando uma enfermeira muito bonita e simpática, Koushiro nunca nos contou que o tal “amigo americano” com quem tinha sociedade, era na verdade uma mulher, jovem empresária, tão genial quanto ele, só nos contou agora que ela se mudou para o Japão e estão morando juntos… Takeru, bem… Esse demorou um pouco mais para se recuperar da perda do irmão, ainda mais que eles não estavam se falando, ele precisou fazer terapia e até chegou a tomar remédios por algum tempo, chorava todas as vezes que via a pequena Atori, mas hoje ele veio acompanhado de Natsuko e Hiroaki e parece está bem melhor, até nos contou que vai publicar um livro.
No final da festa, todos se foram e nós ficamos arrumando a bagunça, Atori já estava dormindo profundamente.
— Eu devo tanto a você. — Sora comentou enquanto arrumamos a bagunça.
— Não deve nada.
— Na verdade, agora que tenho minha loja de volta, acho que posso morar nos fundos e usar a frente como serviço de costura.
— Na verdade, acho que você poderia mesmo reabrir sua loja, mas eu queria mesmo que ficasse aqui tipo, para sempre…
Ela parou o que estava fazendo e me encarou confusa, senti que um ano foi tempo o suficiente para esperar que ela voltasse a viver, voltasse a sorrir e para me declarar, naquele momento eu me abri completamente e contei tudo o que sentia desde a adolescência. Eu não sabia como ela reagiria e gelei quando não me respondeu de imediato, os momentos que vieram a seguir foram sem dúvidas os mais mágicos e emocionantes da minha vida.
Atualmente estou trabalhando como treinador de Odaiba FC, mesma escola onde estudamos, Sora e eu estamos juntos e só não planejamos legalizar a união por parecer repentina e ofensiva a memória de Yamato “segundo a mídia” infelizmente mesmo eles tendo se divorciado antes de… Mesmo assim vivemos em uma sociedade machista e que preza pela dita “moral”, a julgam como viúva.
Eu estou cumprindo a promessa, Yamato, cuidando das suas meninas, não consigo mais imaginar minha existência sem elas, são as luzes da minha vida, me dão coragem todos os dias para enfrentar esse mundo violento e sem amor algum ao próximo. Chegar a noite cansado e ganhar um abraço bem apertado da Atori não tem preço, me deitar exausto desligando as luzes e receber um beijo de boa noite de Sora e escutar que a faço feliz a cada dia, não tem preço. os pais
Atori a cada dia que passa se torna mais parecida com você, aquela coisinha loirinha e marrentinha que quando embirra em um canto é difícil nem se Kami descer na Terra consegue dar jeito, mas que também é carinhosa e adora quando Sora coloca os seus CDs para ela ouvir. Pode ter certeza que ela sempre vai ouvir falar de você e sentirá como se você estivesse entre nós.
Creio que do lugar que você esteja, sei que está sentindo orgulho de nós. Eu vivo um dia de cada vez ao lado delas, vai demorar, mas sei que um dia vamos nos encontrar e quando isso acontecer eu sei que cumpri a minha missão com você. Enquanto eu estiver respirando vou cuidar da preciosa herança que você deixou em minhas mãos.
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