Herança

2 Nasce a luz


Notas iniciais
Aqui vai o segundo capítulo, muito menor que o primeiro, como prometido. Espero que estejam gostando. Não recebi nenhum review, mas vi que já tenho um leitor ou leitora e isso me animou bastante!
Gente, não tenho beta e não tenho tempo para revisar os capítulos, por isso, eles já vêm para cá do mesmo jeito que eu termino! Mas quando tiver um tempinho, eu os releio e corrijo os erros!
3bjs

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Capítulo dois — Nasce a luz


Lianna estava correndo como nunca havia corrido em sua vida. Ela estava em um labirinto, um labirinto escuro e cheio de árvores com garras enormes que tentavam alcançá-la. O medo nunca fora tão real.

Uma risada sinistra era a trilha sonora de seu despero. Ela soava, vinda de todos os cantos, como se a procurasse, a embalasse. E quanto mais Lianna corria mais próxima da origem da risada maléfica era parecia ficar.

Foi quando ela entrou em um corredor sem saída. No fim dele, saindo das sombras, a figura aterrorizadora de seu pai tomou forma, mas era diferente, pior. Seus olhos estavam avermelhados e tinham um único risco negro em seu centro, e de sua boca saía uma longa língua com a ponta bifurcada em duas, como a de uma cobra. Veneno pingava de sua língua bifurcada como água da chuva gotejando.

— Lianna… Eu vou te achar… — Disse ele, no que mais pareceu um silvo. — Ssse prepare… Você não essstá sssegura… Nem nunca essstará… Você não pode ssse esssconder… Eu ssei o que você roubou…

— NÃO!

Lianna acordou berrando, suando e desesperada. Ela se sentia quente. Sentando-se, ela passou a mão na testa e descobriu que realmente estava quente. Devia estar com febre, mas não se importava.

Havia tido um pesadelo. Outro pesadelo. O quinto seguido. Eram todos sempre meio parecidos, de alguma forma, ela estava correndo e Galbatorix sempre aparecia, dizendo coisas terríveis como que iria encontrá-la e torturá-la, e outras ainda piores.

— São apenas sonhos… — Ela murmurou, tentando se convencer. Não funcionou. Galbatorix era um mago, e, como um mago, podia entrar nos sonhos das pessoas. Ou seja, havia um risco real de que de fato fosse seu pai em todos esses pesadelos.

O Sol já estava nascendo, e, por isso, Lia decidiu que não iria dormir. Desse modo, ela levantou-se e, mancando, destruiu as evidências de que estivera ali — jogou os restos da fogueira da última noite no meio das árvores e deu fim às migalhas de pão no chão.

Lianna estava viajando havia cinco dias. Pelo o que observava em seu mapa no livro que Murtagh lhe dera, ainda estava muito longe de Dras-Leona, a cidade para a qual planejava ir.

Quando Lianna pulara da janela, surpreendentemente, não morrera. Ela suspeitava ser por causa de algum encantamento que Murtagh gritara, desesperado, ao vê-la pular…


Lianna prendeu a respiração, encarou seu desafio e pulou.

Um único pensamento preencheu sua mente durante o processo:

“Eu vou morrer”.

— Não! Lianna! Reisa! — Murtagh berrou, enfiando a cabeça na janela e apontando a palma da mão em direção à loira. Então, ao invés de se estatelar toda, Lianna planou um pouco antes de cair definitivamente no chão. O único machucado que teve foi uma torsão incomoda no tornozelo esquerdo, que fizera seus olhos encherem de lágrimas…

Fora assim que acontecera. E devido a isso, o pé esquerdo de Lianna, por dentro da bota, estava coberto por diversas faixas encardidas que ela roubara no varal de um vilarejo pelo qual passara, juntamente com uma faca, um pouco de água e comida e uma sacola de couro.

Estar sozinha não era novidade para Lianna, portanto, ela não se incomodava com o silêncio ou a solidão. Mas era estranho ver a luz do Sol, e conhecer tantos lugares novos.

Lia estava tentando seguir o mais próximo das estranhas e trilhas que podia, mas procurava evitar ficar muito à vista.

Após ter terminado de arrumar o lugar, Lianna se permitiu sentar-se um pouco e refletir. Após tantos anos sozinha naquelas masmorras, ela havia aprendido que a meditação era uma das maiores formas de se adquirir sabedoria. Lianna acreditava estar seguindo o caminho correto, naquela direção, mas estava guiando-se somente pelo mapa do livro, e, talvez, pudesse estar errada. Ela empurrou esse pensamento para longe de sua mente. Não podia dar-se ao luxo de hesitar agora.

Ela estava quase decidindo partir, agora que o Sol já estava um pouco mais alto, quando um barulho vindo de dentro da sacola lhe chamou atenção. Cautelosa, Lianna pegou a sacola com a ponta dos dedos e examinou-a por dentro. Era um chiado estranho que vinha de algum lugar lá dentro. Não parecia-lhe como um rato ou camundongo; ela já havia vivido muito tempo com esses animais para saber o barulho que eles faziam. Curiosa, Lia começou a tirar um por um os objetos que estavam ali dentro. Um pedaço de pão, uma fatia de queijo, um cantil de água, sua aljava com as flechas improvisadas dentro, o livro que Murtagh lhe dera…

— Ah! — Exclamou Lianna, ao encontrar a fonte do chiado estranho. Era a pedra. A pedra verde que roubara da torre mais alta do castelo de Galbatorix.

Estranhando, Lianna aproximou a pedra do rosto. Ela estava um pouco temerosa. Pedras não deveriam chiar. Mas era óbvio que aquela não era uma pedra comum.

Antes que Lia pudesse encostar a superfície da pedra na pele do rosto, a mesma começou a tremer e chacoalhar, fazendo com que a loira, assustada, largasse o objeto no chão.

Lianna afastou-se um pouco e começou a observar, de longe, enquanto a pedra chacoalhava e chiava e tremia, cada vez mais, até chegar a seu ápice: uma rachadura fundiu-se em sua superfície. Logo, mais uma e outra. Em pouco tempo, a pedra toda estava rachada e seus pedaços começaram a cair no chão, até que, finalmente, uma cabeça ergueu-se em seu topo.

Ah! — Exclamou novamente, dessa vez mais alto, com as mãos fortemente pressionadas em seu peito. A criatura tinha o corpo retorcido e de um tom de verde magnífico. Ela começou a se esgueirar para fora da pedra, derrubando diversos pedaços do chão, até que todo seu corpo ficou à vista.

Lianna sentiu seu coração falhar por um momento. Ali, em sua frente, lambendo a membrana que o envolvia, estava um dragão.


Lianna levou alguns segundos para recuperar-se do susto e assimilar o que estava acontecendo. Logo, ela entendeu. A pedra, na verdade, era um ovo… Mas não um ovo qualquer. Era um ovo de dragão. E aquela criatura verde-esmeralda que estava em pé na frente dela era o dragão que costumava estar lá estava dentro.

Aquilo parecia impossível. Murtagh lhe dissera que só haviam dois dragões, Thorn, e Shruikan. No entanto, pelo que Aya dissera, existia, além daquela criaturinha na sua frente, um outro dragão, do tal de Eragon. E Lianna já sabia que Murtagh não estava se mostrando uma pessoa muito confiável ultimamente.

Lianna observou bem o dragão à sua frente, embasbacada, maravilhada. Ele não era muito maior que seu antebraço, porém exalava nobreza e imponência. Suas escamas reluziam no mesmo tom verde-esmeralda forte da pedra, e, ao Sol, pareciam ter também os salpicos de dourado de seu ovo. O dragão esticou as asas. Elas eram mais compridas que o corpo. Ele tinha garras finas e ossos proeminentes. Era possível ver duas pequenas pontas brancas, suas presas, escapando para fora de sua boca, parecendo tão afiadas quanto suas garras. Suas costas eram pontilhadas por uma fileira de pequenos espinhos.

Lianna ficou tão hipnotizada que não percebeu que havia se movido até ouvir o ronronar que saíra da garganta do dragão e o mesmo se virar para ela, encarando-a desconfiado com seus grandes olhos amarelos. Ela imediatamente congelou. A última coisa que queria era um dragão correndo atrás dela, também.

Quando Lianna parou, o dragão pareceu relaxar, e virou-se para olhar o ambiente ao redor. A pequena criatura começou a cambalear de um lado para o outro, como se estivesse reconhecendo o terreno. Lia sorriu, achando aquilo adorável. Se sentindo subitamente confiante, Lianna esticou o braço na direção do dragão. Ele voltou sua atenção para ela e aproximou-se. Cheirou sua mão, ainda um pouco desconfiado. O sorriso da loira cresceu.

— Olá — ela sussurrou. — Meu nome é Lianna. Está tudo bem, você está seguro comigo.

O dragão mordiscou a manga de sua blusa, como se houvesse ententido, e, animada pelo gesto, Lianna tocou nele para acariciá-lo. *Uma explosão de energia gelada entrou pela mão dela e correu pelo braço, queimando-lhe as veias como fogo líquido. Caiu para trás dando um forte grito. Um barulho metálico encheu seus ouvidos, e ela ouviu um silencioso grito de fúria. Todas as partes de seu corpo queimavam de dor. Fez força para se mover, mas não conseguiu. Depois do que pareceram ser horas, o calor voltou aos seus membros, deixando-os formigantes. Tremendo incontrolavelmente, fez força e pôs-se de pé. Sua mão e dedos estavam paralisados. Assustada, ela observava o meio da palma de sua mão brilhar e formar um desenho oval branco e difuso. A pele coçava e queimava como em uma mordida de aranha.*

Lianna não entendia o que estava acontecendo, mas presumiu que tivesse algo a ver com o dragão. Sentia sua cabeça meio confusa, sua mente leve, como se alguma barreira houvesse acabado de ser quebrada. Este tempo todo, o dragão lhe encarava sem piscar, parecendo mais sábio com seus poucos minutos de vida do que Lia jamais fora em todos os seus dezesseis anos.

Aos poucos, o dragão foi se aproximando mais. Seu rabo raspou de leve na pele de Lia, que estremeceu, com medo de voltar a doer. Contudo, a dor não voltou, e ela arriscou encostar novamente no dragão. Desta vez, ela pode afagá-lo sem sentir choques elétricos.

O dragão roçou seu nariz na perna de Lianna, e uma corrente de pensamentos invadiu sua cabeça. Mas os pensamentos não pertenciam a ela mesma, e, logo, Lia entendeu que era o dragão se comunicando com ela. E ele estava faminto.

— Você quer comida! Mas… oh, com o que se alimenta um dragão-bebê? — Questionou-se Lianna. Ela arrancou um pedaço de seu pão e ofereceu ao dragão, que bufou e fez um som estranho com a garganta. — Carne. É isso o que você precisa. Mas onde eu irei achar?

Alguns minutos se passsaram enquanto Lianna fitava a criatura, os pensamentos vagando em todo tipo de pergunta. De repente, algo lhe ocorreu.

— Você precisa de um nome! Não posso ficar me referindo a você como dragão-bebê para sempre. Mas como vou saber se você é fêmea ou macho? Ah, se você pudesse falar…

Então, subitamente, seus olhos caíram sobre o livro que Murtagh lhe dera e ela lembrou-se da história que lhe marcara.

— Koriander! Vou te chamar assim. É um nome bom para fêmea e para macho. O que você acha de Koriander? — Perguntou, como se o dragão pudesse lhe entender. Ele encostou sua cabeça em seu colo e fechou os olhos, como se não ligasse, não se importasse com o que ela estava falando. — Então está bem. Mesmo se você não gostar, eu não ligo. Eu gosto. E, veja, eu odeio meu nome, Lianna. Mas não posso fazer nada sobre isso, porque as crianças não podem opinar sobre seus próprios nomes. Sendo assim, você será Koriander e pronto.

De repente, Lia começou a rir, achando-se muito tola por estar conversando com um dragão.

A mesma corrente de pensamentos lhe invadiu novamente. Koriander continuava faminto, ou faminta, mas não havia muito o que a loira pudesse fazer, não até que eles encontrassem um novo vilarejo ou algum animalzinho como um esquilo, pelo menos.

Suspirando, Lianna enconstou a ponta do dedo nas garras do dragão e sorriu. Sorriu, pois apesar de ter vivido sua vida inteira sozinha, ela estava feliz por, finalmente, não estar mais.


"A escuridão não pode expulsar a escuridão, apenas a luz pode fazer isso."

— Martin Luther King

Notas finais
Espero que não tenha sido tão entendiante como o anterior, se bem que eu sei que todo começo é meio chatinho! Mas depois demora, vocês vão ver, rs (:
Comentários são bem-vindos e muito apreciados...
xx