Era como se alguém tivesse aberto um buraco negro bem no centro do estômago de Charlotte. Um vazio que girava, sugando ar, esperança e qualquer resquício de equilíbrio que ainda restava. Cada respiração doía. A cabeça girava. O enjoo subia pela garganta como bile amarga. Ela queria correr para o banheiro da casa da avó, trancar a porta e vomitar tudo — o medo, a dúvida, o silêncio ensurdecedor de Mordred.

Mas quando a porta se abriu, Lady Catherine estava lá.

O abraço da avó foi imediato, firme e esmagador — o tipo de abraço que silenciava o caos por alguns segundos preciosos. Charlotte afundou nele como a criança que um dia correra descalça por aqueles mesmos corredores, rindo sem peso no coração. O cheiro familiar de baunilha, flor de laranjeira e algo antigo, quase como pergaminho velho, envolveu-a como um escudo.

Lady Catherine se afastou apenas o suficiente para segurar o rosto da neta entre as mãos envelhecidas, mas ainda elegantes. Seus olhos cinzentos, afiados como sempre, estudaram Charlotte com uma mistura de carinho e preocupação.

— Devo dizer que estou emocionada de ver minha neta preferida aqui tão cedo — disse ela, a voz suave e calorosa, com aquele leve tom de ironia que só ela conseguia usar.

Charlotte conseguiu sorrir, embora o sorriso tremesse nos cantos.

— Infelizmente sou sua única neta, vovó.

— Não deixa de ser a minha pessoa favorita neste mundo inteiro — respondeu Lady Catherine, piscando. Ela passou o braço ao redor dos ombros de Charlotte e a conduziu para o jardim dos fundos, onde o ar úmido de Londres parecia menos sufocante entre as roseiras antigas e o som distante do vento nas folhas.

Elas se sentaram no banco de ferro forjado, sob a pérgola coberta de hera. Charlotte soltou um suspiro tão profundo e trêmulo que a avó parou com a xícara de chá a meio caminho dos lábios, erguendo uma sobrancelha fina.

— Vai me contar o que realmente aconteceu na Itália, querida? Ou vou ter que arrancar de você como quando você tinha sete anos e quebrou meu vaso Ming?

Charlotte olhou para as próprias mãos, os dedos entrelaçados com tanta força que os nós estavam brancos. O pingente de ouro escondido sob a blusa ainda vibrava levemente, como um coração separado do corpo.

— Na verdade… eu espero que você possa me ajudar, vovó. — Ela ergueu os olhos, a voz baixa e hesitante. — Eu conheci alguém. E sei que papai nunca aprovaria.

Lady Catherine não perdeu o sorriso suave, mas seus olhos se estreitaram com interesse.

— Ele é inglês?

Charlotte confirmou com a cabeça.

— Tem tradição como a nossa família?

— Sim… tem tradição. — Charlotte engoliu em seco. — Até demais.

A avó tomou um gole lento de chá preto, deixando o aroma de baunilha e flor de laranjeira flutuar entre elas.

— E mesmo assim você não quer voltar com Julian — completou Lady Catherine, sem julgamento na voz, apenas uma calma antiga e experiente.

Charlotte balançou a cabeça, os olhos marejados.

— Não quero. Por mais seguro que ele seja, por mais arrependido que finja estar… nós sabemos o que ele fez. Eu sei. E depois do verão que eu vivi… — A voz dela falhou. — Foi mágico, vovó. Eu me senti viva de um jeito que nunca senti aqui. Eu amo vocês. Amo esta família. Mas voltar para esta realidade está sendo um pesadelo. Eu queria poder sentir aquilo de novo. Queria poder escolher.

Lady Catherine pousou a xícara no pires com um clique delicado. O silêncio que se seguiu foi pesado, mas não frio. Era o silêncio de quem já havia vivido muitas tempestades.

— Querida… — A avó esticou a mão e segurou a de Charlotte com firmeza, o polegar acariciando os nós dos dedos da neta. — Paixão de verão é assim mesmo. Cheia de intensidade, de fogo, de sentimentos que parecem capazes de mudar o mundo. Mas tem prazo de validade. É feita para ser vivida, não para ser carregada para o resto da vida. A longo prazo, querida, esses romances raramente compensam. Eles são bons precisamente porque sabemos que vão acabar.

Charlotte sentiu as palavras como um soco suave, mas doloroso. Seus olhos ardiam.

— Pela forma como as coisas estão desde que saí de Nápoles… acho que você tem razão — murmurou ela, a voz embargada. — Ele nem responde minhas mensagens.

Lady Catherine apertou sua mão com mais força, o olhar cheio de uma compaixão antiga e profunda.

— Então talvez seja hora de deixar ir. Você é a herdeira de Merlim, Charlotte. Carrega algo muito maior que um coração partido. E Julian… ele pode não ser perfeito, mas oferece estabilidade. Segurança. Um futuro onde você não precisará esconder quem é.

Charlotte quis contar tudo. Quis dizer o nome Vane Le Fay. Quis confessar que o homem que ela amava carregava o sangue de Morgana e dos druidas. Quis gritar que o pingente queimava porque a magia dela reconhecia a dele. Mas as palavras ficaram presas na garganta.

Em vez disso, ela apenas assentiu, forçando um sorriso fraco.

— Eu sei, vovó. Eu só… preciso de tempo.

Lady Catherine a puxou para outro abraço, beijando o topo de sua cabeça como fazia quando ela era pequena.

— Tempo você tem, minha menina. Mas não se perca nele. O coração às vezes mente para nos proteger. A família, não.

Charlotte fechou os olhos, sentindo o calor da avó contra si. Por alguns instantes, o vórtice dentro dela pareceu acalmar.


Quando Charlotte finalmente chegou em casa, em Kensington, o ar dentro da mansão Vancroft parecia mais pesado que o habitual. Seus pais a esperavam na entrada principal, com aquele sorriso cúmplice e levemente conspiratório de quem planejava algo. Ela sentiu o estômago revirar novamente. Já havia sido demais por um dia. Tudo parecia ter acontecido há séculos — uma vida inteira distante, não apenas alguns dias desde que deixara o azul de Capri para trás.

Ela deixou a bolsa cair sobre o aparador de mogno com um baque surdo. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, a mãe a envolveu em um abraço perfumado, apertado demais.

— Minha querida, temos visita — anunciou a mãe, a voz carregada de animação forçada. — Uma visita que vai te tirar desse jeito triste de se arrastar pela cidade como se o mundo tivesse acabado.

Charlotte não precisou perguntar quem era. O tom da mãe já entregava tudo.

Ela se arrastou até a sala de visitas, os pés pesados como chumbo. Julian estava lá, de pé perto da lareira, com as mãos nos bolsos do terno impecável, tentando parecer casual. Quando ele a viu, seu rosto se iluminou com esperança.

Charlotte parou na porta, o cansaço transformando-se em algo mais afiado. Um riso ácido curvou seus lábios.

— Julian e eu já conversamos há alguns dias, mamãe — disse ela, a voz baixa, mas cortante como vidro. — E seria muito legal se ele parasse de aparecer na minha casa e na minha vida como se eu não tivesse deixado claro que terminamos.

O silêncio que se seguiu foi sufocante. Os três — pais e Julian — ficaram ali, apáticos, sem saber como reagir à frieza repentina dela.

— Charlotte… — começou Julian, dando um passo à frente, a voz tentando ser conciliadora.

Ela não esperou. Virou-se e subiu as escadas sem olhar para trás, o coração batendo forte contra as costelas. Cada degrau parecia uma vitória pequena e dolorosa.

Só quando fechou a porta do quarto atrás de si é que permitiu que os ombros caíssem. O quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz fraca que entrava pelas cortinas pesadas. Charlotte encostou a testa na madeira fria da porta por um segundo, respirando com dificuldade.

Então pegou o celular.

A notificação brilhava na tela.

Uma mensagem de Mordred.

Seu coração entrou em descompasso imediato — um salto violento que fez o sangue correr quente pelas veias. Os dedos tremiam tanto que quase deixou o aparelho cair.

“Preciso te ver. Agora. Sem lua cheia. Sem Greenwich. Me encontre no meu apartamento em Mayfair.”

E logo abaixo, o endereço.

Charlotte leu a mensagem três vezes, como se as palavras pudessem desaparecer. O alívio veio tão forte que quase a fez cair de joelhos. Ele não havia desaparecido. Ele estava aqui. Em Londres. Esperando por ela.

Ela tomou o banho mais longo e revigorante de sua vida. A água quente escorria pela pele ainda marcada pelo sol de Capri, lavando o cansaço, a dúvida e o peso do dia. Quando saiu do banheiro, enrolada na toalha, seu humor havia mudado completamente. Havia uma euforia leve e perigosa pulsando no peito — como se o mundo, de repente, tivesse voltado a girar no sentido certo.

Ela desceu as escadas quase saltitante. Beijou os pais rapidamente no rosto, deu um aceno seco para Julian, que ainda estava na sala com cara de quem não entendia nada, e saiu pela porta antes que alguém pudesse questioná-la.

No carro, dirigindo pelas ruas molhadas de Londres, ela cantarolava baixinho uma música qualquer, as mãos firmes no volante. Ele chegou. Ele está aqui. Podemos ficar juntos. A esperança era tão intensa que chegava a doer. Tudo parecia possível novamente.

Quando estacionou em Mayfair e interfonou, o coração batia tão forte que ela sentia cada pulsação na garganta. O elevador subiu direto para a cobertura. Durante o trajeto curto, tudo que via em sua mente eram os olhos verdes dele — intensos, atormentados, cheios de promessas. O corpo quente e pálido contra o dela. Os ombros largos que a faziam sentir protegida e ao mesmo tempo completamente exposta.

As portas do elevador se abriram diretamente na cobertura luxuosa e minimalista.

E ele estava lá.

Mordred Vane Le Fay, parado no meio da sala, esperando por ela. A luz baixa da cidade entrava pelas janelas panorâmicas, desenhando sombras em seu rosto anguloso. Seus olhos verdes encontraram os dela imediatamente.

Por um breve segundo, eles apenas se encararam — o ar entre eles carregado, elétrico, quase palpável. Então, como se a gravidade tivesse decidido por eles, seus corpos foram atraídos um para o outro.

Charlotte deu dois passos e ele já estava ali, puxando-a pela cintura com urgência. Suas bocas se encontraram em um beijo faminto, desesperado, como se estivessem se afogando e o outro fosse o único ar disponível. Não havia delicadeza. Não havia palavras. Apenas necessidade pura.

As mãos dele deslizavam pelas costas dela, puxando o casaco, a blusa, qualquer barreira que ainda existisse. Peças de roupa caíam pelo chão da cobertura — jaqueta, camisa, vestido — deixando um rastro de tecido até o sofá largo e escuro. Os dedos de Charlotte se enroscavam nos cabelos escuros dele, puxando-o mais para perto, como se temesse que ele desaparecesse novamente.

O beijo era quente, molhado, urgente. Mordred a ergueu sem esforço, as pernas dela envolvendo sua cintura enquanto ele a carregava para dentro do apartamento. O mundo ao redor desapareceu — só existiam as respirações entrecortadas, o calor da pele dele contra a dela, o som baixo e rouco que escapava da garganta dele quando ela mordeu seu lábio inferior.

Eles caíram juntos no sofá, corpos colados, mãos explorando com uma fome que três semanas de distância haviam transformado em desespero. Charlotte sentia cada toque como fogo — as mãos grandes dele deslizando por suas coxas, a boca dele descendo pelo pescoço, o peso dele sobre ela como a única coisa sólida em um mundo que girava fora de controle.

Por aqueles minutos, nada mais importava.

Nem a família.

Nem Julian.

Nem as linhagens antigas que os condenavam.

Só existiam eles dois.

Depois do sofá, eles mal conseguiram chegar até o quarto.

Mordred a carregou pelo corredor escuro da cobertura, bocas ainda coladas, corpos suados e entrelaçados. Quando caíram na cama larga, o mundo reduziu-se a lençóis frios, pele quente e respirações urgentes. O desejo deles era voraz, quase violento — como se três semanas de distância tivessem transformado o amor em algo faminto e desesperado.

Horas depois, o silêncio finalmente chegou.

Mordred dormia profundamente ao lado dela, o peito subindo e descendo em um ritmo lento e pesado. Seu braço estava jogado possessivamente sobre a cintura de Charlotte, como se mesmo no sono ele tivesse medo de que ela desaparecesse. A luz fraca da cidade entrava pelas janelas sem cortinas, desenhando sombras suaves sobre os ombros largos e as runas fracas que ainda brilhavam levemente em sua pele.

Charlotte ficou deitada por longos minutos, observando-o. O coração dela ainda batia acelerado, mas agora era uma mistura de felicidade e exaustão. Ela se sentia viva novamente. Quente. Segura.

Com cuidado, deslizou para fora da cama, sentindo o ar frio da cobertura tocar sua pele nua. Pegou uma das camisas dele que estava caída no chão e vestiu-a. O tecido ainda guardava o cheiro dele — sal, madeira e algo selvagem. Caminhou descalça até a cozinha aberta, o piso gelado sob os pés.

Abriu a geladeira em busca de uma garrafa de água. A luz fria iluminou seu rosto enquanto bebia direto do gargalo, tentando acalmar o corpo ainda sensível.

Foi então que o celular de Mordred, esquecido sobre a ilha de mármore da cozinha, acendeu com uma notificação.

O brilho azul cortou a penumbra.

Charlotte hesitou apenas um segundo. Sabia que não deveria olhar. Mas algo — talvez o pingente que ainda vibrava levemente contra seu peito — a fez se aproximar.

Ela inclinou a tela.

A mensagem era da mãe dele.

Morrigan Le Fay: “Não perca tempo com sentimentalismo. Ela está vulnerável agora, depois do reencontro. Use isso. Entre na mente dela. Leia os pensamentos sobre o Selo de Camelot e sobre a fraqueza da linhagem Vancroft. Se você realmente quer que essa guerra acabe, termine o que começou. Não seja fraco, Mordred. O sangue de Morgana não perdoa traidores.”

Charlotte sentiu o ar fugir dos pulmões.

O mundo pareceu inclinar. A garrafa de água escorregou de seus dedos e caiu no chão com um baque surdo, espalhando água gelada pelos seus pés descalços. Seu peito apertou tanto que doía fisicamente. As palavras queimavam em sua retina: use isso… entre na mente dela… termine o que começou…

Ela não era um amor. Era uma missão.

Seus olhos ardiam. A magia dourada ameaçou subir à superfície, fazendo suas íris brilharem por um instante. O pingente queimava contra a pele como se quisesse arrancar o coração dela.

Passos leves soaram atrás dela.

Mordred apareceu no corredor, apenas de calça de moletom baixa nos quadris, o cabelo escuro bagunçado pelo sono e pelos dedos dela. Seus olhos verdes encontraram os dela imediatamente — e ele soube.

Ele viu o celular na mão dela. Viu a expressão no rosto dela.

— Charlotte… — A voz dele saiu rouca, carregada de pânico e culpa.

Ela deu um passo para trás, o corpo tremendo. A camisa dele, que minutos atrás a fazia sentir protegida, agora parecia uma prisão.

— Era isso? — A voz dela saiu baixa, quebrada, cheia de dor. — Desde o começo… eu era só uma ferramenta? Uma forma de chegar até a minha família? Até o Selo?

Mordred deu um passo à frente, a mão estendida, mas parou quando viu o olhar dela.

— Não… não é mais assim. Eu juro. Eu mudei. Desde Capri, desde você… eu…

Ele não conseguiu terminar. As palavras pareciam vazias até para ele.

O ar entre eles, que antes estava quente de desejo, agora estava gelado, carregado de desconfiança e mágoa. Charlotte sentia o coração se partindo em silêncio — um estilhaçamento lento e doloroso que ecoava no peito.

Eles se encararam na penumbra da cozinha, dois herdeiros de linhagens inimigas, nus de roupas e de mentiras.

Nenhum dos dois sabia se ainda podiam continuar juntos.

E, pior: nenhum dos dois sabia se algum dia realmente poderiam.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

E a primeira lua cheia ainda nem havia chegado.