Herança de Avalon

11 Lei da Conservação de Energia


Na lei da conservação de energia sabemos que a energia não pode ser criada nem destruída, apenas transformada ou transferida.

Charlotte não se orgulhava do que estava prestes a fazer. Mas a energia dentro dela — aquela força viva, teimosa e crescente — já havia se transformado. E a culpa… a culpa ela podia tentar transferir, se algo desse errado.

Fazia alguns dias desde que havia contado à mãe e à avó. Elas a abraçaram, choraram com ela, prometeram que estariam ao seu lado. Mas a verdade ainda precisava ser dita para a única pessoa que não sabia: Julian.

Ela seguiu agindo como se tudo estivesse bem. Sorria quando ele chegava do Parlamento, respondia às mensagens das amigas, deixava que a mãe a levasse para escolher cortinas para o quarto do bebê que ainda não existia oficialmente. Mas por dentro, a energia se acumulava, pesada, quente, inevitável.

Naquela noite, eles jantavam na sala de jantar do apartamento em Belgravia. A mesa estava posta com simplicidade elegante: velas acesas, porcelana fina, um vinho tinto que Julian escolhera com cuidado. Ele falava sobre o retorno ao Parlamento, sobre as expectativas para as novas eleições ministeriais, a voz animada e cheia de planos. Charlotte mal tocava na comida. O garfo deslizava pelo prato, movendo um pedaço de salmão de um lado para o outro, enquanto seu estômago se revirava.

— Aconteceu algo no trabalho? — perguntou Julian, deixando o garfo de lado e limpando a boca com o guardanapo. Sua mão deslizou sobre a mesa até encontrar a dela, fazendo um breve carinho no dorso dos dedos. O toque era quente, familiar, seguro.

Charlotte ergueu os olhos e o encarou. O nó no estômago apertou ainda mais.

— Sim, aconteceu — disse ela, a voz baixa, mas clara. Colocou o guardanapo sobre a mesa com cuidado exagerado, como se o gesto pudesse lhe dar coragem. — Julian… há dois meses, mais ou menos, depois que você me pediu em casamento… eu transei com Mordred.

O silêncio que se seguiu foi tão denso que parecia ter peso físico.

Julian piscou, o rosto perdendo a cor por um segundo.

— E por que está me falando disso agora? — A voz dele saiu com um tom rancoroso, quase cortante, como se as palavras tivessem gosto de ferro.

Charlotte respirou fundo. Seus dedos tremiam levemente sobre a mesa.

— Porque estou grávida.

Eles se encararam por instantes que pareceram uma eternidade. O ar entre eles ficou rarefeito, carregado de eletricidade estática.

— E tem mais de noventa por cento de chance desta criança não ser sua.

Julian pressionou os lábios com força, como se tentasse conter um xingamento. Lentamente, ele se levantou da cadeira, passou as mãos pelo rosto e pelo cabelo, andando de um lado para o outro da sala. A veia em seu pescoço pulsava visivelmente.

— E como você pode ter tanta certeza? — parou ele, a mão na cintura, a voz tremendo de raiva contida.

— Porque fiz uma ultrassom. Pelo tempo de gestação… não condiz com a vez que ficamos juntos novamente. Foi quase um mês depois. Eu já deveria estar grávida.

— Caralho, Charlotte… — esbravejou ele, a voz subindo de tom. — Você me trair é um karma que eu mereço por tudo que te fiz. Mas filho de outro? — A têmpora dele saltava. — O que você faria se uma daquelas garotas aparecesse na porta com uma criança no colo? Coloque-se no meu lugar!

Charlotte se levantou também, o corpo inteiro tremendo de uma mistura de culpa, raiva e exaustão.

— Para começo de conversa, só conheci Mordred porque você resolveu molhar seu pinto em cada vagina deste país. E graças a Deus você não me passou nenhuma DST. Eu fiz aquela viagem para tentar esquecer que estava com mais chifres do que um alce escocês. — Ela parou diante dele, os olhos brilhando com lágrimas não derramadas. — Se quiser me deixar, tudo bem, Julian. Eu vou criar essa criança de todo jeito.

— Te deixar? — Ele soltou uma risada curta, amarga, quase maquiavélica. — Depois de todo o trabalho? Eu serei seu marido, querida, até que a morte nos separe. Lembra? — O sarcasmo pingava de cada palavra. — Não seremos a primeira família britânica criando um bastardo.

O tapa veio rápido e forte. A palma da mão de Charlotte acertou o rosto dele com um estalo seco que ecoou pela sala.

— Meu filho não é nenhum bastardo — disse ela, a voz baixa e cortante como vidro. — O único bastardo aqui é você, com sua ignorância e sua ilusão de superioridade, sendo que na verdade é só um grande bosta.

Ela virou as costas e subiu as escadas, o coração martelando no peito. Atrás dela, ouviu o som de pratos sendo jogados no chão — porcelana se estilhaçando contra o mármore, o barulho violento ecoando pela casa como um grito final.

Charlotte entrou no quarto, fechou a porta e encostou-se nela, deslizando até o chão. As lágrimas vieram quentes e silenciosas. Ela abraçou os joelhos, sentindo o peso da gravidade mais forte do que nunca.

A energia não havia sido destruída.

Apenas transformada.

E agora, o que restava era lidar com as consequências.

Depois da noite em que contou a Julian, o apartamento em Belgravia se tornou um campo minado silencioso. Eles não brigavam mais em voz alta. Brigavam com olhares, com silêncios, com a forma como ele desviava os olhos quando via a barriga dela ainda quase imperceptível. Charlotte vivia como quem carregasse um pecado, não um bebê. Escondia o corpo em roupas largas mesmo quando não precisava, evitava espelhos, evitava qualquer conversa que pudesse levar ao assunto. Julian, por sua vez, fingia que nada havia mudado. Sorria para os amigos, beijava sua testa antes de dormir, mas o toque era mecânico, como se ele estivesse cumprindo um contrato.

Ela não queria que ninguém soubesse. Nem as amigas, nem os colegas do hospital, nem mesmo o pai (além da mãe e a avó). Era como se, ao manter o segredo, pudesse adiar a realidade de que dentro dela crescia algo que não pertencia à vida que ela havia aceitado.

Um mês se passou.

A gravidez ainda não era evidente. Apenas uma leve curva que ela disfarçava com blusas soltas e jalecos largos. Charlotte seguia sua rotina com precisão cirúrgica: plantões, cirurgias, conversas com pacientes. Era o único lugar onde ainda se sentia no controle.

Naquela tarde, ela caminhava pelo corredor ao lado da Dra. Lena Hargrove, conversando sobre o caso de um menino de sete anos que infelizmente tinha um tumor agressivo no cerebelo.

— O coitado está aguentando bem a quimio, mas os pais… — Lena balançou a cabeça, a voz carregada de tristeza. — Eles estão se desfazendo por dentro.

Charlotte assentiu, sentindo o peso familiar da empatia apertar seu peito.

— Eu sei. Ontem ele me perguntou se ia poder voltar a jogar futebol. Eu quase chorei na frente dele.

Elas pararam em frente ao consultório de Charlotte. Lena tocou seu braço com carinho.

— Você está bem? Parece mais quieta ultimamente.

— Só cansada — mentiu Charlotte, forçando um sorriso. — O casamento, o trabalho… você sabe.

Lena aceitou a resposta com um aceno, mas seus olhos diziam que não acreditava completamente.

Charlotte entrou no consultório e fechou a porta. Estava prestes a se sentar quando ouviu duas batidas leves.

— Entre.

O homem que entrou era elegante, de cabelos grisalhos bem cortados e um terno preto de corte impecável que parecia feito sob medida para esconder anos de cansaço. Seus olhos eram tranquilos, porém inquietos — como quem tinha passado noites terríveis acordado, lutando contra fantasmas que não o deixavam dormir.

Charlotte franziu o cenho, levantando-se devagar.

— Posso ajudar?

O homem fechou a porta atrás de si com cuidado e inclinou a cabeça em um cumprimento educado.

— Dra. Vancroft. Ou devo dizer… Sra. Ashcroft agora? — A voz dele era grave, refinada, com um leve sotaque do norte. — Meu nome é Cian Vane. Sou o pai de Mordred.

O nome caiu entre eles como uma pedra em água parada. Charlotte sentiu o ar fugir dos pulmões. Seus dedos apertaram a borda da mesa.

— Sr. Vane — disse ela, mantendo a voz firme, embora o coração batesse descompassado. — Não esperava uma visita sua. Em que posso ajudar?

Cian deu um passo à frente, analisando-a com olhos que pareciam ver além da superfície.

— Eu esperava alguém diferente — confessou ele, com um meio-sorriso cansado. — Mais… dourada. Mais como as histórias que contam sobre a linhagem de Merlim, algo grandioso.

Charlotte soltou uma risada baixa, educada, mas com um fundo ácido.

— Desculpe decepcioná-lo. Sou apenas uma neurologista com um jaleco branco e uma agenda lotada. O que o traz aqui, Sr. Vane?

Ele não respondeu imediatamente. Caminhou até a janela, olhando para o céu cinzento de Londres antes de voltar o olhar para ela.

— Ando tendo sonhos com você, você em alguns traz rachadura entre os mundos, em outros você traz a solução para os problemas.

Charlotte sentiu um frio subir pela espinha.

— Devo me preocupar?

— Não — respondeu ele rapidamente, erguendo uma mão. — Não comentei nada com Mordred. Nem com Morrigan. São só… visões. Fragmentos. Mas fortes o suficiente para me tirar o sono e querer te conhecer.

Ela cruzou os braços, tentando manter a compostura.

— Como médica, posso receitar algo para ajudar a dormir. Como pessoa… não sei como isso poderia ajudar em algo. Se não for questão médica, peço que se retire.

Cian Vane a observou por mais um segundo, os olhos inquietos analisando cada detalhe do rosto dela. Depois, inclinou a cabeça com elegância e sorriu

— Vou me encontrar com Mordred e Siobhan, ela está passando por exames neste momento. E aproveitei para vir te ver.

Charlotte sentiu o sangue gelar. Siobhan e Mordred. Aqui. No mesmo prédio que ela.

Cian saiu pela porta com a mesma elegância silenciosa com que havia entrado, deixando atrás de si um silêncio pesado.

Charlotte ficou parada no meio do consultório, o coração batendo forte contra as costelas. Seus olhos caíram sobre o computador. A tentação de abrir o sistema e procurar o nome de Siobhan O’Shea era quase irresistível. O que ela estaria fazendo ali? Por que agora?

Mas ela respirou fundo, fechou os olhos por um instante e desligou a tela do computador com um clique decidido.

Não. Não hoje.

Ela se sentou na cadeira, colocou as mãos sobre a barriga ainda discreta e sentiu o leve pulsar de vida que carregava dentro de si. E agora, mais do que nunca, ela precisava decidir o que faria com ela.



Siobhan queria testar a teoria.

Os feitiços que ela havia lançado sobre Mordred — aquelas palavras antigas sussurradas enquanto ele dormia, as mãos frias sobre sua cabeça, a magia negra deslizando como fumaça para dentro da mente dele — precisavam ser verificados. Ela precisava saber se Charlotte estava realmente desaparecendo dos pensamentos do marido, se o laço de sangue que ela havia forjado estava funcionando.

Morrigan, ansiosa pela chegada do herdeiro que consolidaria o poder da linhagem, não hesitou. Marcou uma consulta no mesmo hospital onde Charlotte trabalhava — o St. Thomas —, para que Siobhan fizesse os exames necessários e confirmasse que seu corpo estava pronto para gerar o próximo herdeiro dos clãs.

Enquanto Siobhan estava na sala de exames, deitada na maca fria com o gel condutor espalhado sobre a barriga, Mordred saiu para pegar um café. Ele precisava de ar. Precisava de qualquer coisa que o tirasse daquele cheiro clínico e da sensação constante de que algo dentro dele estava faltando.

Charlotte, após a visita inesperada de Cian Vane, sentiu que as paredes do consultório estavam se fechando. O ar parecia pesado, o jaleco apertado demais. Ela precisava respirar. Saiu do setor, pegou o elevador até o terraço e parou na pequena cafeteria ao ar livre. O vento frio de Londres batia em seu rosto, carregando o cheiro de chuva recente e asfalto molhado. Ela pediu uma vitamina de frutas, segurando o copo quente entre as mãos trêmulas, tentando acalmar os batimentos cardíacos que ainda ecoavam como um tambor dentro do peito.

Foi então que ela o sentiu.

Aquele arrepio familiar na nuca. Aquele puxão invisível que sempre anunciava a presença dele.

Charlotte ergueu os olhos.

Mordred estava parado a poucos metros dela, segurando um copo de café, o olhar fixo no dela como se tentasse resgatar algo perdido nas profundezas da própria mente. O vento bagunçava seus cabelos escuros, e ele parecia mais magro, mais sombrio, como se os últimos meses tivessem apagado partes dele. Seus olhos verdes — aqueles mesmos olhos que um dia a olharam como se ela fosse o centro do universo — agora carregavam uma confusão dolorosa, uma luta silenciosa que ele não conseguia nomear.

O copo de vitamina escorregou dos dedos de Charlotte.

O líquido rosa-claro se espalhou pelo chão do terraço com um som molhado e abafado, respingando em seus sapatos e na barra do jaleco. Ela ficou paralisada, o coração batendo tão forte que parecia querer romper as costelas. O vento frio soprou mais forte, colando uma mecha de cabelo loiro no rosto úmido de suor frio.

Mordred não se moveu.

Ele apenas a encarou.

Por longos segundos que pareceram horas, os dois ficaram ali — separados por poucos metros e por um abismo inteiro de segredos, mentiras e magia negra. O ar entre eles vibrava com algo antigo, algo que nem o ritual de Siobhan conseguira apagar por completo.

Então, com a voz rouca, quase um sussurro quebrado, ele disse apenas:

— Você…

A palavra saiu como se doesse, como se ele estivesse tentando puxar algo das profundezas de uma memória que escapava entre seus dedos. Ele respirou fundo, o peito subindo devagar, e o cheiro do perfume dela — aquele leve aroma de jasmim e pele quente que ele não conseguia nomear, mas que seu corpo reconhecia — invadiu seus pulmões como uma onda dolorosa.

Charlotte sentiu o ar fugir dos seus próprios pulmões. Seus olhos se encheram de lágrimas que ela se recusava a deixar cair. O coração batia descompassado, um ritmo caótico que ecoava no silêncio entre eles.

Nenhum dos dois falou mais nada.

Apenas ficaram ali, presos no olhar um do outro, enquanto o vento frio de Londres continuava soprando, carregando consigo o peso de tudo que não podia ser dito — e de tudo que a magia negra ainda não conseguira apagar.