Herança de Avalon
18 Convocação das Sombras
A cozinha do apartamento em Belgravia estava mergulhada em uma luz amarelada e fria, vinda do lustre sobre a ilha central. O cheiro de comida requentada pairava no ar — arroz de açafrão, legumes grelhados e um leve aroma de vinho tinto que Julian havia aberto mais cedo. Charlotte estava de pé diante da pia, dispensando o que restara do jantar, os movimentos lentos e pesados. No sexto mês de gravidez, sua barriga já era evidente, uma curva firme e arredondada que pressionava contra o tecido da blusa larga. Cada movimento fazia com que sentisse o peso — não só físico, mas o peso de tudo que carregava: o luto pela avó, o segredo do pai da criança, a raiva que ainda queimava como brasa viva no peito.
Julian entrou trazendo os pratos sujos, o rosto marcado por olheiras profundas. Ele parecia cansado, não só no semblante — algo nele estava sendo drenado, como se uma força invisível sugasse sua vitalidade dia após dia. Seus olhos encontraram os dela. Charlotte encostou no balcão, cruzando os braços sobre a barriga protetora, e suspirou.
— Quer me contar algo? — perguntou ela, a voz baixa, mas carregada de uma exaustão que ia além do corpo.
Julian parou, limpando as mãos em um pano de prato. Um sorriso cansado curvou seus lábios, mas não chegou aos olhos.
— Por que eu teria algo para te contar, querida? — Ele se aproximou, tocando seu queixo com os dedos. O toque era gentil, quase automático.
Charlotte sustentou o olhar dele, sentindo o nó no estômago apertar.
— Porque sinto que você está com cansaço na alma, Julian. Como se estivesse escondendo algo pesado demais para suportar sozinho.
Ele soltou uma risada curta, amarga, e passou por ela, colocando os pratos na lava-louça com mais força do que o necessário.
— Minha esposa está grávida de outro homem. Acho que estou mesmo escondendo algo.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Charlotte sentiu o peito apertar, a culpa e a raiva misturando-se em uma bola quente que subia pela garganta.
— Não é só isso — insistiu ela, a voz tremendo levemente. — Quando soube, você não ficou assim. Mas agora parece que você está me escondendo algo mais. O que uma das suas amantes engravidou?
Julian parou, as mãos ainda na pia. Ele se virou devagar, o rosto pálido de espanto.
— Claro que não — respondeu ele, a voz rouca. — Sabe que tomo cuidado. — Ele suspirou, pressionando os lábios. — Talvez seja só o trabalho… e todo o drama desde que você engravidou, e a morte da sua avó. Isso me sobrecarrega também, Charlotte. Quando estamos fora daqui, temos que ser perfeitos. Meus pais achando que essa criança é minha… toda Londres achando… você neste seu luto infernal. E tem a Siobhan.
Charlotte sentiu o nome como um soco no estômago.
— O que tem a Siobhan? — cortou ela, a voz afiada.
Julian desconversou, virando o rosto.
— Nada. Apenas pensei em como ela tenta sempre te atacar.
Ele saiu da cozinha, deixando Charlotte sozinha com o som da chuva batendo contra a janela e o peso de mil segredos não ditos.
Ela suspirou, a mão indo automaticamente para a barriga. O bebê se mexeu, um chute suave, quase reconfortante. Charlotte fechou os olhos, sentindo as lágrimas queimarem. Queria se vingar de Siobhan. Queria que ela e toda a família Le Fay pagassem pela perda da avó. Mas naquele momento, se um garfo caísse no chão, ela não conseguiria se abaixar para pegá-lo. Como enfrentaria Siobhan?
O interfone tocou. Um pacote havia chegado.
Charlotte autorizou a subida, o coração acelerando sem motivo aparente. Quando o entregador deixou a caixa em suas mãos, ela sentiu um calafrio. A caixa era antiga, com holografia dourada que ela reconhecia dos grimórios da avó — símbolos que pareciam se mover sob a luz. Ela abriu com dedos trêmulos.
Dentro, um envelope vermelho de papiro antigo, selado com um brasão dourado: um pentagrama entrelaçado com uma árvore cujas raízes pareciam raízes de um carvalho milenar. O selo brilhava com uma luz própria, como se contivesse magia viva.
Charlotte abriu o envelope com o coração na garganta.
As palavras brilhavam em tinta dourada, como se tivessem sido escritas com luz:
Sra. Charlotte Aurelius Vancroft,
Herdeira da Linhagem de Merlim,
Você foi convocada ao Conselho das Linhagens Antigas, que se reunirá nas Terras Altas da Escócia, no Círculo de Calanais, sob a lua cheia de Beltane. A presença é obrigatória. O sangue de Merlim é chamado a testemunhar.
Não leve quem não carrega o Sangue Antigo.
A Profecia se move.
Charlotte sentiu o ar fugir dos pulmões. O papel tremia em suas mãos. O brasão brilhava mais forte, como se respondesse à sua magia. Ela sentiu o bebê se mexer novamente, mais forte, como se também sentisse o chamado.
O mundo mágico, que ela havia mantido afastado por tanto tempo, acabara de abrir suas portas.
E ela sabia, no fundo da alma, que não poderia mais se esconder.
Charlotte pressionou os lábios com tanta força que sentiu o gosto metálico do próprio sangue. O envelope de papiro antigo ainda tremia levemente entre seus dedos, como se o brasão dourado — o pentagrama entrelaçado com raízes de carvalho milenar — tivesse vida própria e soubesse exatamente o peso que carregava. A tinta brilhava com uma luz interna, dourada e antiga, pulsando como se respirasse ao ritmo do coração dela.
Ela não podia deixar Julian ver aquilo.
Com o coração martelando contra as costelas, Charlotte dobrou o envelope com cuidado quase reverente e o escondeu na gaveta da escrivaninha do quarto, debaixo de uma pilha de relatórios médicos antigos e anotações de magia que a avó lhe deixara. O papel pareceu resistir por um segundo, como se não quisesse ser ocultado, antes de desaparecer sob os documentos.
Ela caminhou até o calendário pendurado na parede da cozinha. Seus dedos deslizaram pelas datas até encontrar a lua cheia de Beltane. Faltavam apenas quatro dias. Beltane — a antiga festa do fogo, do renascimento e da fertilidade, quando o véu entre o mundo dos homens e o mundo das linhagens antigas ficava mais fino. A lua cheia daquela noite não era apenas um fenômeno celeste; era um portal de poder, um momento em que o Conselho das Linhagens Antigas se reunia para julgar, negociar alianças e, quando necessário, declarar guerras silenciosas que ecoavam por gerações.
Charlotte sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O bebê se mexeu dentro dela, um chute suave, quase como se também sentisse o chamado ancestral.
Ela pegou o celular com dedos trêmulos e mandou uma mensagem curta para o pai:
“Recebi um envelope do Conselho. Preciso ir.”
A resposta veio quase imediatamente, como se ele estivesse esperando:
“Se você recebeu o envelope, tem que ir. É lei antiga. Tome cuidado, minha filha. E proteja o que carrega.”
Charlotte suspirou, o peso no peito crescendo como uma pedra. Ela guardou o celular no bolso e entrou no quarto.
Julian saía do banheiro, uma toalha baixa na cintura, o peito ainda úmido do banho. Gotas d’água escorriam pela pele dele, brilhando sob a luz suave do abajur. Ele era bonito, seguro, familiar. Mas Charlotte sentia apenas uma distância fria, como se estivessem vivendo em realidades paralelas.
— Preciso viajar para a Escócia — disse ela, a voz mais firme do que se sentia. — Negócios do hospital. Uma conferência de neurologia em Edimburgo.
Julian parou, secando o cabelo com outra toalha. Seus olhos castanhos a observaram com uma mistura de surpresa e preocupação genuína.
— Agora? Com a gravidez já no sexto mês?
— É importante — mentiu ela, sentando-se na beira da cama. — São só dois dias. Vou de trem. Assim posso descansar durante a viagem.
Julian se aproximou, tocando seu ombro com gentileza. O toque era quente, mas Charlotte sentiu apenas o peso da mentira entre eles.
— Tome cuidado, por favor — murmurou ele, inclinando-se para beijar sua testa. — Não quero que nada aconteça com você… ou com o bebê.
Charlotte assentiu, forçando um sorriso pequeno.
— Eu vou ficar bem.
Julian concordou, mas seus olhos ainda carregavam uma sombra de dúvida. Ele não insistiu. Talvez soubesse, no fundo, que insistir não mudaria nada.
Charlotte ficou sentada na cama depois que ele saiu do quarto, as mãos sobre a barriga. O bebê se mexeu novamente, mais forte dessa vez, como se respondesse à presença do segredo que ela carregava. Ela fechou os olhos, sentindo as lágrimas queimarem por trás das pálpebras.
A convocação havia chegado.
E com ela, a certeza de que o mundo mágico — o verdadeiro mundo das linhagens antigas — estava prestes a puxá-la para o centro de uma tempestade que ela não sabia se conseguiria enfrentar sozinha.
O envelope, escondido na gaveta, parecia pulsar com uma luz fraca, como se o próprio Conselho estivesse chamando por ela através das paredes.
Charlotte respirou fundo, tocando a barriga mais uma vez.
— Vamos ver o que o destino quer de nós — sussurrou ela para o filho que carregava.
Charlotte passou os dias seguintes em um turbilhão silencioso de preparativos.
Ela arrumou uma mala pequena com roupas quentes — as Terras Altas da Escócia em Beltane ainda carregavam o frio cortante do norte —, alguns grimórios antigos da avó embrulhados em tecido protetor, e um frasco de poção calmante que Lady Catherine havia lhe ensinado a preparar. A barriga, agora no sexto mês, já era uma presença constante, pesada e viva, pressionando contra o tecido das blusas largas que ela usava para escondê-la. Cada movimento fazia com que sentisse o bebê se mexer, como se a criança também soubesse que algo grande estava por vir.
Na estação de King’s Cross, o caos humano era quase ensurdecedor. O ar cheirava a café queimado, metal quente dos trilhos e a leve umidade da chuva que caíra mais cedo. O teto alto de vidro e ferro deixava entrar a luz cinzenta de Londres, criando longos feixes que cortavam a multidão apressada. Pessoas corriam de um lado para o outro — executivos com malas de rodinhas, turistas com mochilas enormes, famílias carregando crianças agitadas. O anúncio de partidas ecoava pelos alto-falantes, misturando-se ao barulho constante de rodas no chão e conversas apressadas.
Charlotte caminhava devagar, a mala puxada por uma alça, a mão livre protegendo instintivamente a barriga. O bebê se mexeu novamente, um chute suave que a fez parar por um segundo, respirando fundo. Ela sentia o peso da convocação como uma âncora no peito — o envelope dourado guardado no fundo da bolsa parecia pulsar com vida própria.
Ela encontrou a plataforma e entrou no trem, o ar dentro da cabine mais quente e abafado. O vagão era clássico, com painéis de madeira escura, assentos de veludo verde e janelas grandes que emolduravam a paisagem cinzenta de Londres. Charlotte escolheu um assento na janela, acomodando-se com cuidado. A barriga tornava tudo mais difícil — sentar, respirar, esconder. Ela puxou um livro antigo de feitiços de defesa do grimório da avó, abrindo-o no colo como um escudo.
O trem começou a se mover. Londres deslizava para trás, os prédios dando lugar a campos verdes e cinzentos. Charlotte tentou ler, os olhos percorrendo as palavras antigas, mas sua mente estava longe.
Foi então que ela sentiu.
Aquele arrepio familiar na nuca. O puxão invisível.
Ela ergueu o olhar.
Mordred passava pelo corredor do vagão, a poucos metros dela. Ele vestia um casaco escuro, o cabelo ligeiramente bagunçado, carregando uma pequena mala. Seus olhos verdes varreram o vagão e pararam nela.
Charlotte tampou o rosto com o livro rapidamente, o coração disparando como um tambor de guerra. O bebê se mexeu com força, como se também sentisse a presença do pai. Ela prendeu a respiração, os dedos apertando as páginas antigas até os nós ficarem brancos.
Mas era tarde.
Mordred parou. Voltou dois passos. Parou diante da porta da cabine e olhou através do vidro.
Seus olhos se encontraram.
O tempo pareceu parar. O barulho do trem, o som das rodas nos trilhos, o vento batendo nas janelas — tudo desapareceu. Só restaram eles dois.
Mordred abriu a porta da cabine devagar, o olhar fixo no dela. Havia confusão, desejo proibido e uma dor profunda em seus olhos, como se algo dentro dele lutasse para lembrar.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou ele, a voz rouca, baixa, quase um sussurro carregado de algo que ia além da simples curiosidade.
Charlotte baixou o livro lentamente, o coração batendo tão forte que sentia cada pulsação na garganta, nos pulsos, na barriga. Ela cruzou os braços sobre o ventre, tentando esconder a curva evidente, como se ele pudesse, de alguma forma, ver através do tecido e reconhecer a criança como sua.
— Não é da sua conta — respondeu ela, a voz tremendo apesar do esforço para mantê-la firme.
Eles se encararam. O ar entre eles estava carregado, elétrico, cheio de tudo que não podiam dizer. Mordred deu um passo para dentro da cabine, o olhar descendo involuntariamente para a barriga dela antes de voltar ao rosto. Havia algo ali — uma faísca de reconhecimento, um desejo proibido que nem a magia negra de Siobhan conseguira apagar por completo.
Charlotte sentiu o calor subir pelo pescoço, o desejo antigo misturando-se à raiva, ao luto, à culpa. Ela queria odiá-lo. Queria empurrá-lo para longe. Mas o corpo traía, lembrando-se do toque dele, do calor dele, da forma como ele a fazia se sentir viva.
Mordred abriu a boca para dizer algo, mas as palavras não saíram. Apenas ficaram ali, presos no olhar um do outro, enquanto o trem seguia para o norte, levando-os inexoravelmente em direção ao mesmo destino.
A lua cheia de Beltane se aproximava.
E nenhum dos dois sabia que o Conselho os esperava — juntos.
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