Herança de Avalon

21 Cinzas que Ainda Queimam


Quando Charlotte acordou, o mundo ainda estava envolto na penumbra suave do quarto do castelo. O braço pesado de Mordred repousava sobre seu corpo, possessivo e quente, a mão grande aberta sobre a curva da barriga, como se ele, mesmo no sono, quisesse proteger o que havia entre eles. O peito dele subia e descia contra suas costas, a respiração lenta e profunda roçando sua nuca, enviando arrepios leves pela pele. Por um instante — um instante perigoso e doce — ela se permitiu sentir aquilo como se fosse real. Como se aquele fosse o normal deles. Como se não houvesse Siobhan, nem Julian, nem o mundo lá fora esperando para destruí-los.

Os pássaros começaram a cantar lá fora, o som cristalino cortando o silêncio das Terras Altas. Charlotte se mexeu devagar, relutante. Mordred gemeu baixinho, um riso frouxo escapando dos lábios dele enquanto a puxava mais para perto.

— Por favor… não me faça sair daqui — murmurou ele, a voz manhosa, rouca de sono e desejo. — Fica só mais um pouco.

Ela se virou nos braços dele. Seus corpos nus estavam quentes, pele contra pele, o calor compartilhado criando um casulo íntimo no meio do frio do castelo. Os olhos verdes de Mordred encontraram os dela, cheios de uma ternura que doía. Ele a puxou para si, os quadris se encaixando naturalmente, como se seus corpos se lembrassem um do outro mesmo quando a mente lutava para esquecer.

— Por mais que eu não queira tanto quanto você… ainda é necessário — sussurrou ela, a voz falhando. — Preciso pegar o trem para Londres. A viagem acabou.

Mordred não aceitou. Ele a puxou novamente, fazendo-a deitar debaixo dele, os corpos se encaixando com uma familiaridade dolorosa. Seus olhos se encontraram, cheios de tudo que não podiam dizer.

— Mordred, isso foi… — começou ela.

— Um erro? — completou ele, a voz baixa, enquanto beijava o pescoço dela, os lábios quentes traçando a pele sensível. Ele apertou o corpo contra o dela, os quadris se movendo devagar, deliberadamente.

Charlotte soltou um gemido breve, inclinando a cabeça para trás, entregando-se ao toque. Os dedos dele deslizavam pela curva da barriga com reverência, como se temesse machucar, mas não conseguisse parar de tocar.

— Dos grandes, né? — murmurou ela, sorrindo entre suspiros enquanto sentia ele entrelaçar os quadris aos dela.

— Você acha é, dos grandes? — perguntou ele, a voz rouca, invadindo-a aos poucos, devagar, como se quisesse gravar cada segundo na memória. Charlotte inclinou o quadril em direção a ele, soltando um gemido mais profundo, afirmando com a cabeça.

— Dos maiores… — sussurrou ela entre gemidos, sentindo o ritmo dele se intensificar, os corpos se movendo juntos em uma dança lenta, desesperada, cheia de saudade e despedida.

Quando Mordred acordou novamente, a cama estava vazia.

O lençol ao lado dele ainda guardava o calor dela, o cheiro suave de jasmim e pele quente. Ele passou a mão pelo lugar onde ela havia dormido, os dedos apertando o tecido como se pudesse trazê-la de volta. O quarto parecia maior, mais frio, mais vazio. O fogo na lareira havia se reduzido a brasas vermelhas, lançando uma luz fraca e avermelhada nas paredes de pedra.

Seu corpo estava relaxado como há meses não estava — os músculos soltos, a mente mais clara, embora fragmentos de memórias ainda piscassem como relâmpagos. Ele se sentou na cama, passando a mão pelo cabelo bagunçado, o peito subindo e descendo com uma respiração pesada. Olhou ao redor: nenhum vestígio dela, apenas o lugar quente no colchão e o perfume que ainda pairava no ar.

Pelo menos aquilo tornava tudo real o suficiente.

Ela realmente estivera ali. Ela estava grávida. E a criança era dele.

O pensamento o atingiu como um soco no estômago. Ele se curvou para frente, os cotovelos nos joelhos, tentando respirar. O que isso realmente significava? Ela não queria que ele assumisse a criança. Mas a chance estava ali — a chance de serem felizes, de formarem uma família. Por que ela não deixaria Julian? Por que escolheria viver uma mentira em vez de ficar com ele?

Enquanto pensava em separação, seu sangue ferveu de repente, como um lembrete cruel do ritual de sangue com Siobhan. Uma dor aguda atravessou sua cabeça, fazendo-o gemer e jogar o travesseiro longe com raiva. Ele sentia as entranhas queimarem, o laço negro ainda preso dentro dele, puxando-o de volta para a escuridão.

Ele estava condenado àquela druida.

E, pior que tudo, uma parte dele — pequena, teimosa e desesperada — ainda se agarrava à luz que Charlotte representava.

Mordred se levantou, vestindo as roupas com movimentos bruscos, o peito apertado de angústia. Ele precisava encontrá-la. Precisava falar com ela antes que o trem partisse. Antes que ela voltasse para a vida que ele não conseguia mais aceitar.

Ele saiu do quarto correndo, o coração batendo forte, o nome dela preso na garganta como uma prece quebrada.

Charlotte já havia partido.

E o vazio que deixou atrás de si era maior do que qualquer um dos dois poderia suportar.

Mordred correu pelos corredores do trem como um homem possuído.

O vagão balançava suavemente nos trilhos, o som ritmado das rodas contra o metal ecoando como um coração acelerado. Ele abria portas de cabines, olhava rostos desconhecidos, o peito apertado, a respiração curta. O cheiro de café velho, couro dos assentos e umidade da chuva que entrava pelas frestas das janelas enchia o ar. Cada rosto que não era o dela era uma facada.

— Charlotte! — chamou ele, a voz rouca, quase desesperada.

Nada.

Ele desceu na estação de Inverness com o coração na garganta. O ar frio das Terras Altas cortava o rosto, carregando o cheiro de pinheiros molhados e terra fértil. A plataforma estava movimentada, mas ele não via o cabelo loiro, o casaco cinza, o jeito como ela caminhava protegendo a barriga.

Ele parou na bilheteria, a voz tremendo:

— Uma mulher loira, grávida, com uma mala pequena. Charlotte Vancroft… ou Ashcroft. Ela embarcou?

O atendente balançou a cabeça.

— Ninguém com esse nome embarcou neste trem, senhor.

Mordred sentiu o mundo girar. Ele passou as mãos pelo cabelo, o desespero subindo como bile. Onde você está? Pensou, o peito doendo como se alguém tivesse arrancado algo de dentro dele.

Nada.

Ele desceu na estação de King’s Cross com o coração na garganta. O ar úmido de Londres o acertou como um tapa, carregando o cheiro de metal quente, café queimado e multidão apressada. O teto alto de vidro e ferro deixava entrar a luz cinzenta da cidade, criando longos feixes que cortavam a multidão. Pessoas corriam de um lado para o outro — executivos com malas de rodinhas, turistas com mochilas enormes, famílias carregando crianças agitadas. O anúncio de partidas ecoava pelos alto-falantes, misturando-se ao barulho constante de rodas no chão e conversas apressadas.

Foi então que ouviu a voz atrás dele.

— O que você está fazendo aqui?

Julian Ashcroft estava parado a poucos metros, o terno impecável contrastando com o caos da estação. Seus olhos castanhos estavam frios, acusadores.

Mordred virou-se devagar. Os dois homens se encararam. O ar entre eles ficou pesado, carregado de ódio, ciúme e algo mais profundo.

— Charlotte desapareceu — disse Mordred, a voz rouca, sem rodeios.

Julian piscou, o rosto perdendo a cor.

— Como assim desapareceu? Ela está grávida, caralho! Onde ela está?

Antes que Mordred pudesse responder, Siobhan apareceu ao lado de Julian, o casaco claro contrastando com a expressão fria. Ela olhou para os dois homens, escondendo o segredo atrás de um sorriso tenso.

— O que está acontecendo? — perguntou ela, a voz doce, mas os olhos brilhando com algo perigoso.

Mordred não hesitou.

— Charlotte sumiu.

Siobhan congelou. Seus olhos se arregalaram por um segundo, a raiva e o ciúme puro atravessando seu rosto como uma lâmina. Ela trocou um olhar rápido e carregado com Julian — um olhar que dizia muito mais do que palavras.

— Como você sabe disso? — perguntou ela, a voz baixa, quase um sibilo.

— Porque estávamos juntos — respondeu Mordred, a voz firme, sem vergonha. — Na Escócia. Ontem à noite.

Siobhan paralisou. O ciúme queimava em seus olhos como fogo negro. Seus dedos se fecharam com força ao lado do corpo, as unhas cravando na palma.

Julian passou a mão pelo rosto, respirando fundo.

— Vou procurar a polícia se ela não aparecer até o fim do dia.

Mordred balançou a cabeça.

— Eu preciso voltar para a Escócia. O rastreamento ainda mostra o sinal dela no castelo, mas eu garanto que ela não está mais lá.

O silêncio entre os três era sufocante. A estação continuava movimentada ao redor deles — pessoas correndo, anúncios ecoando, o cheiro de café e metal —, mas o mundo parecia ter encolhido para aquele trio carregado de segredos, mentiras e dor.

Siobhan olhava para Mordred com uma obsessão que beirava a loucura. Julian olhava para o chão, o maxilar travado. E Mordred… Mordred olhava para o horizonte, o peito apertado com um medo que ele nunca havia sentido antes.

Charlotte havia desaparecido.

E, com ela, a criança que carregava — a filha dele.

O vento frio de Londres parecia sussurrar uma única palavra:

Perigo.

Julian saiu da estação sem dizer uma palavra, o maxilar travado, os passos rápidos e furiosos cortando a multidão. Seus ombros estavam rígidos, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo. Ele não olhou para trás.

Siobhan, porém, não se moveu.

Ela agarrou o braço de Mordred com força, as unhas cravando na manga do casaco dele como garras.

— Não volte para a Escócia — sibilou ela, a voz baixa, mas carregada de pânico. — Fique aqui. Comigo. Com o nosso filho. Por favor.

Mordred puxou o braço com um movimento brusco, os olhos verdes flamejando de raiva e desespero.

— Charlotte está grávida! — gritou ele, a voz ecoando pela plataforma lotada de King’s Cross. Várias cabeças se viraram. — E a filha é minha!

Siobhan paralisou. Seu rosto perdeu toda a cor, os olhos escuros se arregalando em puro terror. A mão que ainda segurava o braço dele tremeu violentamente.

— Como… como você sabe disso? — sussurrou ela, a voz falhando.

Mordred deu um passo para trás, o olhar frio, quase cruel.

— Tem muita coisa que eu sei agora, Siobhan. Muita coisa que você tentou apagar.

Ela deu um passo para trás, o medo verdadeiro estampado no rosto pela primeira vez. Mordred virou as costas e caminhou em direção ao trem que acabara de anunciar partida para o norte. Siobhan ficou parada, os punhos cerrados, o corpo inteiro tremendo de raiva e pavor.

— Maldito! — gritou ela, a voz ecoando pela estação. — Maldito seja você, Mordred Le Fay!

Ele não olhou para trás. Embarcou no trem sem hesitar, o coração batendo forte, o nome de Charlotte ecoando em sua mente como uma prece desesperada.

Enquanto isso, Charlotte acordou em um lugar que não era lugar nenhum.

O ar era frio e úmido, com cheiro de pedra antiga, musgo e algo metálico — como sangue velho misturado a terra. Ela piscou, a visão embaçada, o corpo pesado e dolorido. Estava deitada em uma cama improvisada de peles e cobertores grossos dentro de uma caverna que parecia ter sido transformada em uma casa. As paredes eram de rocha viva, cobertas por tapeçarias desbotadas com símbolos antigos. Pequenas luzes mágicas flutuavam no teto como estrelas presas, lançando uma iluminação fraca e azulada. Uma lareira natural crepitava em um canto, o fogo verde-azulado queimando sem lenha.

Ela se sentou devagar, a mão indo instintivamente para a barriga. O bebê se mexeu, um chute forte que a fez soltar o ar com alívio. Estava sozinha.

Levantou-se com dificuldade, o corpo ainda fraco, e começou a explorar o espaço. A caverna era maior do que parecia — corredores naturais levavam a outros cômodos: uma pequena cozinha com panelas de cobre, uma sala com estantes cheias de grimórios antigos, uma fonte de água cristalina brotando da parede. Tudo parecia habitado, mas vazio. Como se alguém tivesse saído às pressas.

Então ouviu um barulho.

Passos.

Um homem entrou na sala principal. Pouco mais velho que ela, talvez trinta e poucos anos, alto, de cabelos escuros desgrenhados e olhos verdes intensos — os mesmos olhos de Mordred, mas mais duros, mais atormentados. Ele vestia roupas simples e escuras, uma capa velha sobre os ombros.

Eles se encararam.

Charlotte sentiu o ar fugir dos pulmões. Seu corpo inteiro enrijeceu, a mão protegendo a barriga.

— Quem é você? — perguntou ela, a voz trêmula, mas firme.

O homem parou, os olhos percorrendo o rosto dela com uma mistura de surpresa e reconhecimento.

— Meu nome é Alexander — disse ele, a voz grave, rouca, como se não fosse usada há muito tempo. — Alexander Vane Le Fay. Sou o irmão mais velho de Mordred.

Charlotte paralisou.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O fogo crepitava baixo, as luzes mágicas flutuavam, e o bebê se mexeu novamente dentro dela, como se sentisse o perigo — ou o sangue — que acabara de entrar na caverna.

Alexander deu um passo à frente, os olhos fixos nela, cheios de algo que Charlotte não conseguia decifrar.

E o ar pareceu ficar ainda mais frio.

Julian saiu da estação com os ombros rígidos, o maxilar travado, cortando a multidão como se o mundo inteiro fosse um obstáculo. O ar úmido de King’s Cross cheirava a metal, café queimado e fumaça de escapamento. Ele parou no estacionamento subterrâneo, o coração ainda batendo forte de raiva e confusão.

Siobhan o esperava ao lado do carro dele, o casaco claro contrastando com a penumbra do lugar. Seus olhos escuros brilhavam com uma mistura de fúria e pânico.

— Mordred sabe — disse ela, a voz baixa, quase um sibilo. — Ele sabe que a criança é dele.

Julian parou, o rosto endurecendo. Por um segundo, o mundo pareceu parar. Depois, ele soltou uma risada curta, amarga.

— Não faz diferença — respondeu ele, a voz rouca. — Charlotte não vai voltar para ele. Nunca.

Siobhan deu um passo à frente, o peito subindo e descendo rápido. Seus dedos tremiam levemente quando ela tocou o braço dele.

— Estou grávida, Julian.

Eles se encararam. O silêncio era denso, carregado de segredos, culpa e algo mais sombrio. Julian piscou, processando as palavras. Então, um sorriso lento e frio curvou seus lábios.

— Parabéns — disse ele, a voz baixa. — Isso significa que Charlotte jamais voltará para Mordred sabendo disso. Você pode ficar tranquila.

Siobhan o encarou, os olhos brilhando com uma obsessão perigosa.

— É bom que você controle sua mulher — murmurou ela, aproximando-se até seus corpos quase se tocarem. — Porque se ela continuar sendo um problema… eu mesma vou matá-la.

Julian segurou o queixo dela com firmeza, os olhos escurecendo.

— Você nunca vai tocar em Charlotte — disse ele, a voz grave, quase um rosnado. — Nunca.

O ar entre eles explodiu. Julian a puxou para si e a beijou com ferocidade, um beijo faminto, raivoso, cheio de desejo proibido e ódio compartilhado. Siobhan correspondeu com a mesma intensidade, as mãos cravando nas costas dele, o corpo pressionando contra o seu como se quisesse consumir tudo.

Ele a arrastou para dentro do carro, batendo a porta com força. Os vidros embaçaram rapidamente enquanto os corpos se entrelaçavam no banco de trás, urgentes, brutais, como se pudessem apagar o mundo lá fora com pura necessidade física. O carro balançava levemente, o som das respirações entrecortadas e gemidos abafados enchendo o espaço confinado.

Do lado de fora, a chuva continuava caindo sobre King’s Cross, indiferente aos segredos, às mentiras e ao fogo sombrio que se acendia entre eles.

E, em algum lugar nas Terras Altas, Charlotte ainda estava desaparecida.