Herança de Avalon

14 A Lei da Obsessão


A probabilidade de Siobhan engravidar era alta.

A possibilidade de Charlotte carregar o herdeiro de Mordred era uma ameaça que ninguém ousava nomear em voz alta.

Siobhan estava deitada na cama ampla da cobertura em Mayfair, o corpo nu coberto apenas por um lençol de seda negra. O teste de gravidez repousava sobre a mesinha de cabeceira, a linha única e cruelmente solitária brilhando sob a luz baixa do abajur. Negativo. Mais uma vez.

Ela fechou os olhos, sentindo o peso da decepção descer como chumbo quente pelo peito. O ritual havia prometido fertilidade. O laço de sangue havia prometido poder. E ainda assim, seu ventre permanecia vazio.

A porta do quarto se abriu. Mordred entrou, vestindo o terno escuro da reunião de negócios, o cabelo ligeiramente bagunçado pela chuva fina de Londres. Ele parou ao vê-la, o olhar suavizando por um instante — não por amor, mas por uma gentileza automática que ele ainda conseguia fingir.

— Ainda negativo? — perguntou ele, aproximando-se da cama. Sentou-se na beira do colchão e pegou a mão dela, o toque quente, mas distante. — Somos novos nisso, Siobhan. Ainda temos tempo. Vamos ter filhos. Muitos. Quando for a hora certa.

Siobhan forçou um sorriso, apertando os dedos dele. Por fora, era a esposa devota. Por dentro, a fúria queimava como ácido.

— Eu sei — murmurou ela, a voz doce. — Eu só… queria dar isso a você. Ao nosso clã.

Mordred beijou sua testa, um gesto mecânico, e se levantou.

— Preciso resolver algumas coisas da empresa da família. Os investimentos no norte estão atrasados. Não devo demorar.

Ele saiu do quarto sem olhar para trás. O som da porta se fechando ecoou como um ponto final.

Assim que o elevador desceu, Siobhan explodiu.

Ela se levantou da cama num movimento violento, o lençol caindo ao chão. Com um grito rouco, agarrou o abajur e o arremessou contra a parede. O vidro estilhaçou-se em mil pedaços, espalhando cacos brilhantes pelo piso de mármore. Ela chutou a mesinha, derrubando o teste de gravidez que rolou até parar aos seus pés nus.

— Maldita seja! — rosnou ela, os cabelos escuros caindo desordenados sobre o rosto. — Maldita seja aquela Vancroft e o bastardo que ela carrega!

Morrigan entrou no quarto sem bater, o vestido negro longo deslizando como fumaça. Seus olhos verdes brilhavam com uma calma fria que contrastava com a fúria da nora.

— Se Controle — disse ela, a voz baixa e perigosa. — Precisamos de um plano de contingência. Não podemos deixar essa criança nascer.

Siobhan se virou para ela, o peito arfando.

— Minha contingência é simples: matar Charlotte e a coisa que ela carrega dentro dela. — Sua voz tremia de ódio puro. — E se for de Mordred? E se for o herdeiro dourado de Merlim misturado ao nosso sangue?

Morrigan não respondeu imediatamente. Seus olhos se estreitaram, calculando.

Do outro lado da cobertura, o apartamento que Mordred começara a reformar estava em transição. As paredes negras davam lugar a tons claros de bege e cinza-claro. Cortinas leves substituíam as pesadas de veludo escuro. A luz entrava mais forte pelas janelas, iluminando cantos que antes viviam na penumbra. Era como se Mordred estivesse tentando expulsar a escuridão da própria casa — e isso perturbava Morrigan mais do que ela admitia.

Siobhan caminhou até a janela, os pés descalços pisando nos cacos de vidro sem sentir dor. Ela parou, respirando fundo, e então decidiu.

— Eu vou usar vidência — murmurou ela. — Preciso ter certeza.

Morrigan assentiu, um sorriso lento e cruel curvando seus lábios.

Siobhan pegou o punhal ritualístico de obsidiana sobre a cômoda. Sem hesitar, cortou a palma da mão esquerda. O sangue escorreu quente e escuro, pingando sobre o piso claro que Mordred tanto insistira em colocar. Ela pegou uma mecha de cabelo de Mordred — que havia guardado secretamente após o ritual de casamento — e a mergulhou no próprio sangue.

As palavras antigas saíram de seus lábios como veneno:

Fuil mo chéile, fuil mo namhaid… taispeáin dom an fhírinne…

A magia negra despertou. O ar ao redor dela ficou gelado. Uma névoa escura surgiu no centro do quarto, formando um espelho flutuante de fumaça e sangue. Dentro dele, a imagem surgiu: Charlotte, sozinha no consultório do hospital, a mão sobre a barriga, o olhar distante.

Siobhan viu o leve volume. Sentiu o laço de sangue do ritual pulsar.

— É dele — sussurrou ela, os olhos arregalados de horror e fúria. — A criança é de Mordred. O herdeiro dourado de Merlim… misturado ao nosso sangue.

Morrigan aproximou-se, os olhos brilhando com uma mistura de ganância e medo.

— Então não temos escolha — disse ela, a voz baixa e letal. — Charlotte Vancroft e aquela criança precisam desaparecer.

Siobhan sorriu, um sorriso lento e sinistro, enquanto o sangue ainda escorria de sua mão cortada.

A obsessão de poder dos Le Fay havia encontrado um novo alvo.

E a guerra, silenciosa até então, acabara de ganhar sua primeira vítima anunciada.

A cobertura em Mayfair parecia encolher sob o peso da conversa que acontecia na sala de estar. A chuva batia contra as janelas panorâmicas como dedos impacientes, distorcendo as luzes da cidade em borrões líquidos e fantasmagóricos. O ar estava frio, carregado de incenso residual do ritual anterior e do cheiro metálico de sangue seco que Siobhan ainda não havia limpado completamente da mão.

Morrigan andava de um lado para o outro, o vestido negro longo roçando o mármore como uma sombra viva. Seus olhos verdes brilhavam com uma mistura de fúria e cálculo frio.

— Não podemos esperar — disse ela, a voz baixa, mas afiada. — Se aquela criança nascer, será o herdeiro dourado de Merlim misturado ao nosso sangue. Vai destruir tudo que construímos. A linhagem de Morgana não pode ser diluída por aquela linhagem patética.

Siobhan estava sentada no sofá, as pernas cruzadas, os dedos ainda sujos de sangue seco traçando padrões invisíveis no braço do estofado. Seus olhos escuros ardiam com uma obsessão que beirava a loucura.

— Eu posso localizá-la — murmurou ela, a voz doce e venenosa ao mesmo tempo. — Usar o laço de sangue do ritual. Posso mandar alguém… discreto. Um acidente. Um feitiço de sombra enquanto ela dorme. Ninguém precisa saber que fomos nós.

Morrigan parou, um sorriso lento e cruel curvando seus lábios.

— Excelente. Faça isso. Elimine a ameaça antes que a barriga dela cresça demais e alguém comece a fazer perguntas.

Cian, que estava parado perto da janela, escutava tudo em silêncio. Seus olhos inquietos, sempre mais observadores do que revelavam, captavam cada palavra. Ele sentiu o estômago revirar. A obsessão de poder da esposa e da nora havia chegado a um ponto sem volta. Ele tentou, pela segunda vez naquele dia, intervir.

— Vocês estão falando de assassinar uma mulher grávida — disse ele, a voz grave e firme. — Uma criança inocente. Que tem nosso sangue. Isso não é proteção da linhagem. Isso é loucura. Se Mordred descobrir…

Morrigan virou-se para ele com um olhar que poderia congelar fogo.

— Se Mordred descobrir, nós lidaremos com ele. Como sempre lidamos. Você já perdeu um filho pela minha “obsessão”, Cian. Quer perder o segundo também?

Cian sustentou o olhar da esposa por um longo segundo, o maxilar travado. Ele sabia que não conseguiria dissuadi-la. Não ali. Não agora. Mas as palavras dela queimavam como ácido em sua alma.

Do corredor, Mordred apareceu, ainda vestindo o terno escuro da reunião de negócios. Ele parou ao ver o clima pesado na sala, mas fingiu não notar.

— Pai — disse ele, a voz cansada. — Podemos conversar um minuto?

Cian assentiu e seguiu o filho até o escritório adjacente, fechando a porta atrás de si.

Mordred passou a mão pelo cabelo, inquieto.

— Siobhan está estranha ultimamente. O teste deu negativo de novo. Ela fica… obcecada. Como se o fato de não engravidar logo fosse o fim do mundo. Eu tento consolá-la, mas parece que nada adianta.

Cian olhou para o filho, os olhos tranquilos, porém inquietos. Ele sabia muito mais do que dizia. Sabia do ritual, sabia da gravidez de Charlotte, sabia do feitiço de apagamento que Siobhan havia lançado. Mas não podia contar. Não ainda.

— Dê tempo a ela — respondeu ele, a voz calma, quase paternal. — Casamentos novos trazem pressão. Especialmente os nossos. Não force nada. E não se culpe.

Mordred assentiu, mas não pareceu convencido. Ele mudou de assunto rapidamente, como se quisesse fugir do próprio desconforto.

— Estou pensando em novos investimentos no ramo imobiliário. Conversei com o gerente da conta da família hoje. Tem alguns prédios antigos no centro que podemos reformar. Transformar em algo mais… claro. Menos escuro.

Cian sorriu de leve, mas o sorriso não chegou aos olhos. Ele via o filho tentando reconstruir algo ao redor de si — paredes claras, luz, algo que não lembrasse a escuridão da qual vinha. Mas sabia que a escuridão não seria tão fácil de reformar.

Enquanto isso, no jardim da casa da avó em Kensington, Charlotte treinava.

A luz dourada do entardecer filtrava-se através das folhas, pintando o ar com tons quentes. Ela estava de pé no centro do caminho de pedras, os olhos semicerrados, concentrada. Ao seu redor, a magia respondia com uma graça que ainda a surpreendia.

Defensio lumen, lux mea, protege quod amo… — recitava ela, a voz clara e firme.

Um escudo dourado translúcido formou-se ao seu redor, tremulando como uma bolha de luz viva de proteção ao seu redor.

De repente, ela sentiu.

Um movimento sutil, como uma borboleta batendo asas dentro dela.

Charlotte parou. A mão foi instintivamente para a barriga. O escudo dissolveu-se em partículas douradas que dançaram no ar antes de desaparecer.

O bebê havia se mexido pela primeira vez.

Foi um momento ao mesmo tempo emocionante e aterrorizante — uma vida minúscula, teimosa, respondendo à magia da mãe. Charlotte sentiu lágrimas quentes subirem aos olhos. Medo, amor, proteção e desespero se misturaram em seu peito como um vórtice.

Lady Catherine, que observava da varanda, aproximou-se devagar. Seus olhos cinzentos brilhavam com uma mistura de orgulho e preocupação profunda.

— Você sentiu, não é? — perguntou ela suavemente.

Charlotte assentiu, a voz embargada.

— Foi como… asas. Pequenas asas batendo dentro de mim.

A avó sorriu, mas o sorriso carregava uma sombra.

— A magia está se adaptando a ela. Ou a ele. O que quer que seja, já está respondendo a você..

Charlotte tocou a barriga novamente, sentindo o leve pulsar de vida. Por um instante, o mundo pareceu mais leve.


Siobhan não conseguia mais esperar.

A fúria e o medo haviam se transformado em algo vivo dentro dela — uma chama negra que queimava sem parar. Ela precisava ter certeza. Precisava ver com os próprios olhos onde aquela mulher e a criança que carregava estavam escondidas.

Na cobertura em Mayfair, com as luzes apagadas e apenas o brilho fraco da cidade entrando pelas janelas, Siobhan preparou o ritual sozinha.

Ela se ajoelhou no centro do círculo que havia desenhado com sangue seco no piso de mármore claro. O contraste entre a escuridão do ritual e a nova claridade do apartamento era quase irônico.

Com o punhal de obsidiana na mão, ela cortou a palma novamente. O sangue escorreu quente, escuro, pingando sobre um pequeno frasco que continha uma mecha de cabelo de Mordred. Ela misturou o sangue ao cabelo, sussurrando palavras antigas, guturais, que faziam o ar ao redor vibrar como se a própria realidade estivesse se rachando.

Fuil mo chéile, fuil an linbh… taispeáin dom an áit…

A fumaça negra subiu da mistura, formando um espelho flutuante de sombras e sangue. Dentro dele, a imagem surgiu lentamente, como se a própria magia relutasse em revelar o segredo.

Uma casa antiga e elegante em Cotswolds. Jardins bem cuidados, paredes de pedra dourada, luzes quentes nas janelas. A casa de Lady Catherine.

Siobhan ficou imóvel, os olhos arregalados, o peito subindo e descendo em respirações curtas e irregulares. O rosto de Charlotte apareceu na visão — sentada no jardim, a mão sobre a barriga, conversando com a avó.

A criança.

O primogênito de Mordred.

Crescendo dentro daquela mulher.

Siobhan sentiu o ódio puro subir pela garganta como bile quente. Seus dedos cravaram no chão, as unhas quebrando contra o mármore. O sangue de sua mão cortada pingava sem parar, formando pequenas poças escuras ao seu redor.

— Ela está lá — sussurrou ela, a voz trêmula de obsessão. — Na casa da velha. Com a criança.

Siobhan ergueu o olhar, os olhos brilhando com uma loucura que não tentava mais esconder.

— Eu mesma vou matá-la — disse ela, a voz baixa, quase um ronronar. — Vou matar Charlotte. Vou arrancar aquela criança de dentro dela antes que nasça. E qualquer um que tentar interferir… vai morrer junto.

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

Apenas a chuva batendo contra as janelas e o som distante do coração de Siobhan, acelerado pela fúria e pelo medo.