Herança de Amor

13 Capítulo 13


Carolina puxou o cobertor outra vez para cobrir Eduardo. Então ficou parada no quarto do filho, olhando para ele.

Logo o dia ia nascer, tinha sono, estava exausta, mas fazia pouco tempo desde que haviam escapado do fogo e era difícil acreditar que tinham sofrido apenas ferimentos leves. O médico medicara os dois por causa da inalação de fumaça e fizera raios-x do Dudu no hospital da cidade.

O médico e Carolina chegaram a mesma conclusão: eles tinham tido muita, muita sorte mesmo.

Ela se deitara, porém não conseguia dormir. A cada cinco minutos tinha de sair da cama e ir ver o pequeno, que dormia profundamente há horas.

Desta vez Eduardo acordou, abriu os olhos e a fitou:

— Desculpe, mamãe — murmurou, triste.

— Nós poderíamos ter nos machucado muito, você sabe — ela sentou-se na beira da cama.

— Eu sei e não queria, mesmo, ir embora. Só queria que vocês parassem de brigar.

— O motivo de brigarmos, filho, é que Ted era o pai de verdade da Laura. Laura achava que ele devia ter deixado o rancho para ela, mas Ted deixou-o para mim.

— É por isso que todos estão zangados?

— Sim. Você foi apenas mais uma desculpa para brigarmos. Eu quis explicar antes, mas você não me deu nenhuma chance.

— Da próxima vez eu vou dar chance, mamãe. Palavra de honra.

Os olhos dele começaram a fechar-se de novo e Carolina se levantou.

— Mãe? Você não gosta nem um pouco da Laura?

— Eu gosto muito, mas muito mesmo, dela. Agora durma. Vamos conversar o quanto você quiser amanhã.

Esperou o filho adormecer e foi para seu quarto. Tinha muito o que explicar para ele.

No caminho, olhou para a porta de Laura. Se quisesse ser honesta, teria de admitir que não era só por causa de Eduardo que não conseguia dormir. Laura não lhe dissera uma só palavra desde que recobrara a consciência e a presença do filho, ao voltarem, a impedira de falar com ela. Depois, assim que haviam chegado ao rancho, Laura fechara-se no quarto.

Havia luz sob a porta de seu quarto; pelo jeito ela também não conseguira dormir.

Carolina teve medo. Medo... Não fora sempre esse o seu problema? Não vivia escolhendo ficar na sua para não correr o risco de ser rejeitada? Seria sempre a pobre menininha do orfanato?

Agindo antes que mudasse de idéia, ela foi até a porta de Laura e bateu.

A porta se abriu antes dela abaixar a mão:

— Puxa, você me assustou! — exclamou, com a sombra de um sorriso.

— Droga, Carol! Você é a mulher mais contraditória que já vi! Quando quero que tenha medo de mim, não consigo. Agora que eu... Pensei ter ouvido alguém andando pela casa e ia ver o que era. O Dudu está bem?

— Sim, estive agora com ele. Vi luz sob sua porta. Eu... Laura, preciso conversar com você.

— Eu também quero conversar com você — ela abriu mais a porta. — Entre.

Ao entrar, Carolina ergueu rapidamente os olhos e viu um sorriso leve no rosto antes sombrio. Instintivamente, Carol ajeitou a gola do seu robe, como se fosse necessário ocultar alguma coisa. Sentiu o rosto ficar vermelho quando Laura baixou os olhos para seu seio, porque no mesmo instante seus pensamentos voaram para as lembranças dela acariciando-a, os dedos fortes, mas gentis, acompanhando os contornos de seu corpo...

Chocada com a própria falta de controle, Carolina expulsou as lembranças e concentrou-se no motivo da visita.

— Vim lhe dizer uma coisa, Laura. Algo que, espero, faça diferença no seu modo de pensar desde que o testamento foi lido.

— Continue.

— Decidi dar-lhe o rancho de volta. Podemos ir amanhã a cidade e pedir para Sam Perry fazer os documentos necessários.

Carolina esperava uma palavra de agradecimento ou um sorriso de triunfo, mas nunca a expressão desconfiada que surgiu no rosto de Laura.

— Por quê? — perguntou ela, depois de uma longa pausa. — Por que você resolveu fazer isso?

— No começo, quando me tirou do riacho, eu confiei em você por completo, de modo instintivo. Depois da leitura do testamento, você tornou-se uma mulher diferente: zangada, amarga e insensível. Acreditou que tudo de ruim a meu respeito era verdade e isso me magoou. Comecei a me perguntar se a confiança que depositava em você era merecida, comecei a duvidar que merecesse ser a herdeira do Ted.

Carolina fitou o rosto impassível, implorando em silêncio que Laura a compreendesse.

— Aí, naquele dia sob o carvalho, você foi tão gentil e cuidadosa, fez com que eu confiasse em mim mesma, em meu valor como mulher. Mas a dúvida retornou: será que você fingia, tentando me seduzir para conseguir o rancho de volta? Só pude ter certeza algumas horas atrás, quando você entrou naquelas chamas para salvar a mim e meu filho. Então, eu soube que você se importa comigo e com o Dudu...

Laura assentiu, a emoção eclipsando o forçado ar de indiferença:

— Esta noite, quando você e o Dudu quase... — ela não pôde dizer a palavra terrível. — Esta noite percebi como estava sendo tola. Fiquei muito nervosa ao ver que Ted deixara o rancho para você, Carol. Diabos, passei anos brava com ele porque não me deu seu nome, nem o lugar no mundo a que eu tinha direito. Vivia dizendo que não me importava, mas o ressentimento me devorava o tempo todo.

Com o olhar perdido, Laura prosseguiu:

— O rancho foi a gota final. Sabe, eu vi sinais de sua sinceridade, mas os ignorei porque queria o rancho mais do que queria acreditar em você. Não aceitava que você tivesse direito legal sobre o que considerava meu, só meu! Mas até mesmo um cego poderia ver que você realmente se importava com Ted. Você estava lá quando ele precisou. E Deus sabe que eu nunca estive.

Laura abaixou os olhos, fitando as mãos:

— Ted não contou a nenhum de nós que estava doente, mas eu não teria ido vê-lo, mesmo se soubesse, a não ser que ele me pedisse, com um "por favor" no começo da frase.

— Bem, ele prometeu-lhe o rancho desde que você era uma criança!

— Isso foi antes que Ted soubesse que, quando eu crescesse, sentiria por ele o mesmo desprezo que sentiu por mim. E foi antes dele conhecê-la. Ted sabia que você precisava do dinheiro, de uma casa e tinha todo o direito de dar essas coisas a você e seu filho — Laura sorriu, amarga. — Parece que demos a volta completa em nossas idéias, Carol. Se há um Deus, ele deve estar rindo da gente.

Carolina não achava aquilo engraçado. Achava que ao decidir entregar o rancho para Laura, as duas poderiam se entender. Agora, temia que ela não aceitasse.

— Não compreendo, Laura. Se não quer o rancho de volta, para onde iremos a partir de agora?

— Você não vai a lugar algum, Carol. Eu é que vou. Vou pegar os vinte e cinco mil dólares que Ted me deixou e comprar algumas terras.

— Por quê? Por que vai largar o Double Diamond se ele é seu?

— Aprecio o seu gesto, Carol, e agradeço. Acontece que tive oportunidade de pensar muito esta noite e decidi que sou orgulhosa demais para aceitar qualquer coisa que o velho bastardo não quis me dar. Passei anos esperando que ele me passasse o rancho, enquanto devia ter usado esse tempo conquistando seu próprio lugar no mundo. Não posso mudar o passado, mas sem dúvida posso escolher meu futuro.

— E se você for embora — argumentou Carol -, quem vai dirigir o rancho?

Laura foi até o armário e pegou uma mala, que abriu sobre a cama.

— Rob pode cuidar disso muito bem. Ele ainda é jovem, mas trabalhou no rancho toda a vida e sabe cuidar de tudo.

— Laura, eu esperava que pudéssemos viver juntas aqui... — embaraçada, Carolina hesitou. — Achei que poderia ser um novo começo para nós duas.

— Nada tenho em meu íntimo para oferecer a alguém, Carol.

Com profunda frustração, Carolina ficou olhando enquanto Laura punha as roupas na mala. Tinha que haver um modo de detê-la!

— Sei porque está se sentindo assim — tentou, então. — Você não consegue livrar-se do passado! Quando vai parar de se punir?

— Mesmo que pudesse me absolver da morte de Anne, há outra coisa que não poderei me perdoar, me esquecer. Ela estava grávida de sete meses quando morreu. Tinhamos planejado fazer inseminação artificial alguns anos antes, e ela se ofereceu para dar a luz ao nosso filho. Entendeu agora Carol? Causei a morte do meu próprio filho.

Carolina fechou os olhos sob a força do impacto da angústia e culpa que havia nas palavras e nos olhos azuis. Queria dizer que ainda assim Laura não devia se culpar, mas se Eduardo tivesse morrido no acidente com o carro, ela se sentiria exatamente do mesmo modo. Chocada, não conseguiu pronunciar nada.

— Eu, por ter um problema no útero nunca poderia dar à luz — continuou Laura, com a voz emocionada — Então Anne se prontificou a me dar um filho. Fomos a um especialista e depois de vários exames, ele sugeriu que eu cedesse meus óvulos e escolhêssemos um sêmen de um doador com características físicas da Anne para se parecer com nós duas. — sorriu irônicamente — Ela tinha tudo planejado... — uma breve pausa — Eu a conheci num bar em San Antonio. Comecei a falar do rancho e ela deduziu que era meu. Eu a queria, por isso não contei a verdade. Pensando nisso, agora, é provável que Anne tenha tido essa idéia de me dar um filho para se garantir. Não que precisasse fazer muita força para me conquistar... Eu achava que a amava.

— Mas ela só quis você porque pensou que fosse rica!

— É... Quando descobriu que teríamos de viver com o salário de uma administradora de rancho e que só em muitos anos o Double Diamond seria meu, seu "amor" por mim sumiu. Um dia, cheguei em casa e ela me deixara. Não quis perder meu filho, por isso fui lhe pedir que voltasse.

Laura sorriu, um sorriso cheio de angústia:

— Anne riu e disse que mesmo grávida conseguiria arranjar outra pessoa com mais dinheiro do que eu. Contou-me que se correspondia com um ex-namorado, um negociante de San Antonio. Ele lhe pedira que voltasse e, garantiu-me, nada iria impedi-la de fazê-lo. Disse que se tivesse de acordar mais uma manhã vendo meu rosto outra vez, se mataria. Eu respondi que se ela tentasse ir embora antes do meu filho nascer eu cuidaria pessoalmente de satisfazer esse seu desejo.

— Você não falou sério!

— Naquele momento, falei sim. Peguei as malas dela e a forcei a entrar no carro comigo. Discutimos todo o caminho de volta.

A voz de Laura estava calma, mas o rosto se tornara mortalmente branco.

— Era uma noite muito escura e eu mal conseguia enxergar a estrada. Para piorar, começou a chover. Na curva do riacho, me vi subitamente de frente para outro carro. Desviei para não bater e caímos pelo barranco. Fui jogada fora e a caminhonete caiu no riacho. Não sei quanto tempo fiquei desacordada, mas quando voltei a mim e consegui tirar Anne do carro, ela estava morta. Não havia ninguém ali, ninguém a quem pedir ajuda e eu ainda podia sentir o bebê se mexendo... — disse roucamente enquanto caia uma lágrima pelo seu rosto.

Laura enfiou as mãos nos bolsos do jeans, mas Carolina pôde notar que tremiam.

— Usei meu canivete para tirar o bebê de dentro dela e para mantê-lo aquecido coloquei-o junto do meu corpo, por dentro da blusa. Vim andando até aqui.

Carolina viu que era impossível imaginar o horror que Laura passara. Sentiu lágrimas descendo pelo rosto, enquanto continuava a ouvir:

— No hospital, me disseram que o bebê estava vivo, na incubadora. Mas quando fiquei boa o bastante para caminhar até o berçário e vê-lo, fiquei sabendo que ele só vivera dois dias. Ninguém quisera me dizer que ele havia morrido porque todos sabiam que meu filho era o único motivo para eu continuar viva.

— Aí, você fugiu do hospital — murmurou Carolina, recordando o que Rob lhe contara.

— Rastejei, seria mais exato. Peguei uma carona até a cabana do velho Peter. Sabia que era um amigo de verdade e que podia contar com ele para ficar em paz e morrer.

— Mas você não morreu... — Carol desejava abraçá-la. — Pelo menos, não morreu fisicamente e nunca se perdoou pelo que aconteceu.

Laura continuou a colocar as roupas na mala e não respondeu.

Carolina respirou fundo, tentando se recobrar e falar com voz firme:

— Laura, talvez você tenha errado por forçar Anne a voltar. Mas ela também errou ao enganá-la, antes de mais nada, sobre o que sentia por você. E quanto ao motorista do outro carro? Aquele homem também teve parte da culpa no acidente e Anne poderia ter sido salva, se ele tivesse parado para ajudar. Pode-se dizer que o que aconteceu foi acaso, destino ou apenas má sorte, mas o único modo de você continuar vivendo é apagar isso tudo completamente e parar de esconder suas emoções, de ter medo delas. É isto que você vem fazendo desde que essa desgraça aconteceu. Mas chega: está na hora de enfrentar a vida.

— Carol, você mais que ninguém pode entender que o sentimento de culpa não é algo que a gente "desliga" só porque quer fazê-lo. Sei que ainda se sente culpada pelo suicído de seu marido.

Carolina gelou à menção do fantasma que a assombrava há tanto tempo. Mas, para sua surpresa, esse fantasma se tornara uma pálida sombra. Erick estava sumindo e era Laura quem importava. Aproximou-se e estendeu a mão para ela, mas recuou no último momento, temendo ser rejeitada.

— Quer dizer que vai embora, Laura, deixando a mim, sua família e o rancho?

— O rancho nunca foi meu — ela fechou a mala.

— Ele é seu e eu também sou sua! Não sou Anne, Laura! Eu amo você. Este é o verdadeiro motivo de ter ficado, apesar de a princípio eu mesma não querer admitir.

Laura fitou-a e balançou a cabeça:

— Nunca daria certo ,Carol. Você está misturando desejo e gratidão com uma estranha crença em finais felizes de contos de fadas. A poderosa atração sexual que temos uma pela outra acabaria mais depressa do que imagina. Então, uma manhã você acordaria e me veria como sou.

— Eu sei o que sinto — ela acariciou com amor o rosto marcado. Laura fechou os olhos por alguns instantes — e já a vejo como realmente é. — sussurrou.

Laura segurou-lhe a mão e levou-a até diante do espelho, ambas de frente, e o olhar de Carolina encontrou o dela pelo reflexo de suas imagens.

— Essas palavras com certeza são criadas por alguma das suas fantasias românticas, Carol. Olhe para os nossos reflexos no espelho. Olhe bem, droga! Essa é a realidade.

Obediente, Carolina olhou as imagens:

— Só estou me vendo com a mulher que amo — declarou.

— Olhe, você acha que me ama porque sou a primeira pessoa que a fez sentir-se mulher Carol, a fez sentir desejo. Não quero aprisioná-la a mim. Há um mundo inteiro cheio de pessoas boas e uma delas é que a fará feliz.

Um gelo começou a apoderar-se de Carolina e ela estava prestes a entrar em pânico. Fora tão longe para perdê-la agora?

— Você é essa pessoa, Laura — lutou ainda. — Você me faz feliz.

— Talvez eu possa fazê-la feliz na cama, mas você irá querer mais do que cama, muito antes do que pensa! Logo irá cair em si e ver o erro que cometeu. Vou lhe dizer como as coisas são, na verdade: com uma mulher comum eu passaria por comum. Mas perto da sua beleza, sou horrível. E eu me preocupo com você, Carol. Me preocupo de você sair machucada e eu não quero te fazer sofrer. — sorriu irônicamente. — A bela e a fera. É como nos chamariam.

— Não! — Carolina rompeu em lágrimas.

Laura a obrigou a olhar para o espelho outra vez:

— Os caubóis do rancho já estão dizendo isso.

— Eu não ligo para o que os outros dizem ou pensam!

— Mas eu ligo, Carol. Ligo por você.

— Pensei que você era diferente das outras pessoas, Laura. Que podia ver além das aparências! Mas você não consegue me ver de verdade!

— Não há nada de errado com você, Carol. Você é bela por fora e por dentro, apenas não combinamos juntas.

Carolina sentiu um desespero tão grande que demorou a conseguir respirar. Por que ela não aceitava a verdade de seu amor? Tinha tanto a oferecer a Laura, poderiam ser felizes juntas, se ela lhes desse uma chance!

— Nada que eu possa dizer irá fazer você mudar de idéia, não é? — perguntou Carol, num fio de voz.

Laura engoliu em seco e virou as costas para ela antes de responder:

— Não.

— Então, faça amor comigo antes de ir.

— Acha que isso vai me fazer ficar?

— Não — mentiu Carolina e uma lágrima desceu por sua face.

Laura virou com os olhos marejados, ergueu a mão e enxugou a lágrima de Carolina com o polegar, quando seus lábios se encontraram num beijo leve.

— Lembre-se — murmurou Laura — de que você é uma mulher maravilhosa para qualquer pessoa. E lembre-se sempre da mulher que a fez acreditar nisso.

Firme, mas também gentil, Laura a fez sair para o corredor e trancou a porta.

Carol ficou imóvel, olhando a porta fechada, sem acreditar. À medida que os segundos viraram minutos, a descrença transformava-se em desespero. Apesar das palavras doces, Laura não lhe permitira que se aproximasse dela!

Foi para seu quarto, fechou a porta e se encostou nela, observando seu reflexo no espelho.

Por quê? Por que fora amaldiçoada com um rosto e corpo que só lhe traziam infelicidade?

A raiva a dominou com a mesma intensidade da paixão. Com Laura descobrira o desejo e o amor, e Laura via nela qualidades que nunca desconfiara possuir, mas era completamente cega para a verdadeira Carolina, a mulher imperfeita que a amava com todo o coração. A mulher que amava via apenas aquele belo e vazio reflexo mostrado pelo espelho.

A verdade é que havia uma parte de Laura que Carolina jamais alcançaria, uma parte que apenas Laura poderia mudar. E ela não queria fazê-lo. Não havia como impedi-la de ir embora.

Sem forças, deixou-se cair diante do espelho e chorou até não ter mais lágrimas. Então, respirou fundo e levantou-se.

Ao se levantar, Carol viu uma tesoura que alguém deixara em cima da mesa. Pensou, com clareza, que as palavras não tinham a mesma força das ações. Devolver o rancho a Laura não era o mesmo que realmente dar-lhe o rancho. Dizer que sua aparência não importava não era o mesmo que fazer algo para provar o que dizia.

Com gestos mecânicos, pegou a tesoura, fixou o olhar no reflexo no espelho e, sem hesitar, ergueu a tesoura até o rosto.

~//~

Laura acordou aos poucos. Lutando para focar os olhos, verificou a hora no relógio de cabeceira. Já passara do meio-dia. Pretendia dormir apenas uma ou duas horas e ir embora. Mas estava tão cansada que nem ouvira o despertador.

Espreguiçou-se, virou-se e viu os cabelos dourados no travesseiro ao lado. Seus lábios curvaram-se num sorriso de relutante admiração:

— Você não aceita um não como resposta, Carol?

Apesar da firme decisão, seu corpo reagiu com a paixão que ela negava. Estendeu a mão, enfiou-a nos cabelos macios, puxou-os com delicadeza e, para sua surpresa, não houve resistência.

Laura saltou da cama e foi abrir as cortinas. As longas mechas cor de ouro achavam-se sobre a cama como os restos de um ser mítico que existira apenas em sua mente.

Teve a dolorosa sensação de perda e gritou o nome de Carolina com os olhos já embaçado pelas lágrimas, sabendo que não adiantaria. Ela havia ido embora.

Se acalmando, limpou as lágrimas rapidamente e sentindo como se o mundo desmoronasse sob seus pés, correu para a porta e deu um tremendo tropeção no gravador de fita com que Carolina trabalhava.

— Que diabos...?

Com certeza Carolina deixara uma mensagem gravada, concluiu apertando o botão Play.

Mas a voz que ouviu era de Ted, não a de Carol. Sentindo-se traída, Laura começou a se vestir. Estava abotoando a camisa quando, afinal, as palavras de Ted entraram em sua mente.

Sei que apenas a ameaça de perder o Double Diamond pode trazê-la de volta ao mundo, Laura, e que apenas uma mulher como Carolina pode fazer com que você queira ficar no mundo. Ela curou minhas feridas, sei que pode curar as suas. Se você deixar. Em troca, ela precisa de um lar e de uma pessoa que saiba fazê-la feliz por ser mulher. Ela é a herança que deixo para você, filha. Uma herança mais preciosa do que dinheiro ou terras.

Meu testamento foi feito com a intenção de aproximar vocês duas e as manter juntas até perceberem que a solução ideal é vocês partilharem o Double Diamond e suas vidas. Calculei que se fizesse Carolina transcrever estas fitas ela faria você ouvir o que eu queria lhe dizer.

Mesmo que meu plano falhe, Laura, penso que a deixarei zangada o bastante para voltar à vida e deixar o passado para trás. E você, Carolina, mesmo que esteja escutando isto sozinha, sei que posso descançar tranquilo porque você e o Dudu agora têm onde viver. E espero que, vencendo ou perdendo, enfrentar essa minha filha teimosa a ajude a perceber seu verdadeiro valor.

Se tudo isto lhes parecer o ato de um homem desequilibrado e nos últimos estágios da senilidade, perdoem-me. Minha única motivação foi o amor que tenho por vocês duas. Não podem condenar um velho jogador por tentar uma última cartada.

Fez-se silêncio. Laura desligou a fita, pegou o chapéu e saiu correndo do quarto.

Notas finais
Reviews?