Herança Real

28 O inverno está chegando


Capítulo 26 — O inverno está chegando — Parte I

Shape Of You — Ed Sheeran

Certamente você também já escutou a máxima: a vida é uma montanha-russa. Sendo bem sincera, às vezes eu me importava com quem a dizia, porém não pensava em seu real significado. Ninguém pensa.

Até acontecer algo que te bota de cabeça para baixo. Como a tal montanha-russa.

O acontecimento mais estranho de meus vinte anos foi sair do interior onde morava, de uma vida como se predestinada: viver ali, criar raízes e, por fim, morrer no mesmo local. No entanto, meu pai nos tirou da zona de conforto até me deixar em um local do qual eu só sabia que existia naquelas coloridas e vívidas folhas de revista que conseguíamos adquirir com algum comerciante nas sexta-feiras. E quem me contasse que no meio daquela jornada desconhecida eu estaria apaixonada por alguém da alta sociedade monegasca, seria amiga de uma figura política e do futuro príncipe soberano, intrínseca naquele emaranhado, eu duvidaria de pé junto.

Parecia um sonho. Inclusive, a repercussão de minha imagem vinculada amorosamente com Pierre por meio de todos os meios de comunicação que existiam pelo principado! Céus, uma dor de cabeça das grandes!

Mesmo após dois dias da corrida, eu andava pelas ruas cobrindo ao máximo o meu rosto, e ainda bem que as chuvas estavam se tornando constantes, pois me davam um motivo mais real para usar cachecol toda vez ao sair.

— Não acredito que sairá com este cachecol novamente! — Vic tinha me dito em uma tarde. — Já vi umas quinhentas vezes em seu pescoço, está até dormindo com ele?!

— Hahaha, engraçadinha! — respondi, ajeitando-o melhor. — Eu preciso me esconder lá fora, sabia? Ficam me perguntando sobre Pierre! E eu não posso dizer que ele é como um garotinho irritante para a imprensa.

Vic riu gostosamente de meu comentário, me levando a rir junto.

— Toma, fica com esse, é novo. E combina com você.

Sorri, agradecida pelo gesto.

— Você é uma gracinha.

— Hoho, me elogiando, que fofa! — Vic levantou do sofá do quarto privativo no hospital em que estávamos. — Vamos sair agora?

Meu olhar recaiu diretamente sobre a cama por trás de minhas costas.

Com uma quantidade significativamente menor, meu pai jazia na brancura do quarto. Ressoando baixinho, já respirava sozinho e acompanhava o ritmo do monitor cardíaco. Ao observá-lo daquela maneira, eu tinha a sensação de entrar em órbita, sair de meu eixo cruel e descompassado para, enfim, parar no tempo.

Já teve aquela sensação de cada dia seu transcorrer grãozinho por grãozinho em sua mão, porém ter todos esses dias passados em um flash, ao final do processo?

Era exatamente assim com meu pai e seu estado.

Meus dias eram infinitos ao seu lado, observando cada nuance de seu aspecto e cheia de perguntas quanto a sua melhora. Todavia, num piscar de olhos minha semana já havia se passado.

Desde a notícia do médico sobre retirá-lo gradativamente do coma, eu sentia o coração perder o compasso ao pôr meus olhos sobre a cama, imaginando se seria a hora de vê-lo novamente.

— Sereia?

A voz baixinha de Vic varreu meus devaneios. Fitei sua expressão melancólica, condoída por duas pessoas que lhes tornaram queridas.

— Não fique assim, Vic, ele está reagindo aos poucos, a cada dia. E já me sinto melhor da mesma forma.

— Oh, ainda bem. — sorriu. — Vamos tomar sorvete, é isso mesmo?

— Ora, você me chamou para acompanhá-la em um passeio pelo shopping! Não vai me levar para conhecê-lo?

— Claro que sim! — Vic bateu palminhas. — Andemos!

Ri e deixei meu corpo ser levado pelo mão de Vic, deixando um sorriso sair após um suspiro resignado.

A vida era uma montanha-russa mesmo e o pior é não sabermos em que parte estamos: se no cume, iminente à queda, ou na parte mais profunda, prestes a prender o fôlego e subir tudo de uma vez só.

¨*¨*¨*¨*¨*¨

— Sabe o que poderíamos fazer?

— Nem imagino o que seja, Vic. Não está satisfeita com todas essas sacolas? — perguntei quando estávamos tomando sorvete na praça do shopping.

— A festa em comemoração pela vitória do príncipe já será amanhã! A gente bem que podia saber com o Pierre se poderíamos te levar em uma boate...

— Que?! Boate, Vic, você ficou louca? Desde quando você gosta de boate e as frequenta, filha do diretor geral?

— Oras, principalmente quando eu era do anonimato! Mas o Pierre sempre saiu nas revistas em uma casa de festas muito requisitada, que eu adoraria conhecer, Sereia, você poderia falar com ele para irmos?

Ponderei, com um meio sorriso. Victorine estava divagando demais com Pierre e sua companhia, e embora eu não fosse de sair à noite, tinha certeza de que se propusesse algo ao príncipe, ele não negaria.

— Ah, vamos lá, Sereia! Só hoje! Por favor, por mim!

Quem resiste a uma criatura ruiva com cara de cachorro que caiu da mudança?

— Me dá esse telefone logo.

— Isso aí!!!

Revirei os olhos e esperei o telefone de Pierre atender.

— Fala, ruivinha!

— É a Serena, Majestade! Estou com a Vic.

Pierre riu do outro lado.

— As duas saem e fazem a festa sem mim? Malvadas.

— Você tem compromissos — zombei de sua cara. — Olha, eu não queria falar nada não, masss... Pierre, a Vic queria que você nos levasse a uma boate conhecida daqui em comemoração prévia a sua vitória.

— Serena! — Vic me repreendeu ao mesmo tempo em que Pierre respondeu:

— Mas é claro! Nos encontraremos lá? Vou chamar alguns primos também, ok? Somos frequentadores.

Àquela menção, senti meu corpo entrar em alerta; coração desenfreado, mãos frias, gagueira.

Controle-se, mulher!

— Er... Tudo bem. Acho.

— Não fique assim, garota. Vai dar tudo certo. — Pierre disse. — Agora vou adiantar as coisas. Um beijo às duas.

Desliguei e transmiti a mensagem para uma Victorine que não se conteve em euforia, enquanto minha mente se afundava naquele a quem eu tentava a todo segundo evitar lembrar.

Depois de sua saída súbita no dia da corrida, não tornei a vê-lo. Conrad chegou a puxar conversa por meio do celular e tínhamos boas conversas, como velhos amigos... No entanto, eu sentia falta de mais. Sentia falta da outra parte de Conrad e não sabia o que tinha acontecido para mudar. Ainda tinha a esperança de que ao nos vermos pessoalmente, tudo voltaria ao normal.

Mas tinha medo de comprovar.

Vic me deixou em casa, na qual somente Marie estava.

— Boa tarde, senhorita. Quer alguma coisa, querida?

— Não, Marie, não se preocupe. — respondi e joguei minha bolsa em cima da cama. — Notícias de tio Jean?

— Seu padrinho não está conseguindo entrar em contato onde está, mas representantes do príncipe soberano mandaram avisar que voltam amanhã. Ou depois da festa de vossa alteza Pierre ou um pouco depois.

Assenti. E disse a Marie que precisaria descansar, pois Vic iria sair comigo depois.

Meu tio finalmente ia voltar e eu iria poder resolver todos os nós de minha vida. Ele não poderia escapar dessa vez, meu pai estava impossibilitado de falar, então que fosse Jean a contar tudo que, certamente, sabia.

¨*¨*¨*¨*¨*¨

— Você. Está. Maravilhosa! Gata!!

— Assim você me envergonha, Vic.

— Que vestido lindo, Sereia!

Eu não podia negar. Marie tinha um ótimo gosto e sua escolha tinha sido um vermelho, que se apegava ao meu corpo como gotas de chuva. Minha pele mais branca era contraste com o carmim acentuado e os labios em vermelho.

Mas Vic também estava linda com seu preto com pedrinhas brilhantes. O ruivo do cabelo estava preso em um rabo de cavalo e deixava exposta a pele de seu pescoço por inteira.

— Hoje sairemos com namorados, hein.

— Por favor, Vic — eu ri de seu comentário alegre, dito na tentativa de me fazer sentir melhor. Mas eu não conseguia desafrouxar o sufocante aperto que sentia em meu peito.

A casa de festas se chamava Angel (Vic até falou que o dono era inglês). Um painel luminoso estava escrito com o nome da boate e luzes brancas e rosas piscavam dele. A fila era grande e seus componentes aparentavam as mais variáveis nacionalidades, desde uma asiática até um australiano.

— Fica sempre muito cheia, mas só tem gente importante. Vêm até pessoas que não são do principado mas decidem dar uma olhada. — Vic cochichou para mim quando descemos de seu carro.

Diante dos olhares de todos, me senti nervosa e apertei mais forte o sobretudo que havia vestido.

— Vamos, Sereia, Pierre já deve ter dito de nossas presenças.

Deslumbrada com o glamour de todos que nos olhavam, só segui Vic até um segurança do lado oposto ao da fila comum.

— Por que não vamos para a fila?

— Porque o príncipe deve ter entrado por esta porta. É exclusiva. — Vic cochichou de volta.

Enquanto a ruiva falava de nós para o grande homem, bati meus saltos nervosamente no chão. Será que estavam nos xingando por entrar naquela porta?

— Vamos, Serena!

No instante em que fui puxada para entrar, os flashes voaram em nossas direções. De fato eu não havia percebido os paparrazi ao redor da boate. Era bem óbvio.

— Pierre já chegou! Está nos esperando lá em cima! — Vic gritou para mim enquanto tentávamos atravessar a multidão pulsante até o andar superior.

— Caraca! Muita gente!

Vic abriu um enorme sorriso.

— É maravilhosa!

O lugar era, de verdade, muito lindo. Pequenas bolinhas de luz enfeitavam o teto e as escadas: acima da pista principal, fazia o desenho de uma mulher com asas. Em uma cabine psicodélica, um homem manejava o som e a galera gritava.

Como as pessoas passavam arrastando umas e outras, Vic foi mais forte e me impulsionou para subir com ela as escadas acesas.

— Meu Deus, tô amando!

Só ri do grito de minha amiga.

O andar superior não era tão cheio quanto lá embaixo, mas estava igualmente bem preenchido. Mesas com comidas e bebidas das mais variadas (muito coloridas também) estavam dispostas pelo andar entre os sofás e poltronas, circulando uma pequena pista de dança.

Avistamos Pierre ao fundo, ele acenou e fomos. Onde ele estava era mais íntimo, com sofás virados para uma bancada que dava visão para o ambiente abaixo, incluindo para uma entrada retilínea permeada com luzes.

— Vocês estão lindas, se me permitem o elogio — Pierre mostrou todos os dentes e bebericou de seu copo azul neon.

— Obrigada — Vic respondeu e tenho certeza de que corou.

— Galanteador — respondi. Ele riu.

— Chamei uns amigos, tudo bem? Faz tempo que não fico em lazer, mesmo. Minha prima, inclusive, já está por aqui, não sei onde.

Como se tivesse sido projetada, uma figura morena apareceu.
Ela era linda, dourada parecendo uma estatueta de ouro com revoltosos cachos pretos emoldurando o rosto branco.

— Olha ela aqui! Minhas queridas, esta é Cecile, minha prima materna! Ceci, essas são as criaturas que roubaram meu coração.

Todas rimos, mas com certeza Pierre já estava alegrinho demais com aquela bebida. Cecile abraçou Vic e a mim, embora eu tivesse a estranha sensação de conhecê-la de algum lugar.

— Vocês são mais bonitas do que ainda aparecem nas revistas! — Cecile exclamou, com um sorriso bondoso. — E você! Serena, não é? A Cinderela do baile! Você é linda!

Fiquei sem jeito pelos elogios e ainda pela menção do apelido que estava nas revistas.

— Oras, obrigada você.

Pierre, alegrinho, nos trouxe uns bebidas e me arrisquei em uma transparente, que não era forte, mas doce na medida certa.

A certa altura, Vic já dançava com Pierre ao nosso lado alguma música internacional com uma batida enlouquecida. Desviei meus olhos dos dois quando notei que Cecile estava petrificada na grade, com a visão presa em alguém que acabava de entrar e passava pela pista colorida do meio da boate.

Segui seu olhar e o avistei.

Ele estava mais lindo do que nunca. Com uma camisa preta com dois botões abertos, seu rosto era iluminado às vezes, o suficiente para eu notar seu perfil impassível. Conrad caminhava em passadas decididas, porém lentas, perscrutando com o olhar cada ambiente. E levantou o rosto diretamente para nós.

Precisei de uma força sobrenatural para não cair ao fitar aqueles olhos.

Olhos incrivelmente verdes que me tocavam até a alma.

E então ele sorriu.

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Gente, olá! Essa é a primeira parte e já vou dizendo que precede a ruptura de tudo Hahahahaha o momento fofo entre os dois antes que a bomba exploda.
Gostaria de agradecer por mais de 1,5K de visualizacao! Amo demais isso! E tive que adiantar essa parte senao morreria!
Espero que gostem e comentem