Herança Real

29 O Inverno Chegou


¨*¨

.

Capítulo 27 — O Inverno Chegou

.

— Conrad chegou, Pierre!

A voz de Cecile me despertou e desviei os olhos da figura que estava lá embaixo.

— Você está bem, Serena? — ela se voltou para mim e percebi que estava arfando. — Está com falta de ar?

— Não! — rebati, preocupada em me acalmar, pois certamente poderia ficar pior com a iminente chegada de Conrad. — Não precisa se preocupar, Cecile.

Ela soltou um sorriso e se afastou.
Pela forma como a qual Cecile estivera vidrada em Conrad e o entusiasmo com sua presença, eu poderia jurar que tinha algo a mais naquele interesse e não evitei sentir um amargo ciúmes. Dessa forma, fiquei parada onde estava, tendo a certeza de que a mulher fora cumprimentar a ele e que eu não queria ver o grau de intimidade que ele iria recebê-la.

— Boa noite, Serena.

Ele quase sussurrou de tão próximo que estava e uma avalanche de saudade me soterrou.

Como é possível doer fisicamente por alguém?

— Boa noite. — retribuí, tentando inclinar ao menos as comissuras dos lábios para fingir que estava tudo ok.

— Você está linda. — ele respondeu, e seus olhos acompanhavam de alto a baixo minha figura, passando mais segundos do que o normal, tanto é que Cecile se projetou de algum lugar ao nosso lado.

— Achei que não viesse, hein — ela disse, subitamente mais alegrinha. — Como está a duquesa, Conrad?

Os olhos verdes piscaram, primeiro confusos, depois ficaram mais duros. Estranhei a pergunta e seu motivo, mas me mantive calada a escutar Conrad falar que a mãe estava melhor e ninguém precisava se preocupar.

— Aconteceu alguma coisa? — tentei perguntar somente a ele, de forma que me aproximei mais que o recomendado para minha sanidade. Aquele cheiro me trazia tantas lembranças.

— Não — ele rebateu. — Quero dizer, você sabe da situação que estivera lá em casa, mas para os outros minha mãe somente está muito doente.

Assenti, mordendo o lábio para não inventar qualquer pergunta idiota sobre como estava quente aquela boate somente para ouvi-lo falar comigo.

— Faz tempo que não te vejo.

Eu deveria ser chicoteada em praça pública por não saber ficar com a boca fechada.

— Faz mesmo — Conrad respondeu. Senti sua mãos brincar com meus dedos que estavam firmes na bancada. — Você está bem? E seu pai?

— Estou. Ah, você sabe, naquela situação, mas os médicos estão esperançosos para ele acordar.

Conrad engoliu a seco e vi seu semblante se fechar. Por que eu sentia ele diferente, como se estivesse perdido dentro da própria mente?

— Mas e nesses dias... Alguma novidade?

Ele se assustou com minha pergunta que levantou o rosto rapidamente, os olhos verdes arregalados no rosto.

— O que foi, Conrad?

— Não, nada, Serena. — ouvi-lo falar Serena era tão estranho quanto ouvir um desconhecido me chamar de Se. — Não tem novidade nenhuma. A não ser, é claro, pela festa que será amanhã, não é?

Dei de ombros.

— Eu não estou muito animada para ir não, mas você sabe que seu primo está mais feliz que um ganhador de loteria com isso.

Ele riu e parou de mexer em meus dedos, deixando-os quase congelar sem seu contato.

— Ele tem essa mania de se auto vangloriar.

Eu ri, mas queria ardentemente perguntar o que aconteceu entre nós, pois, mesmo colados fisicamente, parecíamos estar a quilômetros de distância um do outro.

Entre uma conversa e outra, Conrad foi levado para a 'rodinha' dos meninos pelo primo e mais uns conhecidos. Vi Vic dar um muxoxo pelo príncipe se separar de sua dança maluca e se juntar às risadas com os outros, então a ruiva sentou ao meu lado no sofá.

— Está cansada? — perguntei ao vê-la descabelada e arfando. — Dançou pra caramba.

— Ainda não. Será que tem como ficar mais cheio isso aqui?

Realmente tinha enchido. No sofá a nossa frente, nem Cecile estava mais, tinha sido capturada por amigas em comum de primos, algo do tipo, e outras acompanhantes dos conhecidos de Pierre, de forma a sobrar somente eu e Vic, entaladas em um sofazinho em um andar lotado.

— Vamos descer? — Vic virou-se para mim e eu continuei bebendo meu copinho azul neon. — Por favorzinho, Serena, vamos, a pista lá está uma loucura!

Continuei fingindo que não a escutava, mas queria rir de seu desespero.

— Eu quero dançar debaixo daquele anjo! — Vic continuava a implorar até que eu terminei minha bebida e balancei a cabeça em negativa.

— Ah, por quê, Serena?!

Eu nem tinha um bom motivo, só queria continuar sentada.

— Não dê de ombros, sua ranzinza! Estamos numa festa! É para nos divertirmos!

Dito isso, Vic pegou outra bebida — rosa neon — e emborcou, me assustando por sua habilidade ao ingeri-la rapidamente.

— Se você for passar o resto da noite sentada aí e esperando a atenção do Conrad, Sereia, eu não poderei acompanhá-la.

Arregalei os olhos ao compreender a mensagem da ruiva e depois vê-la se afastar de mim destemidamente.

O pior era saber que era verdade.

Eu não poderia permanecer naquele lugar com a ilusão de que Conrad saberia onde me encontrar para trocar meia dúzia de palavras estranhas por míseros segundos. O que eu estava fazendo?

Tratei de levantar, num pulo, e tentei seguir pelo mesmo caminho que Vic seguira outrora. A música fazia todos se sacudirem aleatoriamente e passar espremida por todos foi um árduo trabalho, porém obtive êxito no andar inferior.

Vic estava bem debaixo da luminária de anjo e parecia totalmente feliz, sacudindo-se freneticamente, os fios ruivos despenteados que batiam em seu copo rosa. Ao me avistar, seu sorriso aumentou e me chamou pela mão.

Trombei e empurrei mais algumas pessoas até estar bem próxima a minha amiga. Pela quantidade exacerbada de pessoas por metro quadrado, eu estava colada à Vic, de modo que pude me inclinar facilmente para falar em seu ouvido.

— Obrigada por abrir meus olhos.

Vic piscou um olho.

— Amigas servem para isso. Agora, só se solte.

E fiz como ordenado.

Nunca algo foi tão libertador quanto dançar naquele espaço muito pequeno, mas com uma pessoa de confiança que te divertia a cada música e passo diferentes. Vic me guiava, depois eu a segurava, ríamos juntas e suamos bastante.

Eu não fazia ideia de quanto tempo estávamos rindo uma para outra como loucas, e trocando nossos pés com os de outras, mas já sentia minhas pernas dormentes, somente com os dedos latejando por conta do salto alto.

Como tínhamos parado de beber, estávamos mortas de sede, com os poros dilatados e os rostos brilhantes, mas continuávamos no balançar sem razão da música da vez.

Rihanna — We found love (Reeshy Remix)

Eu a reconheci como sendo alguma música estrangeira que falava sobre um amor encontrado em um lugar sem esperanças.

Ri com escárnio.

Que infeliz coincidência.

— Vamos lá, Sereia! — Vic gritou mais uma vez e me puxou bruscamente para outro canto da pista de dança.

Sem ter coordenação de mim mesma, meu corpo foi para frente pelos empurrões e tropecei para fora da pista, quase caindo e, certamente, sendo vítima de esmagamento de todos que transitavam.

— Vic! — gritei para alertá-la de que não iria segui-la, mas ela já tinha saído do meu campo de visão. Quando me direcionei para ir ao seu encontro, meu pé direito entortou subitamente.

Olhei incrédula para o salto que havia acabado de quebrar e tentando me manter firme no mesmo lugar e não ser levada pela correnteza de pessoas que passavam por mim de todos os lados.

Que infernos! Maldito salto! Como eu sairia daquele lugar com um salto quebrado, pelos céus?!

Praguejei algumas vezes enquanto pensava num plano de fuga. Eu tinha combinado de voltar com Vic, mas ela não iria embora ainda. Ir sozinha estava meio complicado pela difícil locomoção, na qual nem me arrastar eu estava conseguindo. Se eu tirasse o salto, não existiriam mais pés para mim, eles seriam pisoteados obviamente. Porém continuar arrastando um salto quebrado não estava me levando a lugar nenhum.

Eu estava começando a ficar levemente desesperada quando uma mão familiar agarrou meu braço.

Conrad me puxou com força para seu peito e eu teria caído se suas mãos não me mantivessem presa.

— Serena, o que houve?

Pisquei, atordoada com nosso contato tão próximo e pela saudade que me consumiu rapidamente. e demorei para captar sua mensagem, de forma que ele começou a procurar por alguma evidência em meu corpo, me segurando ao mesmo tempo em que me examinava com os olhos.

— Meu salt...

— Quebrou, hein. — ele me interrompeu, com metade de um sorriso no rosto. — Vem cá, vem.

Sobrenaturalmente, ele abriu caminho entre todos até estarmos seguros em uma parede escura com poucas pessoas.

— Ai, que alívio estar aqui — soltei, respirando profundamente o local. — Sem ter ninguém te empurrando ou socando para passar.

Conrad soltou uma risadinha, mas ainda olhava para meu pé torto.

— Está doendo?

— Não muito, acho que porque dancei muito.

— Eu vi. — ele sentenciou, me fitando profundamente pela primeira vez na noite e senti minha alma sendo desnuda.

— Então...

— Você quer ir para casa? Eu te levo. — Conrad voltou a me interromper. Suas mãos não tinham deixado meus braços e era o que me faziam permanecer em pé, contrastando com a vontade de derreter por inteira ali mesmo.

— Sim, por favor. — suspirei.

— Vai ser horrível para sair com você assim. — ele indicou meu pé tortinho e eu soltei um muxoxo. — Vou te levar no colo.

— Não! Você tá louco, Conrad?!

— Serena, aqui está lotado! Ou você é pisoteada ou vai no meu colo!

Bati o pé. Eu não ia sair no colo dele, pelo amor de Deus, alguém teria que ter bom senso ou estaríamos em uma encrenca das grandes se nos fotografassem daquele jeito.

— Não mesmo! Posso tentar ir andando!

Ele quem bufou. E do nada, tirou o próprio tênis.

— Usa isso e me dá os saltos.

Escancarei a boca e não me mexi. Ele ia usar meus saltos?!

— Não seja ingênua, Se, não vou calçá-los — ele pareceu ter lido meus pensamentos e sorriu. — Vou segurá-los, tudo bem? Por favor, calça logo isso e vamos embora que eu já estava cansado.

Conrad se movimentou e tirou meus saltos enquanto eu o assistia.

— Não posso, Conrad, você vai ficar sem pés quando saímos daqui!

— Confie. Eu aguento.

Ele enfiou meus pés nos tênis e ficou apenas com meias pretas.

— Vamos logo com isso antes que você saia desse torpor e desista da ideia.

Conrad me puxou pela mão e abrimos caminho entre a multidão.

Acho que estávamos do outro lado da porta, pois fizemos uma enorme caminhada para finalmente avistar a luz.

— Vamos para os fundos, porque não tem movimento e parei o carro lá.

O álcool em meu sangue tinha me deixado mais lentinha, por isso eu demorava para recobrar minha consciência e palavras, de forma que não rebatia o que ele dizia.

Ao respirar o ar da noite fria, Conrad se permitiu gemer de dor.

— Nunca pensei que fosse possível as pessoas fazerem mesmo o pé de alguém de tapete.

— Me desculpa por isso, Conrad. Toma seu tênis.

— Não, de jeito nenhum! — ele me afastou com uma mão. — Eu ficarei bem, 'tá certo? Vou te levar para casa.

Fui conduzida para seu carro e só conseguia pensar no que ele tinha enfrentado para eu poder sair com pés inteiros daquela boate. Mesmo sonolenta, trôpega e lerda, um sorrisinho não saía de meus lábios por saber que ele tinha me observado dançar o tempo inteiro, tinha me socorrido e agora me amparava para casa.

Avistei-o de soslaio dentro do carro e seu olhar me encontrou.

— Ai, ai, Sereia, o que você me faz fazer.

Sorri maior.

Mesmo com o aperto em meu coração, eu sabia que tinha caído nos encantos de Conrad Hanôver da Casa Grimaldi.

¨*¨*¨*¨*¨*

Embora com dor de cabeça pela última noite, eu tinha conseguido não transformar o dia em noite apenas dormindo. Acordei pela tarde no exato horário no qual Marie irromperia pela porta para me acordar e me ajustar para a festa de comemoração de Pierre.

— Argh, temos uma festa — grunhi após levantar.

A noite anterior tinha me deixado com um cansaço, mas tentei vencê-lo para me arrumar devidamente para a festa, afinal eu sabia que o palácio estaria lotado com inclusive, possivelmente, o príncipe soberano Louis, pai de Pierre.

— A senhorita gostaria de ir de vermelho, hum? Combinará perfeitamente! — Marie exclamou ao buscar um belo vestido vermelho de veludo.

Eu soube que seria ele.

(...)

A noite já estava brilhando lá fora e Vic tinha acabado de chegar para me buscar.

— Uau, gata! — minha amiga gritou. — Amei o vestido, sereia!!

Eu ri, envergonhada com seu escrutínio ao me observar.

— E você não está nada mal para quem madrugou em uma boate.

Victorine riu e ficou com as maçãs coradas.

— Oras! — foi tudo que ela conseguiu responder.

— Essa festa promete.

— Eu não sabia que a senhorita era tão baladeira.

Vic revirou os olhos, mas riu.

— Estou aprendendo a me soltar.

Havíamos chegado ao palácio e não pude evitar me lembrar do primeiro beijo com Conrad na mesma sacada que eu observava no momento.

Outros tempos, eu sentia.

Entramos e logo fomos engolfadas por diversas pessoas e sotaques. Divergi de Vic por ter tantos entre nós e acabei em uma extremidade do salão perto de uma mesa.

Como sabia que em alguma hora encontraria um conhecido, não fiquei nervosa e busquei uma taça ali próximo.

— Olá, garota!

— Pierre! Como está bonito! — sorri para meu amigo que tinha me cumprimentado com um beijo na testa.

— Não mais que você certamente — ele piscou um olho.

— Aliás, parabéns pela vitória na corrida, novamente, e pela festa.

— Oras, que prazer ouvir um elogio da senhorita — ele galanteou e sorri. — Sinta-se à vontade, garota, a casa é sua.

Ele se despediu para atender às suas necessidades de anfitrião e ao me virar, vi uma velha figura platinada.

Blaire de Rohan, futura duquesa de Valentinois, como ela gostava de ressaltar.

Paciência se ela parecia querer me comer viva.

E mais paciência ainda se ela parecia decidida ao vir me encarar de perto.

— Você só pode ser uma feiticeirazinha, não é mesmo, Kane?

— Do que você está falando, menina?

— Até o príncipe você manipulou!

Blaire só podia ter enlouquecido e eu não iria acalmar aquele furacão que parecia prester a acontecer.

— Você e suas neuras. Por favor, me poupe, Blaire.

E dei as costas a minha querida conhecida, sentindo o ódio dela queimar em minhas costas.

Depois de alguns passos, verifiquei-me para observar onde a doida tinha se metido, e a encontrei com Alexandra, a qual apertava fortemente o braço de Blaire como se tivesse brigando com a garota.

Algo não me cheirava bem.

Fiquei sozinha o restante da festa, sendo abordada vez ou outra por alguns desconhecidos que me reconheciam de alguma notícia e faziam-me perguntas ou convites (no caso de fotógrafos ou editores de revista). Até o anúncio da chegada do príncipe Louis, eu estava completamente só.

Todos nos dispomos pelo salão de modo a assistir ao cortejo dos príncipes pai e filho até o púlpito real e aos dizeres de iniciação da comemoração, além de várias fotos para as coberturas internacionais que estavam cobrindo o evento. Tentei procurar Vic ou Conrad, mas nenhum dos dois eram rostos visíveis dentre o público, então desisti de procurar.

Eu estava atenta ao cerimonialista quando fui cutucada de lado.

— Você não vai se livrar hoje, Serena, pode apostar.

— Blaire, você está bem? Nunca vi tanto interesse seu em ficar ao meu lado como hoje. — respondi, tentando me desvencilhar de todos e principalmente da minha recente companhia.

— Não banque a engraçadinha comigo, sua idiota! — ela cochichou ao meu ouvido, de tão próximas que estávamos e eu sentia repulsa em estar ouvindo aquelas coisas contra minha vontade.

— Você quem devia falar direito comigo, sua doida! — retruquei, me empurrando ainda mais para fora da orda e ficar livre do assédio daquela barbie platinada.

Respirei fundo ao sair do aperto e me esgueirei numa janela para ver a chamada de Pierre para discursar.

— Boa noite, convidados! Como já foi dito, é um imenso prazer, principalmente meu, conceder essa comemoração a todos vocês e celebrarmos mais um título automobilístico sendo angariado para nosso principado! — Pierre falou, parecendo muito feliz em estar naquele lugar, falando ao microfone para um salão imenso e lotado, além de estar em muitas televisões fora do país. — É uma honra servir ao povo monegasco e meu desejo é deixar algo bem claro: nossas vitórias são coisas compartilhadas. Sem vocês, o apoio e o carinho, nada seria proveitoso, nenhuma comemoração ou prêmio teriam valor, portanto eu aprecio muito e dedico esta festa a todas as pessoas que dão suporte aos outros para que eles vençam em nome de todos!!

O público foi ao delírio ao ovacioná-lo.

— Por isso, especialmente pela corrida de Fórmula 1, eu fui ajudado por alguém de fora, que exemplifica todos vocês que apoiam este principado. — Pierre começou e um estranho nervosismo brotou em mim. — E para representá-lo, povo monegasco, eu gostaria de chamar aqui minha queridíssima amiga Serena Kane!

Enquanto todos batiam palma, eu não desgrudei meus olhos o LOUCO do Pierre em cima daquele púlpito.

Por que raios ele continuava com essa mania de me chamar para essas coisas?! Ao fitá-lo, abobalhada, eu soube, pelo risinho em seu rosto, que ele fazia aquilo tanto para me agradecer por um apoio como também para me sacanear.

Ele ia me pagar algum dia.

Quando ele me captou no ambiente, todos também acompanharam seu olhar e fui desmascarada em minha insignificância.

— Venha, Serena, por favor, representar o bravo povo monegasco!

Eu não podia ir embora, meu Cristo! Só pude andar mecanicamente até o púlpito enquanto abriam caminho. Subi tremendo, com medo de cair naqueles degraus dourados e brilhantes, me lembrando de respirar e cumprimentar com uma vênia Louis, o soberano do principado.

Também cumprimentei a Vossa Alteza Pierre, enquanto ouvia os aplausos. Com certeza eu estava completamente vermelha.

— Obrigada pelo apreço, Vossa Alteza — respondi, ao lado de Pierre para que fosse suficiente o som de minha voz em seu microfone e eu não tivesse que pegá-lo para discursar também.

Pierre riu com gosto e pousou uma mão em minhas costas, me empurrando levemente para frente luminosa de câmeras e multidão de rostos.

— E é com esta homenagem que eu deixo meu carinho registrado para meu povo. Curtam a festa que foi feita para vocês! — Pierre terminou e no exato momento que pus os olhos em todos que nos observavam, vi uma mão se levantar e ir se aproximando de nós.

— Quero falar algo! — alguém gritava.

Pierre também notou o imprevisto, porém tentou ignorar o ocorrido e terminar logo a cerimônia de apresentação, mas a figura, de algum modo, projetou-se rápido demais no próprio púlpito.

Blaire estava de sacanagem comigo. Só podia.

O que ela estava querendo ao tencionar dizer algo internacionalmente sem ser convidada?!

— Oh, parece que uma representante da realeza também quer falar algo — Pierre improvisou e foi tomado pelo susto ao ter seu microfone roubado por Blaire.

— Oh, sim, eu quero falar algo! — a platinada começou e virou-se para frente. — Boa noite! Eu sou Blaire de Rohan, da Casa de Valentinois, e gostaria de expressar algumas palavras para nossa bela convidada.

Blaire apontou para mim e deu uma tentativa de sorriso gentil.

Eu vi nos olhos de Pierre seu desejo em escapar daquela situação não planejada, porém interrompê-la seria passar vexame na televisão, o que não havia cabimento, então deixou a louca da futura duquesa continuar a falar.

— Queria dizer a todos vocês o quão especial é Serena Kane. A desconhecida Serena Kane que logo ganhou um espaço em nossa sociedade, não é mesmo? Pois bem, tão estranhamente quanto ganhar o coração de todos nós ao bancar a boa moça de boas ações e roubar a atenção do futuro príncipe soberano do principado, ninguém sabe de onde veio tão bela moça! — Blaire jorrou seu veneno no microfone e eu sentia o olhar de todos queimar em mim, como se tentassem encaixar as palavras em mim. – Quem poderia imaginar que a bela mocinha fosse uma impostora, hum?! Quem poderia imaginar que Serena Kane fosse uma infiltrada anônima para roubar o trono?!!

Um 'ohhh' foi solto por todos e até mesmo por mim. Blaire tinha enlouquecido, com toda certeza. Quem ela era e o que sabia para falar tudo aquilo?! Eu estava petrificada com as coisas que aconteciam em segundos. Todos nós estávamos e Blaire aproveitou para continuar.

— Vocês se lembram, povo monegasco, quem foi Saskia Burnier? Se não, vou relembrá-los! Ela foi a escolhida repentina como noiva do futuro príncipe Jorge de Grimaldi, o irmão mais velho do nosso amado soberano atual, Louis. SIM, POVO! Aquela princesa francesa que MATOU nosso querido Jorge ao traí-lo com um qualquer e fugir daqui! Ela foi uma impostora! Uma pária! E teve uma filha!

Meu ouvido zunia, minha cabeça pesava. Além de exclamações espantosas, o olhar de todos me comparavam. Até Pierre estava virado para mim, como se procurasse traço da suposta mulher dita por Blaire.

— Saskia Burnier, a quem o povo monegasco acolheu e amou com todas as forças somente para ser desprezado, foi uma impostora e se aproveitou de todos nós, e sua filha teve o mesmo destino. Venho a todos declarar que Serena Kane é filha de Saskia e, como tal, veio repetir o destino de sua mãe. Vim avisá-los para além de roubar seu povo e seu reino, Serena Kane não seja capaz de roubar o dono de seus corações também.

Um tumulto se alastrou por todo o salão e eu fiquei atônita.

Que merda de história era aquela e por que Blaire tinha soltado o microfone e sorria amargamente para mim? Por que Pierre franzia fortemente o cenho e me olhava enviesado? Por que o príncipe soberano, em toda sua austeridade, tinha se levantado do trono e me olhava duramente?

O que tinha acontecido?

— Uma pena que mesmo você querendo enganar a todos nós, Serena, quem foi enganada foi você. É bom ver seu fingimento de surpresa por eu ter descoberto sua história e anunciado a todos, isso prova que pelo menos Conrad não contou nada a você sobre nossa descoberta.

Blaire me deu as costas e ainda notei que foi acudida por seguranças, mas minha vista já estava embaçada e minhas pernas tremiam.

Mesmo com o caos instalado no salão, notei que havia ficado sozinha, petrificada naquele lugar ao ver o príncipe Louis puxar Pierre e sumir de minhas vistas.

E uma dor em meu coração me fez olhar para o público ali embaixo e focar em um rosto na multidão. O único rosto que eu desejara ardentemente ver a noite inteira.

O único rosto que me comprovava que tudo que Blaire falara tinha algum fundamento desconhecido, pois Conrad era meticuloso com informações políticas. E em seus olhos estava escrito que ele sabia de tudo aquilo e não havia escapatória.

Aquilo tinha uma explicação, embora eu a desconhecesse.

Pude sentir como um cristal de gelo que se desprende do teto de uma caverna meu coração despencar do meu peito ao reconhecer a sensação de ser traída.

Traída por todos e por aquele a quem me importava mais.

Ele sabia de toda aquela história e nunca sequer comentou comigo a respeito.

Ele sabia daquilo e estivera maquinando, certamente, com Blaire para que eu fosse humilhada em rede internacional. Para que eu fosse jogada às chacotas.

Para que eu descobrisse meu maior segredo e ao mesmo tempo perdesse meu coração.

.

.

.

MEU POVO! E AÍ, SOUBERAM DE PARTE DO MAIOR SEGREDO DESTA HISTÓRIA! FALEM COMIGO A RESPEITO!!!