Herança Real
34 Famigerada Resiliência
Capítulo 31 — Famigerada Resiliência
"Eu não quero ficar sem você, amor.
Eu não quero um coração partido.
Eu não quero respirar sem meu amor..."
CONRAD
Eu não me lembrava de algum evento que me fizera sentir tão profunda... Solidão.
Nem mesmo o dia do meu aniversário de 12 anos no qual meus pais me comunicaram que eu iria viajar para a Áustria para estudar num colégio interno. Nem mesmo nos meses subsequentes em que eu ficava sozinho no colégio nos dia de visitação e nas comemorações. Nem quando meu pai nos deixou.
Serena havia sobrepujado tudo mais na minha vida.
Após desligar o telefone, fiquei preso em meus pensamentos, com a cabeça entre as mãos dentro da penumbra do escritório.
Eu tinha errado, eu me arrependia, e esperava que todos esses dias longe de Serena servissem para que me perdoasse. Eu sabia que a situação conflituosa pelo qual passava não ajudava a organização de seus pensamentos, mas eu estava desesperado por perdão. Tão angustiado por perdão que seria capaz até de aceitá-lo e deixá-la ir para longe de mim se fosse de sua vontade, embora me doesse profundamente.
— Conrad?
Levantei os meus olhos com sofreguidão para encarar a figura na porta.
— Por que seus olhos estão vermelhos? — Cecily se adiantou para ficar à minha frente e segurar meu rosto entre os dedos. — O que houve? Parece tão triste. — ela disse baixo, mas tão baixo que só escutei porque havia uma fina camada de ar a nos separar.
Engoli a seco, sentindo a ardência na garganta e no nariz. Como eu poderia dizer que estaria prestes a chorar por uma mulher que não me queria?
— Ah, Conrad...
Fechei os olhos, me recusando a tentar falar algo porque certamente não aguentaria. Eu não tinha mais planos, não tinha mais opções para tentar me aproximar de Serena porque havia vencido minha vergonha e orgulho para entrar em contato e ser o mais sincero possível, falar as coisas que estavam em meu coração e rezar para que ela sentisse que eram as mais verdadeiras possíveis.
Mas falhei.
Cecily rodeou a mesa do escritório e me abraçou, murmurando algumas palavras de conforto. Eu não tinha noção se ela se dava conta que eu estava naquele estado por conta de Serena, mas Ceci percebia que eu sofria a ponto de não comandar o meu próprio corpo e ser deixado me levar em um abraço.
— Não fica assim, vai ficar tudo bem, podemos encontrar uma solução...
Eu apertei um pouco mais forte os braços de Cecily. Queria dizer que não poderíamos encontrar uma solução porque eu tinha perdido Serena por um erro infantil. Eu também queria dizer a Cecily que eu não costumava ganhar abraços ou demostrações de carinho fisicamente, então dificultava ainda mais meu emocional para que expusesse a situação.
— Acalmei sua mãe, está tudo bem agora. Ela andou piorando esses dias, menos lúcida... Mas estou dando conta. Não se preocupe com ela, e essas burocracias e dívidas vão passar, Conrad, não perca a cabeça com essas coisas passageiras.
Eu queria agradecer por sua dedicação com minha mãe e sua ajuda dentro da minha vida principalmente naquele momento, respirei, portanto, e me desvencilhei de seus braços.
— Obrigado. Por tudo. — consegui dizer, vencendo o nó na garganta.
Lendo, certamente, o que estava escrito em meus olhos, Cecily respondeu:
— Sei tudo o que está tentando dizer, e só te informo que não há de quê. Eu amo você...
A ver meus olhos se arregalarem um pouco com a ambiguidade de suas últimas palavras, Cecily se afastou de mim e torceu as mãos várias vezes.
— Hm... Você sabe, pode contar comigo para qualquer coisa, Conrad. Estarei ao seu lado — disse quando já estava na soleira da porta. — Deseja algo?
Um pouco de culpa se acumulou à minha tristeza naquela noite por ver os olhos esperançosos da única que estava me dando apoio.
— Não, Cecily. Obrigado. De novo.
A garota com os grandes cachos negros como a noite que reluzia lá fora assentiu e ficou parada uns segundos me olhando, talvez pensando no que dizer. Andou, porém, porta afora.
¨*¨*¨*¨*¨
"Então me diga como é isso?
Você é o único que eu desejo que pudesse esquecer
O único que eu adoraria não perdoar
E apesar de você partir meu coração, você é o único."
— Bom dia, Serena querida — Marie entrou em meu quarto e abriu as cortinhas, revelando o forte brilho do dia que nasceu. — Estamos esperando por você para comer.
Eu a observei ir embora e o velho piloto automático que se instalara dentro de mim entrou em ação. Eu já não pensava em meus atos, simplesmente fazia o que sabia que deveria fazer. Meus miolos com certeza já não estavam saudáveis.
— Ora, ora quem apareceu — tio Jean me cumprimentou e fechou o jornal em que dava uma olhada. — A que devo o prazer de sua companhia, minha querida?
Pela primeira vez desde que eu me ausentara para qualquer refeição com alguém, me senti culpada por saber que tio Jean sentia minha falta enquanto eu me isolava todo santo dia.
— Me desculpe, tio, por esses dias. Precisei pensar — retruquei para fazer seu rosto diminuir a tensão existente.
— Oh, mas tudo bem, imagino que precise de um tempo para tudo isso, querida. Já está melhor?
Mordi os lábios. Engoli a seco.
"Porque eu te amo, Serena"
— Estou sim. Pode contar comigo, sei que precisa que eu colabore nesse momento. — balancei a cabeça querendo espantar pensamentos. — Sei que não podemos fazer o problema da realeza simplesmente desaparecer, mesmo que quiséssemos.
— Isso mesmo. Me desculpe por isso. — tio Jean apertou de leve minha mão e assenti.
— Não tem culpa, tio. Além do mais, precisamos resolver logo isto. Papai precisa de ajuda profissional.
Tio Jean notou mina preocupação. Quando tio Jean e eu decidimos nos afastar da capital para ganharmos tempo até ajeitar tudo (para tio Jean e seus contatos), a casa de campo dos Burnier veio a calhar. Embora eu adorasse aquele lugar e tivesse querido aproveitar melhor os cinco dias em que passamos ali, eu sabia que deveria voltar.
Eu necessitava voltar. Não podia fugir. Corria o risco de voltar e nada ser o mesmo.
O que eu mais temia.
Será que tomei a decisão certa?
Não queria passar o resto da vida me arrependendo por minhas escolhas.
Minha mãe foi a prova viva disso...
— Sei que sim. Já providenciei tudo, só queria te dizer que sairemos assim que você der o aval.
— Vai ser difícil. — comentei, baixando a cabeça que queria começar a doer só em imaginar a repercussão. — Vou ser bombardeada por todos os lugares, teremos que resolver esta burocracia gigantesca e tenho medo de tudo mudar para sempre, tio.
— Nada mais voltará a ser igual, minha querida, não compreende? — seus olhos ternos me acalentaram. — Você mudou, você mudará, mas pode tomar as rédeas de como serão feitas essas mudanças. Tudo passa, Serena. E devemos ter a famigerada resiliência.
— Resiliência? — franzi o cenho ao observá-lo.
— Ora, sim — tio Jean deu um enorme sorriso. — De acordo com o dicionário: capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças. Temos que seguir em frente. Avante, querida, o mundo não para de girar.
Fiquei pensativa sobre suas palavras e sob seu olhar inquiridor. Até que, como uma luva se encaixando nas mãos certas, a decisão fluiu em mim.
Suspirei, resignada. Eu tinha que aceitar meu destino.
— Vamos voltar, tio.
Ele me olhou, divertido. Bateu as mãos para limpá-las e tomou um gole de café.
— Vamos hoje mesmo, querida.
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