Herança Real
1 Cega em tiroteio
Capítulo 1
Antes de eu me encontrar na situação mais inusitada e amedrontadora que alguém poderia estar, minha vida era normal. Claro que era. Eu vivia com meu pai em uma velha casa na melhor vila do mundo todo. Éramos queridos por nossos vizinhos, trabalhávamos com eles em feiras e participávamos de todas as comemorações de bairro. Até o dia no qual meu pai apareceu subitamente nervoso, mas sorrindo.
— Serena!
Assustei-me com sua chegada não planejada, afinal não chegara nem a hora do almoço.
— Pai? O que foi, pai?
Larguei a faca que manuseava o quê estava preparando e fui ao encontro dele.
— Tenho uma novidade, filha.
E então ele me abraçou e começou a contar uma história tão grande que no momento nem me lembro. Eu não entendo como não desconfiei de tudo. Como assim íamos sair de férias dali a dois dias, se nem dinheiro ao fim do mês geralmente tínhamos? Não, Serena, eu consegui um adiantamento e você merece, minha filha, tão jovem e já trabalha tanto. Ele me respondeu, com lágrimas nos olhos (será que eram falsas?) e eu cai na história, movida pela droga da emoção de vê-lo ali, me abraçando e implorando para que descansássemos.
Tudo bem, por mais repentina que tenha sido nossa viagem de férias eu estava de verdade feliz por aproveitar um tempo com ele, até imaginei que fôssemos ao litoral, ele vivia me dizendo o quanto queria conhecer o mar, porém ele nem ousou me dizer o destino, comunicando apenas que era surpresa.
Eu, mais uma vez, fui na onda.
Com apenas duas malas, lembro-me de ter andado atrás dele até que entramos no avião.
— Pai, nós vamos demorar? Acho que não estou curtindo muito essa ideia de voar nessa coisa.
Meu pai riu do meu comentário, mas eu realmente estava suando.
— Calma, filha, será mais rápido do que imagina.
Ele apertou minha mão e disse que tinha levado um remédio que diziam ajudar a quem tinha medo de viajar. Eu estava numa pilha tão grande que na primeira oportunidade tomei o remédio.
E quando eu acordei, meu pai não estava mais lá.
°**°**°**°
Eu enlouqueci quando a aeromoça me cutucou.
— Senhorita? Senhorita! — ela me chacoalhou. — Já pousamos, senhorita, acorde.
Pisquei várias vezes até entender o que a mulher tinha dito e me perguntei o porquê do meu pai não ter me acordado. Até que me virei e estava sozinha.
— Mas... — balbuciei. — Moça, a senhora sabe onde está o homem que estava aqui?
Acho que a aeromoça teve pena de mim, porque ela deu um sorriso triste.
— Senhorita, o senhor que estava aí já desceu há muito tempo, como os outros passageiros. Só retornei porque o comandante informou que alguém havia ficado.
Eu lembro também, embora com certa vergonha agora, que eu quase me meti numa briga com a aeromoça inocente. Ela, enquanto me explicava que eu estava sozinha, me conduziu até o aeroporto para longe dela. Eu até entendo, eu não era problema dela, tampouco era se eu estava perdida.
A única coisa que restou de meu pai ao meu lado foi um grande envelope e uma bolsa — que mais parecia uma pequena maleta — trancada.
Claro que tentei até jogar a maleta no chão para saber seu conteúdo, porém o envelope eu consegui abrir. Não estava endereçado a mim, mas tinha a caligrafia de meu pai.
Quando sentei com minhas malas em um banco daquele aeroporto deslumbrante (ele é sensacional, devo ressaltar), abri o envelope e dois papéis caíram.
"Serena, eu sabia que iria abrir este envelope mesmo que não fosse para você. Filha, deixei em sua mala uma quantia considerável para que possa ajudá-la a chegar neste endereço. Procure um táxi, entregue esse endereço e chegue até este homem. Tenho tudo planejado, não fique com medo e nem pense que a abandonei. Eu te amo, filha, na hora certa você irá entender."
Só isso ele tinha escrito. Como assim? Nossas férias tinham virado um esconde-esconde? Ele sumia e ainda me deixava com uma carta enigmática? Que espécie de brincadeira era aquela?
Bom, embora eu tenha ficado vários minutos digerindo aquela ideia maluca e a confusão que meu pai tinha arranjado, não me restava nada a fazer, afinal o dia ia passando e eu seria expulsa até do aeroporto. Não duvidava nada.
Então, eu sai de lá, tentando criar o máximo de confiança possível, pois eu não queria demonstrar fraqueza em um lugar que nem ao menos conhecia, vai saber quem assalta aqui.
E chegamos ao ponto no qual iniciei relatando de minha estranha viagem. Eu era normal, vivia em um local ameno e era feliz, e agora meu pai desaparece, sou deixada em um lugar que parece brilhar (de verdade, estou impressionada com cada coisa que vejo brilhante) com apenas duas malas. E uma carta endereçada ao senhor Jean Burnier.
Meus olhos se dirigiram à placa que estava de frente ao táxi no qual eu iria entrar.
"Bem vindo a Mônaco"
Não tive tempo para digerir a informação porque o taxista buzinou.
— Moça! Vai entrar?
Anui e, naquele momento, me senti mais perdida do que cego em tiroteio.
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