Herança

3 Através da noite


Notas iniciais
Bom, vou passar um período relativamente longo neste capítulo, um mês, mais ou menos. Essa passagem é necessária para dar continuidade à história.
É ponto de vista do Eragon, mas em terceira pessoa, é claro.

Capítulo três — Através da noite

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Eragon nunca se sentira tão cansado. Não, não, ele estava mais do que isso. Eragon estava exausto.

Enquanto se revirava dentro de sua barraca, no acampamento que os Varden haviam montado próximo a Belatona, ele repassava cada detalhe da batalha em sua mente. Lembrou-se de quando a parede caiu, e, por um momento, ele pensou que pudesse ter perdido Roran para sempre e o desespero foi tão grande que poderia escorrer para fora de seu corpo.

Eragon, ele ouviu a voz de Saphira em sua mente. Ela estava deitada do lado de fora da barraca e parecia com sono. Pare de se preocupar. Roran está bem. Tente dormir um pouco.

Certo, foi tudo o que ele respondeu. Os sentimentos de Saphira a traíam, no entanto, já que ela mesma parecia um pouco apreensiva e muito cansada. Você também durma. Está com fome?

Sim, ela disse. Mas cuidarei disso quando o Sol nascer. Por enquanto, vamos os dois descansar, pequenino.

Pequenino. Parecia que fazia uma eternidade desde que Saphira o chamara assim da última vez. E, agora que Eragon estava mais velho e mais forte, o apelido parecia não se aplicar corretamente ao novo ele.

Eu não vou parar de chamá-lo assim, ela disse, e ele não se importou, pois o apelido não o incomodava realmente.

Eragon ainda ficou mais alguns segundos refletindo, até que, lentamente, o sono começou a chegar e suas pálpebras foram pesando, pesando…


A menina tinha cabelos cacheados demais, ferozes e indomáveis. Parecia meio selvagem. Ela mantinha-os presos, na maior parte do tempo, mas naquele momento eles estavam soltos, moldando-lhe o rosto.

Ela não parecia ter mais de dezesseis anos. Estava dormindo, e, em seu sonho, agitava-se. Provavelmente, era um pesadelo. Seu rosto estava corado e ela suava enquanto debatia-se.

— Não… Afaste-se… não…

A menina estava tão aflita que Eragon quis confortá-la, de algum jeito. Mas era impossível.

Se ele não podia, contudo, a criatura verde de mais ou menos um metro e cinquenta de comprimento, o tamanho exato da menina, que descansava sobre um monte de feno, podia. Era um dragão, um belo dragão de escamas verdes e intensas. Ele estava dormindo meio segundo atrás, mas, assim que acordou, cutucou a menina loira casualmente com o nariz, como se estivesse acostumado com aquilo.

A menina revirou-se, girando. Ela e o dragão estavam em algum tipo de estábulo, e todos os cavalos do local estavam muito quietos, observando a cena com grandes e curiosos olhos negros.

O dragão bufou de um modo estranho e grotesco que só os dragões conseguem, e, um pouco mais forte, cutucou a menina novamente.

— Ah, não… o… o que? Kori? — Ela balbuciou, despertando. Sentou-se e esfregou os olhos. Enquanto isso, o dragão, Kori, esperava pacientemente.

Após recuperar o fôlego, a menina olhou em volta e pareceu compreender o que estava acontecendo. Com um sorriso triste e cansado, ela tocou levemente a cabeça do dragão.

— Outro pesadelo, não é Kori? Obrigada por me salvar... Como sempre. Aposto que se você pudesse falar, diria “você me cansa, Lianna!”. — Disse a menina, que agora estava claro que se chamava Lianna.

Lianna.

A menina, que estava levantando-se, deu um pulo. Eragon, no mais profundo de seu inconsciente sonho, também se assustou. Ele conseguira ouvir as palavras que o dragão sussurrara na mente da menina.

— Você… foi você, Koriander? — A menina indagou, parecendo mortalmente assustada.

Lianna. Sim.

Lianna teve que levar um minuto inteiro para recuperar-se novamente. Então, sorriu sutilmente.

— Eu deveria saber que você poderia sim falar, ao menos comigo. Thorn fala com Murtagh, não é? E eu li no livro que cavaleiros e dragões têm uma ligação especial. É verdade, certo?

Sim.

— Bem… Você fingiu que não sabia falar todo esse tempo? Por quê?

Não.

— O quê?

Não.

— Não te entendo, Kori…

Lianna. Não.

A menina colocou a mão no queixo, como se tentasse adivinhar o que o dragão queria dizer. Eragon, que já tinha passado por aquilo, já havia entendido.

O dragão aproximou-se mais de Lianna e roçou a cabeça em suas pernas.

Lianna. Sim. Não. Lianna. Sim. Não.

— Ah, sim! Céus, como eu sou burra! Você não sabe falar ainda… Só essas três palavras, não é? Lianna, sim e não.

Sim.

— Mas você consegue me entender…

­Sim.

— Então deveria conseguir falar o que eu falo!

Houve um longo período de tempo em que os dois ficaram em silêncio, ou, ao menos, o que pareceu ser um longo período de tempo. Então, o dragão, Kori, soltou uma lufada de ar.

Fa… Falar o… que você fala.

O entusiasmo da menina era tanto que ela parecia não caber dentro de si.

— Isso aí! É, isso mesmo! Eu não sou tão idiota… Consegue falar seu nome? Repita comigo: Koriander. Entendeu? Você ser Koriander.

Eu não sou idiota.

A menina se surpreendeu.

— Você não é mesmo. Consegue falar sim, só precisa de prática. Mas, vamos ver se eu entendi. Você não gosta que eu fale com você como se você fosse um bebê inexperiente. Estou certa?

Em resposta, Koriander deu-lhe uma cabeçada um pouco mais forte nas pernas.

— Mas você é um bebê inexperiente.

NÃO.

— Voltamos aos monossílabos… Que regressão.

Lianna idiota.

Lianna riu e abaixou-se, envolvendo Koriander com os braços.

— Ai! — Ela exclamou, quando pegou em um espinho, e começou a rir. Parecia muito mais leve e contente do que no começo do sonho.

Agora que você fala, me diga, Kori, você prefere esquilos ou raposas? Ou nenhum dos dois?

Ne… Nenhum dos dois. Têm pouca carne.

Sim, claro, mas você não espera que consiga comer uma pantera, não é? Por enquanto, teremos que nos focar em animais de portes pequenos. Então, vamos caçar. Estou pensando em roubar um cavalo, o que você acha?

Roubar é errado, Lianna.

— Mas é necessário. Os fins justificam os meios, não é mesmo?

Não.

— Chato! Você não deveria me apoiar ou algo assim? Eu leio bastante e, de acordo com os livros, essa marca na minha mão significa que você me escolheu como sua cavaleira… Ou dama, tanto faz. Então, se você me escolheu, você não deveria concordar com o que eu faço?

Não sempre. Não quando estiver planejando algo errado.

— Você aprendeu a falar rápido demais para o meu gosto. — Disse Lianna com um tom azedo. — Olhe, uma orquídea! Por que há uma orquídea aqui?

Lianna aproximou a flor do rosto e a cheirou. Era bela. Ela colocou equilibrada sobre a cabeça de Koriander e riu.

— Ei, não derrube. Está lindo.

Koriander rugiu.

— Desculpe. Eu amo orquídeas. Meu amigo Murtagh me levava algumas. Na língua antiga, chamam-se niernens.

Niernen.

Isso. Essa aqui é amarela, mas as minhas favoritas são as verdes. Elas nascem do lado de fora do castelo em que eu morava. Ah, veja só, eu sempre gostei das verdes, como você é verde. Coincidência não pode ser.

Gosto das amarelas como seu cabelo.

Lianna riu.

Vamos, vamos achar um cavalo bom. Tenho pressa e no ritmo em que estamos iremos levar meses para achar esse tal de Eragon.

O dragão grunhiu e abriu as asas, enquanto a realidade voltava lentamente à mente de Eragon…

Eragon acordou e percebeu que suava. Ele espreguiçou-se, repassando o sonho em sua cabeça. Ao sair de sua tenda, também percebeu que já era dia, apesar de ele sentir-se como se houvesse dormido por apenas alguns minutos.

Saphira, ele chamou mentalmente. Logo ouviu a resposta de seu dragão.

Estou chegando, ela disse. Estava caçando algumas lebres.

Está bem, disse Eragon, pensativo. Saphira, tive outro sonho daqueles.

Após alguns segundos de silêncio, Saphira disse, Com a menina e o dragão verde?

Sim, confirmou Eragon, era basicamente a mesma coisa dos outros. Só que desta vez ela descobriu que o dragão, Koriander, pode falar.

Não acho que sejam apenas sonhos Eragon, disse Saphira.

Nem eu, e isso me preocupa, ele confidenciou.

Havia um mês, mais ou menos, que Eragon estava sonhando com Lianna e seu dragão. O primeiro sonho viera em uma noite fria, e fora quando o ovo do dragão finalmente eclodira. Após isso, noite após noite, novos sonhos vieram, todos sempre sobre os dois. Eles andavam sozinhos e pareciam estar tentando chegar a algum lugar. Agora, Eragon descobrira o que eles tanto procuravam… ele.

Alguns sonhos antes, ele já percebera que a menina, Lianna, conhecia Murtagh e tinha algo a ver com o castelo. Ela sempre fazia um ou outro comentário ao vento sobre isso. Mas como antes ela não tinha ninguém com quem conversar (ela falava algumas coisas com o dragão, mas logo que percebia que ele não podia responder, silenciava-se. Às vezes, também, costumava ler em voz alta), esta fora a primeira vez que Eragon vira ela falando bastante.

Eragon estava intrigado e decidiu, naquele momento, que se essa tal Lianna não o encontrasse, ele iria encontrá-la por si mesmo.


"You can be a sweet dream (você pode ser um doce sonho)

Or a beautiful nightmare (ou um lindo pesadelo)"

Beyonce — Sweet Dreams

Notas finais
Espero que tenham gostado... Comentem, se puderem (: