Notas iniciais
Demorei um pouco, sim. Escrevi e reescrevi esse capítulo algumas vezes tentando achar o melhor jeito de contar a história. Espero que tenha funcionado. Boa leitura. :D

Monte Ontake
Honsü, Japão
Setembro de 2014


– Quanto tempo faz desde que chegou aqui, Oliver-kun? – A anciã se aproximou do rapaz, que observava da varanda do casarão de madeira a falda do estratovulcão inativo. Ele a tinha ouvido se aproximando metros atrás, não que isso o deixasse alarmado. Keiko era o mais próximo que ele tinha de uma amiga ali.


– Seis meses. – Ele abriu espaço, se apertando um pouco no final do corrimão de madeira para que ela se juntasse a ele. Oliver podia passar horas encarando aquela paisagem. – É uma linda vista.


– Se você puder enxergar, é sim. – Keiko concordou, apertando os olhos enrugados tentando, sem sucesso, enxergar o sopé do monte de onde estavam. – Quantas paradas antes daqui?


– Cingapura. Sri Lanka. Índia. Madagascar. África do Sul. Brasil. Colômbia. México. Havaí. – Ele enumerou. Lembrava de cada lugar vividamente. Em alguns deles, tinha feito progresso o suficiente com suas habilidades para justificar a passagem. Em outros, tudo o que tinha conseguido era confusão, mesmo em curtas estadias. – Mas nunca me senti em um lar. Não como aqui.


Era verdade. Aquele era um local tranquilo para seus sentidos. Ele podia quase se sentir normal e fingir que não ouvia o farfalhar das árvores coníferas que preenchiam grande parte da floresta que o rodeava, o ronco suave que o vulcão emitia dentro de si ou a respiração de Keiko, controlada, calma, quase inaudível como ela própria o ensinava a fazer.


Podia também ignorar o tremor constante sob seus pés, a sensação de girar na terra como se nada o segurasse. E o cheiro da geada que os pinheiros exalavam, trazendo-lhe uma sensação de viver em um conto de fadas ali, ainda que sentisse a realidade puxando-o através de seus outros sentidos.


– Esse não é o seu lar! – A oriental respondeu severamente, estapeando-lhe a mão com mais força do que uma senhora daquela idade, seja lá qual fosse, deveria ter. – Lares são para pessoas normais. Onde elas vivem e morrem. Você não é normal. Está destinado a fazer coisas grandiosas.


Ele a olhou diretamente percebendo por um segundo o olhar sonhador dela. Em outros tempos, Keiko tinha sido a esposa de um renomado samurai. As lendas e rumores que o tinham levado até ali diziam que ela tinha mais de 200 anos e era a espadachim mais talentosa do Japão. Quanto à primeira, ele não tinha muita certeza e seus sentidos apurados não confirmavam nem negavam a veracidade daquilo, mas podia afirmar que, com uma espada, ela era imbatível.


– É sábado. – Ela notou, despertando de sua breve contemplação. Para alguém com supostos dois séculos nas costas, Keiko tinha uma mente quase tão afiada quanto as próprias lâminas. – Vá para a cidade. E não deixe lhe enganarem. Aqueles comerciantes estão cada dia mais trapaceiros.


– Certo. – Oliver respondeu prontamente, usando o corrimão de madeira para se impulsionar para o andar de baixo. Pousando ruidosa e descuidadamente, ao contrário das técnicas silenciosas de caça que tinha aprendido em Madagascar, se pôs a correr na direção do vilarejo mais próximo dali, embrenhando-se pela mata.


Desde que tinha chegado ali, estava acostumado a fazer todos os serviços domésticos para Keiko. O treinamento que a anciã oferecia vinha com um preço. Lembrava expressivamente de quando a conhecera…


Seis meses antes


Era primavera quando ele encontrou pela primeira vez o casarão na floresta que rodeava o monte. Após várias tentativas, tinha certeza de finalmente estar no lugar certo. Primeiro, porque os telhados da casa magistralmente esculpida tinham uma pequena ondulação que se voltava para cima. Uma das marcas registradas do estilo japonês arquitetônico conhecido como kara-hafu.


E também porque um grupo de alpinistas europeus que ele havia conhecido na metade do caminho tinham confirmado suas direções. Pelo visto, era a terceira vez que eles iam escalar o Monte Ontake e conheciam bem as redondezas. Olhando dali, o monte não parecia um grande desafio para Oliver. Escalar o Pico de Orizaba, no México, certamente tinha sido um desafio mais interessante. Ou, pelo menos, assim parecia.


Pouco antes de se aproximar um pouco mais da casa, Oliver pôde ouvir uma respiração vinda de dentro dela. Fraca. Como se estivesse sumindo lentamente. Ele conhecia aquele tipo de respiração e normalmente a ouvia de pessoas que estavam morrendo, mas aquela estava calma demais. Algo parecia errado.


Sua caminhada pacífica deu lugar a uma corrida preocupada na direção da mansão de madeira. Enxergava bem como sentia claramente o padrão da própria velocidade. Mais quatro ou cinco passadas longas como aquela e estava na entrada da casa. Chutou a porta de madeira o mais forte que podia, concentrando a força nas dobras ao invés do centro.


Ao fazer aquilo, ele esperava encontrar muitas coisas. Talvez alguém precisando desesperadamente de ajuda ou, com batimentos tão suaves, podia ser apenas um animal. Já tinha passado por situações parecidas antes, mas não esperava ser quase cortado por uma espada.


Seu corpo se moveu sozinho quando ouviu o barulho da lâmina cortando o ar na sua direção antes mesmo de todas as farpas da porta estraçalhada caírem no chão. Ele ouviu os batimentos de Keiko se acelerarem um pouco quando ele desviou do primeiro golpe e tentou estender a mão para que ela parasse, quase perdendo-a no ato.


Não fosse a decisão da oriental de bater em seu punho apenas com as costas da lâmina, ele agora teria uma mão a menos. Algo lamentavelmente desafortunado para alguém que estava ainda aprendendo a lutar.


Agora


Na época, imaginou que não a tinha vencido por se recusar a bater em uma idosa, mas quando se lembrava de como ela tinha postado a lâmina afiada tão próxima de seu pescoço e perguntado “quem é você?” em um japonês alto e claro, tinha suas dúvidas. Ainda assim, ela devia ter visto algo de especial nele para aceitá-lo mesmo após aquela invasão.


A pequena vila, entre o Monte Ontake e a cidade de Nagoya, era um prato cheio para o comércio. Isso porque era um ponto de parada e descanso para os alpinistas, em sua maioria turistas, que vinham conhecer a montanha. A cada mês, grande parte dos rostos que se via no lugarejo era mudada, como um rodízio de pessoas. Pessoas iam e vinham, ele ficava.


Meteu a mão no bolso, em busca de algum dinheiro para fazer as comprar de Keiko. Não precisava anotar as coisas que ela queria ou seus valores, pois também lembrava perfeitamente bem deles desde a primeira vez em que os fizera. Tateando com os dedos encontrou um pedaço de papel, mas soube de primeira que não era o que procurava. Ainda assim, o puxou para fora do bolso.


A foto estava desbotada pelo tempo, mas ele não se importava. Tinha sorte de ainda tê-la inteira. Era uma das poucas coisas que sobreviviam aos anos que ele passava longe de casa. Suas recordações do dia eram as melhores e se perguntou se os três amigos que o acompanhavam na foto também pensavam o mesmo. Gostava de imaginar que sim.


Momentos como aquele o faziam querer voltar e, durante os sete anos de viagem, eles tinham sido muitos. Porém, Keiko estava certa. Ele não era normal e sua jornada tinha apenas confirmado aquilo. Além disso, as maravilhas que o mundo tinha para oferecer eram incomparáveis e, se dependesse de si, ele nunca mais voltaria para Perth.


Foi quando ele sentiu que seus ouvidos iam explodir. A foto caiu de sua mão quando suas pernas ficaram bambas do tremor súbito que ele sabia ser o único a sentir. O tímpano sensível agora zumbia pela mudança repentina, fazendo-o perder o equilíbrio. As pessoas normais ouviram tudo aquilo em seguida.


Oliver olhou para trás e viu o que temia. O céu estava acinzentado na região do monte e ele não esperou para se levantar e correr naquela direção. “Keiko”, ele pensou temeroso. Enquanto corria na direção oposta das pessoas que encontrava, notou que nunca tinha visto um vulcão em erupção. “Por que logo agora?”


Algum tempo após abandonar Perth, mais precisamente na Índia, tinha recebido um apelido. Ke Vicaraka. O Pensador. A princípio, ele tinha visto aquilo como algo agradável. Simples. Inofensivo. Contudo, o nome tinha um significado e uma responsabilidade. Ele não podia se desesperar. Não podia perder a calma ou o controle. Não podia nunca parar de pensar.


E mesmo que suas emoções gritassem para que ele perdesse o ritmo controlado da respiração na corrida e os compassados movimentos para alcançar o monte mais rapidamente, ele não o faria. Nem mesmo por Keiko.


Lentamente, ele começou a alcançar as cinzas. Um correndo na direção do outro. Ainda assim, não permitia que seus sentidos tomassem conta, não perdia a concentração. Ao seu redor, os alpinistas gritavam para que voltasse enquanto corriam desesperados. Aquilo também o preocupava, tinha visto algumas dezenas apenas. O que teria acontecido aos outros?


Parou por um momento para tirar a camisa e amarrá-la como uma máscara ao rosto antes de adentrar na nuvem de cinzas e gases tóxicos. Estava tudo bem. Ele podia entrar e sair antes de ter que respirá-los. Uma pessoa normal podia prender a respiração por um, talvez dois minutos. No Havaí, seu treinamento em apneia lhe permitia ficar mais de dez.


Com os olhos fechados para evitar a entrada de cinzas, ele só podia se guiar pelos outros sentidos. “O batimento de Keiko, onde está o batimento de Keiko?”, ele pensava, desesperado, esperando que seu cérebro, por algum milagre, se concentrasse naquela batida fraca. Naquele ritmo único.


As coisas ao redor enlouqueciam em uma mistura de sons. Fugas desesperadas, pessoas morrendo asfixiadas, mas Keiko… Keiko era diferente. Era uma mulher forte, apesar da idade, determinada, afiada. Ela não podia morrer ali, era só um vulcão.


Então ele se lembrou do que ela havia dito sobre lares e entendeu. Ela também era uma pessoa comum. E isso era o que acontecia quando pessoas comuns cruzavam o seu caminho. No meio das cinzas e da fumaça, ele percebeu que tinha se perdido procurando batimentos que nunca mais viriam. Dez minutos tinham se passado, era a sua vez de morrer.