— Se você sabe o que aconteceu no Elísio, sabe o que acontece com quem se alia ao Chaos. Não é tarde para reconsiderar a sua posição aqui. – Oliver argumentou, tentando se manter calmo, mas ele sabia como aquilo terminaria. Como sempre terminava.


— Eu não me importo em morrer. Você pode dizer o mesmo, Pensador? – Oliver sentia a raiva projetada na voz dele. Ele conhecia essa raiva. Helena falava de uma maneira parecida. – O único entre eles a usar uma máscara e um apelido bobo. Você quer me convencer de que luta por eles? – Ele apontou para os reféns. – Faça-me rir. Dia após dia sobrevivendo através dos outros como um parasita. Tudo o que te torna especial foi roubado de alguém e, no fim das contas, não vai fazer diferença alguma. Não contra nós.


Oliver suspirou, desejando que talvez, em outra situação, pudesse fazer as coisas de um jeito diferente. Que pudesse ajudar aquele jovem a ver as coisas como ele via e, talvez, apenas talvez, mostrar que a vontade dele não seria imposta por meia dúzia de balas. Especialmente quando ele podia desviar delas tão facilmente.


— Não esqueça do que combinamos. – Ele sussurrou para Molly ao seu lado antes de se voltar para o impostor. – Talvez você tenha razão, mas apontar armas de fogo para essas pessoas não faz de você um herói.


— Como eu disse, eles foram apenas a isca. – Ele ergueu os ombros com simplicidade, como se fosse tudo um grande jogo. Oliver lembrava de quando via as coisas assim, mas mesmo na época sua visão era melhor. Sempre tinha sido.


— Então você nunca os mataria? Nem os seus homens?


— É claro que não. – Retrucou, quase indignado.


— Bom saber. – Afirmou, movendo o braço para o lado e atirando na cabeça do primeiro dos guardas sem hesitar por um segundo. Era tudo que ele podia fazer. A única maneira de prevenir que eles não machucassem ninguém. Não ali. Nunca mais.


Enquanto ele ouvia quase que em uníssono os outros se surpreenderem e os reféns gritarem se perguntava como Arno lidaria com aquilo. Provavelmente atacaria todos de uma vez à distância. Eles nem saberiam o que os atingiu até ser tarde demais. Mas ele não era Arno. Não tinha tanta habilidade ou suavidade nos movimentos nem tinha sido abençoado com um bom poder.


Até os outros entenderem o que tinha acontecido levava pouco menos de um segundo. Para Oliver, aquilo era uma eternidade. Antes que eles pudessem reagir, ele já atirava no guarda seguinte. O falso Pensador tentou apontar sua arma para ele. Oliver seria capaz de rir, se fosse uma situação comum. Ele conseguia ver o nervosismo no olhar de quem nunca tinha atirado, quase pedindo para que alguém tirasse aquilo da sua mão.


Ele atirou em mais um antes que começassem a atirar de volta. Viu Molly e os outros se abaixarem. Não seriam atingidos. Ele não permitiria mesmo que os outros tentassem.


Em um segundo estava no ar e por mais que a falta de mobilidade provocada pelo excesso de equipamentos incomodasse, não era o suficiente para impedi-lo de derrubar mais um e pousar na frente do falso Pensador, tomando a arma da sua mão sem encontrar grande resistência e atirando nos dois restantes. Oliver removeu uma das granadas do colete que vestia e a arremessou pela janela de vidro, vendo-a explodir em pleno ar do lado de fora:


— Ops. – Falou para o impostor antes de se voltar para os reféns. – Saiam daqui!


Eles não esperaram duas vezes para obedecer, correndo aos montes, aterrorizados. Nada que alguns anos de terapia não resolvessem, como Oliver se consolava por fazê-los testemunhar aquilo. Um pedaço do mundo em que vivia. Molly olhou curiosa para ele uma última vez antes de se juntar aos outros.


— Eis suas verdadeiras cores! Se acha que pode me ameaç…


— Ah, cale a boca. – Oliver o levantou pelas roupas. – O que Chaos quer aqui? Por que Perth?


— Tem mais… mais de nós no prédio. – Falou com dificuldade, tentando respirar. – Tem certeza de que não quer se certificar de que nossos amigos do Salve Perth estão seguros?


— Eu acabei de explodir uma granada lá fora. Logo terá mais de todos e qualquer um nesse prédio. Eles estarão bem. – Oliver o largou no chão onde ele caiu sentado. – Não posso dizer o mesmo de você. Você causou toda essa confusão para essas pessoas em meu nome, e para quê? Para tentar me matar?


Ele riu: – Sempre um plano na frente, hah. Nada te abala, Pensador? Você acabou de matar alguns dos meus amigos. Pelo menos pisque. Não? Uma piscadinha? Haha.


— Por que você trabalha com Chaos?


— Porque ele entende o que deve ser feito. Ele sabe que a nossa única salvação é o surgimento de um Deus. Um Novo Deus. – Afirmou, com os olhos brilhando de convicção enquanto um frágil sorriso iluminava seu rosto.


— É, já ouvi isso antes. – Suspirou.


Antananarivo, Madagascar
1 de janeiro de 2009


— Isso estava nos planos? – Sandy perguntou ironicamente. A ironia era metade do trabalho. Ela podia sobreviver a qualquer coisa desde que fingisse que era natural. Fosse uma tarefa comum do dia-a-dia ou enfrentar um dos titãs praticamente imortais conhecidos como Vigias. O que estava diante deles era Chaos. Sandy odiava Chaos.


— Definitivamente não. – Eddie respondeu, com metade do rosto amassado com a marca de um punho. Doía bastante, mas ele apenas agradecia por ainda ter um rosto para ser amassado. A maioria das pessoas não teria a mesma sorte.


— Oh, pequenos cristais, aproximem-se. – O Vigia falou, com sua voz grave. Ele parecia tão humano quanto eles, mas não era. Tinha vivido mais tempo do que a maioria das pessoas era capaz de dizer. Ela própria sabia pouco sobre ele. Seus companheiros sabiam menos ainda.


Ela sabia que ele era praticamente imortal, embora existissem formas teorias sobre como matá-lo. Metade delas tinha falhado, a outra metade nunca tinha sido testada. Aquele não parecia ser um bom dia para testar uma delas. Sabia que, embora a manipulação fosse seu ponto forte, ele também era muito poderoso em combates físicos. Força, resistência, velocidade, Chaos era o produto perfeito, aprimorado através dos séculos.


— Ou eu devo dizer… — Zombou, sorrindo maliciosamente. — pequeno cristal? Já que, da última vez, você também não tinha transcendido a humanidade, pequena bruxinha. Ou seus limites.


“Não caia nas provocações dele. Não facilite as coisas para ele.”, pensou consigo mesma. Não estavam em uma boa posição. Agora Chaos sabia que estavam ali. Não estavam prontos nem de longe, mas se ela jogasse com cuidado, podia sair dali viva. Tinha Eddie ao seu lado. O homem do corpo maleável. Podia ser dobrado e amassado sem morrer. Fofo, mas inútil ali.


E ela? Ela não era uma neoser. Não fazia parte da raça mais próxima de Deus, ou o que quer que eles fossem. Não tinha um cristal charmoso e brilhante conectado a algum trono místico, divino e misterioso. Tudo ao mesmo tempo. Como Chaos fazia questão de lembrar, orgulhoso de si mesmo, ela era apenas humana.


Ela moveu as mãos e, em um brilho de luz, ele foi empurrado para trás. Não forte como ela gostaria, mas o suficiente. Não tinha escolha. Se quisesse sair viva dali, teria que lutar:


—Você está comigo? – Perguntou para Eddie com uma calma que não sugeria que aqueles poderiam ser seus últimos minutos de vida. Ele assentiu, o rosto enchendo de ar novamente, embora ainda estivesse vermelho onde Chaos o tinha socado.


Perth
Agora


— Lamento, garoto. Acabou. – Decretou, à distância já podia ouvir as sirenes policiais e os curiosos e preocupados se amontoando ao redor do prédio.


— Eu disse que eles eram iscas para trazê-lo aqui. – Explicou lentamente, ainda sorrindo. – Nunca disse que eu não era uma também.


Oliver se virou para a entrada do salão alarmado. Entre o tumulto de passos abaixo alguns tinham passado despercebidos. Os guardas restantes dos andares superiores também desciam para o salão. Ele estava cercado.


— Creio que não tivemos a honra, Pensador. – Uma figura se adiantou. Seus trajes eram claramente diferentes. O rosto era coberto por uma máscara que alternava expressões, ora zangada, ora sorridente, ora assustadora. A roupa, que cobria todo o corpo, era azul com detalhes dourados em relevo. As mãos eram cobertas por luvas especiais cuja função ele não conseguia decifrar. Ele não precisava de muito mais do que isso para perceber que estava lidando com o outro neoser. – Você pode me chamar de Jellyfish.


—“Jellyfish”? – Repetiu, tentando não rir enquanto se virava para o falso Pensador. – E eu tenho o apelido bobo aqui?


— Você é exatamente como dizem. – Confessou, em um tom desapontado. – Eu gostaria de medir forças, mas como pode ver… — Todos os soldados que eles tinham trazido estavam no salão agora enquanto Oliver e o seu imitador ocupavam o seu centro. – Isso não será necessário.


— Certo, Jellyfish. Você pode ter uma roupa mais legal, um poder bacana, um nome divertido e vários amigos com armas. Mas eu? – Ele fez uma pausa, se concentrando apenas na própria audição, aguardando pelo momento certo. – Eu tenho planos.


Foi quando cada um dos soldados largou a própria arma, incapazes até de se manter em pé. E ele soube que tinha virado o jogo.


Antes


— Tem um motivo para os celulares não funcionarem. – Ele falou para Molly, enquanto iam para o salão. – Um inibidor de sinal, um pequeno módulo. Duas antenas. Fácil de achar. Está no terceiro furgão preto da direita para a esquerda, do outro lado da rua. Quando conseguirem sair, eu preciso que você…


— Destrua ele?


— Não. Sintonize em outra frequência. Nessa. – E entregou um dos fones de ouvido que os guardas usavam. – Eles se comunicam através disso. 160 decibéis devem bastar para derrubar todos eles.


— Eu não sei se consigo. – Ela alertou, nervosa.


— Eu confio em você. – Afirmou, sem dar a ela uma chance de responder. Tinha que funcionar. Sua vida podia depender daquilo eventualmente. – Pronta?


Agora


Passando direto pela turba de guardas desorientados, ele subiu as escadas de emergência correndo, sem paciência para se livrar dos equipamentos pesados. Mesmo sem os fones conseguia ouvir a intensidade do som que estava sendo propagado, mas seu ouvido aguentava muito mais. Para lhe conceder os poderes, o cristal também tinha modificado sua fisiologia. Doía muito, é claro. Talvez seus ouvidos estivessem sangrando até, mas ele ainda estava de pé. Os outros não tinham a mesma sorte.


Tinha que alcançar as próprias roupas e voltar para os outros antes que alguém percebesse. Não tinha tempo para…


— Jellyfish! – Exclamou, desviando de uma voadora desferida pelo uniformizado. Aparentemente ele não estava usando fones como os outros. – Alguma chance de você me deixar ir? – Ele tentou socá-lo com aquelas luvas enormes. – Isso é um não? – Perguntou, enquanto desviava de mais aquele soco.


Jellyfish era ágil. Ele rapidamente de recompôs, tomando impulso com o pé em uma das paredes para tentar girar a própria perna na direção do rosto mascarado de Oliver, o que ele defendeu levantando o braço dobrado. O choque empurraria qualquer pessoa com pouco equilíbrio para o lado. Não era o seu caso.


Através dos anos, ele não tinha se especializado em nenhum estilo particular de luta. Todos levavam um tempo precioso que ele não possuía. Porém, seus fundamentos básicos aliados com os supersentidos o qualificavam como qualquer atleta respeitável. Tinha recebido sua cota de medalhas por isso quando era um estudante. Não era diferente agora, apenas sua vida estava em jogo.


Tentou acertar o oponente com uma sequência rápida que ele mal pôde começar quando seu primeiro soco foi detido por aquela luva pesada que agarrou seu punho fechado. Agarrando seu braço com a outra mão, Jellyfish tentou arremessá-lo no chão. Oliver girou o corpo na direção contrária, fazendo ambos se separarem. Não tinha tempo para aquilo. Definitivamente não tinha tempo.


Ele levantou os braços como um boxeador, precisava acabar com aquilo depressa. Podia descobrir quem eram e o que faziam com Chaos depois. Podia derrotar Jellyfish depois. Quando sua cabeça não estivesse nublada pelo cansaço e por um efeito sonoro irritante. Mas seu oponente não estava pronto para lhe dar aquela chance. Jellyfish foi para cima dele, o que o fez girar o corpo, ainda com os braços levantados. Podia desviar de uma bala antes que ela fosse disparada, um soco era mais fácil ainda.


De baixo para cima, seu punho acertou aquela estúpida máscara que trocava de expressão, fazendo o corpo azul e dourado do inimigo ser jogado para trás. Imediatamente ele correu na direção oposta, encontrando a virada do corredor onde tinha deixado as roupas. Jogou-as pela janela mais próxima onde, andares abaixo, se encontrava um contêiner de lixo.


Novamente Jellyfish tentou atingi-lo pelas costas. Oliver desviou, se afastando da janela. Não podia deixá-lo saber sobre as roupas. Se soubessem que ele estava na festa como outra pessoa, deduziriam facilmente sua identidade. E aquilo ele não podia permitir. Enquanto o inimigo estava precariamente equilibrado pelo chute fracassado, ele o chutou para longe.


— Você faz jus ao que dizem. Pelo visto é verdade que eu não posso derrotá-lo sem isso. – Jellyfish reconheceu, fazendo com que aberturas aparecessem em sua luva liberando um gás que pairava ao redor das mãos.


— Eu imagino que isso não seja gás do riso. – Oliver comentou, removendo o peso extra que carregava. Não precisava mais do disfarce, mas sim da velocidade. Não podia arriscar deixar aquilo tocá-lo.


Em resposta, a máscara se fixou na expressão sorridente quando Jellyfish avançou com aquelas mãos gasosas para cima dele. Oliver chutou o punho dele para cima, socando o lado do tronco azul de Jellyfish com a abertura dada e recuando quando a outra mão ameaçou tocá-lo. Mas algo estava estranho com ele quando recuou. Seu corpo não parecia tão firme quanto antes, mesmo sem o peso extra.


— O que houve? Se sentindo mais lento? – Jellyfish indagou, a expressão sorridente alterando com a de raiva enquanto ele tentava socá-lo com um cruzado. Oliver sabia desviar de cruzados. Sua mente traçava a rota e seu corpo, com o atraso de um milésimo, obedecia. Quando o golpe pegou de raspão no seu nariz ele percebeu que era mais do que um milésimo de atraso. – Mais fraco?


Ele cambaleou para trás. “Veneno”, percebeu, notando o tremor mínimo, mas incontrolável, nas suas mãos e pernas, e a névoa que parecia obscurecer todos os seus sentidos.


— As pessoas costumam dizer que, contra você, a respiração pode ser um ponto fraco. – Jellyfish afirmou, se aproximando lentamente dele. – Bem, contra mim também. – E investiu contra o Pensador no que poderia ser a última vez.