Heróis de Cristal - Cidade em Chamas
8 Conflitos
Oliver odiava escolher lados. Era algo impossível, mas as pessoas continuavam tentando fazê-lo aceitar aquela ideia. Nada de branco e preto, ele enxergava melhor do que as outras pessoas, então podia dizer quão cinza aquele mundo era. No final, ninguém estava inteiramente certo ou errado. Nem mesmo ele, mas, pelo menos, a sua neutralidade o permitia bater em todos. Não era a salvação do mundo, mas alguém precisava tentar.
Infelizmente, para a sua linha de trabalho, ele não conseguia deixar de se entristecer ao ter que buscar informações. Mafiosos não ofereciam café ou biscoitos, traficantes muito menos. E Perth, por alguma razão, estava cheia deles. Era o quinto grupo criminoso que ele encontrava naquela noite. Não tinha conseguido conversar muito com os outros, pois estava tentando não morrer, o que se mostrava uma tarefa difícil quando não se tinha uma habilidade destrutiva.
Ele nem podia animar festas se a sua carreira de espancador de mafiosos não fosse bem. “O que você consegue fazer, senhor Young?”; “Eu consigo ouvir um esquilo mordendo uma noz a quinhentos metros daqui”; “Obrigado pela participação, acho que vamos escolher o cara da telecinese tátil”. E assim a vida seguia.
O restaurante em que estava era agradável. Ele servia Fortress Stilt Fisherman Indulgence, um prato que ele adorava desde o Sri Lanka e que envolvia chocolate e creme irlandês. Também devia servir como um ótimo meio de lavar dinheiro, mas era uma preocupação desnecessária para o momento. Tudo o que ele queria era saber sobre o Chaos.
– Não que eu tenha inveja do Arno, sabe? – Ele comentou para um russo que corria em sua direção com um pedaço de madeira, arrancado de uma cadeira, gritando “morra!”. – Mas eu queria algo um pouco mais bacana.
Com a lateral da mão aberta, deu um tapa no pulso do russo, que derrubou a perna da cadeira. Nas suas costas, teve tempo o suficiente para ouvir a calibre 22 sendo retirada de um bolso. Arminha difícil. Pequena, leve, virtualmente imperceptível até ser tarde demais. A menos que você tivesse poderes específicos para aquilo.
– E sempre tem tiros. – Reclamou, pulando para cima e para trás. O segredo para ser mais rápido não era ser mais rápido, era pensar mais rápido. Ninguém era mais rápido do que as balas, mas se você percebia o perigo, podia reagir a ele. Ele desviava das balas antes que elas fossem disparadas. – Sabe quantas pessoas tentaram atirar em mim hoje, Vladimir? – Perguntou, segurando o atirador pelas roupas e empurrando-o contra a parede mais próxima. Mais dois se aproximavam. Não, três. Errar as contas era um sinal desagradável. Estava cansado, muito cansado.
Oliver empurrou a mesa redonda de madeira que os separava na direção dos dois. O murmúrio da vizinhança crescia enquanto luzes se acendiam nos prédios ao redor. “Obrigado por atirar, seu idiota.”, ele pensou. Pelo menos estava usando máscara. Uma máscara preta com buraco apenas nos olhos que o fazia se sentir mais criminoso do que aqueles homens.
– Certo, estou sem tempo. – Se virou para o homem que tinha chamado de Vladimir novamente quando ele tentou atirar novamente, se perguntando por quê não o tinha desarmado ainda. Uma arma na mão de alguém competente era uma coisa, na mão de um idiota era um perigo. Para os outros. – Quero saber sobre um cara chamado Chaos. Eu sei que você o conhece.
Mas era sempre a mesma coisa. Eles só o olhavam com os olhos arregalados, e ele não sabia dizer se era por terem enfrentado um homem que desviava de balas ou se tinham mais medo do nome “Chaos” do que qualquer outra coisa. Oliver definitivamente tinha.
– Nada? – Ele não pôde esconder o desapontamento na voz. – Sumam dessa cidade. Ou eu faço a cidade sumir com vocês.
E saiu, torcendo para que aquilo fosse ameaçador o suficiente. Ele sabia que não era, mas estava cansado o bastante para retrucar. Estava procurando por alguém que nem Moore tinha conseguido encontrar. Nem procurando, na verdade. Não era útil o suficiente para aquilo. Basicamente, alguém tinha tido uma ideia genial: “Sabe aquele cara que estraga sempre as coisas?”; “O David?”; “Não, o outro, o dos sentidos apurados. Enviem ele para piorar as coisas, vai ser interessante.”
Ele queria fingir que aquele tipo de coisa não o deixava bravo, mas deixava. Com seus poderes, podia passar o dia batendo em humanos. Seus poderes e treinamento lhe davam uma tremenda vantagem. Contra outro neoser, ele voltava a ser um completo inútil. E a cada dia que era lembrado, direta ou indiretamente disso, sua raiva fervia.
Tinha deixado a janela do próprio quarto destrancada, torcendo para que a coisa mais perigosa a entrar lá fosse uma daquelas aranhas australianas gigantes. Sem se concentrar em qualquer outra coisa, caiu na cama removendo apenas aquela incômoda máscara antes de se entregar aos sonhos.
Sobre o Oceano Índico
Janeiro de 2009
Ninguém explicava nada. Ninguém se incomodava em lhe dizer qualquer coisa sobre aquilo. Na verdade, ninguém se incomodava sequer em questionar a sua presença ali. Nenhum “por que tem um novato inútil aqui?”. Nada. A única coisa que preenchia aquela viagem para o desconhecido, ou, no seu caso, para a morte certa, era o silêncio.
O que também incomodava porque o silêncio não era silêncio. Ele ainda podia ouvir formigas caminhando pelo tapete que forrava o corredor dos passageiros. As respirações. Os controles da aeronave. Seu próprio estômago. Não tinha um serviço de bordo decente ali. Nem barrinhas de chocolate tinham sido oferecidas. Aparentemente, os membros de Pandora salvavam o mundo de barriga vazia.
“Você luta com indianos bravos todos os dias, você pode conversar com essas pessoas. Coletando informações, coletando informações.”, ele repetiu baixinho para si mesmo, até se convencer de que aquilo era verdade. Decidido, se levantou e foi até um dos assentos na frente de Arno, já que o rapaz de cabelo cinza já ocupava o lugar ao lado dele.
Em vez de se sentar, se ajoelhou no assento, ficando de frente para Arno: — Psiu.
– Precisa de alguma coisa? – Ele perguntou, levantando o chapéu para vê-lo melhor. Oliver ouviu rostos se virando em sua direção, mas tentou ignorá-los.
– Madagascar tem animais, certo? – Arno levantou uma sobrancelha em resposta. – Tipo, eu sei que tem animais em todos os lugares, mas eu assisti ao desenho. Tem um leão lá, Alex é o nome dele. E também tem a zebra Marty. Eu adorava a zebra Marty.
Arno abriu a boca para responder, mas pensou melhor. Um canto do seu lábio se dobrou para cima: — Você quer saber se os animais falam em Madagascar?
– Não. – Ele respondeu brevemente, em tom cortante. – Mas já que você tocou no assunto, eles falam?
O rapaz de cabelo cinza riu. Arno deu um leve sorriso e respondeu de forma calma: — Eu não acho que eles falem. Mais alguma coisa?
– O que é um vigia? – Dessa vez, não só as cabeças se viraram em sua direção como ele sentiu as respirações diminuírem levemente. Uma reação comum. Susto. Espanto. Ele reconhecia. Arno, no entanto, continuou calmo.
– Alguém que vigia.
– Isso responde outra pergunta. Você sabe o que eu perguntei. – Reclamou. Por que ninguém queria falar sobre isso? – Ele é tipo um segurança ou…?
– Você tá falando sério, cara? – O homem chamado Eddie se levantou. – Você acha que isso aqui é brincadeira?
– Eddie… — Arno tentou advertir, mas o outro não ouviu.
– Você acha que isso é hora pra tirar sarro? – Eddie perguntou, estava muito próximo dele. Era muito alto. E forte. Os ombros dele eram tão largos que a palavra “armário” no dicionário provavelmente era seguida de sua foto.
– Eu só tava fazendo uma pergunta. – Ele esclareceu, já avaliando como se sairia contra ele. Provavelmente muito mal. Nem sabia o que esse Eddie conseguia fazer. Mas Arno não o deixaria apanhar até a morte, certo? Certo?
– Quem te colocou nesse avião? – Eddie continuava exibindo toda aquela altura, e o fato dele estar em pé e Oliver ajoelhado na cadeira não ajudava a diminuir a diferença.
– Cara! Eu só tava fazendo uma pergunta! – Ele retrucou. Se aquele cara estava tentando ameaçá-lo, estava tendo sucesso. Oliver se sentia muito ameaçado ali. – Desculpa se isso te chateou. Eu não quero me meter em briga, tá?
Ele se virou para Arno: — Quem é esse cara?
– Ele tá aqui pela Moore. É só o que você precisa saber. – Arno respondeu de uma maneira que não se precisava de sentidos apurados para notar o desconforto.
Thalia entrou ali. Se ele não soubesse da força aumentada dela, imaginaria que o poder do cristal que ela possuía envolvia “encontrar confusão em aviões”. Ela nem teve tempo de entender a situação antes de Eddie apontar o dedo para ela. Quando ele esticou o braço, Oliver se perguntou se aquele braço era mais grosso que seu próprio tronco.
– Você! Você sabia desse cara? – Ele vociferou, apontando dela para Oliver.
– O que eu não sei? – Ela ironizou, enquanto tentava entender a situação. – Você tem algum problema com ele?
– Ou ele é um babaca ou é um ignorante. E eu quero saber porque vocês colocaram qualquer um desses dois nesse avião.
– Vocês podem parar de falar como se “ele” não estivesse aqui? – Oliver comentou baixinho. Não baixinho o suficiente para Eddie não ouvir. Ele viu e ouviu cada movimento que se seguiu, mas não conseguiu fazer nada a não ser se permitir ser atirado contra a parede enquanto Eddie segurava a sua camisa.
A sensação era, literalmente, esmagadora. Por sorte, ele tinha passado muito tempo aprendendo truques sujos nas ruas de Agra. Com as mãos fechadas, socou os ouvidos de Eddie antes que qualquer outra coisa acontecesse. Pensava mais rápido que qualquer um ali. Era hora de usar. Pena que não adiantou muita coisa. O rosto do grandalhão apenas se achatou um pouco onde ele tinha socado, antes de voltar ao normal, como uma garrafa de politereftalato de etileno.
Thalia o puxou pela camisa para longe de Oliver com apenas uma mão. O que tinha sido aquilo?
Agora
– Oliver? – As batidas na porta eram como um pequeno terremoto em sua cabeça. Especialmente quando ele tinha dormido apenas durante duas horas. Pelo menos, segundo o relógio em seu quarto que indicava 6:00 AM. – Você prometeu sair comigo essa tarde, lembra?
“Lembro”, pensou consigo, “espera aí… tarde?”. Ele esfregou os olhos antes de olhar novamente para o seu relógio. “Eu consigo enxergar a placa de um carro em alta velocidade a mil e quinhentos metros, mas não consigo enxergar um P.”
– Não podemos deixar para outro dia? – Perguntou sem sair da cama. Seu corpo doía. – Eu preciso… — “Encontrar o cara mais perigoso de Perth e talvez do mundo sem morrer.” — visitar uns amigos.
Por algum tempo, só houve silêncio do outro lado da porta até Lilian responder: — Claro. Não tem problema. Aproveite.
“Seja um babaca, Oliver. Diga que é para proteger todos eles. Eu estou virando uma versão esquisita da Jennifer.”, ele pensou, colocando o travesseiro em cima da cabeça e desejando, sem sucesso, que o mundo sumisse.
Quando finalmente reuniu coragem o suficiente para se levantar, escolheu uma roupa normal diferente das que tinha usado na noite anterior. Não precisava de disfarce para onde ia. A abordagem violenta tinha falhado, ele só precisava tentar manobrar de um jeito diferente. Aquilo ia contra as ordens de fazer bagunça, mas ele tinha certeza de que, de uma forma ou de outra, ia bagunçar tudo mesmo. Não precisava necessariamente tentar.
Quando desceu as escadas, viu sua mãe sentada em uma das poltronas da sala. Ele avisou brevemente que já estava saindo e foi para a porta quando ela perguntou:
– Você gosta de mim, Oliver?
Ele parou. Tinha superaudição, não tinha o luxo de entender nada errado. Lentamente se virou para onde ela estava, esperando que ela estivesse sorrindo, como em uma brincadeira. Não estava.
– É lógico que eu gosto de você. Você é a minha mãe! – Exclamou. Para ele, era uma pergunta tão óbvia quanto dois mais dois.
– Não como a sua mãe. Como uma pessoa. – Ele sentia a insegurança transbordando de cada palavra. – Você gosta de mim como pessoa?
Ele se aproximou dela, se ajoelhando no chão para que ficassem na mesma altura.
– O que está acontecendo?
– Eu me sinto presa aqui. Eu sei que essa não é a vida que você queria. Não é a vida que nenhum de nós dois queríamos.
– Mãe. – Ele passou a mão pelo rosto dela, removendo uma lágrima. – Não tem uma pessoa nesse mundo mais importante para mim do que você, nem outro lugar onde eu queira estar.
– Mas você foi embora. Fugiu de nós por anos. – Ela se queixou, abaixando a cabeça.
– Eu não podia ser quem vocês queriam que eu fosse. Eu não gosto de ter empregados ou reuniões de cúpula da NexTree. Eu gosto de abrir a minha porta, de atender o meu telefone, de lavar meus pratos. – Ele tocou o queixo dela, fazendo-a olhá-lo nos olhos enquanto sorria. – Sempre fui a ovelha negra da família, não é isso que te incomoda.
Lilian tentou rir, mas começou a chorar. Oliver a abraçou.
– Eu sinto tanto a falta dele, Oliver. – Ela confessou, em um sussurro.
“Eu também”, ele admitiu internamente.
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