Herói Anônimo
32 Interrogatório
Capítulo 32
*Narrativa*
A noite parecia durar para sempre, a proximidade com o riacho criava uma leve névoa no chão, deixando tudo um pouco mais frio. O fraco fogo do que outrora havia sido uma bela fogueira já não era o suficiente para esquentar o trio de semideuses, mas Ernest continuava dormindo pesadamente.
— Você sabe que ele não se cortou com a faca né? – Annabeth comentou com a amiga.
— Eu sei – A morena olhou para o céu, entre a copa das árvores – Ele é tapado as vezes, mas nunca deixaria as facas soltas na mochila.
— Deve ter se machucado durante a luta, mas não quer que nos preocupemos – A loira revirou os olhos – Ele e o Percy se parecem nesse ponto... Querem proteger todos sem preocupar ninguém...
— Pois é... – A filha de Apolo suspirou – Você devia dormir um pouco Annabeth, os tempos não tem sido dos melhores pra você, está um caco.
Ao contrário do que se esperava, a filha de Atena deu um sorrisinho e se afastou para dormir sem argumentar, deixando a morena sozinha com seus pensamentos enquanto esfregava a panturrilha direita que havia sido ferida.
“Quase boa” – Pensou a menina – “Talvez amanhã esteja curada”.
(...)
Uma coceira terrível. Essa era a melhor descrição do sentimento de Ernest ao acordar.
“Droga” – O rapaz praguejou mentalmente – “Achei que elas fossem me acordar pra vigiar, mas dormi a noite toda e as bandagens grudaram na carne”.
— Já acordou? – Annabeth mexia na mochila, buscando algo pra comer.
— S-sim – O jovem tentou se conter quanto à coceira, indo em direção ao rio – Só vou lavar o rosto e podemos planejar os próximos passos.
A água estava fria, o que foi ótimo para a coceira, mas o rapaz ainda precisou de sua força de vontade para não gritar quando puxou os fiapos grudados nos ferimentos para fazer a troca das bandagens.
— Muito bem, vamos usar a mesma estratégia hoje? – O rapaz tentou disfarçar o desconforto na mão, mantendo-a no bolso.
— Não – Peggy se adiantou, impedindo qualquer resposta de Annabeth – Vamos tentar rastrear um monstro. Assim podemos escolher o que vamos enfrentar.
A loira apenas assentiu, sem levantar-se.
— Muito bem, vamos arrumar as coisas e caçar alguma coisa – O jovem se abaixou pra pegar a mochila, dando um beijo na namorada enquanto juntava as coisas do chão.
(...)
O trio seguiu às margens do riacho, finalmente chegando à uma clareira, até que a filha de Atena apontou para a outra margem.
— Ali, estão vendo?
— Sim – O rapaz confirmou.
— Não – Peggy deu de ombros, seguindo os dois para perto de uma árvore do outro lado.
— A árvore tem uns cortes, o chão parece ter umas estrias – O jovem indicou com a mão direita.
*Comentários do registro*
— Ei, faz tempo que eu não falo nada por aqui! Sério, vocês não têm noção de quanto estava difícil achar um monstro pra interrogatório, quando nós precisamos ser perseguidos eles nunca aparecem. De qualquer modo, vou adiantar um pouco a história pra vocês: Seguimos os rastros até encontrar uma dracaena perdida por aí.
*Narrativa*
— Não venham pra cá até eu chamar, entenderam? – Ernest terminava de dar o último nó na corda que prendia a mulher-cobra.
— Por que não podemos ajudar? – Protestou Annabeth.
O jovem lhe dirigiu um olhar sombrio, causando arrepios na irmã.
— Vocês não vão querer ver isso, acredite.
Após se certificar que as duas não estavam conseguiriam acompanhar o interrogatório, o jovem pegou sua faca e perguntou pra dracaena:
— O que sabe sobre Percy Jackson?
— Nada.
— E sobre Jason Grace?
— Nada.
— Você não está ajudando.
— E nem quero, imundo.
O jovem suspirou e golpeou a ponta de uma das caudas do monstro com a faca, decepando-o e arrancando um grito agudo da mulher.
— Não estou pedindo sua ajuda, não minta, é melhor pra você.
— Cale-se!
A ponta do outro rabo foi arrancada.
— Pronta para colaborar? – A faca do rapaz já pingava com um líquido pegajoso verde que lembrava sangue.
— Uhm.
— Melhorou suas respostas, muito bom. O que sabe sobre um filho de Poseidon perdido?
— Nada.
O jovem percebeu um brilho diferente no olhar do monstro, então em vez de golpear de novo, arriscou:
— Prossiga.
— Não quero.
O jovem decepou o polegar direito do monstro.
— O próximo é o esquerdo. Prossiga.
— E-eu... Quem é você?
— Se não colaborar, seu carrasco. Eu faço as perguntas aqui.
— Certo, bem... Não sei nada sobre um semideus filho de Poseidon, mas existe um lugar que anda movimentado ultimamente, a região da Casa dos Lobos.
— Conte-me mais – O jovem sentiu um aperto ao se lembrar do desenho que estava em sua mochila – Onde fica e o que é essa Casa?
— Que tal me soltar pra conversarmos melhor?
O jovem revirou os olhos e fez um leve corte na altura da bochecha da mulher.
— Escute bem, se você quiser sair daqui logo, melhor colaborar. Estou dizendo isso agora pra não falar que não consegue me ouvir.
— O que quer dizer?
— Arrancarei sua orelha esquerda na próxima vez e darei uns golpes em cima. Colabore.
— Desculpe mestre, como eu ia dizendo, a Casa dos Lobos fica próxima à região de São Francisco, não sei dizer onde exatamente.
— Próxima ao Monte Otris... Isso não é legal – Murmurou o filho de Atena.
— Essa não deve ser sua preocupação, herói, lá é onde treinam e escolhem os romanos. Para um grego como você, entrar lá é sinônimo de guerra.
— Não se preocupe, posso me virar bem. Uma última pergunta antes de te libertar: O que sabe sobre as portas da morte?
A pergunta podia parecer ter vindo do nada, mas na verdade, o jovem só tinha uma certeza: A Grande Profecia estava acontecendo e, como estava na própria, existia relação com as portas da morte.
— Bom, eu sei que elas têm relação com Hades e Tanatos, mas não é uma informação que eu possa te dar com muita certeza.
— Entendo, obrigado pelos seus serviços, te libertarei agora – O rapaz andou até a parte de trás da árvore, como se fosse cortar as cordas, mas apenas puxou a espada e atravessou a árvore na altura do peito da dracaena— Adeus.
— Mentiroso!
— Eu disse libertar, não soltar. Estou te libertando de sofrer mais nesse momento. Até porque você nos atacaria assim que eu te soltasse, ou ao menos nos perseguiria.Com um último grunhido o jovem viu o monstro virar pó.(...)
— Bom, o que conseguiu lá? – Annabeth parecia ansiosa.
— Duas informações importantes: A primeira é que Percy pode estar na Casa dos Lobos, nas imediações de São Francisco. A segunda é que preciso falar com Nico, tenho umas perguntas pra ele.
— Nós vamos pra lá, não é? – Peggy parecia sentir a ansiedade da filha de Atena.
— Bom, mais ou menos – O rapaz se mexeu, como se estivesse incomodado.
— Como assim? – A loira parecia que iria esganar o irmão.
— Eu vou pra lá, vocês vão voltar pro acampamento.
— De jeito nenhum – As duas responderam em uníssono.
— Não é uma opção, é perigoso.
— Como se aquele voithós não tivesse sido! E enfrentamos ele juntos quando você congelou! – Peggy estava indignada.
O rapaz suspirou.
— Vou explicar de uma forma bem clara pra vocês, mas não me entendam mal: Lá é território romano, se um grego entrar lá é declaração de guerra, imaginem três.
A filha de Atena parecia querer argumentar, mas a lógica do rapaz fazia sentido.
— Tudo bem, mas por que você? Posso ir eu, Percy é meu namorado.
— Tenho um trunfo contra os romanos.
— Droga.
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