Herói Anônimo
2 Encontro
Notas iniciais
Capitulo 2
*Comentários do registro*
— Certo, vamos pular um certo espaço de tempo e explicar algumas coisas: Saturno (ou Cronos, como ele preferia) me sequestrou quando criança e me levou para algum esconderijo subterrâneo no norte dos EUA, até hoje não sei exatamente onde, mas deve ser um daqueles locais mágicos... De fato, foi a empousa que me sequestrou, mas como a ordem foi dele... Ok, entendeu o em si da história né?
— Após isso aconteceu uma coisa meio Tarzan, sabe? A empousa me criou na caverna, me treinou para sobreviver na floresta, aprendi a conviver com alguns monstros e matar os que tentavam me machucar, conseguia entender o que alguns falavam no idioma original... No fim, aprendi a sobreviver desde cedo no pior ambiente, mas esse não foi o maior problema que tive, o grande incomodo, se é que posso chamar assim, era a voz e os pesadelos com Saturno, ele aparecia, sempre de chamando de marionete, dizendo que eu era o primeiro experimento para a sua volta e blá-blá. Após uns 7 anos, nunca tenho muita certeza dessas datas, eu estava com 13 anos e fui levado pela empousa até um nível mais baixo da caverna durante a noite, uma sala circular com um altar de pedra escovada no centro e, em cima dele, um recipiente de barro com água muito escura. Com alguma pesquisa por acaso descobri que na Grécia antiga, durante os rituais mortuários, na casa do morto era colocado um recipiente com água para os vivos se purificarem durante os ritos, mas assim, aquilo que estava dentro do recipiente era tudo, menos água pura.
*Narrativa*
Estavam apenas a mulher com cabelos em chama e o garoto na sala circular, a pálida luz dos cabelos da empousa refletiam nas paredes, o que fazia Ernest estreitar os olhos para tentar definir melhor as coisas que enxergava.
— O que estamos fazendo aqui? – O garoto tentava não demonstrar preocupação, descobriu que manter as emoções ocultas era uma das melhores maneiras de escapar de alguns monstros – Tenho mais coisas a fazer, espero que seja breve.
Uma risada áspera percorreu todo o recinto, fazendo os pelos da nuca do garoto arrepiarem-se, levando a mão direita ao cabo da faca de bronze.
— Não vai precisar disso, querido – A empousa alertou-o, sem tirar os olhos do recipiente com água – Será rápido, acho.
O monstro com patas distintas começou a recitar algo próximo à um cântico em uma língua que Ernest não conseguia distinguir, algo mais antigo que o latim ou grego, belo, mas amedrontador. Por fim, a criatura que cantava virou-se, para o garoto e pegou seu braço direito, ao mesmo tempo que o ar se tornava denso e imobilizava o semi-deus, impedindo-o de ter qualquer reação. Em poucos minutos, o braço estava coberto com desenhos e escritas à base de sangue em grego, latim e outras palavra que ele nunca tinha visto, reconhecendo algumas como “alma”, “vida” e “entrada”, mas sem um contexto geral não parecia fazer sentido. Ainda imóvel, o menino foi carregado até o recipiente com água e teve o braço banhado, sentido uma dor excruciante, como se estivesse tomando um banho de ácido extremamente concentrado, porém, a pele não se lesionava e, tudo o que estava escrito, parecia se fixar no braço, como tatuagens negras.
— A água do Estige – Dizia a empousa alegremente – Nunca foi usada dessa forma, é o primeiro a testa-la, fique feliz meu filho.
Em pouco tempo, Ernest estava imóvel no chão, esperando a dor diminuir, com os olhos fechados, apenas ouvindo o som da água escoando e fervilhando no chão próximo a ele, a empousa iniciou um novo cântico, mas dessa vez o menino conseguiu identificar algumas palavras, parecia que estava chamando, não, convidando alguém a entrar no recinto. Em pouco tempo o ar tornou-se denso e Ernest sentiu o braço formigar, como se estivesse mergulhado em gelo há muito tempo. A dor sumiu, mas, algo não aprecia certo.
Com os olhos já abertos, percebendo que estava sozinho e encharcado de suor, o semi-deus subiu as escadas de volta ao esconderijo no qual vivia há anos, encontrando a empousa comendo algo que ele realmente não tinha o menor interesse de saber o que era, passou direto por ela sem dizer uma palavra e foi para o rio, fora do esconderijo, banhou-se e observou o braço direito: As escritas haviam desaparecido e não parecia ter ocorrido nenhum dano... Mas algo estava diferente, ele só não sabia dizer o que era. Após terminar o banho e vestir-se, sentou-se à margem do rio e revisou o que havia acontecido, tentava lembrar sobre o que sabia sobre o Estige, alguma história... Então como se uma luz estivesse sendo acesa em sua mente, um nome veio à tona: Aquiles, o heróis que foi banhado para ganhar a invencibilidade. Foi então que um eco soou na mente do garoto, como se raspassem metal em pedra, um som que ele ouvia frequentemente em seus sonhos e, assemelhava-se à risada que ouviu mais cedo na sala circular.
— Sim – A voz dizia em sua mente – Agora eu estou com você também, meu primeiro experimento.
Esnest estava estático diante do rio, os olhos arregalados, o tempo parecia fluir mais lentamente. Aquela voz ecoava em sua mente de forma mais horrível que nos seus pesadelos, era ainda pior ter aquilo dento de si.
— O que está acontecendo? — Ernest conseguiu sussurrar.
— Esse é o primeiro teste para meu retorno, agora só precisarei de mais um semi-deus, um que descenda diretamente dos deuses – Saturno parecia estar se divertindo – Claro que não serei tão generoso com meu novo corpo, tomarei o controle totalmente, afinal em você tenho apenas uma parte de minha alma, no próximo colocarei todo o resto e serei invencível... Agora, se me permite, deixarei que meus servos cuidem de você, entrará para as fileiras que irei preparar para a guerra.
*Comentários do registro*
— É, esse sou eu. Parece loucura, mas, como você acha que Cronos sabia que daria certo a estratégia de usar o corpo de Luke? Eu fui o protótipo, as tatuagens, ou seja lá o que fossem aqueles escritos eram para dar a liga ao mundo mortal e não permitir que eu me desfizesse ao toque da água do Estige. Após esse dia apenas fugi, larguei tudo naquela caverna, tinha minha faca de bronze e as roupas do corpo, mas precisava sobreviver e encontrar alguém para tirar aquele titã psicopata da minha cabeça... Corri por três anos quase, pulando de cidade me cidade, sobrevivendo até chegar em um ferro velho no meio de um deserto. É aqui que a história começa a ficar interessante.
*Narrativa*
Era noite e o frio do deserto, juntamente com o vento que carregava areia açoitava a pele de Ernest, agora já mais alto, forte, cansado e com umas cicatrizes a mais.
— Você devia ter se deixado morrer quando teve chance, agora vai morrer sozinho, dolorosamente no deserto – A voz de Saturno ecoava em sua mente.
— Cale-se, você é chato demais, se eu ainda não enlouqueci com você me atormentando, com certeza vou sobreviver para calar sua boca e ter um pouco de silêncio aí dentro – Retrucou o semi-deus.
A caminhada continuou até que, finalmente, o garoto avistou algo parecido com montanhas que se destacavam no céu estrelado do deserto, com um pouco de fumaça subindo aos céus perto delas, o que fez o garoto se animar: Fumaça quer dizer calor, talvez tivesse alguém com quem conversar e, convenhamos, era melhor que conversar com um titã chato pra caramba que tem alguns éons de idade. Esse pensamento fez com que apertasse o passo, logo alcançando as montanhas que eram, estranhamente, pilhas de carros amassados.
— Ok, não é o lugar mais atraente do mundo, mas talvez consiga dormir em um local menos frio – Dizendo isso olhou para suas roupas: Coturnos surrados de anos de uso, calça jeans meio desbotada, moletom fechado cinza por cima de uma camiseta de mangas curtas branca e uma mochila de acampamento com um saco de dormir amarrado em cima... Se não estivesse no meio do deserto, poderia se passar por um campista de longa data em qualquer floresta.
Ao se aproximar da fonte de fumaça, Ernest pode perceber que estava próximo de uma cidade abandonada, assim como estava próximo do ferro velho que havia identificado mais cedo, logo pode ouvir algumas vozes: Um papo sobre beber café, consertar a natureza e qualquer besteira do tipo, porém uma palavra chamou sua atenção...
“Pã” – Pensou o garoto – “Esse nome... Humanos não estão tão familiarizados para falar sobre ele em uma roda de fogueira... Semi-deuses? ” – A cautela tomou conta de Ernest, nunca tinha tido contato com outros semi-deuses, mas sabia sobre a guerra que corria por aí, sobre os planos de Saturno e sobre a resistência de heróis gregos... Alguns nomes circulavam por aí no mundo dos monstros, heróis procurados por atrapalharem os planos.
Silenciosamente, com uma distância de uns 10 metros dos cinco sacos de dormir que estavam em volta da fogueira, Ernest se abaixou e tateou até encontrar uma pedra, não podia ficar próximo para ser atacado sem possibilidade de reação, mas também não podia ficar longe sem se identificar. Após uns segundos de análise, atirou a pedra na fogueira, causando um pequeno estalo, o suficiente para alertar as pessoas que estavam ao redor da fogueira, duas garotas apontaram arcos armados para a direção onde se encontrava, outra estava empunhando uma lança e um garoto com uma espada de bronze em forma de folha já em posição de guarda também se ergueu. Na cabeça do semi-deus apenas um pensamento ocorria “Por favor esperem eu falar, por favor esperem eu falar, por favoooor”.
— Quem está aí? – Uma das garotas com arco bradou.
— Não atirem, não sou inimigo, estou viajando pelo deserto e preciso de um pouco de calor, irei embora logo, juro pelo Estige que não farei mal a nenhum de vocês – Gritou Ernest.
Os cinco se entreolharam, pareceram trocar algumas palavras em voz baixa, até que o garoto da espada de bronze fez sinal para que o viajante se aproximasse.
— Você é sortudo – Saturno parecia animado – Consegue ver o que eu consigo?
“Cale-se” – Pensou o hospedeiro do titã.
— Obrigado por me acolherem por um momento, viajo há três anos, as vezes é bom encontrar pessoas para conversar, ainda mais semi-deuses – A voz animada do garoto fez o grupo relaxar um pouco – Muito prazer – Estendeu a mão ao garoto de olhos verdes que carregava a espada de bronze – Ernest Jensen.
O garoto apertou sua mão – Percy Jackson, prazer – Os cumprimentos se seguiram e logo os nomes estavam gravados na mente do viajante: Jackson, Grace, Underwood, di Ângelo, Doce-Amarga... Parecia que esses nomes seriam úteis se pudesse mantê-los na lembrança. Logo mais estavam todos conversando sobre acontecimentos que Ernest julgou terem ocorrido mais cedo.
— Como vocês matou o zumbi? – Zoe Doce-Amarga olhava para Bianca di Ângelo.
— Zumbi? – As sobrancelhas do viajante se arquearam, dúvida e preocupação transpareciam em seu rosto.
— Isso – O homem-bode confirmou enquanto mastigava algo que parecia ser alumínio – De acordo com Percy regaram uns dentes – Ele estalou os dedos – E como mágica ele apareceram.
— Ahhh, boa estratégia, digna de mim – A voz de Saturno quase cantarolava na cabeça de Ernest – Eles estão perdidos.
Pela primeira vez o hospedeiro não ignorou a voz – Sabe do que eles estão falando?
Silêncio.
“Ótimo, bitch.” – Pensou o garoto – “Fala por três anos consecutivos e quando eu preciso de alguma resposta você fica quieto, genial”.
O semi-deus pensou um pouco e soltou uma suposição:
— Vocês disseram que eles não podem ser destruídos certo? – Os cinco acenaram afirmativamente com a cabeça – Talvez os donos possam para-los, talvez Tânatos ou Hades, sei lá... Tudo pode ser parado, de um jeito ou de outro.
— Hades e Tânatos estão fora da jogada, nem pensar vamos pedir ajuda à algum deles... – Percy começou a falar.
— Tudo bem ,tudo bem, foi só uma suposição – Ernest já cortou o sermão, já estava sentindo o peso do dia sobre si – Posso dormir aqui? Devo continuar a viajem amanhã cedinho.
Pareceu de acordo geral, logo Ernest apagou completamente, como se o próprio Hipnos tivesse se encarregado do seu sono. Dormiu sem sonhos dessa vez vez, não saberia dizer se os outros continuaram a conversar ou não.
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