Henriques
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Notas iniciais
Henriques deveriam lembrar domingos, mas lembram segundas-feiras.
Chuvosas e melancólicas segundas-feiras. O tipo de segunda-feira em que você acorda sem ânimo, com vontade de ficar mais tempo na cama, mas então tem o colégio — tão maçante quanto os Henriques — e a sua mãe acendendo a luz do quarto e dizendo para você se levantar logo se não quiser perder o ônibus.
Henriques lembram óculos de armação preta e lentes retangulares. Lembram linhas paralelas — perpendiculares doem no choque do encontro — e fórmulas matemáticas complexas demais, daquelas que te fazem abrir a boca, suspirar e então desistir da vida. Porque Henriques são complexos e retos, são alheios e fazem encontros doer.
Henriques são normais e comuns, amarrotados e encurvados. Henriques são franzinos o suficiente para se dar dois abraços de uma só vez.
Os Henriques são de uma beleza simplória, gasta por dores de cabeça, mas imaculada.
Henriques deveriam ser imponentes, e não lembrar uma impotência, uma falta de dizer "não" ardida. Henriques deveriam ser austeros, intocáveis de tão majestosos. Mas Henriques fazem reverências desnecessárias a quem não merece e negam-te sorrisos e a mão.
Henriques lembram folhas lisas de papel em branco e escritos concisos. E são como lenços de papel sem odor, bem dobrados e protegidos dentro da embalagem.
Henriques deveriam lembrar guarda-chuvas coloridos, mas por vezes são o cabo de metal frio, por vezes são os pingos de uma garoa irritante batendo na lona.
Henriques poderiam lembrar cachecóis de uma quente lã azul, se gostassem de se enrolar. Porém Henriques são diretos e certeiros, fazem rápido e profundo — os cortes no âmago.
Henriques são de uma precisão sufocante. Não podem nem são amantes.
Henriques agora me lembram desculpas formais e elegantes demais para o meu gosto. Lembram terno e gravata vermelha, pedidos de dança censurados e fotos de fim de festa. Lembram cartões impessoais e presentes caros — uma distância cheia de machucados. Lembram canetas de traço delicado e tinta preta — nanquim e bico de pena. Lembram exatas, cálculos e raciocínios lógicos. Lembram frustrações e café sem açúcar.
Henriques são como explicações tediosas e a necessidade gritante de um porquê em tudo. São almas cansadas, cheias de olheiras que não entendem os sentimentos por trás de arte nenhuma. São livros grossos, enciclopédias. Às vezes, são pedra.
Henriques são covardes, desconfiados e inseguros.
Henriques são um muro.
Ah, mas que injustiça a minha, comparar todos os Henriques do mundo a você.
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