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36 Capitulo trinta e cinco (Pedro)


Notas iniciais
Olá meus leitores! o/ Vocês ficarão assustados, mas eu tenho que falar: derramei algumas lágrimas escrevendo esse capítulo... Mas eu gostei muito do resultado final dele e espero que vocês gostem também! Enjoy! :)

– Vamos acordar Pedrinho! — disse minha mãe abrindo as cortinas.

Me enrolei mais no lençol, fazendo um enroladinho de Pedro.

Depois da experiência com a escola, peguei uma gripe e quase tive que ir ao hospital, mas consegui me recuperar. Porém ainda estava mole e cansado.

Minha mãe quase infartou quando eu dei o primeiro espirro. Minha imunidade era muito comprometida, então qualquer gripe poderia me levar ao hospital.

– Está com febre de novo filho? — perguntou minha mãe sentando ao meu lado e encostando a mão em minha testa.

– Estou bem mãe — falei ainda de olhos fechados — Só estou cansado.

– Certo, vou deixar você dormir mais um pouco então.

Me senti incrivelmente agradecido e me deixei cair nos braços do sono novamente.

Não sei quanto tempo a mais dormi, mas senti minha mãe me acordar novamente.

– Meu amor, o garoto Sarazate está aqui.

Abri os olhos e vi minha mãe sorrindo. Ela sempre ficava sorridente quando "o menino Sarazate" vinha. Caio era o queridinho da minha mãe e ela amava recebê-lo em casa.

– Teremos bolo de chocolate mais tarde?

Ela deu um risinho.

– Pare com isso Pedro! Vamos levante, não deixe o menino Sarazate esperando.

Ri e me levantei. Vesti uma bermuda e uma blusa do Homem de Ferro e saí do quarto.

(n/L: vai time Iron Man!)

Porém quando cheguei na sala, não era o menino Sarazate que eu esperava.

– Felipe?

– Oi — disse ele. Estava sentado com um copo de água na mão.

Vestia uma blusa um pouco suada, bermuda e tênis.

– Veio correndo?

– Resolvi correr um pouco e aproveitei pra fazer uma visita.

Sentei em frente à ele.

– Você é o segundo Sarazate que minha mãe conhece e o segundo que ela se apaixona.

Ele riu.

– O charme da família é irresistível.

– Como foi a pizza depois daquele dia?

– Então, foi por isso que eu vim aqui... o Caio comentou com a mamãe e eu ouvi por acaso, que você ficou doente. Acho que é minha culpa por ter lhe levado naquela escola.

Olhei em suas bilas azul-esverdeadas e sorri. Esse era um dos defeitos de Felipe: ele se culpava por coisas que, na maioria das vezes, não conseguia controlar. Como uma doença ou um acidente.

– Não foi sua culpa Felipe, está tudo bem. De verdade. E deu tudo certo!

– Você já está melhor?

– Sim.

Minha mãe apareceu com dois pratos de bolo de chocolate e dois copos de água.

– E não ouse ficar de piadinha pra cima de mim — alertou ela colocando o pires na minha frente.

– Sim senhora — falei rindo.

– Obrigada — disse Felipe sorrindo.

Depois que minha mãe saiu, olhei para o outro rindo.

– Vocês vão deixar minha mãe doida!

Ele gargalhou.

Então parou e estreitou os olhos para mim.

– Seu cabelo está bem grande Pedro...

– Eu sei — falei sorrindo — Minha mãe disse que estou parecendo meu primo Samuel com o cabelo grande.

– Você parou de fazer o tratamento então.

Soltei um riso inesperado.

– Você é muito inteligente.

– Gosto de pensar que sou perceptivo.

Dei de ombros.

– Parei sim.

– Sabe, o real motivo de eu ter percebido é que eu falei um pouco com sua mãe mais cedo. Ela quer que eu lhe convença de desistir da ideia de desistir da quimioterapia — então ele olhou para o teto com um sorriso ralo no rosto — Convencer a desistir de desistir, engraçado.

Ri de sua viagem.

– Certo. E o que você respondeu a ela?

Ele voltou a me olhar e deu de ombros.

– Disse que ia tentar por que achei que ela precisava disso, mas na real Pedro, eu quero te perguntar: por que você desistiu do tratamento?

– Por que é uma droga viver assim. Eu não aguento mais.

Ele acenou com a cabeça, sério.

– Estou curioso... você é menor de idade, como conseguiu fazer o médico aceitar sua decisão?

– Tive uma discussão com minha mãe e ela acabou aceitando com muita hesitação. Ainda espera me convencer do contrário.

Ele comprimiu os lábios, me encarando.

– Você disse que seu câncer já era inoperável, certo?

– Sim. E a quimioterapia não impediu que houvesse metástase. O médico disse que era um fenômeno muito raro.

Ele sorriu suavemente.

– Eu te apoio então.

Pisquei, sem acreditar.

– Você me apoia?

– Sim.

– Mesmo sabendo que eu vou morrer?

– Pedro, desculpe a sinceridade e o pessimismo, mas você tem câncer. Você vai morrer de qualquer jeito. Na verdade todos nós vamos, a diferença é que você vai mais cedo. E embora eu realmente não queira que isso aconteça, eu percebi que nos últimos dias você tem estado mais feliz. E se você está feliz com a sua decisão, mesmo sabendo que provavelmente vai morrer mais cedo por causa disso, então eu também estou feliz por você.

Fiquei boquiaberto. Caio não fez um estardalhaço como minha mãe ou Julia, mas não aceitou. Meus tios, Samuel... toda a minha família... ninguém aceitou. Felipe foi o primeiro a sorrir e dizer que apoiava minha decisão.

Senti as lágrimas em meus olhos. Só percebi o quanto estava magoado com toda aquela desaprovação quando a primeira pessoa fez o contrário e foi como se um peso gigantesco tivesse saído do meu peito e ido para meus olhos em forma de lágrimas.

E eu chorei como um bebê.

Felipe mudou de sofá e passou o braço por meus ombros. Me encostei completamente nele e deixei que ele me consolasse.

– Obrigado. Obrigado — era a única coisa que conseguia murmurar por entre lágrimas.

– Eu sei que você não está desistindo da vida, amigo. Eu sei que você só quer aproveitá-la ao máximo enquanto pode.

E era verdade. Felipe tinha entendido exatamente o que eu queria.

Me virei para olhá-lo e vi que ele também chorava. E então eu ri, fazendo-o rir também.

– Você é um bebê chorão!

– Olha quem fala!

– Obrigado Felipe. De verdade.

Ele acenou e sorriu.

– Você é meu melhor amigo, Pedro. Se o mundo te derruba, quem vai te levantar se não eu?

Acenei, entendendo completamente. Eu não tinha palavras para dizer naquele momento que estava à beira das lágrimas novamente.

– Obrigado.

– Vou estar sempre lá por você, Pedro.

Sorri, com plena consciência de que ele falava a verdade.