Help Insane
4 Encontro
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– Acorda seu vagabundo inútil! – senti algo macio, porém com força acertar minha cabeça.
– Me deixa dormir... – me remexi na cama, escondendo o rosto embaixo do travesseiro.
– Ok, se não vai alevantar por bem... – espiei por debaixo dos panos, ela não ia me tratar como criança, ia?
– Ah, fala sério!
Minha mãe começou a me puxar pelos tornozelos, me agarrei à cabeceira da cama. Isso me lembrou de um filme, aquele em que a mãe e a filha trocam de corpos ou algo assim, não me lembro do nome. Aliás, tenho uma memória horrível.
– Alevanta logo, preciso que me faça algo! – ela falou entre dentes, como quando se faz muita força e se quer conversar ao mesmo tempo.
– Pelo amor de Deus Pai Todo Poderoso, que horas são isso?! Me deixa dormir em paz mulher!
– Acorda seu inútil!
– Estou acordado demônio!
Minhas mãos escaparam das barras de ferro da cabeceira, senti meu corpo deslizar até a metade do colchão e ouvi minha mãe caindo no chão num estrondo alto. Engatinhei até a beirada da cama, fitando a mulher de cabelos castanhos escuros bagunçados e conjunto de moletom rosa. Ela estava esparramada no chão do quarto, os olhos emanavam fogo em minha direção.
– Hahaha! Bem feito. – estava sendo sarcástico, já que a risada não era de verdade. Uma mão na barriga, a outra apontando para ela, literalmente, como uma criança zombando da outra.
– Pare de ser irônico. – se alevantou limpando a roupa. – Preciso que vá até o vizinho pedir um pouco de sal.
– ...
– Que foi?
– Que houve com o sal?
– ...
– Você não se esqueceu do sal, esqueceu?
– A questão é que precisamos de sal, não há necessidade dos detalhes do por quê.
– Puta que pariu mulher, como que tu se esquece do maldito sal? Que tipo de dona de casa você é?
– Olha como fala com sua mãe menino! Estou mandando ir buscar sal, vai logo!
Olhei a hora em meu celular. Sete horas da manhã, ela só pode estar brincando comigo. Espera, que vizinho?
– Que vizinho?
– Mora um pouco acima da nossa casa. Não é muito longe.
– E por que diabos você não vai até a cidade comprar isso? Espera... – segundos de suspense- Até o vilarejo?
– Porque preciso terminar de arrumar a casa, limpar o porão e o sótão. – ok, piada fail. – Também preciso começar a limpar o jardim, ou melhor, você precisa. Além disso, eles têm um filho, ele, na verdade. Seria bom pra você se enturmar, não acha?
– Concordo plenamente sô. – falei no meu melhor caipirês.
– Oh, pelos céus Eric, tente ser um pouco mais amigável, tá bom? Pare de agir feito uma criança e alevante logo dessa cama.
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Depois de me lavar e escovar os dentes, eu desci até a cozinha, minha mãe preparava sanduiches para o café, grande surpresa. A especialidade da casa, sanduíches, aí vai a receita: Duas fatias de pão, quase sempre velhos, um pouco de manteiga, uma fatia de mortadela, uma de queijo e uma folha de alface. Tcharan, agora você é um especialista nível dez em culinária da família Grace.
– Olha, sanduíches. Tá ficando boa nisso ein mãe. Não sei nem pra que precisa do sal. – ela olhou para mim, suspirou. Fez um gesto estranho com a cabeça, que mais parecia um tic nervoso. Ergueu a mão e fez algum tipo de sinal de pare.
– Eu até poderia discutir com você, mas não vou estragar meu dia.
– Tá bom. – entrei na cozinha e peguei uma folha de alface.
– Tá aqui ainda por que menino? Não mandei ir buscar sal? – parei com a boca aberta e a alface a uns dez centímetros da boca.
– Que tipo de mãe você é? Quer que eu saia sem comer nada? Posso desmaiar por desidratação sabia? – fiz uma cara de chocado. Ela me matou com os olhos umas dez vezes nesses cinco segundos. – Que foi?
– Pra começo de conversa, desidratação é a falta de líquido não de alface.
– Alfaces possuem líquido sabia...?
– Eric Alexis Grace...
– Pensei que não quisesse discutir... – um puta de um suspiro. – Tá, tá. To indo, to indo.
– Espera. Você penteou esse cabelo?
– Passei a mão... – outro suspiro. Que isso? Estamos abrindo uma confeitaria e eu não sabia? – Tá, to indo.
– Tem uma bicicleta ali fora. Achei no porão, pode usar ela.
– Uma bicicleta velha achada no porão? Só me falta dizer que é vermelha... – ela me olhou. – Sério que é vermelha? Mas por que precisaria de uma? Quero dizer, você disse que era perto, então não acho que seja necessário...
– Você que sabe. – Tá, isso significa que eu vou precisar da bicicleta. – Aqui. – ela me atirou uma moeda.
– Pra que isso?
– Bem, são pessoas do interior, devem acreditar em superstições, quando lhe entregarem o sal, entregue a moeda.
– Que porra é essa?
– Acredita-se que pedir sal é sinal de má sorte, a pessoa pode ficar pobre, por isso deve-se pagar por ele.
– Are you fucking kidding me?
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Puta que pariu. Além da casa, que deveria ser perto, nunca aparecer, eu ainda tinha que fazer uma força descomunal para aquela geringonça enferrujada funcionar. Podia ver os fios castanhos grudarem em meu rosto devido ao suor. Parei a bicicleta no meio de uma subida, retirei o casaco musgo e amarrei na cintura. Voltei a pedalar.
Quando já estava pensando em voltar e dar início a minha própria produção de sal, avistei uma casa de madeira. Era grande, não tanto quanto a nossa, mas grande. Pude ver um garoto brincando com um pastor canadense, senti meus olhos virarem dois asteriscos quando vi aquele cão. Meu sonho de consumo ali, bem diante de mim. Não sei de onde veio tanta força, mas aquela bicicleta pareceu ganhar motor.
– Oi. – falei assim que cheguei ao portão do lugar. O garoto direcionou sua atenção a mim.
– Oi.
– Hãn... Eu me mudei recentemente para a casa abaixo da sua e...
– Ah, os vizinhos novos. – ele abriu um sorriso, meu Deus, estou ficando cego. Ele caminhou até mim. – Me chamo Leon, é um prazer conhecê-lo. – estendeu a mão em minha direção.
– Sou Eric. – apertei a mão dele, esse garoto é enorme. Tipo, enorme mesmo. Tem cabelos loiros e olhos azuis, bonito até, não que eu costume achar homens bonitos. Pera aí, eu já disse que ele é enorme? Sério, ele é enorme.
– Hãn... Poderia soltar minha mão? – Puta que pariu.
– D-Desculpe.
– Tudo bem. Mas então, o que te traz aqui? – Minhas pernas e a bicicleta amaldiçoada.
– Na verdade eu queria saber se vocês tinham um pouco de sal para emprestar...
– Sal? – ele me olhou como se eu fosse um alien, estava no direito dele.
– É, sal. Aquela coisa branca que a gente coloca na comida. Sabe? – fiz alguns gestos para ver se ajudava na comunicação.
– Hahaha, você é engraçado. – não colega, eu não estava tentando ser engraçado. – É claro que sei, é que é meio estranho alguém pedir isso.
– É, diga isso pra minha mãe. Ela acha que as pessoas podem sobreviver apenas com sanduíches. Acredito que tenha algo a ver com a década de 70, embora ela ainda fosse muito nova pra aderir à moda hippie. Vai ver é lavagem cerebral. Sei lá. – tenho que parar de pensar em voz alta. – Mas então, você tem?
– Tenho o quê? – um pônei cor de rosa chamado Steve. Também preciso parar com esse complexo com o Steve.
– Sal.
– Ah sim, venha.
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Puta que pariu. Acho que estou usando muito essa frase, vou começar a usar “caralho” ou então “cacete”, alguma coisa com C. Enfim, que tipo de pessoa tem uma coleção de armas na sala da casa? Só reparei que estava com a boca aberta quando comecei a senti-la ressecada.
– Coleção maneira...
– Você gostou? – sim, adoro estar na casa de um desconhecido de dois metros de altura que possui um arsenal. – São do meu pai, ele é fissurado nessas coisas. Caça desde os dez anos, então sabe muito sobre armamento.
– Legal. – tenho um vocabulário bem amplo. Santo Cristo, aquilo é uma bazooka? – Que arma é aquela?
– Qual? – Como qual?! Aquele canhão bem ali Jesus amado. Impressão minha ou ultimamente ando meio religioso?
– Aquela no topo... Perto da cabeça de veado... – veados, sempre se fodem, em todos os sentidos.
– Ah, é uma calibre 12. A espingarda preferida dele. A outra preferida é a Colt.
– Colt?
– Sim, mas não está aqui. É uma Colt Python.
– Hm... – Estamos falando na mesma língua? – E onde seu pai está?
– Foi até a cidade comprar algumas coisas, deve estar no bar do Lenny agora... Bem, a cozinha é por aqui.
Leon me entregou o sal, depois disso sentamos na varanda da casa dele. Pela aparência do Sol devia ser umas nove e meia da manhã, sempre gostei de adivinhar o horário através disso, desculpa aí se tenho hobbies estranhos. Fiquei brincando com Max, o pastor canadense, até me lembrar de que devia voltar logo ou nada de almoço.
– Bem, então vou indo.
– Tá, aparece aí qualquer hora.
– Tá. Ah, quase ia me esquecer. Aqui. – tirei a moeda do bolso e joguei para ele. Leon ficou me olhando, esperando uma explicação.
– Pra que isso?
– Bem, aparentemente você pode ficar pobre se eu não te pagar o sal.
– Como é?
– Como é o quê?
– Do que você tá falando?
– Sei lá, minha mãe que disse pra fazer isso.
– Pessoas da cidade têm costumes estranhos... – Sério? Não, sério mesmo que esse caipira tá tirando uma com a minha cara? –Ah, Eric... Eu e meu pai vamos caçar esse fim de semana... Se você quiser, pode ir com a gente...
– Ah, tá, claro. Vou ver com minha mãe. – isso nunca vai acontecer.
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– Quem dá ao cachorro o nome de Max?! Isso é tão... Tão...
– Do interior?
– É. To puto com isso.
– O cachorro é dele, ele dá o nome que ele quiser.
– Isso se aplica aos filhos também?
– Creio que sim.
– Vai me mandar calar a boca e sentar?
– Infelizmente eu não consegui adestrar você.
Ah, o sarcasmo, uma dádiva divina, porém uma face de dois gumes. Toma lá, dá cá. São nesses momentos que vejo como sou parecido com minha mãe.
– Depois de almoçarmos quero que comece a limpar o jardim.
– Que hora o almoço vai ficar pronto?
– Já está.
– O quê? Mas eu acabei de trazer o sal...
– Tcharan! – ah cara, ela não fez isso.
– Tá tirando uma comigo?
– Sanduíches, a especialidade da casa.
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