Hello
1 Capítulo 1
Notas iniciais
“O sino do parque da escola toca novamente,
E vêm novamente as nuvens de chuva ,
Ninguém te contou que ela não mais respira?
Olá, estou em sua mente,
Dando a você alguém com quem conversar.
Olá.”
Folhas secas percorrem os céus ao sabor do vento. Sem saber, caem no chão do parque da escola. Deitada sobre as folhas há uma menina, imóvel, permitindo que o calor deixe seu corpo para não mais voltar. Ao seu lado há uma outra criança, de pé, mas igualmente imóvel, a observar. A boina na cabeça, o cachecol, o grande casaco cobrindo seu vestido até os joelhos, indo de encontro às longas botas, e a pele quase sem cor mostravam o frio ali presente. A menina olhou um momento para o céu. Nuvens de chuva se aproximavam do local, cinza escuro, afastando o sol, esfriando o tempo. O vento frio circulava fazendo voar as folhas do chão, carregando consigo as primeiras frias gotas de chuva. Volta seus olhos para o corpo estendido, cujo rosto agora se enchia de gotas d’água, talvez lágrimas, pensou, se juntando a outras gotas de tom mais vermelho. Parecia não ser possível outra reação, outro comportamento, senão o de parar imóvel ao lado daquele corpo, sem um propósito aparente, se não o de simplesmente fazer companhia. Ao longe o sino toca, o sino da escola. Parecia marcar um momento, uma partida, algo incompreensível. Sente-lhe tocarem os ombros pouco depois e afastá-la do local. Como se não pudesse reagir, ela o permite sem hesitar, mas não tira os olhos da menina que agora tem outras pessoas ao seu redor, mas que não são percebidas pelos seus olhos. Somente ela é vista, cada vez mais longe até que uma grande porta de madeira se fecha atrás de si. Fechando seu mundo.
O chão da casa era de madeira, bem como as paredes, o teto, os móveis... Madeira escura. Pelas paredes se erguiam luzes que pouco iluminavam o grande salão silencioso e os corredores que dele partiam. Por um deles era possível chegar a um quarto ao final do corredor. De madeira, porém mais claro e menor que o resto da casa. Havia duas camas lado a lado forradas com lençóis claros. Perto de uma das camas, uma janela, de vidraça, onde uma menina vestida com uma camisola branca que cobria os braços e as pernas até o tornozelo ficava inerte. Sem reação, sem expressão, apenas sentava ali do lado e observava sem cessar um ponto fixo lá fora. Ela olhava o parque da escola, as folhas secas voando, as nuvens de chuva cobrindo o céu, as poças se formando e quem sabe, até ouvia o sino tocando. Mas ela via também algo mais: duas crianças, num carrossel, girando e rindo sem parar, numa felicidade infinita. Uma delas sabia ser ela mesma, a outra, a irmã, sua companheira por seis anos. Ninguém mais no parque, somente elas.
No meio do quarto surge uma garota, e se não estivesse tão absorta talvez tivesse notado que ela surgira simplesmente, e que suas feições, sua aparência eram em tudo igual à sua, com exceção da roupa: esta era idêntica à que vestia no parque. A mesma boina, o mesmo cachecol, vestido, botas. Mas ela não percebe, não nota qualquer movimento, qualquer diferença ao seu redor. Continua a observar pela janela, vivenciando a mesma cena seguidas vezes, o carrossel. A menina no meio do quarto a observa, e por um tempo, não age. Observa, respira, analisa. Pena. Tristeza. Por fim se aproxima. Seus passos não ecoam na casa silenciosa, sua presença não é sentida pela garota, nem mesmo agora que ela se encontrava tão perto, quase a tocando. Não precisava falar, bastava um sussurro. Palavras não são realmente necessárias para quem tem acesso direto à mente. A menina do cachecol aproxima-se do seu rosto, do seu ouvido, lhe diz com uma voz calma:
“Ninguém te contou? Ela não respira mais.”
Não encontra reação, ou quaisquer indícios de que a menina de branco sentada à janela tenha ouvido qualquer coisa, ou sequer percebido sua presença. Fechada. Totalmente fechada em seu mundo onde só existe o parque lá fora. Nada mais. A menina do cachecol olha pela janela, para o parque, mas não vê a cena, vê o carrossel parado, as folhas paradas, o sino parado... Volta a olhar para a menina de camisola ali do seu lado, tão perto que pode sentir sua respiração, única a realmente demonstrar movimento. Fecha os olhos, volta a tentar lhe falar, a trazê-la de volta:
“Olá, estou em sua mente, dando a você alguém com quem conversar. Olá?”
Sem resposta. Sem atitude. Sua mente não capta mais qualquer coisa externa ao seu mundo. A menina de cachecol continua a observar. Gostaria de ajudar e não consegue. Não consegue tirá-la do mundo de sonho no qual se fechou.
“Se não acredito no meu sorriso,
Logo sei que acordarei desse sonho.
Não tente me consertar, não tenho falhas.
Olá, sou a mentira vivendo por você,
Então pode se esconder.
Olá.”
Fechou-se completamente dentro de um sonho. Nele estava constantemente feliz com a menina que morara com ela seis anos naquela casa. Brincavam, conversavam, compartilhavam coisas e segredos. Não entendia porque agora só conseguia vê-la em sonho, mas se somente lá era possível vê-la então lá ela estaria. Como sempre estaria ao seu lado.
Impassível desde o início sem sair da janela, não percebe uma mulher entrar no seu quarto, não percebe nada. A menina ao seu lado vestida de negro se vira e percebe a mulher. Sorri. A mulher de cabelos presos e usando um vestido igualmente negro abaixa-se para a menina à sua frente, a única que é capaz de enxergar, e lhe pergunta se está tudo bem. “Está” é a resposta, acompanhada de um sorriso. Deixando uma bandeja com um copo de leite sobre a mesa, abraça a menina. A menina na janela parece por um momento mudar levemente de posição. A mulher sorri, fala que “vai ficar tudo bem, logo tudo seria superado” e se retira do quarto deixando-a novamente sozinha. A menina se volta para a outra de camisola. Continua triste, a olhar pela janela, mas percebe algo diferente. Volta a se aproximar, como sempre ao seu lado, como se falasse ao seu ouvido.
“Olá?” lhe pergunta. Por um momento não houve resposta. A menina de preto espera pacientemente. É possível que a tenha escutado. Bem distante a menina de branco escuta sua voz. Baixa, mansa, leve, lhe pedindo um contato de fora daquele mundo em que se via presa por vontade própria. Não podia, não queria sentir. “Não posso”, disse ela por fim “O seu mundo é um mundo estranho. E nele não entendo o que aconteceu. A pessoa que mais amo não se encontra nele. Se encontra aqui. Comigo. E embora saiba que seja apenas um sonho, sei que se não acreditar nele, nos risos que há nele, ele se esvai. Não volta mais. Então esta é a minha realidade. Não é real o que você vive”. Ela não via ou sentia a presença da menina de preto ao seu lado. Apenas a ouvia, distante e lento. Presa no olhar que mantinha fixo para o parque, como se disso dependesse sua própria existência. A menina de preto a olha nos olhos, mas estes não se desviam. Fala com segurança e carinho: “Não tente me consertar. Não é meu mundo que possui falhas. Você construiu para si um mundo de mentira e vive nele. Eu sou sua imagem exterior, criada para fugir do mundo real e fazer parecer que nada mudou. Que tudo continua do mesmo jeito. Sou uma mentira para o mundo, pois procuro passar uma imagem de concordância com a realidade que não é verdadeira, e para você, que não aceita que eu esteja no mundo real, que o sonho em que vive é a realidade perdida, que pensa ter resgatado. Sou a mentira personificada que continua a viver a vida por você, para que então você possa se esconder”. Do olhar fixo pela janela começam a surgir lágrimas dos olhos azuis. A menina de preto senta-se de frente para ela e lhe acaricia os cabelos, mas ela não o sente. Sentiu toda a tristeza ao tocá-la. Não fazia questão de ter que viver por ela, pensava que talvez fosse uma forma de protegê-la do mundo, de tudo o que sabia que ela precisaria enfrentar quando acordasse desse sonho. Precisava que estivesse preparada. Precisava que fosse forte pra isso. “Não chore”, dizia. Seus cabelos negros se ajeitavam ao toque da menina à sua frente, mas a menina em sua camisola branca apenas deixava as lágrimas caírem enquanto olhava para o parque, onde as mesmas cenas constantemente passavam em sua mente.
“De repente eu sei que não estou dormindo,
Ainda estou aqui, tudo o que restou de ontem.”
Tudo parecia girar na sua cabeça incessantemente. O parque, as folhas, a chuva, o sino, sua irmã. As palavras da menina de preto tentavam invadir sua mente, seu sonho, sua vida. Em um determinado momento, sua cabeça se desencosta do vidro pela primeira vez e olha para o parque como se tivesse visto algo novo. A menina de preto, no centro do quarto percebe o movimento e observa tudo. Chegara o momento.
A garota de branco olhava o parque com uma expressão de medo. Inadvertidamente as cenas que via incessantemente passar na sua frente começaram a mudar. O carrossel parou e a irmã que nele estava parou de sorrir. No momento seguinte ela estava no chão e novamente ela estava lá, ao lado dela, olhando o corpo e o céu, as nuvens, as gotas de chuva, o sino. E ao ouvir o sino, percebe o corpo da irmã desaparecendo e ela mesma. Da janela do quarto ela observa o cenário mudar: as folhas lentamente desapareceram, as nuvens se dissiparam, o sino parou. Apenas os pássaros agora voavam em meio ao parque que agora se movimentava lentamente, sozinho, pela força do vento. O sol iluminava agora a grama verde que surgia onde antes só havia folhas, água e sangue. Num lampejo de consciência ela volta seu olhar para o quarto. A cama ao lado não existia mais, havia apenas uma, no centro do quarto, onde a menina de preto surgira e onde não se encontrava mais. Procurou-a pelo quarto. Sabia que tinha existido, o sabia por que tinha ouvido sua voz. Mas ela não estava mais lá. Em cima da cama uma roupa: boina, cachecol, vestido, e no chão as botas. Olhou para si, num vestido branco. Precisava agora trocar de roupa, vestir o preto luto e encarar a realidade que surgia.
Voltou a olhar para o parque, para o quarto, entrou em desespero e tentou voltar a todo custo para onde estava. Apertou os olhos, voltou a sentar na janela e olhar para o parque. Mas ele não mais voltou. Deixou-se cair em prantos no chão escuro de madeira do seu quarto agora grande, silencioso, praticamente vazio. Não estivera dormindo. Estivera sonhando acordada, deixando a vida passar, dedicando-se inteiramente à irmã que agora sabia, tinha partido e ela não tinha ido com ela. Ainda estava aqui. Abalada, destruída, pela notícia que lhe chegara. Agora nada mais restava a não ser a realidade, as coisas que via, as pessoas que restaram, os sentimentos que ficaram. Tudo em pedaços. Tudo o que restou de ontem...
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